MACCHI, J.-D.; NIHAN, C. (eds.) The Ancestors of Genesis and the Exodus Traditions: A Festschrift for Thomas Römer. Berlin: De Gruyter, 2026, 726 p. – ISBN 9783111612560.
Os textos estão em inglês, francês e alemão. O livro está disponível para download gratuito, em pdf, na University Press Library Open.
Dizem os editores Jean-Daniel Macchi e Christophe Nihan* na Introdução do livro:
O presente volume reúne 35 contribuições em homenagem a Thomas Römer, escritas por colegas, alunos e amigos (…)
Thomas Römer estudou Teologia nas Universidades de Heidelberg e Tübingen [Alemanha], bem como Estudos Religiosos na École Pratique des Hautes Études, em Paris (…). Lecionou por vários anos na Faculdade de Teologia da Universidade de Genebra [Suíça] (…). Foi lá que concluiu seu doutorado sob a supervisão do Prof. Albert de Pury, tese publicada em 1990. Em 1993, foi nomeado Professor Titular da Faculdade de Teologia da Universidade de Lausanne [Suíça], cargo que ocupou até sua aposentadoria em 2020. Em 2008, foi nomeado Professor do Collège de France, em Paris, para a Cátedra “Milieux bibliques”. Em 2013, foi nomeado Professor Extraordinário da Universidade de Pretória [África do Sul]. Em 2019, foi eleito Administrador do Collège de France, cargo que ainda ocupa. Ao longo de sua carreira, Thomas Römer recebeu diversos prêmios e distinções, dos quais apenas alguns podem ser mencionados aqui. Em 2015, foi nomeado Doutor honoris causa pela Universidade de Tel Aviv [Israel]. Em 2016, foi eleito “Académicien” pela Académie des Inscriptions et Belles Lettres de Paris. Em 2019, foi nomeado “Chevalier de l’ordre de la Légion d’honneur” e, posteriormente (2023), “Commandeur de l’ordre des Arts et Lettres”, a mais alta distinção civil na França para alguém que trabalha na área das Humanidades.
Sua tese, publicada em 1990 [Israels Väter. Untersuchungen zur Väterthematik im Deuteronomium und in der deuteronomistischen Tradition], foi dedicada à menção dos “pais” no Livro de Deuteronômio e, de forma mais ampla, nos textos deuteronomistas da Bíblia Hebraica. Este estudo foi escrito no contexto da significativa renovação da discussão sobre a composição do Pentateuco que ocorreu na Europa desde a década de 1970, e para a qual a monografia de Thomas Römer representa uma contribuição substancial.
Essencialmente, Römer argumentou nesta obra que a menção dos “pais” em textos pertencentes à tradição deuteronomista não se refere aos Patriarcas do Gênesis (Abraão, Isaque e Jacó), mas sim à geração do Êxodo. Essa descoberta implica que existem pelo menos duas concepções distintas das origens de Israel no Pentateuco: a primeira destaca o papel dos Patriarcas na genealogia de Israel e suas reivindicações de herança da terra, enquanto a outra situa as origens de Israel no êxodo do Egito. Foi somente em um estágio posterior, quando as tradições que compõem o Pentateuco foram gradualmente reunidas, que essas duas concepções sobre as origens de Israel foram combinadas e parcialmente harmonizadas.
Em muitos aspectos, este estudo representou um marco na discussão sobre a composição do Pentateuco. Em particular, pôs fim a uma das últimas hipóteses importantes herdadas da Hipótese Documentária, a saber, a ideia de que a camada narrativa mais antiga, como a chamada “Javista”, já abrangia todo o Pentateuco ou Hexateuco. Se a combinação das tradições sobre os Patriarcas e o Êxodo é um desenvolvimento tardio, pós-Deuteronomista, então a criação de uma grande narrativa que se estende de Gênesis a Deuteronômio, ou mesmo de Gênesis a Josué, deve ser situada não no início, mas sim no fim do processo de composição.
Essa conclusão, por sua vez, abriu caminho para uma melhor compreensão do processo pelo qual tradições de diferentes origens foram reunidas para formar gradualmente o mosaico complexo que hoje se encontra no Pentateuco canônico. Simultaneamente, também abriu caminho para uma melhor compreensão da criatividade envolvida nos estágios finais da composição do Pentateuco. Os redatores tardios do Pentateuco não eram meros compiladores de fontes anteriores; eram escribas habilidosos (“autores”, se preferir usar esse termo) que buscavam conciliar tradições concorrentes sobre as origens de Israel.
Assim, a tese de Römer abriu muitas linhas de pesquisa que foram continuadas em estudos posteriores, especialmente (embora não exclusivamente) no contexto europeu.
Nos 35 anos que se seguiram à publicação de sua tese, Thomas Römer desenvolveu muitas outras áreas de pesquisa em sua vasta produção acadêmica (mais de 20 livros de sua autoria ou coautoria e 300 artigos e capítulos de livros). Contudo, a relação entre as origens de Israel e a produção da literatura israelita antiga, bem como o papel de múltiplas, e até mesmo contraditórias, representações dessas origens nesse processo, permaneceu como um fio condutor em suas publicações.
Aqui vamos sugerir que pelo menos cinco áreas principais de pesquisa podem ser identificadas nas publicações de Thomas Römer, todas relacionadas, de uma forma ou de outra, com essa preocupação geral com a representação das origens de Israel como um campo complexo, até mesmo contestado, dentro da Bíblia Hebraica e de outras literaturas judaicas antigas.
(1) A composição do Pentateuco permaneceu uma área privilegiada de pesquisa, à qual Thomas Römer dedicou inúmeros artigos e capítulos de livros, abordando uma ampla gama de tópicos. Estes incluem (mas não se limitam a): a composição das histórias sobre Abraão, Jacó e José; a formação das tradições do Êxodo; o Livro de Números como uma espécie de “ponte” entre Gênesis-Levítico e Deuteronômio; ou a alternativa entre Pentateuco e Hexateuco nas redações tardias da Torá. O denominador comum de todos esses estudos é a exploração de um modelo alternativo para a composição do Pentateuco, no qual tal composição resulta da conexão gradual de fontes ou composições literárias originalmente separadas, em vez de uma narrativa abrangente original.
(2) Thomas Römer também dedicou vários estudos aos deuteronomistas e seu papel na representação da história de Israel. Essa abordagem culminou, de certa forma, com a publicação, em 2005, de sua monografia A chamada história deuteronomista: Introdução sociológica, histórica e literária, na qual ele argumenta a favor de um modelo de três estágios na composição da narrativa de Deuteronômio a Reis, estendendo-se do final do período neoassírio até o período persa. Nesse contexto, também devem ser mencionados seus estudos sobre as redações deuteronomistas de Jeremias, nos quais ele aborda a espinhosa questão das semelhanças e diferenças entre as edições deuteronomistas de Jeremias e Reis.
(3) Além do Pentateuco e da História Deuteronomista, uma parte significativa da obra de Thomas Römer foi dedicada a questões relativas à religião do antigo Israel e às transformações do deus nacional, Iahweh. Diversas publicações tratam da persistência de elementos “politeístas” na religião do antigo Israel, enquanto outras abordam o surgimento do monoteísmo javista. É evidente que os dois aspectos estão intimamente interligados e, juntos, proporcionam uma visão abrangente das continuidades, bem como das descontinuidades, entre o antigo Israel e o judaísmo primitivo, a partir de uma perspectiva da história da religião.
(4) Intimamente relacionado com seu trabalho sobre o Pentateuco, mas sob uma perspectiva diferente, Thomas Römer também publicou diversos estudos sobre as tradições gregas a respeito de Moisés. Em particular, ele demonstra como essas tradições podem nos ajudar a redescobrir aspectos de Moisés que foram marginalizados na Bíblia Hebraica – como a representação de Moisés como guerreiro, por exemplo. Ele também argumenta nesses estudos que as tradições bíblicas sobre Moisés são melhor compreendidas como uma seleção, feita durante os períodos persa tardio e helenístico, dentro de uma tradição mosaica muito mais ampla.
(5) Por fim, as publicações de Thomas Römer na última década têm sido cada vez mais caracterizadas pela interação com arqueólogos, especialmente da escola de Tel Aviv. Em uma série de publicações, várias delas em coautoria com Israel Finkelstein, Römer explora as maneiras pelas quais os estudos bíblicos e a arqueologia podem colaborar para lançar nova luz sobre a história de Israel e a produção da literatura israelita, especialmente no contexto do período neoassírio e dos reinos de Samaria e Judá. Embora algumas dessas pesquisas também apontem para as dificuldades, às vezes até mesmo para os limites, de tal abordagem, não há dúvida de que uma colaboração renovada e intensificada entre esses dois campos abre novos caminhos para pesquisas futuras.
Como o título indica, o presente volume homenageia a rica contribuição acadêmica de Thomas Römer, concentrando-se no tema dos ancestrais de Israel em Gênesis e Êxodo.
Embora este tema esteja particularmente ligado ao trabalho de Römer sobre o Pentateuco, várias das contribuições aqui reunidas também se relacionam a outros aspectos de sua pesquisa, incluindo (mas não se limitando a) a história da religião de Israel, a relação entre a Bíblia Hebraica e a arqueologia, ou a História Deuteronomista e os Profetas.
Especificamente, o volume foi dividido em cinco partes:
A primeira parte, intitulada “Os ancestrais de Gênesis: Novas perspectivas sobre figuras antigas”, contém ensaios que tratam dos ancestrais de Israel no Livro de Gênesis.
A segunda parte, “As histórias sobre os ancestrais de Israel como fonte para a história e a religião de Israel”, compreende ensaios que abordam as tradições de Gênesis e Êxodo sob a perspectiva da arqueologia, da história e da história das religiões.
A terceira parte, “A conexão entre Gênesis e Êxodo na perspectiva da história da tradição e da crítica da redação”, discute várias questões relacionadas às continuidades e descontinuidades que podem ser observadas entre os dois primeiros livros da Bíblia Hebraica.
A quarta parte inclui ensaios que abordam “As origens, o contexto e o desenvolvimento das tradições do Êxodo” sob diversas perspectivas.
Finalmente, a quinta seção (“Os ancestrais de Israel fora do Gênesis”) explora os múltiplos aspectos da recepção dos ancestrais de Gênesis em outras partes da Bíblia Hebraica, especialmente nos Profetas Posteriores, nos Escritos e até no Alcorão.
(…)
* Jean-Daniel Macchi, Universidade de Genebra, Suíça. Christophe Nihan, Universidade de Münster, Alemanha.