Crise da Igreja Católica no Brasil?

Ou crise do mundo todo, inclusive das Igrejas? “A ordem neoliberal tornou-se uma usina de desordem global“, alerta Carta Maior.

Leia o texto, que foi publicado por Notícias: IHU On-Line em 17/10/2011.

Mais abaixo, parte do original italiano do site Vatican Insider, que traz o texto também em inglês e espanhol. O texto é assinado por Giacomo Galeazzi.

Alerta no Vaticano pela crise da Igreja no Brasil

Trinta anos atrás, mais de 90% dos brasileiros se definiam como católicos. Agora, o número caiu para 68%, o valor mais baixo desde 1872. O alerta foi acionado porque, no maior país católico do mundo (140 milhões de fiéis), cada vez mais pessoas rompem seus laços com Roma. Além da América do Sul como terra de esperança para o catolicismo mundial, os dados dizem outra coisa. De acordo com os dados divulgados pela Fundação Getúlio Vargas, na última década, por causa da secularização e do boom das seitas evangélicas, diminuem continuamente os católicos brasileiros, enquanto aumentam enormemente as dezenas de denominações evangélicas. Uma pesquisa realizada pelo principal instituto de pesquisa do Brasil com base em 200 mil entrevistas fotografa um progressivo afastamento da Igreja especialmente das novas gerações. E, significativamente, a Santa Sé escolheu justamente o Rio de Janeiro como a próxima sede para a Jornada Mundial da Juventude, para impulsionar a pastoral da juventude na América do Sul. Durante a última década, milhões de brasileiros deixaram a comunidade católica mais numerosa do planeta para entrar nas congregações pentecostais. O ano de 2010 foi o pior ano da Igreja Católica no Brasil. O número de jovens com menos de 20 anos que declaram não seguir nenhuma religião subiu três vezes mais rapidamente do que o de pessoas com mais de 50 anos. Cerca de 9% dos jovens brasileiros não têm nenhuma filiação religiosa. Uma tendência semelhante à dos abandonos da Igreja. A adesão ao catolicismo na população brasileira caiu para o seu nível mais baixo desde 1872: 68% em comparação aos 72,5% de 2003. A hemorragia de fiéis afeta principalmente a classe média. Ao mesmo tempo, os grupos pentecostais subiram para 12,8% da população. A secularização morde a participação religiosa, e a concorrência das seitas evangélicas está cada vez mais aguerrida. Roma tem que acertar as contas com uma difícil convivência entre a Igreja Católica e as chamadas seitas de matriz cristã (a maioria pentecostais) que reúnem cada vez mais prosélitos, especialmente entre as camadas mais baixas da população. Em maio de 2007, o primeiro encontro de Bento XVI com os jovens evidenciou as dificuldades pelas quais a Igreja Católica do Brasil atravessa: os organizadores esperavam 70 mil jovens (40 mil no estádio e 30 mil do lado de fora). Na realidade, os números foram certamente inferiores: no estádio, permaneceram diversos espaços e lugares vazios, enquanto do lado de fora os jovens eram poucos. Ao todo, portanto, os participantes foram 35 mil segundo os dados fornecidos pelos próprios organizadores: não muitos, se lembrarmos que São Paulo tem 11 milhões de habitantes. As Igrejas pentecostais estão atraindo um número cada vez mais crescente de fiéis arrancados da Igreja Católica (nos últimos 30 anos, o percentual dos católicos brasileiros do total da população diminuiu de 91,7% para 73,8% e agora para 65%, enquanto as Igrejas protestantes evangélicas aumentaram de 5,2% para 17,9%). Os cristãos de base atribuem a João Paulo II e ao seu guardião da ortodoxia, Joseph Ratzinger, o fato de terem “normalizado”, nos anos 1980 e 1990, o clero e o episcopado sul-americano e de os terem preenchido com o Opus Dei e os Legionários de Cristo, colocando à margem aqueles teólogos da libertação que haviam deslocado muito para a esquerda o centro de gravidade da Igreja, dialogando com aquele comunismo que, ao contrário, o Vaticano estava combatendo no Leste Europeu. E a atual e dramática hemorragia de fiéis em favor das seitas evangélicas também seria o fruto da marginalização dos padres mais estreitamente em contato com as camadas populares e com as massas das favelas. Ao mesmo tempo, a preocupação da Santa Sé se concentrou sobre a crise da disciplina eclesiástica, o crescimento das Igrejas evangélicas e da influência da teologia da libertação entre os jovens religiosos. Os documentos do WikiLeaks revelam que o Vaticano estava preocupado com a conduta dos sacerdotes brasileiros com relação ao celibato. E assim se reabre uma questão de extrema delicadeza para a Santa Sé, em particular por causa do espinhoso tema do clero brasileiro (e sul-americano) próximo da teologia da libertação e das tensões com Roma, das quais uma prova gritante é o “caso Recife”, ou seja, a controvérsia sobre o aborto da menina-mãe. Segundo os documentos revelados pelo Wikileaks…

Leia o texto completo.

O texto em italiano, no site Vatican Insider – que pertence ao jornal La Stampa, Itália -, foi publicado no dia 16/10/2011.

Allarme in Vaticano per la crisi della chiesa in Brasile

Trent’anni fa oltre il 90% dei brasiliani si definiva cattolico, adesso la soglia è scesa al 68%, il dato più basso dal 1872. L’allarme è scattato in perchè nel più grande paese cattolico del mondo (140 milioni di fedeli) sempre più persone recidono i legami con Roma. Altro che Sud-America terra di speranza per il cattolicesimo mondiale. I dati dicono altro. Secondo quelli resi noti dalla fondazione «Getulio Vargas», nell’ultimo decennio, a causa della secolarizzazione e del boom delle sette evangeliche, diminuiscono continuamente i cattolici brasiliani mentre aumentano a dismisura le decine di denominazioni evangeliche. Una ricerca condotta dal principale istituto di ricerca del Brasile sulla base di 200mila interviste fotografa un progressivo allontanamento dalla Chiesa soprattutto delle nuove generazioni. E significativamente la Santa Sede ha scelto proprio Rio de Janeiro come prossima sede della Gm, per rilanciare la pastorale giovanile in Sud America. Negli ultimi dieci anni, milioni di brasiliani hanno lasciato la comunità cattolica più numerosa del pianeta per entrare nelle congregazioni pentecostali. Il 2010 è stato l’anno nero della Chiesa cattolica in Brasile. Il numero di «under 20» che dichiarano di non seguire alcuna religione è salito tre volte più velocemente di quello delle persone con più di 50 anni. Il 9% dei giovani brasiliani è privo di appartenenza religiosa. Una tendenza simile a quella degli abbandoni della Chiesa. L’adesione al cattolicesimo nella popolazione brasiliana è scesa al più basso livello dal 1872: 68% rispetto al 72,5% del 2003. L’emorragia di credenti colpisce soprattutto la classe media. Contemporaneamente i gruppi pentecostali sono saliti al 12,8% della popolazione. La secolarizzazione morde la partecipazione religiosa e la concorrenza delle sette evangeliche è sempre più agguerrita. Roma si trova a dover fare i conti con una difficile convivenza tra la chiesa cattolica e le cosiddette sette di matrice cristiana (in maggioranza pentecostali) che raccolgono sempre più proseliti, soprattutto tra gli strati più bassi della popolazione. Nel maggio 2007 il primo incontro di Benedetto XVI con i giovani ha reso evidente le difficoltà che attraversa la chiesa cattolica del Brasile: gli organizzatori attendevano 70 mila giovani (40 mila nello stadio e 30 mila all’esterno). In realtà i numeri sono stati certamente inferiori: nello stadio sono rimasti diversi spazi e posti vuoti mentre fuori i giovani erano pochi. In tutto quindi i partecipanti sono stati 35 mila secondo i dati forniti dagli stessi organizzatori: non molti se si tiene presente che San Paolo conta 11 milioni di abitanti. Le Chiese pentecostali stanno attirando un numero sempre crescente di fedeli strappati alla Chiesa cattolica (negli ultimi trent’anni la percentuale dei cattolici brasiliani sul totale della popolazione è scesa dal 91,7% al 73,8% e ora al 65%, mentre le Chiese protestanti evangeliche solo salite dal 5,2 % al 17,9%). I cristiani di base attribuiscono a Giovanni Paolo II e al suo custode dell’ortodossia Joseph Ratzinger di aver «normalizzato» negli anni Ottanta e Novanta il clero e l’episcopato sudamericano e di averlo riempito di esponenti dell’Opus Dei e dei Legionari di Cristo, mettendo ai margini quei teologi della liberazioni che avevano spostato troppo a sinistra il baricentro della chiesa, dialogando con quel comunismo che invece il Vaticano stava combattendo nell’Europa dell’Est. E l’attuale, drammatica emorragia di fedeli a favore delle sette evangeliche sarebbe il frutto anche della marginalizzazione dei preti a più stretto contatto con i ceti popolari e con le masse delle favelas. Al tempo stesso la preoccupazione della Santa Sede è concentrata sulla crisi della disciplina ecclesiastica, la crescita delle Chiese evangeliche e l’influenza della teologia della liberazione tra i giovani religiosi. I documenti di Wikileaks svelano che il Vaticano era preoccupato per la condotta dei sacerdoti brasiliani sul celibato. E così si riapre una questione di estrema delicatezza per la Santa Sede, soprattutto in ragione dello spinoso tema del clero brasiliano (e sudamericano) vicini alla teologia della liberazione e delle tensioni con Roma di cui è una prova clamorosa il «caso Racife», cioè la controversia sull’aborto della madre-bambina. Secondo i documenti rivelati da Wikileaks…

Leia Mais:
Ecumenismo hoje: uma reflexão teoecológica
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A Teologia do Pluralismo Religioso e seus desafios
O pluralismo religioso é a democratização do campo religioso
Pluralismo Religioso: irrevogável e irredutível
Alguns livros e artigos sobre o Vaticano II

Resenhas na RBL – 06.10.2011

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

John Fitzgerald, Fika J. van Rensburg, and Herrie van Rooy, eds.
Animosity, the Bible, and Us: Some European, North American, and South African Perspectives
Reviewed by Roland Boer

John Gray
The Book of Job
Reviewed by Norman Habel

Robert J. V. Hiebert
“Translation Is Required”: The Septuagint in Retrospect and Prospect
Reviewed by Karen Jobes

Harald Knobloch
Die nachexilische Prophetentheorie des Jeremiabuches
Reviewed by Christl M. Maier

Daniel Marguerat
Reception of Paulinism in Acts: Reception du paulinisme dans les Actes des apotres
Reviewed by David Lincicum

Hindy Najman
Past Renewals: Interpretative Authority, Renewed Revelation and the Quest for Perfection in Jewish Antiquity
Reviewed by Marius Nel

Laura Nasrallah, Charalambos Bakirtzis, and Steven J. Friesen, eds.
From Roman to Early Christian Thessalonikē: Studies in Religion and Archaeology
Reviewed by Karl P. Donfried

Alvaro Pereira Delgado
De apostol a esclavo: El exemplum de Pablo en 1 Corintios 9
Reviewed by Panayotis Coutsoumpos

Zuleika Rodgers
A Wandering Galilean: Essays in Honour of Seán Freyne
Reviewed by Joshua Schwartz

David F. Watson
Honor among Christians: The Cultural Key to the Messianic Secret
Reviewed by Jonathan A. Draper

>> Visite: Review of Biblical Literature Blog

Morreu meu colega Mário José Filho

Morreu hoje de manhã, às 8h10, no Hospital São Francisco, em Ribeirão Preto, SP, meu colega padre Mário José Filho, CSS. A missa de exéquias será realizada às 16 horas, na paróquia Nossa Senhora de Fátima, na Rua Júlio Prestes, 523, Sumaré, em Ribeirão Preto.

Mário foi meu aluno na FTCR da PUC-Campinas na década de 80 e, posteriormente, meu colega no CEARP, onde lecionou Teologia Moral. Mário tinha apenas 56 anos de idade. Uma grande perda para todos nós.

Em seu Currículo Lattes, leio:
Possui graduação em Filosofia pelo Instituto de Filosofia Estigmatino (1980), graduação em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1980), graduação em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1988), mestrado em Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1992) e doutorado em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1998). Livre docente em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2007). Atualmente é professor adjunto da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Tem experiência na área de Serviço Social, com ênfase em Metodologia do Serviço Social Família Sociedade e Política Social, atuando principalmente nos seguintes temas: família, serviço social, trabalho, cidadania e educação.

Novo livro do Cássio: Cartilha de literatura sapiencial

Acaba de sair mais um livro de Cássio Murilo Dias da Silva. Desta vez em parceria com Rita de Cácia Ló, também ela biblista de Campinas. É uma introdução à literatura sapiencial.

DIAS DA SILVA, C.M.; LÓ, R. C. Caminho não muito suave – Cartilha de literatura sapiencial bíblica. Campinas: Alínea, 2011, 170 p. – ISBN 9788575165317

Diz a editora:
“Muitos leitores da Bíblia têm dificuldade para ler e compreender livros como Eclesiástico (Sirácida) e Sabedoria. Ou fazem uma leitura inadequada do livro de Jó. Estudar os livros sapienciais é um caminho não muito suave que abre novas perspectivas, mas muitas vezes traz consigo a crise de deixar velhas ideias e de questionar a própria visão de mundo. Este pequeno livro mostra por onde começar a leitura e o estudo da literatura sapiencial e lírica da Bíblia, e também ajuda a dar os primeiros passos. É, portanto, uma cartilha, com seis capítulos que abrirão horizontes para que o leitor comece a compreender os livros bíblicos e se sinta desafiado a tornar-se sábio. E tal busca é constantemente renovada, uma vez que o caminho para obter a sabedoria leva sempre a situações novas e provocadoras. Um caminho não muito suave, mas sem dúvida compensador”.

Sumário

:: Prefácio

:: Capítulo 1: Sabedoria e Literatura Sapiencial
1. Distinções
2. Linguagem da sabedoria
3. Sabedoria no Antigo Oriente Próximo
4. Sabedoria nos textos bíblicos
5. Teologia da Retribuição

:: Capítulo 2: A Teologia da Retribuição Funciona: Provérbios e Sirácida
1. Provérbios
2. Sirácida (Eclesiástico)

:: Capítulo 3: A Teologia da Retribuição Não Funciona: Jó e Qohélet
1. Jó
2. Qohélet (Eclesiastes)

:: Capítulo 4: A Teologia da Retribuição Funciona, Mas Só na Outra Vida: Sabedoria
1. Título
2. Data
3. Autor
4. Local de composição
5. Estrutura e mensagem
6. Conteúdo teológico
7. Para arrematar Sabedoria

:: Capítulo 5: O Livro dos Salmos
1. Título
2. Numeração
3. Livros do Saltério
4. Cronologia
5. Autoria
6. Outras informações nos títulos dos Salmos
7. Saltério, microcosmo simbólico
8. Gêneros literários do Saltério
9. Para arrematar os gêneros literários do Saltério

:: Capítulo 6: Cântico dos Cânticos
1. Título
2. Canonicidade
3. Data
4. Autor
5. Estrutura
6. Gêneros literários
7. Grandes correntes de interpretação
8. Conteúdo teológico
9. Para arrematar Cântico dos Cânticos

:: À Guisa de Conclusão – Literatura Sapiencial e Novo Testamento
1. Relações literárias
2. Relações teológicas

:: Palavra Final

:: Referência

Leia Mais:
Cássio Murilo Dias da Silva
Rita de Cácia Ló

Você sabe o que é “Occupy Wall Street”?

No Google está dando hoje mais de 11 milhões de ocorrências…

Ocupar Wall Street: o que todos querem saber sobre o movimento – Nathan Schneider – The Nation

É um coletivo de ativistas, sindicalistas, artistas, estudantes, que se reunira antes na campanha “New Yorkers Against Budget Cuts” [Novaiorquinos contra os cortes no orçamento]. Para muitos norte-americanos, essa ação direta não violenta é a única oportunidade que resta para que tenha alguma voz política. E isso tem de ser levado a sério pelos que ganham a vida na imprensa-empresa. Em artigo sob a forma de uma entrevista, ativista do movimento diz a que ele veio.

Leia o especial de Carta Maior, com vários artigos:

Ocupando Wall Street

O cerrado é mais uma vítima da sanha do mercado

“O cerrado é o veio natural da expansão sucroenergética no Brasil”. Entrevista especial com João Humberto Camelini

A crescente ocupação do cerrado brasileiro com cultura de cana-de-açúcar destinada à produção de etanol se explica por causa da proximidade do bioma com São Paulo, “de onde partem as ordens para coordenação da produção e de onde vem a tecnologia para montagem e manutenção das novas instalações”, esclarece o geógrafo João Humberto Camelini à IHU On-Line. Além de concentrar os principais grupos produtores de etanol, São Paulo é um “grande mercado consumidor e também nele encontram-se os principais portos, de onde o etanol pode ser direcionado ao mercado externo”.

Segundo o pesquisador, no ano passado, 172 usinas estavam instaladas no bioma, “número que vem crescendo continuamente”. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Camelini enfatiza que grandes empreendimentos geram diversos problemas econômicos, sociais e ambientais como “acidentes, poluição, prejuízos ao solo e à biodiversidade devido às queimadas, contaminação do ar e águas com pesticidas, etc. Isto resulta na sobrecarga de serviços públicos como a saúde, principalmente em pequenos municípios nos quais o aporte populacional sazonal dos cortadores de cana representa um aumento percentual considerável em relação ao número de habitantes. Há uma transferência de responsabilidades, já que diversos problemas resultantes da produção de etanol acabam sendo resolvidos com recursos públicos”.

João Humberto Camelini é mestre em Geografia com dissertação intitulada Regiões competitivas do etanol e vulnerabilidade territorial no Brasil: o caso emblemático de Quirinópolis, GO, apresentada no Instituto de Geociências – IG.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Há quanto tempo o Brasil investe na produção de etanol a partir da cana-de-açúcar plantada no cerrado brasileiro? Percebe uma expansão dessa cultura na região? Por quais motivos?

João Camelini – No início da década de 1990, a desregulamentação do setor sucroenergético fez com que o controle sobre a produção não fosse mais centralizado no Instituto do Açúcar e do Álcool, o que criou um cenário muito atraente para os investimentos privados nesta atividade, já que as corporações poderiam finalmente direcionar suas estratégias de acordo com os interesses do mercado. Nesta época, o parque de usinas de São Paulo já estava bastante adensado, o que deu início a um movimento um pouco mais intenso de ocupação do cerrado. Especificamente em relação ao etanol, não podemos esquecer que neste período o mercado interno estava totalmente enfraquecido devido ao fim do Proálcool. Então, seria necessário o surgimento de um fato novo que impulsionasse o setor. Bem, podemos identificar claramente que a adoção da tecnologia Flex Fuel a partir de 2003 foi um marco nesse sentido, visto que criou oportunidades para usineiros, montadoras e teve grande impacto de marketing sobre os consumidores. Como se isso não bastasse, o mercado externo passou a apresentar oportunidades mais concretas com a tendência à substituição parcial dos combustíveis por etanol em outros países. O conjunto destes fatores reforçou a necessidade de expansão do setor.

É facilmente perceptível que o cerrado vem sendo ocupado com maior intensidade que o restante do país. Isso vem ocorrendo por diversos motivos, entre os quais podemos destacar a proximidade com São Paulo, de onde partem as ordens para coordenação da produção e de onde vem a tecnologia para montagem e manutenção das novas instalações. Lá estão instaladas as matrizes dos principais grupos, além disso, em São Paulo há um grande mercado consumidor e também nele encontram-se os principais portos, de onde o etanol pode ser direcionado ao mercado externo. As outras regiões oferecem algum tipo de restrição mais importante, que representei por meio de um mapeamento em minha pesquisa. São questões relacionadas à disponibilidade hídrica, clima e/ou solo inadequados, predominância de topografia imprópria para mecanização, impedimentos legais associados a aspectos ambientais etc. O fato é que o cerrado é o veio natural da expansão sucroenergética no Brasil e que, do ponto de vista geográfico, a questão logística é central no entendimento deste direcionamento.

IHU On-Line – Quais são as empresas que investem no setor sucroenergético na região e quantas usinas existem no cerrado?

João Camelini – Ao cruzarmos a delimitação do cerrado fornecida pelo IBGE com as localizações das usinas no início de 2010, encontraremos 172 unidades instaladas, mas este número vem crescendo continuamente. Há diversos grupos que investem na construção de usinas no cerrado e, como disse, eles geralmente são controlados por matrizes no estado de São Paulo, que é o “cérebro” da expansão. Alguns exemplos são os grupos Cosan, USJ, São Martinho, Farias, ETH Bioenergia dentre outros. É importante frisar também que o capital estrangeiro compreendeu que o momento é oportuno para investir no etanol e por isso está atuando de maneira bastante agressiva, o que colabora para tornar o setor ainda mais oligopolizado. De qualquer forma, tanto os grupos nacionais quanto estrangeiros não têm comprometimento algum com os interesses da população, já que isso não é da natureza das corporações, é função do Estado.

IHU On-Line – Como as plantações de cana-de-açúcar e a produção de etanol estão modificando a geografia e as terras do cerrado brasileiro? A cana-de-açúcar é apropriada para o solo do cerrado?

João Camelini – Esta é uma pergunta bastante interessante. Em geral, as pessoas levam em consideração o desmatamento direto realizado para o plantio de cana, mas se esquecem do desmatamento indireto. Explico: quando uma usina se instala numa região, ela tem que obter matéria-prima dentro de um raio aproximado de 40 km a partir do centro de moagem, o que exige grande ocupação nas proximidades, resultando num “mar de cana” que estamos habituados a ver em São Paulo. Para isso ela age agressivamente na substituição de outras culturas, como a soja, que, por sua vez, tem que migrar para novas áreas, gerando desmatamento. Essa preferência pela substituição se deve à redução de custos no preparo da terra para o plantio. Se a soja, sustentada por investidores capitalizados, não tem condições de medir forças com a cana, imagine a situação em que se encontram os pequenos produtores. É por isso que, do ponto de vista geográfico, uma das questões mais preocupantes é a especialização regional produtiva. Não é saudável que haja tamanha dedicação a um único setor.

O solo do cerrado, no passado, foi considerado impróprio para uma série de culturas, mas com os recursos disponíveis atualmente é possível compensar as deficiências a custos aceitáveis. Com isso, pode-se afirmar que este fator econômico não restringe a atividade canavieira de forma significativa. Além disso, os centros de pesquisa trabalham continuamente para desenvolver variedades adaptadas às mais diferentes condições edafoclimáticas, diferentemente do passado, quando toda a pesquisa era voltada para as terras paulistas. Entre os grandes produtos agrícolas, além da cana-de-açúcar, há também o algodão e a soja, que tiveram excelente adaptação no cerrado, onde é bastante difundida. Também planta-se milho, arroz e feijão em pequenas propriedades, o que leva muitos pesquisadores à conclusão de que o avanço da cana pode comprometer a produção de alimentos no Brasil.

IHU On-Line – Quais são as vantagens e as implicações da produção de etanol e cana-de-açúcar na região do cerrado? Vislumbra uma condição de vulnerabilidade econômica, social e ambiental em função da produção sucroenergética?

João Camelini – Quando uma usina se instala num município, as pessoas logo pensam que ela trará consigo o “progresso” e ponto final. Isso é uma distorção presente no senso comum, associada ao ideário do “desenvolvimento”. Eu entendo que a dinâmica da ocupação do cerrado com cana-de-açúcar tem diversos problemas, pois facilita o surgimento de algumas fragilizações, a começar pelo estabelecimento do regime de monocultura associado a mecanismos de expulsão gradual de pequenos produtores, que induz à especialização e dedicação de toda uma região a um único setor, algo muito perigoso, principalmente diante da iminente conversão do etanol numa commodity.

As oscilações bruscas nos preços poderão comprometer toda a organização local, já que ela estará inexoravelmente atrelada ao setor sucroenergético. Além disso, há também os desmatamentos direto e indireto já mencionados, acidentes, poluição, prejuízos ao solo e à biodiversidade devido às queimadas, contaminação do ar e águas com pesticidas, etc. Isto resulta na sobrecarga de serviços públicos como a saúde, principalmente em pequenos municípios nos quais o aporte populacional sazonal dos cortadores de cana representa um aumento percentual considerável em relação ao número de habitantes. Há uma transferência de responsabilidades, já que diversos problemas resultantes da produção de etanol acabam sendo resolvidos com recursos públicos.

IHU On-Line – O que mudou em Quirinópolis, Goiás, após a expansão da cana-de-açúcar?

João Camelini – O município passou a se dedicar intensamente à produção de etanol e açúcar, atraindo investimentos de dois grandes grupos: USJ e São Martinho, que controlam respectivamente as usinas São Francisco e Boa Vista. A força de trabalho do município ficou comprometida com o setor, direta ou indiretamente. O comércio local, por exemplo, conta com diversas revendas de máquinas, implementos, insumos e tudo o que é necessário para atender ao setor. O comércio é baseado em produtos fabricados em outras cidades; não há grande diversidade nas atividades produtivas, já que pequenos proprietários arrendaram suas terras para a produção de cana. A estrutura hoteleira é funcional. Então, só faz sentido se associada aos fluxos relacionados à produção de etanol. Enfim, tudo gira em torno das usinas e essa especialização tende a aumentar, pois há planos para a criação de um distrito industrial que poderá transformar o município numa espécie de Sertãozinho do Cerrado. Além disso, a administração municipal trabalha para que um terminal de cargas da ferrovia Norte-Sul seja criado ali, aumentando o potencial de atração do município. Eu costumo definir Quirinópolis como a nova centralidade do etanol no cerrado.

Uma questão pouco discutida é a irradiação das consequências da ocupação canavieira. Quando uma usina é instalada num município, a tendência é que a área rural dos vizinhos seja ao menos parcialmente ocupada. Além disso, muitos municípios vizinhos se transformam em “cidades-dormitório” para os trabalhadores. Nestes casos, não existe a contrapartida do acréscimo na arrecadação, o que é mais perverso.

IHU On-Line – A plantação de cana-de-açúcar está se expandindo para outras regiões do país?

João Camelini – Sim. Ao que tudo indica a expansão do setor vem seguindo a lógica proposta pelo mapeamento apresentado em minha pesquisa, que identificou o cerrado como foco da ocupação. O Triângulo Mineiro, norte do Paraná e sul do Mato Grosso do Sul também vêm se tornando alvos dos investimentos. É importante salientar que o cerrado, do ponto de vista das empresas, é a opção mais interessante de expansão no momento. No entanto, com o tempo é provável que as redes logísticas se expandam para outras regiões e que isso intensifique a ocupação onde hoje não há grande interesse.

IHU On-Line – Em que consistem as políticas públicas destinadas ao setor sucroenergético atualmente? Quais seus limites? Que avaliação faz da política ambiental do governo brasileiro?

João Camelini – O papel do Estado em relação ao setor sucroenergético é importantíssimo para a compreensão da forma com que a vulnerabilidade territorial se potencializa. Hoje, os estados disputam os investimentos dos grupos usineiros, oferecendo uma série de vantagens para se tornarem atrativos. A competitividade deixa de ser um atributo associado apenas às empresas e torna-se algo presente também nos lugares. Isso faz com que ocorra o que Milton Santos chamou de “guerra entre os lugares”, em que há o esgarçamento do tecido federativo, que torna a nação fragmentada. O posicionamento do Estado facilita o uso corporativo do território, em que os grandes benefícios são privadamente apropriados, enquanto os problemas são socializados. No caso do cerrado, Goiás é um dos estados que mais oferecem incentivos através do programa Produzir.

Vejo que a política ambiental do Brasil apresenta diversos mecanismos de proteção legal em relação à Amazônia e o Pantanal, enquanto o cerrado fica mais exposto a condições como as que vemos atualmente. Por exemplo, apenas cerca de 4% desse bioma é protegido sob forma de unidades de conservação; há dificuldades de fiscalização e na maioria dos estados ainda não há um zoneamento agroecológico que possa ser utilizado como parâmetro de referência para a ocupação. Estas distorções aos poucos vêm sendo corrigidas com medidas como a criação do PP-Cerrado, mas a velocidade com que a agroindústria do etanol cresce é muito maior. É preciso que os mecanismos de proteção ao cerrado sejam revistos com grande cautela, caso contrário ele poderá ser destruído de forma semelhante à Mata Atlântica.

IHU On-Line – O Brasil tem condições de se tornar autossustentável na produção de etanol? Que aspectos são fundamentais para que isso aconteça? Como vê a expectativa do governo brasileiro de dobrar a produção de etanol nas próximas duas décadas?

João Camelini – Hoje existe grande expectativa pela realização do potencial do mercado externo. Com a previsão de retirada parcial de subsídios ao etanol de milho nos Estados Unidos, surgirá uma grande oportunidade de negócio para o setor sucroenergético nacional. O Brasil vem se preparando para produzir enormes quantidades de etanol, o que envolve não apenas o surgimento de novas usinas, mas também o estabelecimento de infraestruturas logísticas que comportem o escoamento para os portos.

Levando em consideração as regiões em que há maior concentração de usinas, não há dúvidas de que a utilização de alcoodutos se apresenta como a alternativa que oferece maiores vantagens para o setor sucroenergético. Há projetos de corredores de exportação baseados neste modal em que o BNDES é um grande agente financeiro, o que demonstra a disposição do Estado em oferecer suporte logístico. Se observarmos o mapeamento destes projetos de alcoodutos, veremos que ao redor deles estão se formando clusters de usinas no intuito de viabilizar economicamente o investimento. Podemos dizer, então, que o Estado possui ferramentas para controlar parcialmente a expansão e que tem elementos sólidos para prever esta consolidação do aumento da produção para as próximas duas décadas. A questão é: qual será o custo desta expansão no que se refere à vulnerabilidade territorial, considerando as imensas regiões que se tornarão dedicadas ao setor para que o aumento da produção seja viabilizado? Os clusters de usinas resultarão no surgimento de “manchas” de ocupação com a monocultura canavieira, funcionalizando grandes porções do território, que estarão sujeitas às intempéries do mercado de commodities agrícolas.

Fonte: IHU – 4 de outubro de 2011

 

Não falo como alguém que (apenas) conhece, falo como alguém que sente. Sou herdeiro de um pedaço de terra em Minas Gerais, da fazenda onde nasci e vivi, de um pedaço de cerrado…

Canto de Guerreiro Mongoió – Elomar

Adeus, adeus meu-pé-de-serra
Querido berço onde nasci
Se um dia te fizerem guerra
Teu filho vem morrer por ti

Biblistas Mineiros: nova Estudos Bíblicos em 2012

O grupo dos Biblistas Mineiros está concluindo mais um número da revista Estudos Bíblicos. Sairá em 2012.

O tema central: Bíblia – Educação para a construção de um mundo alternativo

Artigos de:
. Airton José da Silva
. Gilvander Luís Moreira
. Jacir de Freitas Faria
. Jaldemir Vitório
. Johan Konings
. Neuza Silveira de Souza e Maria de Lourdes Augusta
. Pascal Peuzé
. Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa

Fizemos duas reuniões em Belo Horizonte para debater o tema.

Entreguei ao Telmo José Amaral de Figueiredo, em 30 de setembro, o meu artigo.

O título: Paideia Grega e Apocalíptica Judaica

Começo assim:
Muitas e variadas foram as formas utilizadas pelos gregos em todo o Oriente Médio para implantar a helenização nos territórios conquistados pelos exércitos de Alexandre Magno no século IV aC. Muitas e variadas foram também as estratégias utilizadas pelos povos do Oriente Médio para lidar com este processo. Entretanto, aqui vou apenas citar uma destas formas de implantação do helenismo, a paideia grega, e, com mais vagar, abordar uma interessante estratégia de resistência à helenização de alguns grupos da Palestina, a apocalíptica judaica.

Desenvolvo o tema em três etapas:
1. A paideia grega chega a Jerusalém
2. A apocalíptica: estratégia para lidar com o imperialismo
3. Um exemplo: o livro de Daniel

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A OHDtr em Estudos Biblicos