Entre o templo e os escribas, fico com os profetas

O professor, historiador e editor Jaime Pinsky escreveu um belíssimo texto sobre a Páscoa: O sentido universal da Páscoa judaica.

Que vale a pena reproduzir aqui. Além disso, cabe também como comemoração de minha postagem #2000 no Observatório Bíblico [It is also a celebration of my post #2000 in the Observatório Bíblico]…

O artigo foi publicado ontem, dia 29/03/2010 na Folha de São Paulo [link só para assinantes do jornal]. E reproduzido por Notícias – IHU On-Line: 29/03/2010, onde o encontrei, e outros, como a Professora Claúdia Andréa Prata Ferreira em seu blog Estudos Bíblicos. Eis o artigo:

O calendário registra nesta semana a Páscoa dos judeus e a dos cristãos. Ambas as comemorações tiveram a mesma origem, afastaram-se e negaram-se ao longo da história e tendem a aproximar-se novamente.

O reconhecimento da origem judaica de Jesus, agora um fato religioso indiscutível, diminuiu bastante o número daqueles que apregoavam distância e até hostilidade entre os seguidores das duas religiões.

Resquícios da Idade Média (quando se pregava, em púlpitos de igrejas, massacres contra os judeus pelo fato de estes, supostamente, beberem sangue de garotos católicos em suas ceias de Pessach, a páscoa judaica) fazem parte de um passado que quase ninguém quer reviver.

Até a velha malhação do Judas, como metáfora do judeu supostamente traidor, mudou o seu caráter. Agora os Judas de sábado de aleluia são traidores mais reais, facilmente encontráveis no mundo político.

Os judeus fazem hoje à noite uma ceia de Pessach, e tradicionalmente se diz que ela registra “a saída dos judeus do Egito”, comandados por Moisés, há uns 35 séculos.

Entretanto, não foram encontradas evidências da ida ou mesmo da presença do povo hebreu no Egito, nesse período, mesmo porque ainda não havia um povo hebreu. É difícil, portanto, falar de sua saída.

Com certeza poderíamos considerar a travessia (do Egito para a Terra Prometida, da escravidão para a liberdade) um mito de criação, desses que todos os povos, nações, religiões e etnias têm.

Claro que havia um grande movimento de povos do deserto atrás do grande oásis que era o Egito, irrigado e fertilizado pelo Nilo. Por vezes eles se integravam e se diluíam entre a população egípcia, por vezes eram expulsos quando seu trabalho não mais era necessário, como ocorre com imigrantes de países pobres em nações mais desenvolvidas.

Esses povos devem ter aprendido muito com a civilização egípcia, da qual levaram cultura material e simbólica para outros lugares, como a então terra de Canaã.

Algumas tribos com esse histórico desenvolveram língua própria, cultura específica e unificaram-se em um reino, lá pelo ano 1000 a.C., sob o comando de Saul, Davi e Salomão, este poderoso o suficiente para construir o Templo de Jerusalém.

Desmandos do poder e injustiças sociais enfraqueceram as monarquias (que haviam se dividido em Israel e Judá) e propiciaram o surgimento dos chamados profetas sociais – Amós e Isaías, entre outros -, que inovaram pregando o monoteísmo ético, conjunto de valores que passaram a fazer parte do patrimônio cultural da humanidade e se encontram na própria base do judaísmo (assim como do cristianismo).

Aí voltamos para o Pessach e nos perguntamos por que essa é uma comemoração milenar.

Alguns responderão com o judaísmo institucional, que lamenta até hoje a destruição do Templo de Jerusalém e do poder monárquico, do qual os sacerdotes eram uma espécie de funcionário religioso.

Outros acenam com o judaísmo dos escribas, a letra da lei e dos seus intérpretes, que exigem rituais imutáveis.

Quem não os seguir literalmente vai “acertar suas contas com Deus nesta ou em outra vida”. Esse tipo de judaísmo considera razoável uma dicotomia entre a vida cotidiana e o ritual religioso, bastando seguir este com propriedade para que os pecados, eventualmente ocorridos naquela, sejam absolvidos sem maiores problemas. E os rabis milagreiros, além dos místicos sábios, estariam aí para nos explicar “a” verdade.

O problema é que a intermediação entre o judeu e seu Deus é a negação da essência do judaísmo (o monoteísmo ético), que busca igualar todos os homens e os estimula a ler e compreender o que leram, exatamente para ter acesso à palavra divina.

Entre o templo e os escribas, fico com os profetas.

Um povo é um grupo com a consciência de um passado comum. Não é fundamental que o passado comum tenha realmente existido, basta a consciência da existência dele: ao escolher a herança judaica, cada indivíduo passa a ser depositário de um universo de valores.

Não interessa se há 3.000 anos seus ancestrais já eram judeus, não importa se ele é descendente de cázaros judaizados durante a Idade Média ou de ucranianos convertidos após 1648.

Não vem ao caso se optou por seu judaísmo há um ano ou uma semana. O importante não é a origem étnica, nem a lamentação pelo templo destruído e muito menos a prática de rituais mecanicamente executados.

A grande travessia, aquela que marcou a humanidade, foi a de um mundo aético para um mundo ético, de um olhar para si mesmo para um olhar para o outro, de uma existência solitária para uma existência solidária.

Sim, Pessach é uma travessia. Que só tem sentido se for feita na companhia de todos os irmãos de raça, a raça humana.

Sobre o autor:
Jaime Pinksy é historiador, editor e professor aposentado da Unicamp. Doutor e livre docente pela USP. Foi também professor na Unesp (Assis) e na USP. Colaborou na criação das revistas Debate & Crítica, Contexto, Anais de História e Religião e Sociedade. Concebeu e dirige a Editora Contexto . Concebeu e dirigiu a Editora da Unicamp. Foi colaborador das editoras Brasiliense, Global e Atual. Autor, co-autor ou organizador de mais de duas dezenas de livros, entre os quais História da Cidadania, As primeiras civilizações, O Brasil tem futuro? e Origens do Nacionalismo Judaico (informações colhidas no site de Jaime Pinsky).

Resenhas na RBL: 25.03.2010

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Kenneth E. Bailey
The Cross and the Prodigal: Luke 15 through the Eyes of Middle Eastern Peasants
Reviewed by Robert O’Toole

Craig G. Bartholomew
Ecclesiastes
Reviewed by Richard Schultz

Manfred T. Brauch
Abusing Scripture: The Consequences of Misreading the Bible
Reviewed by Michael D. Matlock

Brendan Byrne
A Costly Freedom: A Theological Reading of Mark’s Gospel
Reviewed by Sean Kealy

Duane L. Christensen
Nahum: A New Translation with Introduction and Commentary
Reviewed by Klaas Spronk

Sarah Coakley and Charles M. Stang, eds.
Re-thinking Dionysius the Areopagite
Reviewed by Ilaria L. E. Ramelli

Gary N. Knoppers and Kenneth A. Ristau, eds.
Community Identity in Judean Historiography: Biblical and Comparative Perspectives
Reviewed by Rainer Kessler

R. W. L. Moberly
The Theology of the Book of Genesis
Reviewed by Brian D. Russell

Stanley E. Porter and Mark J. Boda, eds.
Translating the New Testament: Text, Translation, Theology
Reviewed by Douglas Moo

John M. Steele, ed.
Calendars and Years: Astronomy and Time in the Ancient Near East
Reviewed by Mladen Popovic

>> Visite: Review of Biblical Literature Blog

Novo método não destrutivo de datação por C-14

“Cientistas apresentam novo método de datação por carbono 14 [Como funciona a datação por Carbono 14?] que poderia ser usado para avaliar objetos históricos (…) A famosa análise que determina a idade de artefatos antigos é muitas vezes rejeitada por museus e historiadores porque exige que um pedaço da peça seja removido. O novo método, apresentado na terça feira [23 de março de 2010] durante o 239º Encontro Nacional da Sociedade Americana de Química (ACS) em São Francisco, dispensa essa e outras etapas que destroem parte da amostra. Ele foi criado por uma equipe liderada pelo Dr. Marvin Rowe, professor emérito da Universidade Texas A&M. A datação de carbono convencional estima a idade de artefatos baseado na taxa de decaimento do isótopo radioativo carbono-14 – uma variante do carbono que existe em todos os seres vivos. Isso significa que todo material de origem animal ou vegetal (como tecidos, ossos, couro) pode ser datado por meio desse método. O primeiro passo é remover uma amostra dos objetos que será tratada com um ácido forte e uma base forte e, em seguida, queimada em uma pequena câmara de vidro. Esse processo irá produzir o gás dióxido de carbono cujo carbono 14 será analisado. Cientistas então comparam a quantidade do isótopo encontrada na amostra com a quantidade de C-14 que estaria presente na atmosfera de um período específico da historia. Na nova técnica do dr. Rowe, chamado de ‘datação de carbono não destrutiva’, o artefato é colocado em uma câmara especial com um plasma (um gás eletricamente carregado). De forma lenta e suave, este gás oxida a superfície do objeto e produz carbono 14 para análise sem danificá-lo. Isso significa que o objeto não é mutilado. Os pesquisadores usaram o método para analisar cerca de 20 substâncias orgânicas que já haviam passado pela análise antiga, entre elas madeira, couro, pelo de coelho, um osso com carne mumificada e um tecido egípcio de 1.350 anos. Todos os resultados bateram com aqueles da datação convencional. Tanto o método antigo como o novo podem estimar objetos de até 50 mil anos. Como a câmara de vidro pode ser feita para acomodar grandes objetos, os pesquisadores estão entusiasmados com o método, que pode ser adotado para analisar objetos dos quais não é possível retirar freqüentes amostras…”

Fonte: Paula Rothman – INFO Online – 26 de março de 2010 – 09h44

 

New method could revolutionize dating of ancient treasures
“Scientists today described development of a new method to determine the age of ancient mummies, old artwork, and other relics without causing damage to these treasures of global cultural heritage. Reporting at the 239th National Meeting of the American Chemical Society (ACS), they said it could allow scientific analysis of hundreds of artifacts that until now were off limits because museums and private collectors did not want the objects damaged. ‘This technique stands to revolutionize radiocarbon dating,’ said Marvin Rowe, Ph.D., who led the research team. ‘It expands the possibility for analyzing extensive museum collections that have previously been off limits because of their rarity or intrinsic value and the destructive nature of the current method of radiocarbon dating’ (…) Rowe explained that the new method is a form of radiocarbon dating, the archaeologist’s standard tool to estimate the age of an object by measuring its content of naturally-occurring radioactive carbon. A professor emeritus at Texas A&M University College Station, Rowe teaches at a branch of the university in Qatar. Traditional carbon dating involves removing and burning small samples of the object. Although it sometimes requires taking minute samples of an object, even that damage may be unacceptable for some artifacts. The new method does not involve removing a sample of the object. Conventional carbon dating estimates the age of an artifact based on its content of carbon-14 (C-14), a naturally occurring, radioactive form of carbon. Comparing the C-14 levels in the object to levels of C-14 expected in the atmosphere for a particular historic period allows scientists to estimate the age of an artifact. Both the conventional and new carbon dating methods can determine the age of objects as far back as 45,000 to 50,000 years, Rowe said. In conventional dating methods, scientists remove a small sample from an object, such as a cloth or bone fragment. Then they treat the sample with a strong acid and a strong base and finally burn the sample in a small glass chamber to produce carbon dioxide gas to analyze its C-14 content. Rowe’s new method, called ‘non-destructive carbon dating,’ eliminates sampling, the destructive acid-base washes, and burning. In the new method, scientists place an entire artifact in a special chamber with a plasma, an electrically charged gas similar to gases used in big-screen plasma television displays. The gas slowly and gently oxidizes the surface of the object to produce carbon dioxide for C-14 analysis without damaging the surface, he said. Rowe and his colleagues used the technique to analyze the ages of about 20 different organic substances, including wood, charcoal, leather, rabbit hair, a bone with mummified flesh attached, and a 1,350-year-old Egyptian weaving. The results match those of conventional carbon dating techniques, they say (…) The scientists are currently refining the technique…”

Fonte: EurekAlert! – March 23, 2010

Como bloquear janelas pop-up de publicidade

Pop-up é uma janela extra que se abre automaticamente, ou não, no navegador, quando você visita uma página web ou acessa um link específico. O recurso pop-up é utilizado pelos criadores de sites para oferecer alguma informação útil, mas, o que incomoda é que são muito utilizadas como meio de propaganda [advertising]. E podem também ser criadas como instrumento para golpes e para apresentação de softwares perigosos.

Mas há um modo fácil de evitar janelas pop-up com ads (de “advertising” = publicidade).

:: Em geral, todas as versões mais recentes dos navegadores possuem bloqueadores nativos de pop-ups, que podem ser ativados ou desativados no menu. O problema é que nem sempre funcionam muito bem. A seguir, algumas sugestões:

:: No Firefox, pouco importa se em sistemas Windows ou Linux, é só usar os complementos [add-ons] Adblock Plus e NoScript. Com configurações corretas [no Adblock Plus clique em Configurações e ative o filtro EasyList (USA)], as propagandas não passam. Mas lembre-se de que há dezenas de filtros à disposição do usuário. Confira Known Adblock Plus Subscriptions. Já o NoScript protege o Firefox de códigos maliciosos. Veja também outros complementos na categoria Privacidade e segurança.

:: No Internet Explorer use a extensão Adblock Plus. No Internet Explorer 8 pode-se usar o IE7Pro. Para configurar, clique em Configuração > Geral e Complementos e ative as opções de “Funções Básicas“, “Bloqueador de Anúncios” e “Scripts & Plugins“. E em Filtragem de Conteúdo marque as opções “Ativar o Filtro de Anúncios” e “Ativar regras de filtragem padronizada“. A barra de ferramentas, novidade que veio na versão 2.4.8, lançada em 22 de março de 2010, pode ser desativada, se o usuário desejar, no menu do navegador, como o IE8, clicando em Exibir > Barras de Ferramentas > Grab Pro, mas deixando desmarcados, neste ponto, os três complementos listados, para que não sejam desativados. Pode-se experimentar também o AdFender. Confira, além disso, para outras opções, Best Free Add-ins for Internet Explorer e Probably the Best Free Security List in the World – Browser Security. 


:: No Google Chrome use extensões como AdBlock, Adblock Plus e ScriptSafe.

:: Para outros navegadores, como Opera e Safari, não possuo conhecimento suficiente para opinar. Mas sei que o Opera é apreciado por seus fãs também por incorporar nativamente bloqueadores de publicidade [ads]. Extensões com boa avaliação dos usuários? Vejo o AdBlock e o Adblock Plus.

:: E o Safari? Dê uma olhada em Safari Adblock Extension, do site Pimp My Safari. Explicações sobre o uso de plugins no Safari podem ser lidas, em português, no tutorial Incrementando o Safari, escrito por Marco Andrei Kichalowsky em 16 de abril de 2009, lembrando, porém, que a matéria já é um pouco antiga…


Leia Mais:
How to Harden Your Browser Against Malware and Privacy Concerns [várias recomendações úteis e atualizadas do site Gizmo’s Freeware]

O Blogumus parou de funcionar? Veja a solução

Quem está usando a nuvem de marcadores [labels] conhecida como Blogumus – a flash animated label cloud for Blogger – deve ter notado que o widget parou de funcionar recentemente.

Pelo menos nos blogs do Blogger.

Encontrei hoje a solução no OCPortugal, o blog do OCP, no post Blogumus: como reparar.


Ok. O blog OCPortugal foi removido, não existe mais. 


Tente o post Nuvem de Tags Animada para Blogger, do blog Como fazer um site


E como este também pode desaparecer, faça o download de swfobject.js e nuvemtags.swf e os instale em algum servidor – que os permita – e providencie para que não evaporem…

Para entender o Oriente Médio, segundo Robert Fisk

Para entender o Oriente Médio… tente algumas leituras

A maior dificuldade para escrever com consciência histórica é que a história não terminou. Seja como for, se quiser entender a Al-Qaeda, por exemplo, tente o parágrafo seguinte:

“O homem do deserto não merece crédito por sua fé (…). Ele alcançou essa intensa condensação de si mesmo em Deus porque fechou os olhos ao mundo e a todas as complexas possibilidades latentes nele, que só o contato com a riqueza e as tentações pode trazer à tona. Alcançou uma fé confiável e poderosa, mas em campo tão estreito! Sua experiência estéril roubou-lhe qualquer compaixão e perverteu sua generosidade humana para com a imagem da perda na qual se escondeu (…). Vem daí um gozo na dor, uma crueldade que vale mais para ele que quaisquer bens. (…) Encontrou luxúria na abnegação, na renúncia, na autocontenção. Fez a nudez da mente tão sensual quanto a nudez do corpo. É possível que tenha salvo a própria alma, e sem risco, mas num duro egoísmo.”

É de T.E. Lawrence, em Seven Pillars of Wisdom: a Triumph (1926) [Os Sete Pilares da Sabedoria: Um Triunfo, Rio de Janeiro: Record, trad. C. Machado] – e que perfeição! Sempre lembro dessa passagem quando assisto aos videoteipes de Bin Laden. O campo estreito. A abnegação. A crueldade. Não concordo necessariamente com Lawrence, mas em trechos como esse, percebo-me refletindo cada vez mais profunda e intensamente sobre suas palavras.

Digo isso porque, várias vezes por ano, leitores do Independent pedem-me que sugira “uma lista de leituras” de livros em inglês sobre o Oriente Médio. Não é fácil. A maior dificuldade para escrever com consciência histórica sobre o Oriente Médio é que a história não terminou. A guerra continua. Os dois “lados” – de fato há muitos, muitos lados – produzem narrativas conflitivas. E não aceito a ideia de que se possa oferecer uma lista equilibrada de livros. Há a versão de Israel. Há a versão dos árabes. Há a versão alucinada dos norte-americanos etc. O Oriente Médio é questão de injustiça. Quem contará melhor a história?

No que tenha a ver com a disputa árabes-israelenses, os dois incomparavelmente melhores livros são The Arab Awakening: the history of the Arab National Movement (Londres, 1938) de George Antonius, e The Gun and the Olive Branch (1977), de meu colega e amigo David Hirst. Antonius escreveu em 1938; Hitler já estava no poder há cinco anos – mas dez anos antes de os palestinos serem ativamente assaltados. – E escreveu que:

“O tratamento imposto aos judeus na Alemanha e em outros países europeus é uma desgraça para os autores e para a civilização moderna. A posteridade não perdoará nenhum país que não assuma a sua parcela de sacrifícios para aliviar o sofrimento e o desespero dos judeus. Impor toda a carga à Palestina árabe é miserável movimento de fuga ao cumprimento do dever moral que cabe a todo o mundo civilizado, além de ser moralmente vergonhoso. Nenhum código moral pode justificar a perseguição de um povo, como meio para aliviar a perseguição de outro. A cura para a expulsão dos judeus da Alemanha jamais será a expulsão dos árabes, de sua própria terra (…).”

Foi o primeiro sinal verdadeiramente eloquente do que estava para acontecer, e Hirst completou a narrativa das muito acuradas predições de Antonius, o primeiro autor, parece-me, a enfrentar o romance-lixo Exodus, com o qual Leon Uris agraciou o Estado judeu – para deleite de Ben Gurion, embora devesse ter pensado melhor –, ao desconstruir o “terrorismo”, sem romantizar os refugiados palestinos e seus movimentos de resistência.

Nesse mesmo contexto, deve-se lembrar o trabalho dos “novos historiadores” de Israel, que criaram uma narrativa complementar. Benny Morris foi o mais proeminente pesquisador israelense a provar que foi intenção de Israel expulsar os palestinos e arrancá-los de suas casas às dezenas de milhares em 1948. O fato de que, depois, Morris não tenha feito outra coisa além de reclamar que a limpeza étnica não tenha sido suficientemente eficaz e ampla não diminui a importância de seu trabalho anterior, seminal.

Dizem que F. R. Leavis, certa vez, iniciou um parágrafo com “Como qualquer leitor-que-preste de poesia sabe…”. Então, acho que podemos dizer que “qualquer leitor-que-preste” de livros sobre o Oriente Médio deve ler Edward Said. Um de seus melhores livros, aliás, é sobre música. Mas Orientalism [Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2003] sempre será necessário em qualquer lista. Said fez filosoficamente e historicamente, pela narrativa do Oriente Médio, o que Antonius fez politicamente. Não estou subestimando o trabalho político de Said – embora vários críticos tenham anotado que Said talvez não tenha levado n a devida consideração a vasta literatura “orientalista” que brotou na Itália, na Alemanha e na Rússia. Mas não o estou condenando como o condenaram Al Dershowitz e sua gangue.

A União Soviética, claro, sempre teve problemas com o Profeta, porque Maomé foi comerciante e burguês. Jesus Cristo, pelo menos, nasceu em família de trabalhador, embora não se saiba se José, carpinteiro, possa ser dito Stakhanovita recomendável. Mas devo dizer que o fato de Maria e José terem tido de viajar até Jerusalém para pagar impostos é absolutamente otomano, de tão burocrático. E que nenhum hotel aceitasse hospedar uma mulher grávida, sim, tem sabor de Oriente Médio. Mas, não, não! Não vá eu, agora, virar “orientalista”!

E há também esse brilhante pensador e jornalista libanês, o saudoso Samir Kassir – muito saudoso, porque foi assassinado há quase cinco anos, e a última coisa que vi dele foi o sangue ao lado do carro explodido – cuja monumental história de Beirute, em inglês, estará nas livrarias esse ano (admito: estou escrevendo o prefácio).

Tudo que você algum dia quis saber sobre Beirute – e muito, receio, que você preferiria jamais saber – está no livro de Kassir. Ele lembra como, há cem anos, um jovem capo di capo cristão – um Costa Paoli – tinha o hábito de beijar o rosto dos cristãos libaneses recém assassinados, antes de que fossem sepultados. Era homem elegante – “uma rosa na lapela e lenço perfumado no bolso do paletó”, segundo o professor Edward Atiyah –, e um gângster; vingava-se dos muçulmanos. Naqueles dias, havia milícias e grupos armados de apoio às comunidades cristãs e muçulmanas, e às vezes, havia briga de rua.

Exatamente como o meu colega David McKittrick descobriu que, na Belfast do século 19, as primeiras lutas de rua ocorreram nos mesmos locais onde aconteceram as batalhas dos anos 70s, assim também já se sabe que, na Beirute do século 19, os conflitos entre as milícias armadas aconteceram nos mesmos locais onde eclodiria a Guerra do Líbano de 1975.

Kassir é o primeiro autor cujo único personagem humano é uma cidade, em cuja bela e terrível história vêem os homenzinhos girando em rodas de tortura. Eu não sabia que o subúrbio onde reina o Hizbollah, Ouzai, recebeu esse nome para homenagear o velho divino Imã Ouzai; ou que o Partido Social Nacionalista Sírio – uma tediosa sociedade pan-árabe – inspirou-se, para criar sua bandeira vermelha, branca e preta (com penas cruzadas), nos nazistas; ou que o palavrão (em árabe) sharmut ou sharmuta – “puta” – e que hoje se usa a torto e a direito, surgiu da tão mais gentil e suave “charmante”, francesa. Lawrence e demais autores, por favor, anotem.

O artigo é de Robert Fisk e foi publicado em The Independent, Londres, em 13 de março de 2010: Robert Fisk’s World: Try this reading list if you want to understand the Middle East. Publicado no Brasil pelo Instituto de Cultura Árabe.

Fonte: Carta Maior: 23/03/2010

Dom Oscar Romero

O arcebispo de San Salvador, Dom Oscar Arnulfo Romero, foi assassinado em 24 de março de 1980.

Oscar Romero, um sinal de Deus para nosso tempo. Um depoimento de Luiz Carlos Susin

O Frei Luiz Carlos Susin está, neste momento, em El Salvador, onde participa do Simpósio “A los 30 años del martírio de Monseñor Romero: conversión y esperanza”. De lá, ele enviou, por e-mail, o artigo a seguir, publicado com exclusividade pela IHU On-Line. No texto, Frei Susin relembra momentos da vida de Dom Romero, assim rememora as causas da sua morte violenta. O legado do pensamento e da luta de Dom Romero também está presentes no depoimento. “De modo especial a juventude que nem mesmo o conheceu, e as crianças que intuem nele um pai a quem admirar, estão mobilizados para esta memória de trinta anos. Não porque a Igreja tenha instrumentos institucionais para mobilização, mas por causa desta identificação entre o bom pastor e este povo que conheceu a violência e ainda conhece formas sociais de injustiças”, destacou.

Luiz Carlos Susin é frei capuchinho, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Leciona na PUC-RS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF), em Porto Alegre. É autor de inúmeras obras, dentre as quais citamos “Teologia para outro mundo possível” (Paulinas, 2006).

Confira o depoimento.

Nesse dia 24 de março, por diferentes partes do mundo irá percorrer a memória da morte violenta de Dom Oscar Arnulfo Romero há precisamente 30 anos, em 24 de março de 1980. Enquanto muitos olhares se voltam para San Salvador, a capital do pequeno país de El Salvador, na costa do Pacífico da América Central, ter o privilégio de estar aqui, junto a grupos dos diversos continentes que chegam reverentes, e olhar in loco o significado desta memória trinta anos depois é comovente porque é surpreendente: este povo não seria o que agora é se Dom Oscar Romero não tivesse sido, naqueles anos difíceis, o arcebispo que tomou a defesa do povo em meio ao fogo cruzado entre as forças violentas do Estado e a guerrilha que lutava por outra ordem pública. O próprio Dom Romero, em sua grande sensibilidade, tinha dito que “com este povo não é difícil ser um bom pastor!”

E, de fato, ver gente do povo, famílias inteiras, chegar até a cripta da catedral onde repousam os restos mortais de Dom Romero ou então aos lugares de seu martírio, na pequena casa em que morou ou na capela do “hospitalito” em que foi abatido durante a celebração de uma Eucaristia na manhã da segunda-feira após um domingo de sermão indignado e recheado de “não matarás!”, pode-se ver o quanto este povo salvadorenho tenha sentido nele uma identificação e um amparo que, trinta anos depois, só fez crescer essa aliança pelo bem e pela paz. Quando Dom Romero disse, sabendo que seu assassinato seria questão de pouco tempo, que se o matassem ele ressuscitaria no povo salvadorenho, dizia uma convicção de fé que hoje podemos ver desbordar nessa cidade de San Salvador.

A Juventude el salvadorenha e Dom Romero

De modo especial a juventude que nem mesmo o conheceu, e as crianças que intuem nele um pai a quem admirar, estão mobilizados para esta memória de trinta anos. Não porque a Igreja tenha instrumentos institucionais para mobilização, mas por causa desta identificação entre o bom pastor e este povo que conheceu a violência e ainda conhece formas sociais de injustiças. É bem verdade que, depois que o partido do próprio mandante do assassinato de Dom Romero, o major Roberto D’Aubuisson, perdeu a presidência do país, ainda que detenha a maioria do parlamento e o poder da imprensa e do empresariado mais importante, agora é o próprio novo presidente de El Salvador, casado com uma brasileira que conheceu as Comunidades Eclesiais de Base no Brasil, que se adianta e ele mesmo e seu governo organizam parte das festas em memória de Dom Oscar, algo absolutamente novo, que cria maior espaço para que se realize o que o arcebispo queria: justiça e vida digna para o povo que sofria abusos por parte das elites ricas e poderosas e das forças militares que a apoiavam. Não que ele concordasse com a violência da guerrilha, pois sabia que ela resultava da própria violência institucional e ficava presa à roda da violência da qual a maior vítima, inocente, era a população. A Comissão da Verdade, criada pelas Nações Unidas, apurou que cinco por cento dos atos de violência foram cometidos pela guerrilha enquanto oitenta e cindo por cento dos assassinatos foram cometidos pelo Exército e esquadrões da morte, apoiados financeiramente pelos Estados Unidos. Essa desproporção fala alto. (E cá entre nós, brasileiros: talvez seja esta a razão para tanta obstrução a que se crie uma Comissão da Verdade no Brasil.)

Uma luta sem fim

Mas Dom Romero, ainda que sempre tenha demonstrado sensibilidade e compaixão para com os pobres, e piedade e retidão para com a sua fé e a ética consequente, somente com as circunstâncias dolorosas caiu em si diante da realidade social conflitante e injusta e a decisão difícil a tomar: a perigosa defesa do povo, pela qual iria morrer. Ele tinha sido deslocado de uma diocese interiorana para a capital a fim de acalmar a inquietação de movimentos dentro da Igreja: alguns padres, algumas comunidades, a direção da universidade dos jesuítas. Veio para a capital como um “conservador”, assim se dizia na época. Foram a tortura e a morte violenta de um jovem jesuíta, Rutílio Grande, seguida de outros sacerdotes da diocese e do país, que fizeram Dom Oscar chorar e se indignar. Começou a comparecer a todo lugar de violência e de cadáveres a sepultar, e a preparar com força profética única suas homilias dominicais, que eram escutadas não só com catedral lotada mas em todo o país através do rádio. Hoje, estas homilias estão disponíveis tanto em uma apurada edição crítica como em CD, pois, por questão de verdade, foram todas escritas e gravadas, assim como ele deixou gravado algo como um “diário” diante da iminência contínua de violência a ele mesmo. Hoje são fontes preciosas para conhecer tanto a grandeza de alma e a sabedoria de um grande pastor caminhando em meio a um rebanho ferido como para conhecer uma época tremenda da história não só de El Salvador, mas da América Latina em geral.

Dom Oscar foi “crescendo” ao mesmo tempo em sabedoria e ternura junto com a indignação e a força profética de sua presença e palavra. Pagou o preço de solidão entre seus pares no episcopado do país, com pouco apoio, e inclusive desconfianças de Roma. Mas ganhou amizade e apoio de muitos bispos que já eram experimentados em situações parecidas pela América Latina. No entanto, foram o povo e o clero de San Salvador que o sustentaram enquanto ele se fazia “voz dos que não tem voz”. Depois de sua morte ainda muito sangue inocente foi derramado por El Salvador, sobretudo de militantes cristãos, de catequistas e evangelizadores, e inclusive massacres de centenas de pessoas – três massacres, de 600 a 800 pessoas cada, em aldeias que foram inteiramente devastadas pela violência militar e paramilitar. Outros sacerdotes e finalmente, em novembro de 1989, a comunidade jesuíta da Universidade Centroamericana inteira, seis padres, tiveram a mesma sorte numa noite de terror nesta casa em que estou escrevendo. Dom Romero tinha chegado a afirmar que se alegrava que sacerdotes estavam sofrendo o mesmo destino do povo, e, embora não escondesse a inquietação do medo da tortura, sabia certo que teria também ele o mesmo destino. Só assim a Igreja testemunhava que estava realmente identificada com o povo de Deus. A maioria desses padres, como Dom Oscar, deixou o testemunho de um perdão pessoal junto á exigência de justiça para o povo, e isso deixou marcas na capacidade de cura e de reconciliação de El Salvador.

Dom Romero vive no coração e na memória do povo

Hoje, resta uma ferida grave: a delinquência, sobretudo juvenil e adolescente, as “pandillas” de periferia, entre os pobres e os desocupados. E a tendência das elites impenitentes a tratar inclusive menores com dureza crescente sem reconhecer as causas da atual violência, as causas que são o pecado original de sempre: a apropriação e o enriquecimento de poucos junto à pobreza sem saída da maioria. Em meio a isso, as figuras de Dom Oscar e dos tantos mártires recentes de El Salvador são um contraponto de esperança e de generosidade absoluta, a generosidade da vida doada até à morte, que cria uma lógica de busca de justiça e dignidade em meio aos problemas e sofrimentos que ainda persistem. Nesses dias os jovens, inclusive certamente alguns metidos em “pandillas”, vão liderar uma multidão de povo que vai sair de diferentes pontos da capital para se concentrar e passar uma noite em vigília diante da catedral que guarda os restos mortais de um grande pai da nação, e vão se sentir família. Na cripta, apesar do belo monumento em bronze com o manto dos quatro evangelhos que orientaram as falas fortes do arcebispo, o povo insiste em colocar suas flores, seus símbolos simples e carregados de afeto. Realmente, Dom Oscar Romero vive no coração e na memória do povo de El Salvador.

E vive também na memória da Igreja latinoamericana, que o reverencia nessa data como voz dos povos ainda submetidos. A Igreja primaz dos anglicanos, em Westminster, já o “canonizou” colocando sua imagem ao lado de Martin Luther King e de Bonnhöffer no nicho dos mártires do século XX. Na África, um bispo congolês, morto ao socorrer o povo em meio ao conflito genocida de Ruanda e Burundi na fronteira do Congo, é conhecido por lá como “o Dom Romeiro da África”! E grupos em peregrinação, vindos dos Estados Unidos, do Canadá, dos diversos países da Europa além dos latino-americanos, de variadas denominações cristãos, vem ecumenicamente, como veio o grande teólogo Jürgen Moltmann, prestar homenagem a um grande profeta e mártir de nosso tempo.

Fonte: Notícias: IHU On-Line: 24/03/2010

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