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Delegado combinou com jornalistas versão sobre o vazamento de fotos

Desde o dia 2 de outubro, está no site do jornalista da TV Globo Luiz Carlos Azenha a informação de como se deu a entrega do CD com as fotos do dinheiro apreendido com os petistas patetas no Hotel Íbis. O título da reportagem não deixa dúvidas sobre como tudo aconteceu. Leia, a seguir, trechos retirados do site:

‘Delegado combinou com jornalistas versão sobre o vazamento de fotos’
O delegado Edmilson Bruno, da Polícia Federal, foi enfático ao ser confrontado por repórteres diante do prédio da Polícia Federal: era inocente da acusação de ter vazado as fotos do dinheiro apreendido com petistas.
Algumas horas antes, ele havia se encontrado sigilosamente com quatro repórteres para dar um CD que continha as imagens.
Pediu que cópias fossem feitas e distribuídas.
Pelo menos dois dos repórteres que se encontraram com o delegado deixaram o gravador ligado durante a conversa.
Tive [Azenha] acesso ao conteúdo da gravação. O som é nítido.
O delegado explica que, no dia anterior, tinha participado da perícia do dinheiro apreendido:
– Os peritos tiraram fotos e eu também tirei – [delegado Edmilson Bruno].
Edmilson contou aos jornalistas como pretendia explicar ao chefe a aparição das fotos na mídia:
– Alguém que roubou e deu para vocês, disse ele.
Os repórteres pouco falaram. Ninguém protestou contra a versão ensaiada pelo delegado:
– O que vai parecer? Que alguém roubou e vazou na imprensa.
O delegado disse aos repórteres que o superintendente da PF em São Paulo e o delegado encarregado do caso não sabiam da existência das fotos.
É difícil descrever o ambiente a partir da gravação de algumas vozes, embora as palavras fossem nítidas.
Ficou claro que o delegado tinha pressa, que queria espalhar as fotos e que contava com a ajuda dos quatro jornalistas para fazer isso.
(…)
Não havia repórter da TV Globo entre os jornalistas que se reuniram informalmente com o delegado, numa calçada.
Edmilson Bruno parecia preocupado com o momento certo para divulgar as fotos.
Em uma coisa foi enfático:
– Tem que sair hoje à noite na TV. Tem que sair no Jornal Nacional.

 

O dossiê do dossiê Vedoin/Serra/Barjas

Meu implacável amigo Saul Leblon traçou o seguinte roteiro:

1. Na sexta-feira, 15 de setembro, data marcada pelos Vedoins para entrega do dossiê Serra/Sanguessuga a um grupo de petistas, num hotel em SP, o delegado de plantão na PF na capital paulista era Edmilson Pereira Bruno

2. O delegado prendeu os petistas em flagrante no hotel Ibis.

3. Antes mesmo que os presos fossem conduzidos à sede da PF, em SP, uma equipe de TV da produção do programa do candidato Geraldo Alckmin já estava a postos no local, para filmar a chegada dos detidos e usar as imagens no horário eleitoral do tucano. A equipe de Alckmin demonstrou agilidade superior a de qualquer órgão da grande imprensa, no principal centro jornalístico do país.

4. No dia 18, três dias depois desses acontecimentos, o delegado Bruno foi afastado do caso após declarar que o suposto dossiê Serra/Sanguessuga continha mais de duas mil folhas e implicava todos os partidos. Na verdade, o que tinha mais de duas mil folhas era o inquérito que investigava a ação dos sanguessugas em Cuiabá.

5. Dez dias depois, na quinta-feira, dia 28, o mesmo delegado Bruno invade uma sessão de perícia na qual dois técnicos da PF fotografavam o dinheiro supostamente utilizado para comprar o dossiê Serra/Sanguessuga.

6.O delegado Bruno alega aos peritos que havia sido reconduzido ao caso. Enquanto eles realizavam seu trabalho, o delegado sacou uma máquina digital e fez 23 fotos do dinheiro

7. Nos dias anteriores, à medida em que se aproximava a data do pleito e a vitória de Lula no primeiro turno mostrava-se cada vez mais provável, o candidato Alckmin e todo o PSDB, bem como seus ventríloquos na mídia, elevaram o tom das cobranças. A artilharia tucano-pefelê-midiática, centrava fogo em duas cobranças: a liberação das fotos do dinheiro pela PF e a presença de Lula no debate da Globo, marcado para o dia 28, quinta-feira, à noite.

8. Lula, na última hora, decidiu não ir ao debate prevendo um “massacre orquestrado” da oposição contra o seu governo.

9. O Presidente escapou do massacre, que de fato ocorreu, e teve ampla repercussão no JN e nos diários. Mas não escapou das fotos.

10. Na sexta-feira, dia 29, pela manhã, o delegado Bruno pessoalmente entregou cópias em CDs das fotos que havia feito a três jornalistas em frente do prédio da PF, em SP. Sequer marcou um encontro em local mais discreto. Segundo o jornalista Bob Fernandes do site Terra Magazine, teria explicado assim seu gesto aos repórteres: “Quero f… com o Lula e o PT”.

11. No mesmo dia, quando as fotos já circulavam na Internet — divulgadas pela Agência Estado– o delegado procurou superiores e informou: “Estou desesperado. Pegaram uma cópia das fotos que eu havia feito”.

12. Pouco depois, em entrevista à mesma Agência Estado que havia distribuído as fotos e sabia sua origem, o delegado Bruno afirmou: “Estão veiculando que eu cedi o CD. Eu não cedi este CD. Eu não sei se é para me prejudicar ou não. Não sei quem foi o autor do crime, mas não fui eu que distribuí o CD”. O delegado afirmou ainda nessa entrevista, divulgada amplamente por um veículo que sabia de antemão a versão verdadeira, que as fotos haviam sumido do seu arquivo pessoal.

13.No sábado, dia 30, as fotos dominaram o noticiário das TVs e as primeiras páginas de todos os jornais. No Globo, a foto ocupou mais de metade da pág. frontal. A Folha foi além e optou por uma composição grotesca. Sob a pilha de dinheiro colocou uma foto de Lula encapuzado, enquanto vestia um casaco. Uma mão apertada sobre o seu ombro sugeria um caso de detenção. Um truque de composição fotográfica, reduziu assim o Presidente e induzia os leitores a enxergarem-no como um marginal preso em flagrante, a 48 horas do pleito presidencial.

14. Todos os jornais publicaram as imagens do dinheiro sem identificar a origem das fotos. Nenhum informou as palavras ditas pelo ofertante ¿ainda que sua identidade fosse mantida em sigilo: “quero fu.. com Lula e com o PT”.

15. No domingo, finalmente, os jornais traziam uma entrevista do delegado Bruno. Nela , o policial admite que fez e distribuiu as fotos¿o que antes havia negado peremptoriamente e os jornais ¿ embora sabendo que era uma mentira ¿ publicaram e atestaram a verdade. O delegado, porém, insiste, desta vez, que eu gesto não teve motivação política e nega qualquer ligação com a campanha tucana. Os jornais de novo publicam suas declarações, sem contextualizá-las.

17. No mesmo domingo, dia do pleito, os jornais afirmam que o desgaste desse episódio reduziu dramaticamente a vantagem anterior de Lula nas pesquisas de intenção de voto, referentes ao primeiro turno. Segundo as novas enquetes, mesmo no segundo turno, a reeleição do Presidente agora tornara-se incerta.

18. Tudo fica como dantes no quartel do Abrantes. A imprensa continua a acobertar e a ser cúmplice do crime de violação do segredo de justiça. Por quê? Porque ao invés dos eventuais crimes cometidos por petistas, desta vez os crimes a interessam, e favorecem seu candidato, Geraldo Alckmin¿.

Eh, Leblon bom de bola!

Fonte: Flávio Aguiar – Carta Maior: 02/10/2006

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