Dilma x Aécio: dois projetos de país

Minas tornou-se a pedra no meio da língua de Aécio. Quanto mais ele ataca Dilma e o PT, mais complicado fica explicar a derrota no seu Estado.

Serão três semanas de confronto duro entre dois projetos de país e duas estratégias de enfrentamento da crise mundial, que está longe de acabar.

Uma, preconiza desarmar a sociedade e amesquinhar o  Estado. Liberado o campo – de que faz parte derrotar o PT – entrega-se a economia à lógica do arrocho, esfarelando direitos, empregos, renda e soberania, para dessa forma canalizar riqueza aos mercados encarregados de reordenar  o país, a economia e os pilares do crescimento.

É a mesma lógica da ‘contração expansiva’ (contração dos de baixo para abrir caminho à expansão dos do alto) aplicada na Europa há quatro anos, com os resultados sabidos.

A outra estratégia envolve uma obstinada negociação política das linhas de passagem para um novo ciclo de desenvolvimento.

Ancora-se em quatro patas: avanço da igualdade, salto na infraestrutura, impulso industrializante do pré-sal e reforma política com democracia participativa.

Nessa repactuação  de metas, prazos, concessões, sacrifícios, ganhos e salvaguardas, a voz dos mercados não poderá se impor, nem abafar a da sociedade, que para isso requisita canais adicionais que a vocalizem.

Esse é o jogo, cujo segundo tempo começa agora.

Leia o texto completo.

Fonte: Saul Leblon, Há uma pedra no meio da língua de Aécio. Em Carta Maior 06/10/2014

Leia Mais:
Quer saber mais sobre política? Alguns endereços úteis

Blogueiros entrevistaram Dilma

Veja o vídeo da entrevista concedida pela Presidenta Dilma Rousseff a um grupo de blogueiros no dia 26/09/2014:

Entrevista de Dilma aos blogueir@s – Blog do Miro 27/09/2014

Dilma recebeu os blogueiros Altamiro Borges (Blog do Miro), Conceição Oliveira (Blog da Maria Frô), Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Conceição Lemes (Viomundo), Miguel do Rosário (Cafezinho), Paulo Moreira Leite (247), Kiko Nogueira (Diário do Centro do Mundo) e Renato Rovai (Revista Forum).

Links para estes (e outros) blogs aqui.

De Moniz Bandeira para Roberto Amaral sobre Marina

Em carta a Roberto Amaral, o historiador Moniz Bandeira critica as posições assumidas por Marina Silva e diz que elas enxovalham a história do PSB

Moniz Bandeira: Posições de Marina Silva enxovalham a história do PSB

Estimado colega, Prof. Dr. Roberto Amaral

Presidente do PSB,

A Sra. Marina Silva tinha um percentual de intenções de voto bem maior do que o do governador Eduardo Campos, mas não conseguiu registrar seu partido – Rede Sustentabilidade – e sair com sua própria candidatura à presidência da República.

O governador Eduardo Campos permitiu que ela entrasse no PSB e se tornasse candidata a vice na sua chapa. Imaginou que seu percentual de intenções de voto lhe seria transferido.

Nada lhe transferiu e ele não saiu de um percentual entre 8% e 10%. Trágico equívoco.

Para mim era evidente que Sra. Marina Silva não entrou no PSB, com maior percentual de intenções de voto que o candidato à presidência, para ser apenas vice.

A cabeça de chapa teria de ser ela própria. Era certamente seu objetivo e dos interesses que representa, como o demonstram as declarações que fez, contrárias às diretrizes ideológicas do PSB e às linhas da soberana política exterior do Brasil.

Agourei que algum revés poderia ocorrer e levá-la à cabeça da chapa, como candidata do PSB à Presidência.

Antes de que ela fosse admitida no PSB e se tornasse a candidata a vice, comentei essa premonição com grande advogado Durval de Noronha Goyos, meu querido amigo, e ele transmitiu ao governador Eduardo Campos minha advertência.

Seria um perigo se a Sra. Marina Silva, com percentual de intenções de voto bem maior do que o dele, fosse candidata a vice. Ela jamais se conformaria, nem os interesses que a produziram e lhe promoveram o nome, através da mídia, com uma posição subalterna, secundária, na chapa de um candidato com menor peso nas pesquisas.

O governador Eduardo Campos não acreditou. Mas infelizmente minha premonição se realizou, sob a forma de um desastre de avião. Pode, por favor, confirmar o que escrevo com o Dr. Durval de Noronha Goyos, que era amigo do governador Eduardo Campos.

Uma vez que há muitos anos estou a pesquisar sobre as shadow wars e seus métodos e técnicas de regime change, de nada duvido. E o fato foi que conveio um acidente e apagou a vida do governador Eduardo Campos. E assim se abriu o caminho para a Sra. Marina Silva tornar-se a candidata à presidência do Brasil.

Afigura-me bastante estranho que ela se recuse a revelar, como noticiou a Folha de São Paulo, o nome das entidades que pagaram conferências, num total (que foi, declarado) de R$1,6 milhão (um milhão e seiscentos mil reais), desde 2011, durante três anos em que não trabalhou. Alegou a exigência de confidencialidade. Por que a confidencialidade? É compreensível porque talvez sejam fontes escusas. O segredo pode significar confirmação.

Fui membro do PSB, antes de 1964, ao tempo do notável jurista João Mangabeira. Porém, agora, é triste assistir que a Sra. Marina Silva joga e afunda na lixeira a tradicional sigla, cuja história escrevi tanto em um prólogo à 8a. edição do meu livro O Governo João Goulart, publicado pela Editora UNESP, quanto em O Ano Vermelho, a ser reeditado (4a edição), pela Civilização Brasileira, no próximo ano.

As declarações da Sra. Marina Silva contra o Mercosul, a favor do subordinação e alinhamento com os Estados Unidos, contra o direito de Cuba à autodeterminação, e outras, feitas em vários lugares e na entrevista ao Latin Post, de 18 de setembro, enxovalham ainda mais a sigla do PSB, um respeitado partido que foi, mas do qual, desastrosamente, agora ela é candidata à presidência do Brasil.

Lamento muitíssimo expressar-lhe, aberta e francamente, o que sinto e penso a respeito da posição do PSB, ao aceitar e manter a Sra. Marina Silva como candidata à Presidência do Brasil.

Aos 78 anos, não estou filiado ao PSB nem a qualquer outro partido. Sou apenas cientista político e historiador, um livre pensador, independente. Mas por ser o senhor um homem digno e honrado, e em função do respeito que lhe tenho, permita-me recomendar-lhe que renuncie à presidência do PSB, antes da reunião da Executiva, convocada para sexta-feira, 27 de setembro. Se não o fizer – mais uma vez, por favor, me perdoe dizer-lhe – estará imolando seu próprio nome juntamente com a sigla.

As declarações da Sra. Marina Silva são radicalmente incompatíveis com as linhas tradicionais do PSB. Revelam, desde já, que ela pretende voltar aos tempos da ditadura do general Humberto Castelo Branco e proclamar a dependência do Brasil, como o general Juracy Magalhães, embaixador em Washington, que declarou: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”

Cordialmente,

Prof. Dr. Dres. h.c. Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira

Quem é Moniz Bandeira? Confira aqui e aqui.

Quer saber mais sobre política? Alguns endereços úteis

:: Blog da Boitempo

:: Blog da Cidadania: Eduardo Guimarães

:: Blog do Esmael

:: Blog do Marcelo Auler

:: Blog do Mello

:: Blog do Miro: Altamiro Borges

:: Blog do Rovai: Renato Rovai

:: Blog do Sakamoto: Leonardo Sakamoto

:: Brasil 24/7

:: Brasil Debate

:: Brasil de Fato

:: CartaCapital

:: DCM: Diário do Centro do Mundo

:: Fórum 21

:: IHU Online

:: Luis Nassif Online

:: Nocaute

:: O Cafezinho

:: Opera Mundi: Breno Altman

:: Outras Palavras

:: Portal Bepe Damasco

:: Portal Vermelho

:: Rede Brasil Atual

:: Revista Fórum

:: The Intercept Brasil

:: Tijolaço

:: Vi o Mundo – O que você não vê na mídia: Luiz Carlos Azenha

:. Uma lista mais completa? Lista de sítios no Blog do Miro

O mundo conspira contra Marina

Discurso do medo, uma ova! – De Saul Leblon: Carta Maior 18/09/2014

O mundo conspira contra Marina, mas ninguém diz.

Para Marina não há conflito entre o fastígio dos banqueiros e os interesses populares. O conflito que existe na sua leitura do Brasil é entre corruptos e elites

Marina precisa esconder a questão principal em jogo nestas eleições. Por isso é crucial expô-la, como Dilma começou a fazer no debate da CNBB, nesta 3ª feira:

‘A principal lição da crise de 2008 é a necessidade de impor uma regulação ao sistema financeiro, não o contrário, não o hiperliberalismo’, resumiu a Presidenta, fuzilando o projeto do BC independente , do voto e da democracia, encampado pela candidata do PSB.

Não é um assunto palatável. Mas é traduzível. Prova-o a tentativa do PSB de interditá-lo no horário eleitoral.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, encampou o pedido de Marina de suspender a propaganda petista, na qual se relaciona o impacto dessa proposta num lar assalariado.

Se agiu honestamente, Janot subestima o poder de fogo do arsenal que hoje mantem 100 milhões de desempregados no mundo.

A Europa é uma advertência em carne viva.

Outrora referencia do Estado do Bem Estar Social, o continente não resistiu ao moedor da supremacia financeira. Paga em libras de carne humana a purga da desordem neoliberal, sob o comando dos bancos que a causaram.

O saldo da reciclagem até o momento sugere que a propaganda de Dilma é até cautelosa.

São mais de 20 milhões de desempregados na zona do euro; 119,6 milhões de pessoas (24,2% da população) transitam no limiar da pobreza em toda a Europa; US$ 1,3 trilhão foram entregues aos bancos europeus para salvá-los deles mesmos, enquanto as filas da Cáritas fornecem mais de um milhão de pratos de comida só na Espanha .

A contradição que a propaganda de Dilma condensa metaforicamente pode ser constatada de outra forma e ao vivo aqui mesmo.

Quando Marina Silva sobe nas pesquisas, as bolsas disparam; as consultorias exultam; as ações de bancos escalam píncaros de valorização. Manchetes faíscam sulfurosas.

Quando a ONU informa que no ciclo de governos do PT o Brasil reduziu a miséria em 75% e praticamente erradicou a fome (restrita a 1,7% da população), qual é a receptividade do glorioso jornalismo de economia?

Modesta, para sermos generosos.

A saúde dos mercados e a deriva da sociedade, como se vê em diferentes latitudes do planeta, não são contraditórias com essa concepção de eficiência econômica excludente. A mesma encampada agora pelo PSB que um dia foi de Arraes, hoje é o cavalo onde floresce o enxerto do hiperliberalismo denunciado por Dilma.

A confusão semântica entre um partido socialista tomado pela ideologia rentista e uma ex-seringueira que a isso empresta sua biografia não é involuntária.

Sem um lubrificante à altura do estupro, seria muito difícil vender ao eleitor agenda de um neoliberalismo desmoralizado.

O mundo conspira contra Marina, mas ninguém diz.

O jornal Valor desta 4ª feira (17/09) informa-nos em rodapé discretíssimo: ‘Os Estados Unidos sofreram mais um ano de estagnação da renda, uma vez que a recuperação da economia não consegue se traduzir em aumento da prosperidade para a média das famílias (…) cuja renda real aumentou apenas 0,3% em 2013…’.

Significa dizer que a renda média na principal economia capitalista do planeta encontra-se abaixo daquela de 25 anos atrás.

Mas os níveis de desigualdade regrediram ao padrão da Europa no início do século XX. Informa o livro de Thomas Piketty (‘O capital’), estranhamente ausente do debate eleitoral brasileiro.

Não é uma tragédia sem causa.

O lucro combinado dos seis maiores bancos americanos- JPMorgan Chase, Goldman Sachs, Citigroup, Wells Fargo, Morgan Stanley e Bank of America – saltou em 2013 para o seu maior patamar desde 2006: um aumento de ganho líquido de 21% ; ou US$ 74,1 bilhões em moeda sonante , segundo informou a Bloomberg.

A dificuldade da recuperação norte-americana, a mais lenta de todas, que fez o Fed, nesta 4ª feira, sinalizar a manutenção das taxas de juros baixas por ‘tempo indeterminado’ –para decepção do rentismo local e global– , não tem têm origem, porém, na crise de 2008.

O fio que interliga a persistente disseminação da pobreza nos EUA antes, durante e depois do colapso de 2008, é a hipertrofia do poder financeiro –que Marina quer vitaminar no Brasil.

É esse o elo entre a rastejante recuperação atual sob a batuta de Obama, a etapa aguda da crise que a antecedeu — capitaneada por Bush Jr– e, antes ainda, o período de apogeu que originou o desmonte regulatório do sistema financeiro legado por Roosevelt. Obra demolidora iniciada por Reagan (1981-1989), seguida da consolidação da hegemonia rentista sob a batuta do democrata Bill Clinton (1993-2001).

Radiografar essa espiral e traduzi-la para o idioma político destas eleições não é recorrer ao discurso do medo, como querem alguns.

São fatos que a retrospectiva norte-americana ilustra exaustivamente. Por exemplo:

1. Os salários da força de trabalho nos EUA estão em queda ou estagnados desde os anos 90;

2. Para 60% dos trabalhadores americanos , o valor da hora/trabalho estagnou ou caiu;

3. Em 1996 a renda média familiar já era inferior a de 1986 (uma corrosão que persiste);

4. O emprego estável esfarelou; a fatia dos trabalhadores com cerca de 10 anos no mesmo emprego caiu de 41% em 1979 para 35,4% em 1996 ( e embicou nos anos mais recentes);

5. A desigualdade se acentuou: a renda de uma família padrão de classe média encolheu, apesar do borbulhante fastígio rentista; apenas 10% dos lares abocanharam 85% dos ganhos propiciados pela farra financeira dos anos 80/90;

6. O trabalho se degradou: ao conquistar uma nova vaga, um desempregado ganha, em média, 13% menos que no trabalho anterior; em 1997, 30% dos empregos já operavam em tempo parcial, evidenciando uma economia que simultaneamente abdicou da indústria em troca dos ‘custos chineses’;

7. Nessa mutação estrutural , enquanto a fatia da renda apropriada pelos lares mais ricos (o 1% dos aplicadores em ativos) cresceu de 37,4% para 39%, o universo de lares sem ingressos ou com rendimento negativos saltou de 15,5% para 18,5%; na população negra, 31% dos lares tinham renda zero ou negativa em 1995.

Repita-se: tudo isso antes do colapso da subprime.

Esse paradoxo feito de desmonte industrial e exploração extrema, de um lado, e bonança rentista, do outro, só não explodiu antes graças à válvula de escape do endividamento maciço das famílias, que atingiu seu limite no estouro da bolha imobiliária, em 2008.

Os antecedentes mostram que a advertência feita pela propaganda de Dilma não é descabida.

É crucial para um projeto de desenvolvimento equitativo recompor e aprofundar a regulação do sistema financeiro, incluindo-se aí o controle sobre a mobilidade de capitais.

Foi isso que Dilma começou a dizer na CNBB. E Precisa continuar a dize-lo, de forma cada vez mais clara.

É isso que faz a propaganda vetada pelo procurador Janot.

Sem desmontar a supremacia financeira –e isso significa dar ao governo, ao Estado e à democracia os instrumentos de comando sobre o capital– será impossível consolidar um novo ciclo de investimento e alterar a redistribuição do excedente econômico no país.

Esse é um dos maiores desafios do desenvolvimento no século XXI

Mas para Marina o nome da crise é PT, não capitalismo destrambelhado.

Para Marina não existe conflito entre o fastígio dos banqueiros, e dos mercados financeiros, e os interesses populares.

O conflito que existe na sua constrangedora leitura da história é entre bons e maus; entre corruptos e elites bacanas; entre dilmas gerentonas e necas solícitas; entre o PT degenerado

–que “colocou um diretor para assaltar os cofres da Petrobrás”– e a virtuosa turma de novos amigos dos mercados.

É nessa toada que Marina, Aécio e seus apêndices pretendem levar a flauta da campanha até o fim.

As candidaturas progressistas não podem sancionar essa anestesia do discernimento popular.

Discurso do medo, uma ova, é preciso dizer, mimetizando a sagaz Luciana Genro.

A crise evidenciou que na ausência de regulação estatal da finança, a genética autodestrutiva do sistema passa a operar em condições de baixa demanda efetiva, elevado desemprego e especulação suicida.

A superação do impasse só virá se e quando o Estado detiver maior poder de comando para exercer seu papel indutor do crédito e do investimento produtivo.

Contra isso se insurge o conservadorismo. E ao seu desfrute se oferece Marina Silva e o seu tripé: BC independente; desregulação do pré-sal e desmonte da CLT.

Discurso do medo? Uma ova.

Artigo publicado originalmente em http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Discurso-do-medo-uma-ova-/31823

Poderia Marina dizer a que veio?

Se Marina hoje não pode nos dizer a verdade, é preciso que sejamos capazes de dizer a verdade a Marina.

Por que Marina não pode dizer a verdade? – Juarez Guimarães: Carta Maior 13/09/2014

O primeiro alerta partiu do deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, em carta aberta dirigida à Marina Silva no dia 30 de agosto: “Bastaram quatro tuites do pastor Malafaia para que, em apenas 24 horas, a candidata se esquecesse dos compromissos de ontem anunciados em um ato público transmitido por televisão e desmentisse seu próprio programa de governo, impresso em cores e divulgado pelas redes. É com essa autoridade de quem agiu de boa fé, que agora digo: Marina, você não merece a confiança do povo brasileiro. Você mentiu a todos nós e brincou com a esperança de milhões de pessoas”. A explicação dada pela campanha de Marina foi totalmente inconvincente: teria sido um erro de edição, de quem formatou o programa!

Agora, vem o juízo do respeitado colunista Jânio de Freitas, documentando inverdades ditas várias vezes por Marina sobre três questões importantes: o pré-sal, os transgênicos e a relação entre suas opiniões políticas e religiosas. “Há uma lenda de que sou contra os transgênicos. Mas isto não é verdade”, disse Marina em entrevista a William Bonner e Patrícia Poeta. Jânio de Freitas registra que apenas uma pesquisa entre os anos 1998 e 2002 revelou que Marina não só fez seis discursos contra os transgênicos como apresentou um projeto de lei proibindo-os inicialmente por cinco anos. Argumentava com base “em cinco referências bíblicas”, “tendo em vista o lado espiritual”.

Da mesma forma, Jânio documentou várias declarações públicas recentíssimas da candidata contra o pré-sal. E, ao final de seu breve juízo, afirmava que Marina parece confirmar a fórmula de que se “deveria esquecer tudo o que antes havia dito”.

Agora, no dia 11 de setembro, vem a repórter Letícia Fernandes, de O Globo, documentar que Marina mentiu na sabatina feita pelo jornal. Marina afirmou que havia dado, quando era senadora, um parecer contrário ao projeto do deputado Filipe Pereira (PSC-RJ) que exigia “a obrigatoriedade da manutenção de exemplares da Bíblia Sagrada nos acervos das bibliotecas públicas “. “Me deram um relatório de um projeto que obrigava a colocar bíblias em todas as bibliotecas. Eu dei parecer contrário”, afirmou a O Globo. A pesquisa da repórter comprovou que Marina não deu o parecer contrário.

Não é razoável também pedir a alguém que acredite, como Marina repetiu várias vezes, que a sua relação com uma das principais herdeiras do Banco Itau, que coordenou o seu programa de governo e que a teria convencido da necessidade de defender a autonomia do Banco Central, seja por afinidades eletivas apenas como educadoras. Essa relação desinteressada tornou-se completamente inverossímil depois que se revelou que a amiga bancou 83 % das verbas, um milhão de reais, em 2013 do Instituto que Marina dirige e que lhe garante a sobrevivência.

Aliás, Marina não parece ter dito a verdade quando respondeu aos repórteres que não podia revelar os clientes nem quanto lhe pagaram por proferir palestras nos últimos anos porque estes clientes lhe exigiam cláusulas de confidencialidade. Uma pesquisa feita pelo jornal O Estado de São Paulo revelou quem eram estes clientes: grandes bancos, empresas e seguradoras como o Santander, o Banco Crédit Suisse, a multinacional Unilever, a Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e Capitalização, faculdades neoliberais. E, ao contrário do que Marina afirmou, confidenciou ao repórter um banqueiro: quem pedia cláusula de confidencialidade era a própria Marina !

O antigo tesoureiro da campanha do PSB, Márcio França, candidato a vice-governador na chapa de Alckmin, não parece ser também um representante da “nova política”. Ele certamente não disse a verdade quando declarou à imprensa que os documentos do avião em que viajava Eduardo Campos e seus companheiros não podiam ser apresentados porque estavam dentro dele e teriam sido provavelmente destruídos na queda. Como se documentou fartamente depois, na verdade, o avião havia sido comprado com notas frias e laranjas por empresas fraudulentas.

E muito menos o novo tesoureiro da campanha de Marina, agora diretamente indicado por ela, Álvaro de Souza, parece indicar novos rumos na política. Ele é ex-presidente do…City Bank no Brasil! Haja “nova política”!

Marina parece querer ocultar a verdade de seus eleitores quando declarou que não subirá aos palanques nem de Alckmin em São Paulo nem de Lindhenberg no Rio. É uma forma de não querer misturar sua imagem à “velha política” e mostrar eqüidistância em relação ao PT e ao PSDB. Mas ela combinou, então, com o deputado Beto Albuquerque, seu vice, para ir ao primeiro programa de TV Alckmin no horário eleitoral gratuito manifestar o seu apoio ao governador do PSDB? Ou ele agiu contra a sua opinião no principal colégio eleitoral do país? Aliás, Marina sabe, já que foi inclusive noticiado na imprensa, que este deputado federal pelo PSB do Rio Grande do Sul teve a sua candidatura financiada pela empresa Monsanto, principal interessada na aprovação dos transgênicos, e até por fabricantes de armas! É ele, então, um representante da “nova política”?

Marina não diz a verdade nem quando acusa o PT, partido no qual se formou e militou durante 27 anos: Paulo Roberto teria sido indicado pelo PT “para assaltar os cofres da Petrobrás’. Ora, este indivíduo ocupou cargo de direção na Petrobrás desde 1995, durante o primeiro governo FHC, e foi demitido no dia 19 de abril de 2012 por Graça Foster, indicado por Dilma para a presidência da Petrobrás.

O que não pode mais ser escondido

Ricardo Noblat, certamente um dos jornalistas com informações mais confiáveis sobre o que se passa na cúpula do PSDB, noticiou que a firme opinião de Fernando Henrique Cardoso era de que Aécio não deveria criticar Marina, deveria, ao contrário, renunciar à sua candidatura à presidência e apoiar já Marina no primeiro turno. Aécio resistiria a esta decisão por ter esperanças de ainda poder salvar de uma derrota arrasadora o candidato do PSDB ao governo Ora, como se documentou fartamente em artigo publicado em Carta Maior, “A “nova’ Marina é criatura de FHC”, o paradigma de programa, os economistas mandatados, a nova direção política de sua campanha, os financiadores e tesoureiros, seus argumentos e sua linguagem estão diretamente inseridas no campo político e intelectual organizado por FHC. Mas Marina não pode reconhecer esta ligação tão orgânica porque viria abaixo a sua identidade de ser a protagonista de uma “nova política” que visa superar a polarização PSDB e PT. Daí que esta relação íntima tenha de ser permanentemente escondida ou negada aos eleitores.

Mas uma contradição ainda mais explosiva tem de ser o tempo todo administrada por Marina. De um lado, ela afirma compromissos em aumentar os recursos do governo federal para a educação, para a saúde, para o Minha Casa Minha Vida, para o Bolsa Família, o valor do salário-mínimo , o emprego etc. Do outro, cada vez que falam os economistas mandatados por ela, Eduardo Gianetti e André Lara Resende, dois economistas neoliberais cujo radicalismo cheira à barbárie, é o inverso o que dizem. É como se Marina dissesse ao mesmo tempo: “odeio futebol mas não perco um jogo do Flamengo!”. Ou melhor: meu compromisso é com os pobres .. mas só gostar de andar atualmente com grandes banqueiros!.

Marina leu o que disse Eduardo Gianetti na entrevista publicada na capa do jornal Valor Econômico, de 6 de setembro, quando este afirmou com todas as letras “que os compromissos na área social assumidas pela candidata do PSB serão cumpridos à medida que as condições fiscais permitirem ? ” E que “ esses compromissos se distribuem no tempo. É um erro grave imaginar que o que está colocado no programa vá se materializar no primeiro orçamento”?

Marina ouviu a palestra pública proferida por André Lara Resende que uma “boa economia não pode ser feita com bons sentimentos” e que, ao invés de se ajudar os pobres do Nordeste, é preferível investir na educação? Será que ela leu que em seu programa está escrito que a legislação trabalhista que protege os direitos dos trabalhadores brasileiros deve ser superada ou contornada, como estão denunciando os principais representantes da tradição jurídica do Direito do Trabalho no Brasil?

De novo: Marina não pode fugir da contradição porque ela é, a sua própria candidatura, a contradição. Tem que documentar que ela é confiável e, como se diz em linguagem neoliberal, “amiga do mercado financeiro”, mas, ao mesmo tempo, tem de cultivar a adesão dos que querem direitos sociais mais universalistas e de melhor qualidade. Isto é, está impedida de dizer a verdade.

Violência e ilusão

A violência, todo o sentido anti-democrático e anti-popular, da principal proposta de Marina Silva para a economia – a chamada “autonomia” do Banco Central – é revelada quando se documenta que o Brasil já teve um Banco Central autônomo. Este era um sonho antigo dos econômistas liberais ortodoxos brasileiros como Eugênio Gudim, Octávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos desde os anos quarenta do século passado, que travaram desde sempre uma luta de vida ou morte contra Celso Furtado e as tradições desenvolvimentistas brasileiras.

Eles conseguiram realizar este sonho exatamente com o golpe militar de 1964: a reforma bancária logo anunciada pelos golpistas transformava a antiga Superintendência da Moeda e do Crédito ( Sumoc) em Banco Central e concedia autonomia para as autoridades monetárias. A diretoria do Banco central era composta por quatro membros, escolhidos dentre seis membros do Conselho Monetário Nacional, com mandatos fixos de seis anos.

Denio Nogueira, o primeiro presidente do Banco Central, era consultor do Sindicato dos Bancos do Rio de Janeiro e da ALALC ( Associação Latino Americana para Livre Comércio) e desde os primeiros anos da década de sessenta passou a fazer parte do IBAD ( Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e do IPES ( Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Enquanto o IPES era o órgão que disseminava propaganda para justificar o golpe militar, o IBAD era encarregado de manipular os recursos para financiar e corromper candidatos comprometidos com o golpe na democracia. Depois de cumprido o seu mandato interrompido pelos generais – promoveu uma forte desvalorização cambial, que lhe provocou forte desgaste, tendo sido chamado junto com Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões de “trindade maldita” – Denio Nogueira foi representante no Brasil do grupo Rotschild and Sons, indicado por Eugênio Gudin, mostrando que desde o início houve forte intimidade entre diretores do BC e os grandes grupos financeiros internacionais.

É claro, a candidata Marina nada sabe disso. Faz parte do ator político transformista devorar o passado, inclusive o próprio, e inscrever-se em um tempo messiânico que promete o novo. Isto é para ele uma necessidade já que não pode explicar a razão de sua mudança, as rupturas que teve que fazer e os novos compromissos que teve de assumir.

Toda a violência da ação transformista de Marina está inscrita nesta passagem da política de opiniões fundamentalistas sobre temas da moral – por definição, o fundamentalista é aquele que defende verdades para além dos séculos e das circunstâncias – para a política pragmática, que, por definição, é aquela que ajusta a sua política à necessidade de vencer a todo custo.

Uma política carismática deve oferecer ao seu público as provas de sua autenticidade. Se a autenticidade lhe é desmentida, o carisma vem abaixo. Mas a verdade – uma relação clara e nítida com os seus eleitores – é, como procuramos demonstrar, o que Marina não pode mais representar.

Na política, assim como na vida, há momentos em que é preciso defender as pessoas que já amamos e cujo passado admiramos do que elas vieram a ser e fazer contra a dignidade da sua própria memória. Se Marina hoje não nos pode dizer a verdade, é preciso – é absolutamente necessário – que sejamos capazes, democraticamente e de modo sereno, dizer a verdade à Marina.

Juarez Guimarães é cientista político.

A direita tem um rosto: Marina

Se ganhar a eleição – e hoje é franca favorita -, a ideia da Política como contraponto ao Mercado  – foi esse contraponto que garantiu todos os direitos sociais e políticos para os pobres e para os trabalhadores ao longo do século XX – terá sido derrotada nas urnas. A própria ideia de que o espaço público deve estar governado pelo primado da razão sairá derrotada por uma candidata que pratica a “roleta bíblica” antes de tomar decisões políticas, e que no último debate no SBT atacou a política feita de modo “cartesiano” – ou seja, sob o domínio da razão.

Marina Silva: o que ela representa? Rodrigo Vianna: Escrevinhador 03/09/2014

Marina Silva, em crescimento vertiginoso segundo todas as pesquisas(bobagem achar que estejam todas erradas), não é um raio em céu azul. Não é um acidente de percurso.Ela representa a restauração conservadora. Ela oferece um rosto para a “não-política” que explodiu em junho de 2013. Mas que vem de longe…

Como já escrevi aqui, Marina tem uma trajetória respeitável e em muitos momentos lutou contra as injustiças no Brasil. Mas quem conhece meia dúzia de livros de História sabe que os indivíduos nunca são aquilo que gostariam ou que afirmam ser. Muitas vezes, no meio do turbilhão da história, acabam por cumprir um papel em tudo diverso do que haviam reservado para si mesmos.

Marina pode bater no peito e dizer: “sou o novo”. Não é. Infelizmente, ela cumpre nessa eleição, nesse momento histórico, um outro papel. “Marina, tu costeaste o alambrado”, diria o velho Brizola. Costeou o alambrado, passou para o outro lado. Assumiu o programa do desemprego tucano, virou um cruzamento “exótico” de FHC com o pastor Malafia.

Sequestrada pelos ultraliberais na economia (a Neca do Itaú e os tucanos de bico colorido vão mandar na economia num provável governo marineiro), e pelos ultraconservadores nos costumes, Marina significaria um passo atrás gigantesco na economia, na política, nos direitos humanos.

Lula também cedeu: negociou, fez a Carta aos Brasileiros. Mas tinha com ele um campo político, orgânico, robustecido por 30 anos de lutas. Marina é o bloco do “eu e os bons”. Risco também para a Democracia. Lula negociou para implantar (pelo menos em parte) um programa de centro-esquerda. Marina cedeu (e mudou de lado) para ser ela própria a comandante do bloco conservador. Há uma diferença considerável.

A essa altura, Marina coloca-se mesmo à direita de Aécio Neves. Patrocinada pelo Itáu, ela apóia a autonomia completa do Banco Central (nem os tucanos com Armínio Fraga ousam ir tão longe), para atender aos interesses dos banqueiros e investidores. Aliada a lideranças do submundo religioso, rechaça os direitos de homossexuais e abandona a defesa do mundo LGBT. Parceira dos que pretendem enterrar o Mercosul e a Celac, ataca o que chama de “bolivarianismo” e rende-se aos interesses dos Estados Unidos – propondo que se paralise o projeto do Pré-sal.

Por tudo isso, Marina é hoje a adversária mais perigosa dos trabalhadores e de quem aposta na redução das desigualdades e injustiças. Não só na eleição, mas a médio e longo prazos. Marina não é só uma candidatura, mas um projeto que precisa ser enfrentado e derrotado: agora, nas urnas; ou depois, se ela eventualmente chegar ao poder.

Quem acredita que o voto em Marina significa a “nova” política precisa olhar o mapa eleitoral nos estados. Nova política vai levar Garotinho ao poder no Rio e Alckmin em São Paulo? Não. Marina é o velho escondido sob o manto do novo.

É curioso notar: ao contrário de 1989, quando os adeptos de Collor estavam nas ruas usando seus adesivos e bandeiras, Marina avança quase em silêncio. Parece um voto de protesto. Mas suponho que seja mais que isso.

Na entrevista de Lula aos blogueiros, em abril, perguntei se o PT não havia falhado, ao abrir mão do combate simbólico. E Lula: “mas você quer mais simbolismo do que eleger um operário e uma mulher para a presidência?”. Sim, Lula, foi pouco. Enquanto o PT operava mudanças importantes (mas parciais, insuficientes), o discurso conservador avançava pelas profundezas. Na guerra dos símbolos, a esquerda perdeu feio. Só que na hora da decisão, não há um tucano ou um demo, mas uma ex-petista travestida de “novo”, pronta para realizar o serviço.

O PT teve sua imagem arrasada num combate permanente. Claro, cometeu também muitos erros. Mas nenhum outro partido foi tão atacado. Não é à toa: o PT era um símbolo a ser destruído. Dilma (apesar da firmeza para enfrentar o mercado financeiro e os EUA) parece fraca para reagir sozinha: isolou-se, centralizou decisões, absteve-se da política. Sobrou Lula, que a partir de 2015 terá sua cabeça colocada a prêmio.

A direita fatiou Lula/Dilma/PT em três pedaços, e fez o combate separadamente. Até agora, vem dando resultado. A derrota de Dilma seria a derrota do projeto lulista, mas seria mais que isso.

O historiador Fernand Braudel tem uma metáfora bonita para falar desses movimentos quase invisíveis nas sociedades: enquanto na superfície do mar observamos a espuma, é nas profundezas que as grandes correntes desenham movimentos de “longa duração”.

Marina representa um somatório de movimentos desse tipo. Se ganhar a eleição (e hoje é franca favorita), a ideia da Política como contraponto ao Mercado (foi esse contraponto que garantiu todos os direitos sociais e políticos para os pobres e para os trabalhadores ao longo do século XX) terá sido derrotada nas urnas. A própria ideia de que o espaço público deve estar governado pelo primado da razão sairá derrotada por uma candidata que pratica a “roleta bíblica” antes de tomar decisões políticas, e que no último debate no SBT atacou a política feita de modo “cartesiano” (ou seja, sob o domínio da razão).

Movimentos irracionalistas, anti-razão, já deram as caras na história do Ocidente mais de uma vez. E isso sempre acabou mal.

Se Marina vencer, o pensamento progressista (e não só o PT) terá sido derrotado de forma ampla. O “velho” vai mostrar as garras. Algumas ideias centrais do campo progressista serão derrotadas pela candidata da “nova” política. Vejamos…

1) A ideia de que os menos favorecidos podem (e devem) se organizar em sindicatos, partidos e movimentos para obter conquistas coletivas terá sido derrotada pelo discurso do “fora partidos” e do “viva a nova política”.

A campanha midiática antipolítica vem de longe, e explodiu nas ruas em junho de 2013. Mas vejam que a longa campanha tem um endereço claro: enfraquecer, ou liquidar se assim fosse possível, qualquer organização popular (ou de esquerda). A criminalização da política é uma criminalização da esquerda (e isso eu vi a rua, na avenida Paulista em 2013, quando hordas de extrema-direita tentavam agredir jovens com camisa do PSOL e do PSTU, dizendo que eram “petralhas”, “comunas de merda”). Marina aproveita-se desse discurso, insufla, incentiva e colhe os resultados desse discurso.

2) A ideia de que há interesses divergentes na sociedade e que nem sempre é possível acolher a todos terá sido derrotada. Luciana Genro (PSOL) disse isso a Marina num debate: “de que lado você está, Marina?”. A história de governar com “os bons” de todos os partidos é autoritária (quem escolhe os “bons”?) e mascara os conflitos. Num governo Marina, movimentos sociais serão ainda mais criminalizados como aqueles que não enxergam a “nova política” em que “Neca Setubal e Chico Mendes são elite do mesmo jeito” (frase de Marina, a revelar – num lapso quase freudiano – o que ela representa de fato).

3) O conservadorismo nos costumes terá avançado mais. Marina recusa-se a defender lei contra a homofobia porque é preciso resguardar o “direito individual” de quem pensa diferente. Parece o Partido Republicano dos EUA. Mas não é só isso. O mesmo conservadorismo que domina a TV aberta com programas policialescos no fim de tarde – e que leva milhares de cidadãos (inclusive os mais pobres e mais vulneráveis) a defenderem a polícia que “prende e arrebenta” – de certa forma ganha a batalha das ideias.

O PT e boa parte dos tucanos históricos (hoje o PSDB, que já foi de Montoro e Covas, abriga em seus quadros policiais matadores, num claro giro à direita) representam uma espécie de anteparo a esse discurso da barbárie. Marina acaba (em parte) caudatória do eleitorado que nos grandes centros urbanos apóia esse discurso.

Marina, como disse lá na abertura, é parte de um processo de restauração conservadora. Da mesma forma que o cerco a Vargas em 54 e a eleição de Janio em 1960 eram parte do mesmo processo que terminaria com o golpe de 1964.

Só que Marina transforma esse processo em algo fluido, difícil de ser detectado pela massa de eleitores suscetível ao discurso da antipolítica.

A direita tem um rosto. É o rosto de Marina. Lamento, mas foi o papel que ela escolheu representar.

Vai ganhar? Hoje, é o mais provável. Os argumentos que expus acima poderiam levar a derrotá-la. Mas temo que não haja tempo. Dez anos de anti-política e conservadorismo subterrâneos não se combatem em um mês ou dois.

De toda forma, a batalha agora é necessária. Quem acha que o conservadorismo precisa ser enfrentado de frente deve se contrapor a essa onda marineira: para ganhar ou perder. Depois das urnas, a vida segue, e o combate será ainda mais duro.

Marina: orgia de passado a entrevar nosso futuro

Há um problema neste quadro de festividades para a direita e de funeral para o futuro do país: falta combinar este programa com o próprio país que pretende governar. O Brasil tornou-se complexo demais para uma tal visão simplista da sua realidade.

Marina e os desastres do passado – Flávio Aguiar: Rede Brasil Atual 03/09/2014

Não, cara leitora, caro leitor: não é o passado de Marina que é o desastre. Pelo contrário, Marina Silva tem um passado louvável de luta ambientalista. Além disso, tem o direito de se candidatar ao que quiser e como quiser. Mas há um “outro passado” que está se grudando nela, e este “outro passado” é que é o desastre. Pior: é um desastre que aponta para o futuro.

Marina diz que vai governar “para além das alianças”, ou algo assim. Ninguém sabe o que isto quer dizer exatamente – exceto que isto é uma retórica impossível de ser cumprida, a menos que ela queira passar por cima das instituições da República, o que, sinceramente, duvido. Fatalmente haverá alianças.
(…)
O que se projeta para o futuro de um possível governo Marina contém uma razoável dose de esperança – por quem defenda este tipo de política – de retorno sim ao passado e de muitos de seus espectros: orgia do mundo do mercado financeiro no tal do “Banco Central Independente”, contenção do salário mínimo e do poder aquisitivo da maioria da população (inclusive de parte considerável da classe média que apoia hoje Marina ou Aécio), desarticulação ou redução (até a inércia) da política de transferência de renda para os mais pobres, desossamento de políticas como a do Prouni ou do Ciência sem Fronteiras, talvez também do Mais Médicos, cortes nos subsídios a setores fragilizados da economia, ao custo da energia, reserva do pré-sal para tempos futuros quando a Petrobras já esteja privatizada e transformada em Petrobrax, e ainda de quebra o reatrelamento preferencial da política externa brasileira aos interesses recessivos e depressivos dos Estados Unidos, da União Europeia e do Japão. Em suma, uma orgia de passado a entrevar nosso futuro.

Há um problema neste quadro de festividades para a direita e de funeral para o futuro do país: falta combinar este programa – realmente previsto para ser executado pela direita que hoje absorve a figura de Marina, a ponto de transformar-lhe o gestuário e a mudar propostas, como no caso do casamento gay – com o próprio país que pretende governar. É claro que este receituário da direita segue a norma neoliberal de que o propósito de um governo deve ser o de semear o caos e a catástrofe, garantindo privilégios e administrando a contenção de direitos da cidadania, para depois administrar este caos e esta catástrofe…

Leia o texto completo.

Messianismo, fundamentalismo e mercado

O maior risco que o Brasil pode correr é a chegada, algum dia, de um fundamentalista ao Palácio do Planalto. Disse alguém, em incerto dia.

Leia o artigo abaixo. É muito lúcido.

Messianismo, fundamentalismo religioso e poder para o mercado financeiro

Acreditava que no Brasil não havia o risco de um novo salvador. Afinal, o momento em que Collor apareceu como candidato da nova política parece distante.

Flávia Biroli – Carta Maior: 02/09/2014

A candidata do PSB, Marina Silva, se apresenta como a representante da “nova política”.

A política não seria feita de acordos e disputas entre partidos políticos e grupos na sociedade, mas de uma reunião das pessoas “de bem”. Quem define quem faz parte da “nova política” é a própria candidata, com uma sabedoria que, ao que parece, viria da pureza de quem está fora da política e imbuída de uma missão.

Acreditava que no Brasil de hoje não havia o risco de um novo salvador. Afinal, o momento em que Collor apareceu como candidato da “nova política”, contra a política dos marajás, parece não apenas distante, mas de algum modo aquém do patamar em que as disputas se colocaram desde então.

Estava enganada. Temos hoje novamente uma candidata que se apresenta como a representante da “nova política”.  A recusa da dinâmica política aparece como a solução, os partidos e as instituições são vistos como entraves, mas sua candidatura só foi possível porque seguiu a rota mais convencional do casuísmo, tomando carona em um partido que nada tem a ver com a agenda que parecia ser a sua. E tudo para garantir que não ficaria de fora da disputa eleitoral, mesmo não acreditando nos caminhos desta política.

Marina Silva também se apoia em concepções da economia que nada têm de novas, que são defendidas há décadas pelos banqueiros e pelos economistas que estão com ela – eles tiveram, aliás, lugares bem pagos e de prestígio em consultorias, bancos e em governos anteriores.

Maior controle do mercado sobre o Banco Central (a independência do BC), ajustes na economia para restabelecer a “confiança” dos investidores, é assim o “novo” de Marina Silva. Ela é “nova” financiada pelo Itaú, fazendo acordos com o agronegócio e com uma agenda econômica produzida por André Lara Resende (quem não se lembra dele, pode lançar no Google confisco da poupança no governo Collor, grampo do BNDES, banco Matrix, privatização da Telebras etc.) e Eduardo Gianetti (que repete a fórmula dos “ajustes duros” e da autonomia do Banco Central, além de elogios à política econômica de Fernando Henrique Cardoso).

O fundamentalismo religioso a coloca numa posição em que a crença supera os direitos individuais. Já falou a favor do criacionismo, recusando o conhecimento científico. É contrária aos direitos dos homossexuais e prefere diluir os problemas em noções vagas de diferença a enfrentar o fato de que sua posição colabora para a recusa da cidadania e para a violência contra tantas pessoas. É mulher na política, mas retirou a palavra “sexismo” do seu programa de governo. Afinal, conflitos são coisa do passado.

O que ela teria de distinto, sua identidade de ambientalista, vai rapidamente pelo ralo. Afinal, é preciso garantir a “confiança”. E como não há conflitos na sociedade dos discursos de Marina Silva, as dúvidas sobre os transgênicos se resolvem definindo áreas de plantio para transgênicos e não-transgênicos: um caminho para a paz entre o agronegócio e os ambientalistas, afinal! E o etanol se transforma em aliado do ambientalismo, garantindo um lugar para os usineiros no pacote da “nova política”.

O messianismo garante que Marina Silva seja “líder nata” sem propostas e com a entrada mais tradicional no jogo político. Ela está acima das disputas e dos conflitos. E os acordos… bem, os acordos são feitos à velha moda, nos bastidores, enquanto ela repete “nova política”, “nova política”, “nova política”.

Sabemos, no entanto, que os conflitos sociais não desaparecem e os apoios de banqueiros, investidores e empresários são cobrados depois. Sabemos também que por mais complicado que seja governar com instituições democráticas, sem elas nós todos nos tornamos reféns do que nos reservam as boas intenções ou a vontade de uma “iluminada”.

Flávia Biroli é professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.

Marina e a leitura fundamentalista da Bíblia

Marina passou para um cristianismo pietista e fundamentalista que tira o vigor do engajamento e se basta com orações e leituras literalistas da Bíblia (Leonardo Boff).

:: Bispo de SP: Marina traz risco de ‘fundamentalismo’ – Brasil 24/7 — 03/09/2014
O bispo de Jales (SP), dom Demétrio Valentini vê com temor a possível vitória na eleição presidencial da ex-ministra Marina Silva (PSB), uma evangélica da Assembleia de Deus. “Agora, a gente tem medo do fundamentalismo que ela pode proporcionar. Existe na Marina uma tendência ao radicalismo, pela convicção exagerada ao defender seus valores e suas motivações, que pode derivar para o fundamentalismo”, disse ele em entrevista ao Valor. Para o bispo, Marina traz o risco de fazer da religiosidade um instrumento de ação política. Ele vê sua ascensão nas pesquisas como uma situação “irreversível”. A não ser que haja uma reviravolta em que comecem a pesar as fragilidades de Marina, que não estão no fato de ela não ser católica. Estão em ela ter pouca articulação política e portanto existirem dúvidas sobre como ela vai governar. Dom Demétrio ainda lamentou o fato de a presidente Dilma Rousseff não ter estabelecido “muitas pontes” com a Igreja. “A Dilma tem um estilo mais autoritário, ela pouco nos convocou. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o fazia com muita frequência”, disse.

:: Leonardo Boff ao 247: “Dilma é a melhor opção” – Brasil 24/7 — 02/09/2014
Questionado a avaliar a mudança de Marina Silva desde que a conheceu, no Acre, até 2014, quando se candidata à Presidência da República pelo PSB, Boff observa, como primeiro ponto, a mudança de religião. “De um cristianismo de libertação, ligado aos povos da floresta e aos pobres, passou para um cristianismo pietista e fundamentalista que tira o vigor do engajamento e se basta com orações e leituras literalistas da Bíblia”. Para Boff, a candidatura da ex-senadora “representa uma volta ao velho e ao atrasado da política, ligada aos bancos e ao sistema financeiro. Seu discurso de sustentabilidade se tornou apenas retórico”. Em sua visão, Marina não possui a habilidade de articulação. “Se vencer, oxalá não tenha o mesmo destino político que teve Collor de Mello”, prevê. Na entrevista, ele comenta ainda sobre o pessimismo generalizado no País – “grande parte induzido por aqueles que querem a todo custo e por todos os meios tirar o PT do poder” – e dá sua opinião sobre a mídia: “hoje, com a oposição fraca, eles se constituíram a grande oposição ao governo do PT”. Entrevista concedida ao jornalista Paulo Moreira Leite.