Religião e formação de classes na antiga Judeia 8

8. Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia

8.1. A conclusão a que se chegou até aqui é a de que sob o controle romano a base do domínio não era mais a tradição, mas o direito abstrato. Como aprofundar esta conclusão? Pesquisando a alteração das instituições sociais nesta época romana. Documentos: documentos de Murabba’at (encontrados no deserto de Judá e que foram levados para lá pelos partidários da revolta de Bar Kosiba entre 132-135 d.C.), NT e tradição tanaíta (os Tannaim são os rabinos que escreveram a Mishnah no séc. II d.C.).

:: Da fiança ao arremate da propriedade
8.2. O direito de hipoteca se baseava na regra da penhora (= ‘ârab): o devedor insolvente tem que trabalhar para seu credor (= escravidão por dívida – 6 anos) ou entregar seus bens para pagar a dívida: isto funcionava no tempo de Neemias. Qumran ainda conhece este direito: 1Q22 III 4-6; 11QMelquisedec e 4QOrdb 513.

8.3. A literatura rabínica (Mishna Shebî`it 10) e o NT (Mt 5,25-26/Lc 12,58) mostram outra norma: não é mais o credor, mas é o juiz que é considerado o responsável em cobrar a dívida contra o devedor. Se o devedor não pode pagar, fica preso até que algum familiar o faça.

8.4. Há também o caso, documentado na literatura rabínica, do prozbol: caso houvesse execução da dívida, as terras do devedor passavam definitivamente para a posse do credor (e não por um tempo determinado como era antigamente a lei israelita). Esta regra está documentada em Murabba’at. “Esta concessão pertence à tradição jurídica greco-romana [prosbolê, em grego] e representa novidade no direito judaico de penhora, novidade esta que possibilitava contratos de dívida entre judeus e estrangeiros” (p. 130). Também o ano de perdão caiu, segundo Mur 18. E os juros aparecem também em Lc 16,6-7 (ver nota a da Bíblia de Jerusalém (2002) a Lc 16,8). E o caso da casamento onde a ketubbâ substituiu o mohar (= dote).

:: As consequências da insolvência
8.5. Prisão por dívida fiscal já era conhecida antes da era helenística (Esd 7,26), mas agora há prisão por dívida particular como testemunha a parábola do servo cruel (Mt 18,23-25). O Estado agora protegia os contratos particulares, porque o credor não era mais o pequeno camponês vizinho (e parente, dentro do clã), mas o daneistês, o profissional de empréstimos ou o administrador de grandes propriedades. Antigamente, o vizinho credor aceitava como pagamento o trabalho do devedor (= escravidão por dívida); agora, não se aceita mais o trabalho, porque a mão de obra era abundante [consequência do tipo de cultivo e da tomada da terra pelos grandes investidores] e o credor queria era dinheiro ou terras

8.6. A conclusão é que há duas diferenças entre o pré-exílio e a época romana:
. o empréstimo antes do exílio era assegurado pela mão de obra (= escravidão por dívida); no pós-exílio (época persa/grega), o empréstimo era garantido pelo terreno e pela mão de obra; agora (época romana) o empréstimo é garantido pelo fator de produção terra e dinheiro, porque este é o interesse dos credores

. não se emprestavam somente víveres para plantação e consumo (como no pré-exílio), mas emprestava-se dinheiro. E o credor podia declarar a terra do devedor insolvente como sua propriedade particular, para compensar o empréstimo.

. “Os dois momentos apontam para uma sociedade na qual terra e trabalho tornaram-se meios abstratos da produção de valores, e na qual também o empréstimo servirá a este fim” (p. 133) [Beide Momente verweisen auf eine Gesellschaft, in der Land und Arbeit zum abstrakten Mittel der Produktion von Werten geworden waren und in der auch das Darlehen diesem Zweck diente]

:: Do patrimônio à propriedade particular
8.7. Os contratos de venda encontrados entre os documentos de Murabba’at e os evangelhos (Mt 13,44;Lc 14,18) mostram que a limitação da venda da terra pela prerrogativa agnática não vale mais. Acaba-se também o direito de herança agnática.

:: Relações de produção
8.8. Nesta época na Palestina havia: o pequeno agricultor [Kleinbauerntum], o arrendatário (colono) [Pachtverhältnis – Kolonat] e a oikos (trabalhada por escravos ou operários) [Sklaverei und Lohnarbeit basierenden Oikos]. Na literatura rabínica há três formas de arrendamento:
. o sôker, que arrenda a terra por uma quantia de dinheiro
. o hôker, que arrenda a terra por uma quantidade de mantimentos
. o ‘arîs, que é arrendador parcial.

8.9. O arrendamento parcial…

8.10. A oikos…

8.11. O arrendamento por uma quantia de dinheiro ou mantimentos…

8.12. Bar Kosiba arrendou as terras (que ele confiscou de Roma)…

8.13. O que se nota, nesta época, é a decadência do pequeno agricultor, porque o sistema de arrendamento tomou conta. Como as famílias não conseguiam pagar a parte da colheita devida ao Estado, suas terras eram desapropriadas. A economia familiar tradicional era imprópria para a produção de excedentes lucrativos para os novos senhores e a nova ordem econômica. “É na racionalidade deste economia que se funda a razão de os grupos familiares não terem mais grande importância no tempo dos romanos” (p. 141) [In dieser ökonomischen Rationalität ist es begründet, daß die Familienbetriebe in der römischen Zeit keine allzu große Bedeuteng mehr hatten].

:: Nova racionalidade econômica nas parábolas evangélicas
8.14. As parábolas usam, como símbolos, elementos da ordem social da Galileia: Mc 12,1-11; Mt 20,1-15; Mt 25,14-28; Lc 12,57-59. A colheita era tempo de alegria no AT: agora em o NT não o é mais: Mt 25,24; Jo 4,37; Mt 13,30; Jo, 4,36.

. “A relação trabalho/produto cedeu à mediação que simboliza a situação escatológica: a relação do homem com suas necessidades é transmitida através do poder” (p. 142).

. “A interpretação da relação de Deus como não recíproca, recorre ao tipo de senhorio prebendal de terras” (p. 142). Isto é uma consequência teológica (indireta) das relações sociais…

8.15. As fontes histórico-sociais da época romana testemunham:
. a submissão dos agricultores livres ao sistema de apropriação do excedente
. a perda da força das instituições antigas, que protegiam a sociedade judaica da formação de classes
. que o novo proprietário da terra hipotecada pode dispor livremente dela e que os parentes agnatos perdem seus direitos de herança, enquanto o devedor insolvente vai para a cadeia
. o progresso social realizou-se contra as antigas tradições da solidariedade [Die Ausrichtung der Ökonomie auf Rentabilität war möglich nur als Widerspruch zu den egalitären religiösen Traditionen – p. 155 da edição de 1978]. O complexo tradicional rural-sacerdotal, sancionado por Neemias, como resistência à formação de classes, perdeu definitivamente sua força.

 

Leia em seguida:

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Religião e formação de classes na antiga Judeia 7

7. A evolução de um domínio sem tradições na Judeia e a revolta crescente contra ele (142 a. C.- 135 d. C.)

:: Dominadores Asmoneus e seus adversários (142-63 a. C.)
7.1. A ordem política na Judeia após a vitória dos Macabeus nos é transmitida em 1Mc 14,27-47. As instituições que compõem a assembleia deliberativa no tempo de Simão (140 a.C.) são:
. os sacerdotes
. o povo (laós)
. os arcontes da nação (a gerousia de Jerusalém, que se distingue da aristocracia do país)
. os anciãos da terra

7.2. A junção dos poderes de sumo sacerdote, estratego (poder militar) e etnarca (poder político) em uma única pessoa fundamentou novo controle do poder e uniu a motivação religiosa à expansão político-militar.

7.3. O Estado asmoneu não durou por causa dos romanos e por causa das divisões internas. Os acordos com Roma eram feitos (com o Senado) pelo sumo sacerdote e povo judeu (demos). A transformação, por Alexandre Janeu, do sumo sacerdócio em reinado (segundo Flávio Josefo foi Aristóbulo quem introduziu o reinado em 105 a.C.) era uma violação das normas judaicas (libertando a máquina estatal dos cidadãos) e causou a oposição da velha aristocracia que exigiu o afastamento do reinado, o que, de fato, os romanos fizeram.

:: Arrendamento do Estado republicano e secularização do poder (63-43 a. C.)
7.4. Por que Pompeu interferiu no Oriente? Interesses também financeiros: houve revolta, na Ásia, contra o pagamento de impostos a Roma, recolhidos pelos publicanos (ordo publicanorum) e Pompeu veio restabelecer os interesses dos publicanos.

7.5. Submeteu Jerusalém e seu território (a Judeia) a tributo (juridicamente, stipendium): era prêmio pela vitória e castigo pela guerra. Entre os anos 63 e 44 a.C., uma sociedade de publicanos, sediada em Sídon, tinha adquirido o direito, do Estado romano, de recolher, como tributo dos produtores, uma quarto da colheita.

7.6. Os agricultores firmavam um pacto diretamente com a societas: isto excluía a intermediação da aristocracia local. Tanto a supervisão das colheitas como a troca dos produtos ficava a cargo da Sociedade dos Publicanos. O arrendamento do estipêndio valia por um turno de 5 anos, podendo ser suspenso por Roma.

7.7. Como a revolta contra Roma era intensa, especialmente no meio rural (muitos judeus apoiavam Aristóbulo), o governador Gabínio (57-55 a.C.) tomou várias medidas de amplas consequências:
. mandou reconstruir as cidades helenistas
. separou o cargo de sumo sacerdote da administração política, em Jerusalém
. separou o santuário da politéia
. regulamentou aristocraticamente a constituição
. dividiu o povo em cinco partes, ficando cada uma delas submetida a uma cidade dirigida por um sinédrio: Jerusalém, Gadara, Amato, Jericó e Séforis. Além da justiça local, estas cidades tinham função na arrecadação de impostos aduaneiros (portoria)
. protegia as cidades contra a pressão dos publicanos para atrair a aristocracia local para o seu lado

7.8. O idumeu Antípater era epimeletés, era comandante militar e não estava, de fato, submetido ao poder executivo do sumo sacerdote. No ano 47 a.C. César o nomeou epítropos (procurador) da Judeia: isto aumentou seu poder militar e seu poder de comando sobre a quota dos impostos. Quando em 44 a. C. terminou o contrato com a sociedade dos publicanos, o arrendamento dos impostos lhe foi entregue totalmente.

7.9. Já a aplicação da justiça era da competência do Sinédrio de Jerusalém.

7.10. A administração dos tributos sob Antípater: a Judeia devia pagar 700 talentos de prata (cada talento = 26 kg; 26 x 700 = 18200 kg!) a Roma. Quando as cidades de Gofna, Emaús, Lida e Tamna não puderam pagar o devido, o magistrado e toda a população foram vendidos como escravos. E suas terras e propriedades confiscadas.

> A Judeia foi dividida, sob Antípater, em onze toparquias e a aristocracia local (os dynatoí) eram quem arrendava o direito de recolher o tributo.

7.11. Uma toparquia tinha a seguinte organização:
. ela é controlada por um stratêgós
. tem um escrivão dos contratos de compra, dívida e arrendamento: o komogrammateús
. e tem o parnas, que vem do grego prónoos, chefe e administrador de escalão inferior
. os tribunais judeus (synédrion, boulê) pertenciam à organização política dos subúrbios das toparquias

:: Herodes cria um poderio livre das tradições (42-4 a. C.)
7.12. No confronto entre Herodes e Antígono podemos observar:
. os partidários de Antígono viviam especialmente na Judeia e na Galileia e são relacionados por Flávio Josefo com o “banditismo galileu” que vivia em espeluncas, estava organizado e atacava sobretudo estrangeiros. Este banditismo surgiu da impossibilidade dos camponeses pagarem tributo e queria reconstruir a antiga ordem
. os partidários de Herodes viviam na Samaria, na Idumeia e partes da Galileia e eram membros de uma aristocracia economicamente bem situada, etnicamente indiferente. Havia entre eles ricos latifundiários.

7.13. Herodes não tinha legitimidade judaica, pois descendia de idumeus e sua mãe era descendente de árabe! Foi legitimado por um essênio, como uma escolha divina. Assim, Herodes, por ser estrangeiro, não tinha para com os judeus nenhuma relação de reciprocidade e sua legitimidade se fundava na própria estrutura do poder exercido.

7.14. Quando venceu os seguidores de Antígono, Herodes construiu uma estrutura de poder independente da tradição judaica:
. nomeava o sumo sacerdote do Templo: destituiu os Asmoneus e nomeou um sacerdote da família sacerdotal babilônica e, mais tarde, da alexandrina
. exigia de seus súditos um juramento que obrigava a pessoa a obedecer às suas ordens em oposição às normas patriarcais (se uma pessoa recusasse o juramento, era perseguida, com exceção dos fariseus e dos essênios)
. interferiu na justiça do Sinédrio
. mandava vender os assaltantes (também revolucionários políticos) como escravos no exterior (e sem direito a resgate!)
. a venda à escravidão e a execução pessoal (a morte) tornaram-se normas comuns do arrendamento estatal

7.15. Mas, se ele violava assim a tradição, como conseguia legitimidade?
. A estrutura de poder do Estado sob Herodes era bem diferente da estrutura da época do Asmoneus:
– o rei era legitimado como pessoa e não por descendência
– o poderio não se orientava pela tradição, mas pela aplicação do direito pelo senhor
– o direito à terra era transmitido pela distribuição: o dominador a dava ao usuário, era a assignatio
– a base filosófica helenística é que legitima o poder do rei, quando diz que o rei é a “lei viva”(émpsychos nómos), em oposição à lei codificada, ou seja: o rei é a fonte da lei, porque ele é regido pelo nous. O rei é a imagem de Deus que ordena e conserva o cosmos pelo nous: o rei tem função salvadora e, por isso, dá aos seus súditos uma ordem racional, através das normas do Estado. O rei em pessoa é a continuação do seu reino e o salvador de seus súditos
– o poder militar de Herodes se baseava nos mercenários estrangeiros que ficavam em fortalezas, ou em terras (cleruquias) dadas aos mercenários por ele (terras no vale de Jezrael), e nas cidades não-judaicas por ele fundadas, a cujos cidadãos ele tinha dado como posse o território que as rodeava, com os camponeses dentro!

:: “Leiturgía” ou serviço público no tempo de César e a formação da revolução
7.16. Quando Arquelau foi deposto, no ano 6 d.C., a Judéia tornou-se província romana, governada por uma procurador (prefeito) que tinha o imperium em suas mãos:
– poder total de administrador [Verwaltung] – juiz [Rechtsprechung] – defensor [Verteidigung]

. Duas medidas foram tomadas: a venda dos domínios reais (de Arquelau) e um recenseamento:
– as propriedades reais foram declaradas ager publicus e vendidas. Assim os domínios reais do vale de Jezrael (antigamente do sumo sacerdote Hircano) e da Galileia foram vendidos a estranhos, que nada tinham a ver com as tradições judaicas
– o recenseamento servia para registrar pessoas e bens, em vista do pagamento do tributum solis et capitis

. o tributum capitis, cobrado em dinheiro, somava-se aos tributos sobre os produtos da terra e aos impostos indiretos e alfandegários. Pesava muito, por isso, sobre quem não tinha propriedades. Foi este o objeto da pergunta feita a Jesus sobre o “imposto a César”. Era de 1 centésimo na Síria, mas era mais pesado na Judéia, por causa das revoltas (no mínimo 1 denário)

. o tributum solis era cobrado em víveres e dinheiro.
– os responsáveis pelo recolhimento destes impostos eram os magistrados das toparquias e os aristocratas locais: este sistema de assegurar dívidas coletivas de impostos pela riqueza dos escolhidos para a magistratura era chamado de leiturgía e era característico da época dos césares

7.17. O direito de nomear o sumo sacerdote e de controlar a guarda das vestes sacerdotais ficou com Herodes de Cálcis e, em seguida, com Agripa II. A jurisdição foi transmitida ao procurador e este a confiou ao Sinédrio. A pena capital era, entretanto, direito intransferível do procurador.

:: As facções revoltosas e seus motivos
7.18. A revolta dos judeus contra Roma tinha três metas:
. suspensão do pagamento dos tributos
. suspensão dos sacrifícios pelo povo romano e seu César
. ereção da soberania política

7.19. A guerra dos anos 66-73 d.C. tinha três centros:
– o Templo
– a Judeia
– a Galileia

. Nos conflitos internos entre as várias tendências, observamos que:
– o conflito entre os grupos galileus era caracterizado pela oposição entre princípios aristocráticos e democráticos. O grupo proletário atualizou a tradição judaica do qahal (ekklesía), assembleia, contra a aristocracia que tendia a transformá-la em associação normativa da cidade. “O tradicionalismo radical democrata da população das cidades da Galileia foi provavelmente o meio político que Jesus pressupôs”(p. 120). Nota 111, p. 120: “As parábolas evangélicas, que se referem às situações sociais e políticas da zona rural da Galileia, apresentam um mundo de duas classes: a dos ricos e a dos pobres, a dos latifundiários e a do pequeno e endividado agricultor. Uma camada política, a dos funcionários urbanos (estrategos e arcontes) não tem graduação digna de nota”.
– O movimento zelota era formado pelos sacerdotes em Jerusalém (ano 66 d.C.) – o movimento zelota é atestado sob este nome somente no ano 66 d.C. Mas é provável que suas origens estejam ligadas à resistência de Judas, o Galileu e do fariseu Sadoc por ocasião do recenseamento de Quirino, no ano 6 d.C.; enquanto os sicários representavam o movimento rural revolucionário da Judeia, dirigido por Judas, o Galileu, e seus sucessores (nem todos os sicários eram galileus, mas estavam ligados à Galileia através de seus líderes – só a Judeia fora atingida pela nova ordem no ano 6 d.C., a Galileia não). Zelotas e sicários entraram em choque em Jerusalém: os sicários executaram o sumo sacerdote Ananias – pai de Eleazar, chefe dos zelotas; os zelotas mataram Menaém, filho de Judas, o Galileu. Então os sicários se retiraram para Massada.

7.20. O autor apresenta, no resumo das pp. 123-125, 4 teses sobre o cerne do conflito:
> os judeus relacionaram, e com razão, tributos e escravidão. Dois momentos fundamentais explicitam este processo: em 142 a.C. a suspensão dos tributos selêucidas foi saudada como libertação e em 6 d.C. a imposição de registro dos bens particulares (censo) em vista de impostos foi vista como prelúdio da escravidão aberta

> havia um conflito entre a antiga aristocracia, formada pelos antigos moradores, a gerousia e o sinédrio, e a nova aristocracia do dinheiro e do exército, engajada no arrendamento estatal. Os donos tradicionais das terras (a velha aristocracia) tinham interesse em possuir grande número de dependentes (para mobilização em caso de conflitos), enquanto a nova aristocracia prefere os donativos em víveres e dinheiro (preferindo vender o devedor, em caso de insolvência, a estrangeiros, do que fazê-lo escravo por dívida)

> a tradição religiosa judaica da aliança Iahweh-Israel limitava o crescimento das diferenças sociais e da estratificação de classes. Daí o apelo às normas religiosas serem fundamentais para os grupos de resistência judaica… normas desativadas pelo sistema jurídico do dominador que foi, pouco a pouco, sendo implantado

> a guerra contra Roma nos anos 66-73 d.C. não foi da classe baixa contra o latifúndio (leitura de KREISSIG), pois ela seria impossível sem a participação ativa da aristocracia nativa pertencente ao Sinédrio. Esta aristocracia, que não se beneficiava do arrendamento estatal, tinha bons motivos para participar do levante… Todos lutavam (apesar das diferenças) por uma ordem na qual a tradição religiosa garantisse a legitimidade da ordem social!

 

Leia em seguida:

Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia – Die Etablierung der antiken Klassenverhältnisse in Judäa

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Religião e formação de classes na antiga Judeia 6

6. Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística

Obs.: o capítulo 6 não está todo resumido…

A questão tratada é: qual é a “interpretatio graeca” das estruturas da sociedade asiática?

:: Helenismo como conceito histórico-filosófico
6.1. J. G. DROYSEN (Geschichte des Hellenismus, 1836) acredita que a intenção de Alexandre seria a fusão da essência ocidental e oriental, meta que conseguiu, mas que correu risco após sua morte.
. DROYSEN caracteriza o helenismo como “mistura” do grego macedônio com a vida étnica local. Por detrás disso está o princípio filosófico da mediação do particular (etnias orientais) com o geral (o helenismo).
. DROYSEN compara o sucesso do helenismo com o da burguesia do séc. XIX.

:: Sociedades sem a institucionalizada procura do lucro
6.2. A etnografia de Heródoto (485-424 a.C.)…

6.3. As obras literárias gregas dos séc. IV-III a.C.

6.4. Comparando Diodoro Sículo (que se apoia em Hecateu de Abdera) com Heródoto…

6.5. Evêmeros…

6.6. Jâmbulo…

6.7. Conclusão…

:: A harmoniosa sociedade de Moisés
6.8. Hecateu de Abdera escreveu sobre os judeus…

6.9. A Carta de Aristéias a Filócrates (entre 145 e 100 a.C.)…

6.10. Conclusão: são dois os princípios que determinaram a exposição dos aspectos políticos do judaísmo antigo:
. as tradições judaicas são formuladas em forma de nómoi (leis) gregas
. a sociedade judaica é apresentada como protótipo da pólis, onde os cidadãos são iguais.

6.11. Resumo: a finalidade da exposição: corrigir uma ideia de helenismo como algo sem contradição, que é a ideia de DROYSEN. A etnografia grega, ao escrever sobre as sociedades orientais e ao mostrá-las como sociedades harmônicas (idealizando-as), está denunciando o helenismo como sociedade de classes.

 

Leia em seguida:

Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judeia e a revolta crescente contra ele – Die Progression einer traditionsfreien Herrschaft in Judäa und des Widerstandes gegen sie

Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia – Die Etablierung der antiken Klassenverhältnisse in Judäa

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Religião e formação de classes na antiga Judeia 5

5. Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade (332-142 a.C.)

:: Arrendamento do Estado e mobilização dos excedentes
5.1. A pólis grega não tinha uma burocracia estatal profissional. Quanto às finanças públicas, a pólis arrendava a particulares o recolhimento os impostos, por tempo limitado.

> A administração ptolomaica somou este arrendamento à estrutura oriental de controle do Estado sobre o cálculo e a arrecadação dos impostos: as aristocracias orientais participaram, assim da exploração econômica e tiveram influência no Estado.

5.2. Dois decretos de Ptolomeu II Filadelfo, de 261/260 a.C., sobre a administração da província siro-fenícia, mostram que havia em um distrito um ecônomo que controlava as finanças e toda uma hierarquia de funcionários inferiores. Todos os camponeses palestinos pagavam tributo: cada um pagava ao arrendatário de sua aldeia.

5.3. No fim do século III a.C. José Tobias assumiu o controle sobre a arrecadação tributária da província siro-fenícia. Flávio Josefo diz que ele levou aos judeus a prosperidade. E foi de dois modos: fez diminuir o número de bocas para comer através da escravidão (rendendo assim mais excedentes) e estimulou culturas mais rentáveis (olivais no lugar de cereais).

:: A aristocracia se emancipa da hierocracia
5.4. A teoria grega do Estado admitia a pólis e o éthnos. Sob Antíoco III, a Judeia é considerada como éthnos (pode ser que o fosse também sob os Ptolomeus). O decreto de Antíoco III, de 198 a.C., é ilustrativo, especialmente porque nos permite ver os primeiros passos da emancipação da aristocracia (a gerousia) da hierocracia. A autonomia étnica trouxe aos aristocratas das cidades novas possibilidades: a lei baseava-se no poder do conquistador, proprietário nominal da terra conquistada, que cedia a quem ele bem quisesse a sua exploração. Isto estava em contradição com a base jurídica da posse (e não propriedade da terra, segundo a tradição judaica (a terra é de Iahweh). Estava aberto o caminho para a ruptura da aristocracia com a tradição antiga.

5.5. Esta ordem política foi confirmada pelos Selêucidas sucessores de Antíoco III, como o testemunham documentos macabeus e romanos.

:: Motivos da luta dos Macabeus pela liberdade
5.6. O problema do comércio, aos sábados, em Jerusalém, permanecia. E isso era insuportável aos ricos. Aí vem Jasão.

5.7. Há um texto em Estrabão que foi identificado como um manifesto antiasmoneu originário dos círculos helenizantes. E eles justificam suas atitudes dizendo que as prescrições judaicas tradicionais violam as normas mosaicas. Jerusalém fora fundada por Moisés como pólis e devia se adequar a isso.

5.8. A resistência dos Macabeus é contra a intromissão estatal no direito sagrado: os Macabeus são sacerdotes – os revolucionários fazem valer os antigos mandamentos: 1Mc 2,34;2,46 etc; os seus adversários seguem as ordens do rei: 1Mc 2,19-20;6,21-23 etc. Baseiam-se na antiga solidariedade de descendência (chamada por Kippenberg de solidariedade segmentária – segmentärer Solidarität) contra o domínio político do Estado helenizante.

5.9. E os motivos da luta são também econômicos, gerados pelo arrendamento estatal. Quando, em 142 a.C., o rei Demétrio II concedeu aos judeus isenção das contribuições, isto foi festejado como libertação da escravidão e começo de uma nova era (1Mc13,41-42).

> É que, com o desaparecimento do arrendamento, a aristocracia não era mais identificada com o Estado, dando aos camponeses maior folga em relação aos senhores da terra. A desigualdade permaneceu a mesma, mas os camponeses conseguiram controle sobre o excedente.

5.10. Já no ano 152 a.C., Demétrio I fizera uma promessa de isenção, o que nos dá ideia do montante dos tributos. É 1Mc 10,29-31 que narra a isenção dos três tipos de tributos:
. todo o povo (e não só a gerousia e parte dos sacerdotes, como no decreto de Antíoco III) é libertado dos impostos individuais
. é suspenso um tributo que corresponde a um terço da colheita e a metade dos frutos das árvores
. é assegurada a isenção dos impostos (= 2,5% sobre a circulação de mercadorias) e do dízimo (= antigo imposto sobre os produtos da terra). Eles agora são receitas do Estado macabeu, recolhidos junto aos judeus

5.11. Concluindo: o sistema de arrendamento estatal grego a aristocratas abastados é que levou, em boa parte, ao conflito. Como direito de conquista da terra, os dominadores exigiam tributos, e os aristocratas os recolhiam dos camponeses e os repassavam, violando as normas étnicas internas do povo judeu.
. A lógica (grega) deste arrendamento era: reduzir o direito de cidadania a pequena faixa aristocrática, mantendo os produtores como simples moradores, objeto de conquista, sem direito de cidadania.
. E esta lógica estava funcionando, até que, em Jerusalém, uma camada aristocrática forçou a helenização e entrou em choque com o direito sagrado tradicional do povo judeu. Aí veio o conflito com os Macabeus. Que não teve objetivos religiosos. O que se queria era uma reforma da constituição da Judeia.

 

Leia em seguida:

Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística – Zur Interpretation asiatischer Gesellschaften in hellenistischer Ethnographie

Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judeia e a revolta crescente contra ele – Die Progression einer traditionsfreien Herrschaft in Judäa und des Widerstandes gegen sie

Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia – Die Etablierung der antiken Klassenverhältnisse in Judäa

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Religião e formação de classes na antiga Judeia 4

4. Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias (446-432 a. C.)

4.1. O surgimento das cidades áticas, especialmente de Atenas…

:: Crise agrária na Judeia
4.2. Ne 5,1-5 narra um conflito social na Judeia. Há três grupos de queixosos:
. alguns empenharam seus filhos (escravidão por dívida) para receber alimentos
. outros hipotecaram suas terras na época da fome
. outros ainda, por não ter pago os impostos, tiveram que vender seus filhos como escravos

> Há determinada sequência na formação da dependência: primeiro penhoram-se os filhos (escravidão), depois a terra.

> A penhora dos filhos é a ‘ârab: o devedor insolvente tem que trabalhar para seu credor até saldar sua dívida. Mas se não for possível esta retribuição direta, ele e sua família podem ser vendidos a um terceiro como escravos por dívida e o credor recebe o seu preço.

4.3. Os casos de empobrecimento de um israelita e as respectivas soluções são as seguintes, segundo Lv 25,23-55:
. ele, o empobrecido, vende seu campo ou sua casa
. ele recebe dinheiro ou víveres como empréstimo
. ele é vendido a um israelita
. ele é vendido a um estrangeiro

4.4. Aí aparece o seguinte: a venda do campo ao goel agnático era o primeiro passo que levava um camponês à pobreza. A escravidão do chefe de família vem em segundo lugar. É o contrário de Ne 5.

4.5. Examinemos o caso 2 de Ne 5,1-5: o caso daqueles que têm campos, vinhas, casas e oliveiras (v. 11) e que tiveram que empenhá-los durante uma penúria. Trata-se de penhora cujo usufruto foi transferido ao credor. Ou seja: o credor tem direito aos produtos excedentes.

4.6. Como aparece também em Mq 2,1 (“Ai daqueles que planejam…”) os credores podiam se apropriar com facilidade dos campos e das casas dos outros. Se o camponês que penhora sua produção não produzir o suficiente, acaba na escravidão. A penhora permite ataque direto do credor à propriedade e à família do devedor. E, como nos mostra o papiro 10 de Cowley (papiros de Elefantina, séc. V a.C.) – cf. p. 55 – é desproporcional o tamanho da penhora em relação ao empréstimo feito.

4.7. A crise do tempo de Neemias, que aparece em Ne 5, pode ter tido vários motivos, como:
. piora da qualidade da terra
. mau tempo que prejudicou a colheita
. crescimento do número de familiares
. divisão e diminuição das terras por causa da herança
. exigências estatais de pagamentos de impostos sobre o terreno, de acordo com seu tamanho
. e pior: este imposto tinha que ser pago em moedas

> Daí: quem já tivesse hipotecado seus campos e sua produção precisava vender filhos e filhas como escravos.

4.8. A terminologia desta formação de classes:
. ‘ebed: escravo, servo: é o último grau de dependência, é quando uma pessoa se torna objeto de compra. Há distinção entre escravo estrangeiro (permanente) e escravo israelita, por dívida, que deve ser libertado no sétimo ano (Ex 21,2;Lv 25,39-41;Dt 15,12).
. sâkîr: operário: é o caso de quem perdeu suas terras e resgatou suas dívidas pelo trabalho.
. tôshâb: morador: é o estrangeiro domiciliado em Israel com situação jurídica e social específica.
. ‘ikkâr: lavrador: citado em 7 textos do AT, indica em três deles um camponês dependente do dono da terra: Is 61,5; 2Cr26,10 e Jl 1,11. É possível, por causa da data destes textos, que esta dependência só tenha acontecido no pós-exílio.

4.9. Voltemos à crise da época de Neemias, como aparece em Ne 5,6-12:
. v. 7: “repreendi os nobres (hôrîm) e os magistrados (seganîm)
. Estes são os credores, dos quais muitos judeus dependiam: são da classe alta, pessoas de posses. Por que a repreensão de Neemias? É que o endividamento tinha como objetivo levar à venda (ao estrangeiro) o judeu empobrecido. É que estava florescendo o comércio de escravos no Mediterrâneo.

4.10. As providências tomadas por Neemias:
. foi uma anistia: renúncia às rendas (pelos credores) das terras hipotecadas
. consequência: exclusão da escravidão do judeu ao estrangeiro (se a lei tiver funcionado…)
. mas: não houve distribuição de terras para os sem-terra.

:: Revolta dos camponeses e religião
4.11. A queixa dos camponeses era contra três tipos de dependência:
. serviço para pagar as dívidas
. obrigação de pagar juros e tributos
. escravidão

> A queixa era baseada no conceito de fraternidade/solidariedade judaica, fundamentado na relação de parentesco. Desapropriação e escravidão não são compatíveis com esta ordem jurídica. Os conceitos de ‘âh = irmão, ‘âmît = compatriota e rê’a = amigo não são puramente intelectuais, mas designam os membros de uma sociedade solidária.

4.12. O cap. 25 do Levítico trata desta questão, da igualdade entre irmãos para todos os judeus, ao falar do sábado e do ano jubilar.

4.13. Mas para se entender bem este capítulo é preciso considerar a situação de sacerdotes e levitas em Israel no pós-exílio.

> O culto e o sacerdócio não tinham propriedades, dependiam do tesouro do Estado (Esd 4,3;5,1-17;6,4-9 etc). Sacerdotes e levitas viviam da contribuição dos camponeses, estando eles mesmos isentos de contribuição (Esd 7,24). Prestavam serviços em Jerusalém só de tempos em tempos, morando, no mais, em suas cidades e aldeias (Ne 11,20.36; 1Cr 24,1-19). Segundo o Dt os levitas não têm herança, terra, e são juridicamente iguais aos gerîm (estrangeiros residentes): mas esta é a visão dos levitas sobre si mesmos, uma vez que há indícios de que alguns sacerdotes e levitas possuíam terras (Jr 1,1;32,6-15; Am 7,17: estes são da nobreza; Ne 11,20;13,10; Lv 27,21 etc.) Era permitido aos levitas usar os prados comunitários (migrâsh) das cidades (‘îr): Js 14,4; Lv 25,34; Nm 35,1-8; 1Cr 6,39-41.

4.14. Lv 25 determina que:
. se o irmão deve vender seu terreno, então o parente agnático mais próximo deve comprá-lo
. se isto não for possível, no 49º ou 50º ano o antigo dono deve receber de volta sua propriedade vendida
. se o irmão receber empréstimo em dinheiro ou víveres, não se deve cobrar dele nem juros, nem quantidade maior de víveres
. se é vendido a israelita, não deve prestar serviços de escravo, mas deve ser considerado como um tôshâb (estrangeiro residente) ou um diarista. No ano jubilar esta condição de empregado termina e ele deve voltar ao seu clã
. se o irmão for vendido a estrangeiros como escravo, deve ser resgatado pelo parente mais próximo. Caso contrário, deve ser libertado no ano jubilar

4.16. Todas as cláusulas tentam evitar a formação de classes. Exige-se a solidariedade na forma de resgate e de ajuda ao vizinho, mas também há duas concepções teológicas específicas: o ritual do ano jubilar e o direito sagrado à terra (a terra é de Iahweh).

4.17. Lv 25,23 liga a ideia de propriedade sagrada da terra à regra da organização do clã israelita:
. a posse da terra é direito de usufruto e não de propriedade: é uma relação de posse, não uma relação jurídica, baseada na posse concreta da terra
. segue-se que a dívida não confere ao credor direito de propriedade, nem da terra nem do homem, mas apenas uso limitado, como paga pelo empréstimo
. o tempo de uso é de 49 anos
. unem-se três normas com o postulado do direito de uso:
– a ge’ulla (resgate da terra): o direito preferencial de compra da terra
– o direito de resgate das casas
– o resgate de israelita que cai na escravidão estrangeira.

4.18. É provável que esta casuística jamais tenha funcionado. Mas o importante é: segundo estas formulações, a solidariedade não se baseia mais na relação de parentesco, mas na relação sagrada da propriedade da terra e do homem. Este é o conceito que preside à queixa dos camponeses em Ne 5: um amplo conceito de “irmão” que ultrapassa as normas estritas de parentesco.

4.19. A regra do ano jubilar está em contradição com a norma do resgate imediato da terra e do escravo e do ano sabático: é porque estas regras não funcionam mais que se tem de exigir a regra dos 49 anos.

> O ano jubilar, primitivamente, devia indicar a nova divisão das terras entre as famílias dos clãs. Se o clã, no pós-exílio, fosse igualitário, não haveria necessidade de leis de devolução da terra. É sinal, o ano jubilar, de estratificação social, onde uma aristocracia, criada no interior do clã, tende a excluir os mais pobres.

4.20. Agora, por que o sentido religioso, dado pelos sacerdotes, à posse da terra, propriedade de Iahweh? Coincidência de interesses dos camponeses e sacerdotes/levitas empobrecidos. A classe sacerdotal sem terras estava interessada no controle público das terras e não na privatização da propriedade da terra. Só assim ela poderia ter certeza das contribuições para o Templo e para os seus agentes.

4.21. A consequência ideológico-política: instituições camponesas de solidariedade adquiriram fundamento religioso e teológico [Diese Konstellation von Interessen hatte zur Folge, daß Institutionen bäuerlicher Solidarität religiös begründet wurden].

:: Constituição tradicional da Judeia no tempo de Neemias
4.22. A Judeia da época de Neemias é também obra dos dominadores persas, que favoreceram a criação de um Estado sacerdotal (em oposição a um Estado político) como forma de manter o controle.
. Nos documentos de Esdras/Neemias distinguem-se israelitas, sacerdotes e levitas como grupos específicos (Ne 11,9.14.22).
. Através de uma carta enviada de Elefantina aos judeus de Jerusalém em 410 a.C., sabemos que havia um governador persa, uma comunidade sacerdotal com o seu chefe e uma comunidade aristocrática com o seu chefe.

4.23. E aparece determinada ordem social em Ne 10,31-38 (cf. texto). Esta ordem se fundamenta na tradição religiosa judaica e reflete a resistência do povo contra os interesses da aristocracia quer desejava se desligar das instituições tradicionais da religião/sociedade judaicas.
Especialmente:
v. 32b: a restrição da penhora (Ne 5)
vv.33.36.37b: o dízimo para os levitas (Ne 13,10)
v. 32a: a proibição de negociar no sábado (Ne 13,15)
v. 31: a proibição do casamento com estrangeiras (Ne 13,23)
v. 32b: o descanso da terra a cada 7 anos (cf. p. 67 para os motivos)

> São normas que vão contra os interesses aristocráticos. A reforma de Neemias favoreceu os camponeses da tribo.

4.24. “Neemias, o governador persa da província, assumiu os ideais dos camponeses devedores. Em nome do poder central baixou normas que protegiam os camponeses nativos, bem como o Templo contra um capitalismo comercial do tipo das cidades gregas” (p. 71-72).

 

Leia em seguida:

Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade – Griechische Staatspacht und makkabäischer Freiheitskampf

Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística – Zur Interpretation asiatischer Gesellschaften in hellenistischer Ethnographie

Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judeia e a revolta crescente contra ele – Die Progression einer traditionsfreien Herrschaft in Judäa und des Widerstandes gegen sie

Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia – Die Etablierung der antiken Klassenverhältnisse in Judäa

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Religião e formação de classes na antiga Judeia 3

3. Condições da economia na região montanhosa da Judeia no tempo do domínio persa (539-332 a. C.)

:: Discussão sobre a economia doméstica fechada
3.1. A partir da época persa a família (bêt ‘âb) tornou-se a unidade econômica fundamental, e não mais o clã. Também na Grécia e na Itália: o óikos, a família, formava a unidade fundamental da economia.

3.2. A questão da “economia doméstica fechada” [geschlossene Hauswirtschaft]…

3.3. A pergunta fundamental: surgiu algum progresso econômico que ameaçou as relações de parentesco da sociedade judaica? [Gab es wirtschaftliche Entwicklungen, die den Zusammenhalt der nach Verwandtschaftsgruppen organisierten judäischen Gesellschaft bedrohten?]

3.4. As fontes:
. os livros de Esdras, Neemias, Crônicas
. os papiros de Elefantina
. os livros de Ageu, Zacarias, Malaquias, Joel, partes de Ezequiel e Isaías, Jó e Rute
. os escritos sacerdotais

:: Agricultura
3.5. A província da Judeia, sob domínio persa, estava quase que só na região montanhosa. Somente no nordeste ela se estendia um pouco pela planície do Jordão.
. Na região montanhosa, o cultivo dependia das chuvas. Na planície era possível a irrigação e a rentabilidade era maior.
. As encostas íngremes das montanhas do leste impossibilitavam o aproveitamento da terra, enquanto que a região que descia para a planície costeira era mais favorável, só que a terra é calcária, desenvolvendo-se ali apenas plantas de raízes profundas como a oliveira, a parreira e a figueira.

3.6. Através de Ag 1,11 sabemos que na Judéia se cultiva o trigo, a vinha e a oliveira.
. Também Nm 5,11;13,15 diz que estas são as plantas principais da Judeia no século V a.C.
. Convém lembrar-se também da criação de gado, favorável na Judeia.
. Outros testemunhos que apontam na mesma direção: Eupólemo (séc. II a.C.) e a Carta de Aristéias a Filócrates (séc. II a.C.)

3.7. O cultivo da oliveira era menos trabalhoso do que o do trigo. E podia ser feito em terrenos ruins para o trigo. Só que este cultivo exige riquezas, já que a oliveira só dá lucro dez anos depois de plantada.

3.8. Na Ática e na Itália…

3.9. Os casos da Ática e da Itália nos ensinam que o tipo de aproveitamento da terra (como na Judeia) dependia:
. da existência de uma aristocracia que dispusesse de dinheiro
. da possibilidade de troca de derivados da azeitona e da uva pelo trigo.

3.10. Pelo menos este último fator já existia no tempo de Neemias: Ne 10,32 supõe que o ‘am hâ’ârets vendia, em Jerusalém, além de outras coisas, trigo trazido de outra região. É possível que a produção de trigo da Judeia não fosse suficiente para o consumo. Neste caso, os seus habitantes deveriam produzir derivados de azeitona e de uva e manufaturados para trocar pelo trigo.

:: Profissão e comércio
3.11. A mais antiga profissão em Israel era a de hârâsh, da raiz hrsh, “talhar”. Era o “artífice” que trabalhava com metal, pedra e madeira, podendo ser: lapidador, marceneiro, carpinteiro, pedreiro, ferreiro, serralheiro, armeiro, fundidor.

> Alguns profissionais – todos? – estavam organizados em clãs (Ne 3,8.31-32;1Cr 2,55;4,21.23 etc).

3.12. O comércio era feito por atacado e varejo nas cidades. Por ex., os habitantes de Tiro traziam peixes e mercadorias variadas para vendê-las em Jerusalém no sábado (Ne 13,16). Também os habitantes de Judá faziam isso (Ne 13,15).

> O comércio internacional é pouco documentado nesta época. Para o início do séc. VI a.C. existe Ez 27. Esd 3,7 indica que Judá exportava para Sídon “víveres, bebidas e óleo”. Enquanto importava ouro, pedras preciosas, madeira de lei e cerâmica grega.

:: Propagação da moeda
3.13. O dinheiro, como medida de valor na troca de produtos, já existia muito antes da moeda.
. No Israel antigo caracterizava-se a riqueza pela posse do gado (Gn 13,2;32,5;1Sm25,2 etc). Também a etimologia confirma: miqne (= posse de gado, bens em gado, rebanho) e miqna (= aquisição, compra).
. Era usado o ouro – na forma de peças de enfeite – nas transações (Gn 20,16;37,28;Nm 31,50;Js 7,21). Este ouro era pesado segundo o método sumério-babilônico, o shekel (Gn 23,16;Jr 32,9). Também pesava-se a prata.

3.14. As primeiras moedas citadas no AT: as dracmas persas de ouro, cunhadas após 517 a.C. por Dario I (os dáricos). Pesava uma dracma de ouro 8,4 gramas (Esd 2,69;Ne 7,70-72). Circulavam na Judeia também as moedas de prata de Atenas. Ainda: os siclos de prata da Pérsia (5,6 gramas) e as moedas yehud, cunhadas na Judeia. A proporção prata/ouro para troca era: ouro = 1 / prata = 13.

> Com uma dracma de ouro compravam-se 300 litros de cevada: daí que as moedas de prata eram mais práticas no uso cotidiano graças a seu valor menor.

3.15. Por que Dario mandou cunhar moedas?
. Heródoto informa: no tempo de Ciro e de Cambises não havia determinações fixas sobre o tributo devido pelas províncias ao império persa. Dario criou um sistema que permitia calcular receitas e despesas e regularizou os tributos com a criação da moeda.

3.16. Os moradores da Judeia não tinham minas de prata. Assim, vendiam seus produtos agrícolas (excedentes ou não) e adquiriam prata (Ne 5,4). Segundo Heródoto, a V satrapia, à qual pertencia a Judeia, pagava à Pérsia 350 talentos de prata por ano.

3.17. Consequências: os agricultores judeus precisavam diminuir o número de familiares que viviam de renda e produzir bens que dessem mais lucro. Vendia-se cevada e derivados da oliveira e da videira e gado. Não havendo grande produção de cevada na Judeia, o que compensava era o cultivo de oliveiras e parreiras. Para vender o excedente dependiam de negociantes estrangeiros.

 

Leia em seguida:

Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias – Agrarkrise, bäuerlicher Widerstand und die Reform Nehemias

Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade – Griechische Staatspacht und makkabäischer Freiheitskampf

Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística – Zur Interpretation asiatischer Gesellschaften in hellenistischer Ethnographie

Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judeia e a revolta crescente contra ele – Die Progression einer traditionsfreien Herrschaft in Judäa und des Widerstandes gegen sie

Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia – Die Etablierung der antiken Klassenverhältnisse in Judäa

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Religião e formação de classes na antiga Judeia 2

2. O sistema judaico de parentesco

:: Subdivisão da Judeia em grupos de parentesco
2.1. O resultado das pesquisas de J. P. WEINBERG (1983) sobre a comunidade pós-exílica é o seguinte:
. Há duas versões da lista de repatriados do exílio babilônico: Esd 2,1-70 e Ne 7,6-72a.

. A lista é composta de três partes:
– registro da posição das pessoas
– relação das doações destinadas ao Templo
– relatório sobre a região onde moravam os repatriados

. A lista divide os repatriados nos seguintes grupos:
– israelitas
– sacerdotes
– levitas
– cantores
– porteiros
– escravos do Templo
– filhos dos escravos de Salomão

. Estes grupos são ainda subdivididos em:
– os que descendem do mesmo patriarca
– os que pertencem a determinada localidade (e também uma distinção entre judeus e benjaminitas)

:: O tipo de mishpâhâ israelita
2.2. E. MEYER (Die Entstehung des Judentums, 1896) afirma que a mishpâhâ tem importância social e política e que surge pela ligação de numerosas famílias entre si, sob a ficção de terem os mesmos antepassados e o mesmo sangue.

2.3. O que é a mishpâhâ?KIPPENBERG, H. G. Religion und Klassenbildung im antiken Judäa: eine religionswissenschaftliche Studie zum Verhältnis von Tradition und gesellschaftlicher Entwicklung. 2. ed., erw. Aufl. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1982
. é um grupo de descendência patrilinear
. confere direitos corporativos de propriedade da terra
. é unidade de convocação do exército (‘elef = milhares…)
. caracteriza-se pela residência comum (mesmo local) de seus membros
. onde o direito de posse é transmitido por herança (nahalâ)
. é formada de bêt ‘abôt, famílias ampliadas
. seus membros têm responsabilidade mútua (levirato, ge’ulla…)
. tem regras específicas de casamento (preferência pelo casamento entre primos patrilineares, dote… )
. é a responsável pelas festas cultuais e pela memória coletiva
. integra uma tribo

2.4. R. PATAI (Sitte und Sippe in Bibel und Orient, 1962) confirma a presença de 6 traços fundamentais da mishpâhâ israelita só encontráveis em sociedades do Oriente Médio. A família bíblica é:
. endógama: casam-se com parentes
. patrilinear: descendência pai-filho
. patriarcal: poder do pai
. patrilocal: a mulher vai para a casa do marido
. ampliada: reúne os parentes próximos todos no grupo
. polígena: tem muitas pessoas

2.5. A característica básica é o casamento patrilinear entre primos primeiros. É o parentesco agnático (= relacionamento dos varões dentro do parentesco consanguíneo), que aparece:
. na transferência da posse da terra
. no levirato
. na ge’ulla (resgate da terra).

> A casa e o clã unem-se através da relação agnática de parentesco, implicando reciprocidade e comportamento solidário.

:: Exposição da concepção de clã no livro de Rute
2.6. Exposição do enredo do livro…

2.7. Conclusões:
. A venda da terra (terra classificada como nahalâ, herança, posse) é limitada pela prerrogativa dos agnatos. Acima do princípio de troca está o do parentesco.

. O levirato é prática importante.

. A eficácia do resgate e do levirato é fundada na hesed, que significa a solidariedade, a confirmação de uma relação comunitária. Esta solidariedade, na concepção clânica, reduz-se ao grupos de parentes agnáticos.

:: Resgate de posse familiar na Judeia e na Ática
2.8. Através do direito de ge’ullâ (= resgate da terra) eram negociadas na Judéia, legitimamente, as terras. A venda da terra ao parente que tinha o direito de compra podia proteger o proprietário empobrecido de pagar tributos e impostos a estrangeiros. Podia protegê-lo de cair na escravidão por dívida e até mesmo de ser vendido como escravo a estrangeiros. Mas o colocava na dependência do parente mais rico dentro do clã.

2.9. A prásis epí lýsei grega…

2.10. Comparação entre a norma grega e a judaica…

:: Elementos de desigualdade no clã judaico
2.11. Assim, havia dentro das famílias dos mishpâhôt, e também entre os mishpâhôt, diferenças consideráveis.

2.12. No pós-exílio parece que a família adquiriu importância em relação ao clã e cuidou de seus interesses independentemente do clã…

2.13. Dentro dos clãs e entre eles havia hierarquia. Como diz G. BORKAMM (1959): se antigamente os zeqênîm (anciãos) tinham autoridade graças à posição que ocupavam nas grandes famílias (clãs) e nas tribos, agora ela se baseia na posição especial que sua família possui no meio do povo…

2.14. O cargo de preposto (= delegado, representante) era ligado à primogenitura, criando desigualdade dentro do clã entre os irmãos mais velhos e os mais novos. O preposto ia morar em Jerusalém e participava da administração. Esta hierarquia tornou-se o fundamento da administração persa, que, pressupondo a desigualdade social no sistema de parentesco judaico, a reforçou.

2.15. A função econômica dos prepostos de família…

:: Resumo
2.16. Três dados fundamentais:
. A estrutura de parentesco determinava a reprodução das famílias e as relações sociais dentro da família
. A estrutura de parentesco unia as famílias em uma hierarquia baseada nas prerrogativas dos irmãos mais velhos sobre os mais novos, mas criava laços de solidariedade entre eles (como no caso da escravidão e da venda da terra)
. A terra podia ser negociada entre parentes, mas não com estranhos ao círculo de parentesco. Este princípio levou ao acúmulo de terras pelas famílias mais ricas.

 

Leia em seguida:

Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judeia no tempo do domínio persa – Bedingungen des Wirtschaftens im judäischen Bergland in persische Zeit

Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias – Agrarkrise, bäuerlicher Widerstand und die Reform Nehemias

Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade – Griechische Staatspacht und makkabäischer Freiheitskampf

Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística – Zur Interpretation asiatischer Gesellschaften in hellenistischer Ethnographie

Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judeia e a revolta crescente contra ele – Die Progression einer traditionsfreien Herrschaft in Judäa und des Widerstandes gegen sie

Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia – Die Etablierung der antiken Klassenverhältnisse in Judäa

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Religião e formação de classes na antiga Judeia 1

1. Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia

1.1. Duas precisões:
a) O parentesco, etnologicamente, não é um conceito que diz respeito à descendência natural: é uma classificação de ordem social, baseada nas relações de descendência. Logo, as instituições do sistema de parentesco são um produto histórico, criado por interesses sociais
b) O Estado não é a forma primária da comunidade humana: há sociedades sem Estado, conforme se verificou na África.

:: Etnologia de parentesco
1.2. L. H. MORGAN (Ancient Society, 1877) diz que há duas formas fundamentais de sociedade primitivas:
. a “societas”, baseada nas relações pessoais
. a “civitas”, baseada no território e na propriedade privada.

> Por detrás desta classificação há o seguinte: a descoberta de que nem todos os sistemas de parentesco eram naturais. Há sistemas onde não são as relações de consangüinidade que mais contam, mas a de parentes mais afastados, por exemplo.
> Daí MORGAN trabalhar o conceito de gens (hoje prefere-se linhagem) como instituição que organiza socialmente os indivíduos numa sociedade tradicional.

1.3. Avançando mais, M. FORTES (Kinship and the Social Order, 1969) chama a atenção para:
. a interação, que regula as relações entre as pessoas
. os títulos legais, atribuídos a grupos e através deles aos indivíduos

> São dois aspectos complementares do sistema de parentesco.

1.4. C. LÉVI-STRAUSS (The Elementary Structures of Kinship, 1969) partiu da exogamia e concluiu que os grupos se relacionam socialmente através da troca de mulheres… E. LEACH (1971) refutou a tese de Lévi-Strauss.

:: Antropologia econômica
1.5. M. MAUSS (Die Gabe, 1924) afirma que a dádiva, uma forma de trocas livres, realizadas pelos grupos, numa sociedade arcaica é o fato social (“fait social”) completo, é o mais significativo.

1.6. K. POLANYI (Trade and Market in the Early Empires, 1957) designa, como formas de integração, a reciprocidade, a distribuição e a troca.

1.7. M. D. SAHLINS (Tribesmen, 1968), explicando a reciprocidade, diz que ela é posta em prática gradualmente e que é a forma de circulação das sociedades tribais.

1.8. M. GODELIER (Ökonomische Anthropologie, 1973) afirma, por sua vez, que a determinação da função social das diversas formas de circulação tem por base a diferença de valor atribuída aos bens em cada sociedade. Os bens estão ordenados hierarquicamente, em classes diferentes, e somente nelas podem ser trocados.

:: Antropologia política
1.9. O conceito de segmentário foi usado por E. DURKHEIM (The Division of Labor in Society, 1893) para a sua análise da divisão do trabalho. A sociedade segmentária é a sociedade baseada nas relações de parentesco. “Falamos de ‘sistema segmentado’ não apenas porque é composto de segmentos combinados, mas também porque é constituído apenas disso: sua coerência não é mantida de cima através de instituições políticas públicas (como por uma autoridade soberana)”, diz M. D. SAHLINS, Sociedades tribais. 2. ed. Zahar, Rio de Janeiro 1974, p. 29.

1.10. M. FRIED (The Evolution of Political Society, 1967) chama as sociedades segmentárias de sociedades niveladoras.

1.11. Como interpretar a passagem da sociedade segmentária para a sociedade de classes?
. A primeira solução vê a passagem como problema (sociedade segmentária) e solução (sociedade de classes)
. A segunda solução vê a passagem como mudança e domínio em estrutura complexa.

1.12. A colaboração entre etnologia e história é fundamental. Especialmente na área do Mediterrâneo, onde o relacionamento de apadrinhamento foi central.

 

Leia em seguida:

Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco – Das judäische Verwandtschaftssystem

Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judeia no tempo do domínio persa – Bedingungen des Wirtschaftens im judäischen Bergland in persische Zeit

Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias – Agrarkrise, bäuerlicher Widerstand und die Reform Nehemias

Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade – Griechische Staatspacht und makkabäischer Freiheitskampf

Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística – Zur Interpretation asiatischer Gesellschaften in hellenistischer Ethnographie

Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judeia e a revolta crescente contra ele – Die Progression einer traditionsfreien Herrschaft in Judäa und des Widerstandes gegen sie

Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia – Die Etablierung der antiken Klassenverhältnisse in Judäa

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Religião e formação de classes na antiga Judeia 01

Quero falar de um livro e de seu conteúdo. E gostaria que meus visitantes se servissem dele.

KIPPENBERG, H. G. Religião e formação de classes na antiga Judeia: estudo sociorreligioso sobre a relação entre tradição e evolução social. São Paulo: Paulus, 1997, 184 p. – ISBN 8505006798.

Original alemão: Religion und Klassenbildung im antiken Judäa: eine religionswissenschaftliche Studie zum Verhältnis von Tradition und gesellschaftlicher Entwicklung. 2. ed., erw. Aufl. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, [1978] 1982, 186 s. ISBN 3525553667.

KIPPENBERG, H. G. Religião e formação de classes na antiga Judeia: estudo sociorreligioso sobre a relação entre tradição e evolução social. São Paulo: Paulus, 1997

 

Trabalho com partes deste texto na Literatura Pós-Exílica, no segundo semestre do Segundo Ano de Teologia. Tenho um resumo de seus pontos principais há muito tempo. Pensei em colocá-lo no blog para facilitar o seu acesso aos meus alunos. E acredito que possa servir a outras pessoas interessadas.

O livro de Hans G. Kippenberg é o resultado de uma tese de livre-docência [Habilitation] apresentada na Faculdade de Filosofia e Sociologia da Universidade Livre de Berlim [Fachbereich Philosophie und Sozialwissenschaften der Freien Universität Berlin], Alemanha, em 1975.

Li, no original alemão, a edição publicada em 1978 pela editora Vandenhoeck & Ruprecht. Fiquei entusiasmado com o livro e com o que pude aprender, na época, com ele. Agradeço ao amigo Wolfgang Gruen, de Belo Horizonte, que nos apresentou a obra em reunião do grupo dos “Biblistas Mineiros”.

Notei, porém, que muitos de meus alunos não conseguiam vencer as dificuldades da obra – um denso estudo socioantropológico, com vocabulário bastante técnico e centenas de notas de rodapé – que foi traduzida para o português em 1988, a partir da edição de 1982. Daí a ideia do resumo. Outras traduções? O livro teve tradução para o português e o japonês.

O resumo terá 11 partes, cada uma representando um dos 9 capítulos do livro, mais a Introdução e, por último, uma atualização da bibliografia citada, com eventuais traduções e links para as respectivas editoras. Se necessário, citarei, entre parênteses, palavras ou frases da obra original, em alemão.

Não ignoro que os estudos nesta área fizeram avanços consideráveis nestes últimos trinta e poucos anos, mas creio ser defensável a atualidade – pelo menos da maior parte – deste estudo. Alerto também que alguns pontos tratados pelo autor, pelo grau de complexidade, estão apenas citados e não foram explicados. Por outro lado, em outras situações, colocarei links para estudos mais amplos sobre o tema tratado. E, finalmente, anoto que há pequenos problemas com a transliteração do hebraico, que nem sempre segue as normas estabelecidos em meu curso.

 

Sobre o autor, Prof. Dr. Hans G. Kippenberg, Professor of Comparative Religious Studies (Wisdom-Professorship), School of Humanities & Social Sciences  – Jacobs University Bremen, Bremen, Alemanha:

Hans G. Kippenberg nasceu em 1939. Estudou Teologia, História das Religiões, Línguas Semíticas e Iranianas nas Universidades de Marburg (1959/60), Tübingen (1960/62), Göttingen (1962/63), Leeds (Reino Unido) (1966) e Berlin (1969-1976).

Atividade profissional

. 1964-1967: Repetent für Allgemeine Religionsgeschichte am Bremer Studienhaus der Theologischen Fakultät Göttingen.
. 1969-1977: Assistent/Assistenzprofessor für Allgemeine Religionsgeschichte im Fachbereich Philosophie und Sozialwissenschaften der Freien Universität Berlin.
. 1977-1989: Professor für Allgemeine Religionsgeschichte und Vergleichende Religionswissenschaft an der Rijksuniversiteit Groningen (Países Baixos).
. 1989-2004: Professor für Religionswissenschaft mit dem Schwerpunkt Geschichte und Theorie der Religionen an der Universität Bremen.
. 1989-2004: apl. Professor an der Rijksuniversiteit Groningen.
. 1998-2009: Fellow am Max-Weber-Kolleg der Universität Erfurt.
. 2004-heute: Weisheitsprofessor für Vergleichende Religionswissenschaft an die Jacobs University Bremen
. Professor convidado em Universidades de Wassenaar, Heidelberg, Berlim, Princeton, Bielefeld, Chicago, Israel…

. Para conhecer todas as publicações de Hans G. Kippenberg, confira o catálogo da  Deutschen Nationalbibliothek.

. Para um conhecimento maior do pensamento de Hans G. Kippenberg, pode ser lida a obra, em alemão e inglês, publicada em sua homenagem, por seus amigos e colegas, por ocasião de seus 65 anos: LUCHESI, B.; VON STUCKRAD, K. (eds.) Religion Im Kulturellen Diskurs / Religion in Cultural Discourse: Festschrift Für Hans G. Kippenberg Zu Seinem 65. Geburtstag / Essays in Honor of Hans G. Kippenberg on the Occasion of His 65th Birthday. Berlin: De Gruyter, 2004, 672 s. – ISBN  9783110177909.

Introdução
1. O objetivo da obra: relacionar o conteúdo das tradições religiosas judaicas com a vida social dos judeus.
O sentido de “tradição” usado aqui é diferente do sentido dado ao termo por Max WEBER e seguidores:

  • M. WEBER fala de “tradição” na pesquisa das relações sociais das sociedades pré-modernas
  • Aqui se fala de “tradição” como continuidade de narrações e costumes
  • Em M. WEBER: tradição x racionalidade
  • Aqui: tradição x nova criação

2. Qual é o motivo da obra?
É que os movimentos judaicos de resistência contra os gregos e contra os romanos tiveram interpretações divergentes por parte dos autores.

3. M. HENGEL (Die Zeloten, 1961) defende que o movimento zelota de resistência tem razões religiosas como dominantes. Ele defende a independência e a prioridade do religioso sobre o político-social. Ele entende a ação organizada dos zelotas como a ação de uma seita, que se inspira numa dogmática messiânica.

4. H. KREISSIG (Die sozialen zusammenhänge des judäischen Krieges, 1970) defende que, na revolta contra Roma, são os camponeses e sacerdotes das camadas mais baixas os motores principais. Ele defende que foram as contradições sociais, criadas por condições socioeconômicas, que possibilitaram o processo. E contesta a importância das tradições religiosas para a ação política: “Quaisquer possam ter sido os papéis dos partidos religiosos, tanto estimulando como freando, as grandes dissensões aconteceram entre as classes, como em todo lugar na História Universal, desde que elas existem”.

5. HENGEL e KREISSIG trabalham dentro da dicotomia Religião e Sociedade: para um são as motivações religiosas que dominam a história; para outro são as motivações sociais que contam.

6. S. K. EDDY (The King is Dead, 1961) avançou um pouco na interpretação da guerra dos Macabeus, quando recusou a dicotomia Religião/Sociedade. Ele aponta três motivos, interligados, para a resistência religiosa ao helenismo:

  • lutas tendo por meta a retomada do poder pelos nativos
  • luta pelo poder, visando o privilégio social dos revolucionários (Macabeus) e o fim da exploração econômica
  • luta pelo poder, com o objetivo de proteger a Lei e a religião

> Ele defende que a esperança dos combatentes contra o helenismo era de instauração da monarquia nativa local.
> Mas ele deixa aberta a questão: a união de religião e resistência política era ou não coincidência?

7. Várias tentativas já foram feitas no sentido de reconstituir social e cientificamente a história e a sociedade israelitas, como CAUSSE (Du groupe ethnique à la communauté religieuse, 1937) que acredita ter Israel evoluído do princípio de parentesco para o princípio de localização.

8. M. WEBER (Das antike Judentum, 1917-1919) diz que os pastores nômades, os artesãos, os comerciantes e os sacerdotes das tribos hóspedes é que fizeram aliança com as tribos guerreiras de Israel, donas da terra. O modelo weberiano é o da República Romana e suas classes sociais (patrícios, clientes e plebeus). Mas em Israel o direito de cidadania não estava ligado à posse da terra, pelo menos intrinsecamente, mas sim à ascendência… Daí que a aliança não é entre possuidores e não-possuidores de terra, mas entre israelitas sem terra contra cananeus com terra.

9. Avançou a sociologia etnológica, neste meio tempo, em três áreas: etnologia do parentesco, etnologia econômica e antropologia política. Daí o presente livro: ele interpreta a antiga literatura judaica em relação aos conceitos e métodos da etnologia (ou antropologia social). A etnologia tenta reconstruir o tipo de ordem social da Judeia antiga, comparando-o com o de outras sociedades do Antigo Oriente Médio.

> Neste processo considera-se ainda a relação do indivíduo com a sociedade e da ideia religiosa com a ordem social mais como contradição do que como unidade.

Hans G. Kippenberg nasceu em 193910. Os movimentos judaicos de resistência levantam a seguinte questão: existia uma relação intrínseca entre determinados conteúdos da tradição religiosa e as lutas de resistência, ou a relação era extrínseca ou casual?

>> A hipótese do autor é: a tradição se uniu com duas tendências antagônicas: a tendência à formação de classes e a tendência à solidariedade. Formam-se, então, dois complexos divergentes de tradição que fundamentam os conteúdos religiosos dos movimentos judaicos de resistência [Die religiöse Tradition – so die Hypothese dieser Arbeit – ist in diesem Prozeß mit den beiden antagonistischen Tendenzen von Klassenbildung und Solidarität in Verbindung greteten. In der Herausbildung dieser beiden – in ihren Inhalten und ihren sozialen Funktionen divergierenden – Traditionskomplexe ist auch die Rolle bestimmter religiöser Inhalte in den judäischen Widerstandsbewegungen begründet].

11. O conceito de “antigo”:

  • na análise marxista, representa o modo de produção baseado na escravidão e na propriedade particular
  • em nosso caso, caracteriza relações sociais nas quais os camponeses perdem o controle sobre a produção:
  • este processo começou na Judeia no séc. VIII a. C. com o plantio de novas culturas, o comércio com produtos artesanais e, mais tarde, com o uso da moeda, levando, finalmente, à fixação generalizada de valores monetários dos bens e homens
  • mas também é preciso ver que a apropriação crescente dos excedentes leva à ruptura das relações sociais tradicionais. O comércio levou o camponês à dependência da aristocracia. Daí a resistência política do campo contra a aristocracia.

 

Leia em seguida:

Capítulo 1: Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia – Solidarität und Klassenbildung aus ethnologischer Sicht

Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco – Das judäische Verwandtschaftssystem

Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judeia no tempo do domínio persa – Bedingungen des Wirtschaftens im judäischen Bergland in persische Zeit

Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias – Agrarkrise, bäuerlicher Widerstand und die Reform Nehemias

Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade – Griechische Staatspacht und makkabäischer Freiheitskampf

Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística – Zur Interpretation asiatischer Gesellschaften in hellenistischer Ethnographie

Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judeia e a revolta crescente contra ele – Die Progression einer traditionsfreien Herrschaft in Judäa und des Widerstandes gegen sie

Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judeia – Die Etablierung der antiken Klassenverhältnisse in Judäa

Capítulo 9: Oposição da religião à política – Opposition der Religion gegen die Politik

Bibliografia – Literatur

Israel quer de volta a Inscrição de Siloé

Israel está reclamando da Turquia a devolução da Inscrição de Siloé, que se encontra no Museu de Istambul.

A Inscrição de Siloé, em hebraico arcaico, do século VIII a.C., tem seis linhas. Foi descoberta em 1880 e, alguns anos depois, removida para o Museu de Istambul. Confira foto, texto, tradução, explicação, bibliografia e links em K. C. Hanson Siloam Inscription e também em BiblePlaces.com Hezekiah’s Tunnel.

O que é a Inscrição de Siloé?

No século VIII a.C., quando reinava na Assíria Tiglat-Pileser III, o rei Acaz de Judá pediu sua proteção contra uma invasão de vizinhos, mas perdeu sua independência, acabando vassalo da Assíria. A esperança para Judá renasceu com o rei Ezequias, filho e sucessor de Acaz. Associado ao trono desde criança, em 728/7 a.C., ao ser coroado em 716/15 a.C. este rei começou uma reforma no país para tentar debelar a crise.

Um dos alvos da reforma teria sido a ruptura com práticas cultuais não-javistas dos agricultores. Entre outras coisas, teria abolido os lugares altos (bâmôt), quebrado as estelas (matsêbôt), cortado o poste sagrado (‘asherâh). Até mesmo do Templo de Jerusalém Ezequias teria retirado símbolos dos cultos da fertilidade, como uma serpente de bronze. É o que nos conta 2Rs 18,4, embora aqui a Obra Histórica Deuteronomista tente apresentar uma justificativa para a presença desta serpente de bronze no Templo (“que Moisés havia feito, pois os israelitas até então ofereciam-lhe incenso” – cf. Nm 21,8-9).

Entretanto, há autores, como Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman (A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003, p. 318) e Mario Liverani (Oltre la Bibbia: storia antica di Israele. 6 ed. Roma-Bari: Laterza, 2007, p. 173), que apresentam uma perspectiva um pouco diferente: a “reforma” de Ezequias não teria sido a restauração de uma estrutura desmantelada ao longo do tempo, mas uma inovação. A idolatria dos judaítas não foi um abandono de seu anterior monoteísmo, pois esta era a forma como a população de Judá tinha praticado seu culto por centenas de anos. A reforma sinaliza na direção da transformação de Iahweh de Deus nacional, convivendo com os deuses regionais, em Deus exclusivo.

A destruição de Samaria em 722 a.C. levou refugiados de Israel para Jerusalém, pois novas estruturas foram construídas, como bairros novos, ampliação de muralhas e o túnel que levava as águas da fonte Gihon para o reservatório de Siloé. Sobre este último feito testemunham 2Rs 20,20 e a Inscrição de Siloé, que celebra o encontro das duas turmas de escavadores.

O fato é que Jerusalém superou seu antigo isolamento e, ancorada na política assíria, cresceu de 5 para 60 hectares e de cerca de 1000 para algo em torno de 15 mil habitantes. E em Judá, no final do século VIII a.C., podem ser contados cerca de 300 assentamentos e uma população de uns 120 mil habitantes. A fortaleza de Laquis, na Shefelá, se desenvolveu extraordinariamente. Outros fortalezas foram construídas na mesma região. Surge portanto, só agora, uma elite judaíta e se formam as estruturas de um verdadeiro Estado. Todas estas mudanças trazem consigo o fenômeno do profetismo, bem mais antigo no reino de Israel, mas só a partir deste momento tomando forma bem definida em Jerusalém, com Isaías (Is 1-39) e Miqueias, duas vozes formidáveis em defesa do javismo.

Enquanto isso, na Assíria, Senaquerib subiu ao trono em 705 a.C. e imediatamente teve que enfrentar nova revolta na Babilônia. Todas as províncias do oeste então se levantaram. Acreditavam ter chegado o momento da libertação. O Egito prometeu ajuda, mais uma vez. A coalizão integrava Tiro, com outras cidades fenícias; Ascalon e Ekron, com algumas cidades filisteias; Moab, Edom e Amon; e Ezequias, de Judá, entrou como um dos líderes da revolta. Fortificou suas defesas e se preparou cuidadosamente para esperar a Assíria. Senaquerib não se fez de rogado e já em 701 a.C. ele começou por Tiro, vencendo-a. Logo os reis de Biblos, Arvad, Ashdod, Moab, Edom e Amon se entregaram e pagaram tributo a Senaquerib. Somente Ascalon e Ekron, juntamente com Judá, resistiram. Senaquerib tomou primeiro Ascalon. Os egípcios tentaram socorrer Ekron e foram derrotados. E foi a vez de Judá. Senaquerib tomou 46 cidades fortificadas em Judá e cercou Jerusalém.

Testemunhos arqueológicos da devastação foram encontrados em várias escavações por todo o território. Especialmente significativos são a representação assíria da tomada de Laquis encontrada no palácio de Senaquerib em Nínive – hoje está no British Museum – e a escavação, feita pelos britânicos na década de 30 e por David Ussishkin, da Universidade de Tel Aviv, na década de 70 do século XX, da poderosa fortaleza, esta que era a segunda mais importante cidade do reino e protegia a entrada de Judá.

Entretanto, por motivos ainda hoje desconhecidos, talvez uma peste, Senaquerib levantou o cerco de Jerusalém e retornou à Assíria. A cidade voltou a respirar, no último minuto, mas teve que pagar forte tributo aos assírios. Não se sabe porque Jerusalém se salvou. 2Rs 19,35-37 diz que o Anjo de Iahweh atacou o acampamento assírio. Existe uma notícia de Heródoto, História II,141, segundo a qual num confronto com os egípcios os exércitos de Senaquerib foram atacados por ratos (peste bubônica?). Talvez Senaquerib tenha partido por causa de alguma rebelião na Mesopotâmia. Ou ainda: há autores que pensam que Jerusalém nem precisou ser sitiada para ser vencida. Nos Anais de Senaquerib se diz o seguinte: “Quanto a Ezequias do país de Judá, que não se tinha submetido ao meu jugo, sitiei e conquistei 46 cidades que lhe pertenciam (…) Quanto a ele, encerrei-o em Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro na gaiola…”. Pode-se ler sobre isto em GRABBE, L. L. (ed.) ‘Like a Bird in a Cage’: The Invasion of Sennacherib in 701 BCE. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2003, 352 p. ISBN 0826462154.

Outra questão é se teria havido uma segunda campanha de Senaquerib na Palestina. De qualquer maneira, segundo os Anais de Senaquerib, o tributo pago por Ezequias ao rei assírio foi significativo: “Quanto a ele, Ezequias, meu esplendor terrível de soberano o confundiu e ele enviou atrás de mim, em Nínive, minha cidade senhorial, os irregulares e os soldados de elite que ele tinha como tropa auxiliar, com 30 talentos de ouro, 800 talentos de prata, antimônio escolhido, grandes blocos de cornalina, leitos de marfim, poltronas de marfim, peles de elefante, marfim, ébano, buxo, toda sorte de coisas, um pesado tesouro, e suas filhas, mulheres de seu palácio, cantores, cantoras; e despachou um mensageiro seu a cavalo para entregar o tributo e fazer ato de submissão“. Uso aqui a tradução que está em BRIEND, J. (org.) Israel e Judá: Textos do Antigo Oriente Médio. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1997, p. 76.

Informação que concorda, em termos gerais, com a de 2Rs 18,13-16: “No décimo quarto ano do rei Ezequias, Senaquerib, rei da Assíria, subiu contra todas as cidades fortificadas de Judá e apoderou-se delas. Então Ezequias, rei de Judá, mandou esta mensagem ao rei da Assíria, em Laquis: ‘Cometi um erro! Retira-te de mim e aceitarei as condições que me impuseres’. O rei da Assíria exigiu de Ezequias, rei de Judá, trezentos talentos de prata e trinta talentos de ouro, e Ezequias entregou toda a prata que se achava no Templo de Iahweh e nos tesouros do palácio real. Então Ezequias mandou retirar o revestimento dos batentes e dos umbrais das portas do santuário de Iahweh, que… rei de Judá, havia revestido de metal, e o entregou ao rei da Assíria” (tradução da Bíblia de Jerusalém, 2002).

Estas informações podem se lidas em DA SILVA, A. J. O contexto da Obra Histórica Deuteronomista. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 88, p. 11-27, 2005.