Teologia e Literatura: Bem e Mal em G. Rosa

Atualizado em

Na Revista IHU On-Line, edição 292, de 11.05.2009

 

A fundição do bem e do mal em Guimarães Rosa

Graziela Wolfart

Literatura e Teologia se aproximam ao tentar captar o drama humano no mistério da vida na mais recente obra organizada por Eliana Yunes e Maria Clara Bingemer

YUNES, E.; BINGEMER, M. C. L. (org.) Bem e Mal em Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: PUC-Rio/Uapê, 2009Recentemente lançado pela Editora da PUC-Rio e pela UAPÊ, ambas do Rio de Janeiro, a obra Bem e mal em Guimarães Rosa reúne uma coletânea de artigos sobre o autor mineiro e foi organizada pelas professoras da PUC-Rio Eliana Yunes e Maria Clara Bingemer. A IHU On-Line entrevistou por e-mail a professora Eliana Yunes. Ela argumenta que “Guimarães Rosa, nos seus textos, se desvencilha das dicotomias porque vê a complexidade do humano excedendo os paradigmas fechados”. Para ela, “ele escapa a toda e qualquer linearidade e simplificação para vivificar o contraditório, o paradoxal da condição humana, em que bondade e maldade não se excluem, em que a beleza e a verdade podem estar no seu avesso, assim como a loucura e o bom senso”. Yunes ainda acrescenta que Guimarães Rosa, trabalhando intensamente com a oralidade, “sofisticou a escrita, sem fazer concessões senão ao que buscava expressar como cerne e casca do Homem, tão regional quanto universal, tão sertanejo, quanto urbano”.

Professora e coordenadora da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio, Eliana Yunes possui graduação em Filosofia e Letras, pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, mestrado e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e pós-doutorado pela Universidade de Colônia, da Alemanha. É autora de, entre outros, Pecados (Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2001) e Virtudes (Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2001).

 

A entrevista

IHU On-Line – De que maneira o encontro da literatura com a teologia é valioso no sentido de analisar o bem e o mal na obra Guimarães Rosa?

Eliana Yunes – O encontro entre teologia e literatura é da esfera da interdisciplinaridade e se aplica a obras e temas diversos. No caso do presente livro, o que se registra é o curso de pós-graduação que as organizadoras apresentaram, assim como a pesquisa e a produção dos doutorandos de letras e teologia que focaram a questão enunciada muitas vezes na própria narrativa rosiana, em torno do bem & mal na obra de Guimarães Rosa com ênfase no Grande sertão: veredas. O método faz aparecerem possibilidades de interpretação e construção de sentido inéditas, valorizando a potência multisignificante de uma das obras mais extraordinárias do século XX.

IHU On-Line – O que caracteriza a leitura teológica feita dos textos de Guimarães Rosa?

Eliana Yunes – A leitura exercitada procura fazer não uma abordagem teológica, mas compreender como a literatura pode ser uma forma não-teórica de teologia. O que se procura encontrar está no plano das linguagens de uma e outra área do conhecimento – elas se aproximam ao tentar captar o drama humano no mistério da vida. Este esforço metodológico logra expor a dimensão do diálogo imanente/transcendente que atravessa seus romances e estórias (como ele preferiu grafar), sem qualquer profissão de fé, nem laivos catequéticos. A leitura revela uma escrita da perplexidade que irrompe no sem fronteiras do ser-tão.

IHU On-Line – Qual a contribuição que a obra do escritor oferece para a realização de uma leitura da Teologia?

Eliana Yunes – Guimarães Rosa, nos seus textos, se desvencilha das dicotomias porque vê a complexidade do humano excedendo os paradigmas fechados. Ele escapa a toda e qualquer linearidade e simplificação para vivificar o contraditório, o paradoxal da condição humana, em que bondade e maldade não se excluem, em que a beleza e a verdade podem estar no seu avesso, assim como a loucura e o bom senso. Obras com este propósito desarraigado de ideologias retomam as crenças numa perspectiva que não se confunde com doutrinas, mas catapultam o homem para dimensões apenas entrevistas.

IHU On-Line – O que caracteriza a linguagem criada por Rosa e que marcou para sempre a Literatura Brasileira?

Eliana Yunes – Os narradores de Guimarães Rosa se despem de automatismos, do falar padrão e da gramática regrada. Como bem o assinalou Roland Barthes, Literatura é uma linguagem que faz dobrar a língua e para obrigá-la a dizer o que se quer e não o que ela habitualmente diz, é preciso desarranjá-la, inventar de novo a fala, que rompe com a norma sem perder de vista o sistema, na ponderação do linguista Coseriu. A poética tem licenças autoconcedidas que produzem desconforto e admiração simultaneamente. Guimarães Rosa, trabalhando intensamente com a oralidade, sofisticou a escrita, sem fazer concessões senão ao que buscava expressar como cerne e casca do Homem, tão regional quanto universal, tão sertanejo quanto urbano.

IHU On-Line – Quais os mistérios que envolvem a eterna luta entre o bem e o mal apresentada por Guimarães Rosa tanto no sertão transformado em campo de batalha quanto dentro do coração humano?

Eliana Yunes – Para o escritor mineiro, o sertão é o mundo e o homem sua manifestação mais vívida. Sua epopéia, contudo, esconde um drama irredutível que aponta continuamente para uma luta entre o bem e o mal, sem que o mistério ao menos se localize, dentro ou fora do homem. Rosa, numa percepção extremamente arguta, entende que não há resposta acabada: “eu conto e o senhor ponha o ponto” onde enfim achar que deva. A perspicácia para inferir a dor humana independente de cultura ou idade se associa à sabedoria que descarta a opção (ou) e promove a interação (e) rompendo as expectativas, como postulava Iser. Em Guimarães Rosa bem e mal trocam de posição constantemente até se fundirem fazendo com que a angústia provocada pelo mal seja transfigurada em ética, justiça – valores da beleza, o que enfim, deve prevalecer.

IHU On-Line – Quais seriam hoje, a partir da inspiração de Guimarães Rosa, os grandes pactos de que vive o homem? Deus e o diabo, eu e o outro, iguais e diferentes continuam afligindo o ser humano contemporâneo?

Eliana Yunes – As aflições humanas, desde que o homem se pôs de pé e pode olhar para o alto, liberando as mãos e a cabeça para criar e contemplar, não mais para garantir a locomoção segura, mostram que a grande viagem ao redor de si mesmo ainda não se completou. A exploração dos mares e das estrelas não esgota as perguntas sobre a vida e muito frequentemente as respostas, convenientes segundo um tempo e lugar, apenas dão a ilusão de verdade e de conforto logo evanescentes. Os dilemas fazem oscilar os valores enquanto presos a modelos e práticas consolidadas. Deste ajuste, a prosa rosiana liberta suas personagens, provocando o maravilhoso e o terrível a um só tempo, fazendo que ingressem numa experiência inexprimível em termos usuais. A linguagem deriva, então, fazendo da morte a vida plena, do mal o bem maior. O herói de Rosa só tem todo poder quando já abriu mão de qualquer poder.

IHU On-Line – O centenário de nascimento de Guimarães Rosa foi comemorado no ano passado. Como entender sua atualidade?

Eliana Yunes – A atualidade de Guimarães Rosa não depende de festivos, nem de datas redondas. Assim como acontece com Cervantes, Shakespeare, Machado ou Camões, o escritor brasileiro visitou a alma humana e da viagem fez emergir o esboço em permanente construção que nos seduz, o ser que nunca é definitivo. Ninguém lê Rosa uma vez, ninguém o lê para encontrar a resposta – todas são provisórias, mesmo as mais complexas. Suas perguntas não calam.

 

O livro

YUNES, E.; BINGEMER, M. C. L. (org.) Bem e Mal em Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: PUC-Rio/Uapê, 2009, 146 p. – ISBN 9788585666804

Diz a editora:
O livro, organizado por Maria Clara Lucchetti Bingemer [Teologia – PUC-Rio] e Eliana Yunes [Letras – PUC-Rio], promove o encontro da literatura com a teologia em artigos de grandes especialistas dessas duas áreas do conhecimento humano. No livro, produzido em uma perspectiva interdisciplinar, encontram-se uma leitura teológica de textos de Guimarães Rosa e uma leitura da Teologia a partir da obra do escritor, cujo centenário de nascimento foi comemorado em 2008. Através de diferentes análises sobre o discurso rosiano, os autores convidam o leitor a refletir sobre a angústia humana, gerada pela necessidade de tomar decisões éticas. Diante de personagens e situações criados por Guimarães Rosa, tentam desvendar os mistérios da eterna luta entre o bem e o mal, apresentada tanto no sertão transformado em campo de batalha quanto dentro do coração humano. Passam, também, pelos pactos de que vive o homem: Deus e o diabo, eu e o outro, iguais e diferentes. No prefácio, Vilma Guimarães Rosa, filha de João, apresenta uma curta biografia do pai, revelando peculiaridades presentes no cotidiano de um escritor que, em sua travessia entre o particular e o público, criou uma linguagem que marcou para sempre a Literatura Brasileira. Novas e instigantes imagens de Grande Sertão: Veredas são reveladas a partir das leituras do grande clássico presentes nos textos de Cleide Maria de Oliveira, Delambre Ramos de Oliveira, Josias da Costa Junior, Leonardo Vieira de Almeida, Marco Antonio G. Bonelli e Maria Clara Lucchetti Bingemer. Os artigos de Eliana Yunes e Stella Caymmi trazem análises sobre dois contos de Guimarães Rosa: A hora e a vez de Augusto Matraga, publicado em Sagarana, e A terceira margem do rio, publicado em Primeiras Estórias.

 

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