Um guia para o usuário do Nestle-Aland 28

TROBISCH, D. Die 28. Auflage des Nestle-Aland: Eine Einführung. 2., korrigierter Druck. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2013, 80 s. – ISBN 9783438051417.

TROBISCH, D. A User’s Guide to the Nestle-Aland 28 Greek New Testament. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2013, 80 p. – ISBN 9781589839366.

This guide introduces the complex new edition of the Nestle-Aland Novum Testamentum Graece, 28 Edition, explaining its structure, the text-critical apparatus and appendices, and the innovations of the new edition. The first part supplies a thorough explanation of the Nestle-Aland edition not presupposing any previous familiarity with critical editions. In a second part, Trobisch explains the structure of the apparatus and its appendices. The third and final part, aimed at practised users of Nestle-Aland, focuses on the new features of the 28th edition.

David Trobisch was born in Cameroon, West Africa, as the son of missionaries. He grew up in Austria and studied theology in Germany. He taught New Testament at the University of Heidelberg, Germany, Missouri State University, Yale Divinity School, and Bangor Theological Seminary. As a scholar Dr. David Trobisch is internationally recognized for his work on the Letters of Paul, the Formation of the Christian Bible, and Bible Manuscripts. He now lives and works in Springfield, Missouri, and Nussloch, Germany.

Espionagem da NSA inclui Papa e cardeais

EUA espionaram Vaticano e Jorge Bergoglio, diz revista italiana – Redação: Opera Mundi 30/10/2013

Local onde o hoje papa Francisco ficou durante conclave que o elegeu pontífice teria sido monitorado pelos norte-americanos

A Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA) espionou as conversas telefônicas na Cidade do Vaticano e também as ocorridas na residência onde o então cardeal argentino Jorge Bergoglio ficou hospedado antes do conclave que o elegeu papa, segundo o próximo número da publicação italiana Panorama, que será publicada [amanhã, 31/10/2013].

Segundo a publicação, que usa como base documentos vazados pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden, “muitas” das 46 milhões de ligações telefônicas interceptadas na Itália se localizavam na Cidade do Vaticano. É, pelo menos, o quinto país europeu a ser afetado pelas escutas norte-americanas, depois de Alemanha, França, Espanha e os próprios italianos.

A revista se baseia em dados coletados entre 10 de dezembro de 2012 e 8 de janeiro de 2013, mas “suspeita-se”, diz a Panorama, que ainda havia espionagem após a renúncia do então papa Bento XVI, que aconteceu em 28 de fevereiro. A publicação acrescenta que a espionagem ocorreu durante todo o conclave para escolha do novo pontífice.

Entre as conversas escutadas estavam – acrescenta a revista – as que se produziam na Domus Internationalis Paolo VI de Roma, a residência que o então arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio, ficou hospedado antes do começo do conclave que elegeu o papa em 13 de março de 2013.

A publicação lembra que o nome do agora papa Francisco já tinha surgido nos documentos filtrados pelo portal Wikileaks de Julian Assange. O site revelava despachos dos serviços secretos americanos nos quais se falava de Bergoglio como um dos papáveis no conclave de 2005, assim como outros documentos datados em 2007 que relatavam sua “má relação” na Argentina com o então presidente Nestor Kirchner (2003-2007).

Além disso, entre os espionados estaria o presidente do Banco do Vaticano, o alemão Ernst von Freyberg, que foi nomeado em fevereiro de 2013 por Bento XVI.

A revista Panorama explica que as chamadas captadas no Vaticano foram arquivadas sob quatro classificações: “Leadership intentions” (Intenções de liderança), “Threats to financial system” (Ameaças ao sistema financeiro), “Foreign Policy Objectives” (Objetivos de política externa) e “Human Rights” (Direitos Humanos).

Perguntado sobre esta informação, o porta-voz do escritório de imprensa do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que não tem informação sobre este assunto e acrescentou que não têm “nenhuma preocupação a respeito”.

 

Vaticano também foi espionado pelos Estados Unidos – Redação: CartaCapital 30/10/2013

Jornal italiano afirma que até as discussões sobre o novo pontífice podem ter sido interceptadas

O Vaticano também foi alvo da espionagem norte-americana, anunciou a revista italiana Panorama. A reportagem completa será divulgada na quinta-feira 31 e aponta que até as discussões sobre o novo pontífice podem ter sido interceptadas pela Agência de Segurança Nacional (NSA).

Cerca de 46 milhões de ligações realizadas na Itália foram monitoradas pela NSA, incluindo o período que antecedeu o conclave, em 12 de março de 2013. A publicação ainda aponta que o monitoramento também aconteceu em ligações da Domus Internationalis Paulo VI, onde residiu o cardeal Jorge Mario Bergoglio, antes de ser escolhido Papa.

O padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, se pronunciou sobre o assunto dizendo que a igreja não se preocupa com a espionagem por não ter nada a esconder.

As ligações originadas do Vaticano e os usuários, de bispos a cardeais, teriam sido classificadas em quatro categorias: “intenções de liderança”, “ameaças ao sistema financeiro”, “objetivos de política externa” e “direitos humanos”.

De acordo ainda com a declaração de Panorama, a superintendência da NSA e o serviço secreto da CIA atuaram em parceria. Um documento classificado como “top secret” e datado de agosto de 2010, encontrado nos arquivos roubados por Edward Snowden, classificam a presença de arapongas em 79 lugares, sendo 19 deles na Europa, incluindo Roma.

 

Esclusiva Panorama: Datagate, anche il Papa è stato intercettato – 30/10/2013

L’Nsa avrebbe controllato e tracciato anche alcune conversazioni da e per il Vaticano. Lo rivela il settimanale nel numero in edicola dal 31 ottobre.

La National security agency ha intercettato anche il Papa. Lo rivela il numero di Panorama in edicola da domani, giovedì 31 ottobre. Nei 46 milioni di telefonate tracciate dagli Usa nel nostro Paese, tra il 10 dicembre 2012 e l’8 gennaio 2013, ci sarebbero infatti anche quelle da e per il Vaticano. E si teme che il grande orecchio statunitense abbia continuato a captare le conversazioni dei prelati fin sulla soglia del Conclave, il 12 marzo 2013. Incluse quelle in entrata e in uscita dalla Domus Internationalis Paolo VI a Roma, dove risiedeva il cardinale Jorge Mario Bergoglio insieme con altri ecclesiastici.

Panorama rivela infatti che esiste il sospetto che anche le conversazioni del futuro pontefice possano essere state monitorate. D’altronde Bergoglio fin dal 2005 era stato messo sotto la lente dell’intelligence Usa come svelato dai rapporti di Wikileaks.

Secondo quanto risulta a Panorama, le telefonate in entrata e in uscita dal Vaticano e quelle sulle utenze italiane di vescovi e cardinali, captate e tracciate dalla Nsa sono state classificate secondo quattro categorie: «Leadership intentions», «Threats to financial system», Foreign Policy Objectives, «Human Rights». C’è il sospetto perciò che siano state oggetto di monitoraggio anche le chiamate relative alla scelta del nuovo presidente dello Ior, il tedesco Ernst von Freyberg.

Full Spectrum Dominance

Não sabe o que é?

Leia:

Moniz Bandeira: O Brasil e as ameaças de projeto imperial dos EUA  – Marco Aurélio Weissheimer: Carta Maior 26/10/2013

O Direito Internacional só é respeitado quando uma nação tem capacidade de retaliar

Alguns trechos da entrevista:

. Mostrei (…) que o sistema de espionagem, estabelecido pela National Security Agency (NSA), começou a funcionar há mais de meio século.

. Em 1948 Estados Unidos e Grã-Bretanha haviam firmado um pacto secreto, conhecido como UKUSA (UK-USA) – Signals Intelligence (SIGINT)… para interceptação de mensagens da União Soviética e demais países do Bloco Socialista, a primeira grande aliança de serviços de inteligência e à qual aderiram, posteriormente, agências de outros países (…) Essa rede de espionagem é o Five Eyes, conhecida também como Echelon.

. Todos os impérios têm particularidades, que são determinadas pelo desenvolvimento das forças produtivas. Assim, não obstante a estabilidade das palavras, o conceito deve evoluir conforme a realidade que ele trata de representar. O império, na atualidade, tem (…) as características do ultra-imperialismo, o cartel das potências industriais, sob a hegemonia dos Estados Unidos, que configuram a única potência capaz de executar uma política de poder, com o objetivo estratégico de assegurar fontes de energia e de matérias primas, bem como os investimentos e mercados de suas grandes corporações, mediante a manutenção de bases militares nas mais diversas regiões do mundo, nas quais avança seus interesses, através da mídia, ações encobertas dos serviços de inteligência, lobbies, corrupção, pressões econômicas diretas ou indiretas, por meio de organizações internacionais, como Banco Mundial, FMI, onde detém posição majoritária. As guerras, para o consumo dos armamentos e aquecimento da economia, foram transferidas para a periferia do sistema capitalista.

.  Os Estados Unidos são a única potência com bases militares em [quase] todas as regiões do mundo e cujas Forças Armadas não têm como finalidade a defesa das fronteiras nacionais, mas a intervenção em outros países. Desde sua fundação, em 1776, os Estados Unidos estiveram em guerra, até dezembro de 2012, durante 214 de seus 236 anos de existência (…) E, atualmente, o governo do presidente Barack Obama promove guerras secretas em mais de 129 países. O Império Americano (e, em larga medida, as potências industriais da Europa) necessita de guerras para manter sua economia em funcionamento, evitar o colapso da indústria bélica e de sua cadeia produtiva, bem como evitar o aumento do número de desempregados e a bancarrota de muitos Estados americanos.

. O Project for the New American Century, dos neoconservadores e executado pelo ex-presidente George W. Bush inseriu os Estados Unidos em um estado de guerra permanente, uma guerra infinita e indefinida, contra um inimigo assimétrico (…)  com o objetivo de implantar a full spectrum dominance, isto é, o domínio completo da terra, mar, ar e ciberespaço pelos Estados Unidos, que se arrogaram à condição de única potência verdadeiramente soberana sobre a Terra (…) O presidente Barack Obama  endossou-o, tal como explicitado na Joint Vision 2010 e ratificado pela Joint Vision 2020, do Estado Maior-Conjunto, sob a chefia do general de exército Henry Shelton. E a NSA é um dos instrumentos para implantar a full spectrum dominance, monitorando as comunicações de todos os governantes tanto aliados quanto rivais.

. Se o declínio do Império Romano durou muitos séculos, o declínio do Império Americano provavelmente levará provavelmente algumas décadas. O desenvolvimento das ferramentas eletrônicas, da tecnologia digital, imprimiu velocidade ao tempo, e a sua queda será tão vertiginosa, dramática e violenta quanto sua ascensão. Contudo, não será destruído militarmente por nenhuma outra potência. Essa perspectiva não existe. O Império Americano esbarrondará sob o peso de suas próprias contradições econômicas (…) É com isto que a China conta.

. O que o Brasil pode fazer? Uma potência tecnologicamente superior é muito mais perigosa quando está em declínio (…) do que quando expandia seu império. Com as descobertas das jazidas do pré-sal, o Brasil entrou no mapa geopolítico do petróleo. As ameaças existem, conquanto possam parecer remotas. Mas o Direito Internacional só é respeitado quando uma nação tem capacidade de retaliar. O Brasil, portanto, deve estar preparado para enfrentar, no mar e em terra, e no ciberespaço, os desafios que se configuram…

Quem é Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira?

Deus? Há dois: o dos oprimidos e o dos opressores

Quem diz isso sobre Deus é o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos.Boaventura de Sousa Santos (1940- )

Referência de militantes de esquerda em todo o mundo, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos veio ao Brasil para o lançamento de dois livros: Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos e Direitos Humanos, democracia e desenvolvimento, o segundo em coautoria com a filósofa Marilena Chauí. Leia a entrevista que ele concedeu ao jornalista Ricardo Mendonça, da Folha de S. Paulo, publicada hoje, 26/10/2013.

 

Folha – “Se Deus fosse um ativista dos Direitos Humanos” é um título provocador. Sugere que o senhor acredita em Deus. E sugere que Deus poderia dar mais importância para os direitos humanos. É isso?

Boaventura de Sousa Santos – De fato, não. O título é provocador. Eu não me comprometo com a existência de Deus. Sou como Pascal [filósofo francês, 1623-1662]: diria que não temos meios racionais para poder afirmar com segurança se Deus existe ou não. O que podemos é fazer uma aposta: apostar se existe ou se não existe. Como sociólogo, o que penso é que há muita gente que aposta na existência de Deus e que organiza sua vida ao redor disso.

Estamos num momento de fortes movimentos sociais em todo o mundo, com protestos, muita indignação, muita revolta. Alguns desses movimentos trazem no seu interior pessoas e grupos que seguem diferentes religiões. Ou que transformam a religião e a existência de Deus no motivo da ação ou num impulso para a ação. Portanto, eu tive curiosidade de analisar. Esse fenômeno é extremamente ambíguo.

Quando surgiu a curiosidade?

Eu já tinha notado desde o Fórum Social Mundial de 2001, onde vi que havia movimentos sociais e organizações de diferentes partes do mundo com vivências religiosas, como a Teologia da Libertação e outros. Tinham uma dinâmica de grupo onde o elemento religioso, espiritual, era forte. Havia movimentos indígenas, para quem o elemento da religiosidade é sempre forte. Essa dimensão do transcendente é que me fascinou, pois eu venho de uma cultura eurocêntrica, que há muito tempo tenho criticado, mas sou filho dela, por assim dizer. Essa cultura tinha resolvido o problema através do que chamamos de secularismo, que é expulsar a religião do espaço público.

A presença da religião na política está crescendo?

A religião nunca saiu verdadeiramente da política. Temos sociedades que são laicas, mas cujos estados não são. É o caso da Inglaterra, por exemplo. E temos sociedades onde a convivência é mais laica do que outras. Tanto assim que hoje a gente faz distinção entre o secularismo e a secularidade. Secularismo é uma atitude mais radical, de deixar que a religião fique exclusivamente no espaço privado, na família, na vida. Secularidade é aquela que permite que haja expressões [religiosas] no espaço público como afirmação da própria liberdade de todos os cidadãos.

Mas é evidente, a gente sabe, a maneira com que a Europa resolveu a questão da separação da igreja e do Estado no século 17, depois de uma guerra enorme, nunca foi uma separação total. A igreja continuou a ter uma grande influência. Foi assim no esforço da colonização. Continuou com grande influência, ainda tem, nas agendas que o papa Francisco disse recentemente que são as agendas da cintura para baixo (risos), acerca das orientações sexuais, aborto, divórcio. Obviamente são questões de interesse público.

O que parece é que a crise do Estado secular trouxe uma maior presença da religião no espaço público. No mundo árabe, no mundo indiano e também no mundo ocidental. Começou a emergir nas televisões religiosas, cada vez mais e sobretudo com as correntes evangélicas e pentecostais. É uma presença pública muito mais forte, mas também um interesse em influenciar a vida pública, a vida dos Congressos, dos parlamentos. É o que acontece hoje no Brasil.

No Brasil isso parece mais evidente a partir da eleição de 2010, quando o assunto chegou a dominar o debate eleitoral. Como tem sido no resto do mundo?

Na Europa não é tão forte quanto aqui ou nos Estados Unidos. Mas encontramos no próprio mundo islâmico, por outro lado, diferentes formas de afirmação religiosa que não são todas fundamentalistas. Algumas são bastante moderadas. Mas que também se recusam a pensar que sua dimensão espiritual e religiosa não têm nada a ver com suas lutas.

Então o mundo hoje é mais diverso, e dessa diversidade, no meu entender, faz parte uma maneira muito diversa de ver a religião na vida pública. Isso está surgindo por todo lado, com formações bem distintas.

Algumas continuam na base da sociedade, como acontecia com a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base. Mas temos nos últimos anos, no Brasil muito claramente, a influência [religiosa] na própria cúpula do Estado, na estrutura política do Estado. Isso é novo.

Era uma corrente que já vinha dos anos 80 dos Estados Unidos. Uma corrente muito conservadora. Um dos grandes líderes dessa corrente nos Estados Unidos fez uma previsão que praticamente se confirmou. Ele disse assim: “quando um dia não houver uma grande diferença entre democratas e republicanos, e se forem todos mais ou menos conservadores, podemos começar a jogar golfe tranquilamente, pois significa que cumprimos a nossa missão”.

E a esquerda com isso? Seu livro é uma espécie de ajuste?

O pensamento crítico da esquerda, de uma sociologia crítica, sempre foi muito renitente em analisar o fenômeno religioso. Pois qualquer análise que não seja simplesmente dizer que religião é o ópio do povo fica como suspeita.

Minha experiência no Fórum Social Mundial fez-me crer que, se eu mantivesse essa atitude pouco complexa, eu deixaria fora da minha análise muita gente que genuinamente luta contra a desigualdade, a injustiça, a discriminação, a opressão. Não é gente alienada. É gente que realmente luta por um mundo melhor e que, no entanto, tem uma referência religiosa. Eu não posso considerar que isso é alienante. Então escrevi esse livro também para fazer as contas comigo mesmo.

Qual é a sua conclusão?

Termino dizendo que não há um Deus. Há dois: o Deus dos oprimidos e o Deus dos opressores. Enquanto a sociedade for dividida e houver tanta desigualdade social, penso que o Deus que estiver do lado dos oprimidos não se reconhece num Deus que esteja do lado dos opressores.

O outro livro é sobre direitos humanos, que parece refluir na medida em que aumenta a influência religiosa. Alguns políticos têm como principal plataforma o ataque aos direitos humanos. Quais são as relações entre as duas coisas?

É obviamente uma estratégia religiosa. É uma dimensão de todas as correntes conservadoras, de direita, que existiram ao longo do tempo. Houve, de fato, uma igreja progressista, de esquerda, que achou que sua missão era a missão evangélica do sermão da montanha, de estar com os pobres. Os pobres não estão no parlamento, estão nos bairros, nas favelas. E é para aí que os missionários devem ir. Mas há toda uma outra corrente que nunca aceitou que igreja ficasse fora do governo. Alguns deles entendem que a Bíblia, literalmente, dita o direito para os Estados e que, portanto, os direitos humanos não pertencem a esse direito bíblico. É como no mundo islâmico, onde há conceitos muito hostis aos direitos humanos.

Então, de vários lados, estamos a assistir a um ataque aos direitos humanos. Esse é o tema do meu outro livro, escrito por um sociólogo que se considera um cidadão ativista dos direitos humanos.

Eu também faço uma crítica aos direitos humanos. Mas uma crítica progressista: os direitos humanos são pouco. Então eles são criticados por mim por serem poucos. E a direita critica por serem muito. Eu digo pouco porque acho que a grande maioria dos cidadãos do mundo não são sujeitos de direitos humanos, são objeto de discurso de direitos humanos. São violados constantemente.

Agora, sobretudo após a queda do Muro de Berlim, em que as narrativas socialistas caíram em desuso, pelo menos até agora, o que ficou de luta por uma sociedade melhor foram os direitos humanos. Se o socialismo estivesse na agenda política, eu tenho certeza que essa direita religiosa incidiria completamente contra o socialismo.

Nessa questão dos direitos humanos, em que posição o senhor situa o Brasil hoje?

É uma leitura muito complexa. Há áreas e domínios dos direitos humanos em que tivemos conquistas extraordinárias desde o governo Lula. Eu considero [positiva] toda política de ações afirmativas, do reconhecimento de que há racismo na sociedade brasileira e de que é preciso tomar medidas para que afrodescendentes e indígenas possam ter acesso à educação, numa tradição que vinha desde há muito tempo com Abadias do Nascimento, mas que nunca teve êxito. Também o fato de criar um Brasil mais inclusivo, mais diverso, mais colorido, com mais consciência de sua diversidade étnico cultural. Penso que tudo isso foi um grande avanço.

Onde eu vejo que há retrocesso é em toda a área dos direitos humanos que trouxeram também no seu bojo aquilo que, para um desenvolvimentista, pode ser considerado um obstáculo.

Os direitos humanos trouxeram consigo o reconhecimento dos direitos coletivos. E os direitos coletivos do povos indígenas estão protegidos, internacionalmente, por convenções, aliás, que o Brasil assinou, sobretudo o convênio 169 [da Organização Internacional do Trabalho], que obriga consulta prévia, livre, informada e de boa fé. E de boa fé! E que, hoje em dia, depois da declaração das Nações Unidas de 2007 sobre os direitos dos povos indígenas, firma-se na jurisprudência da Corte Internacional de Direitos Humanos que sempre que estejam em causa a própria sobrevivência de um povo, seja uma barragem, seja um projeto de mineração, a consulta deve ser vinculante. Bem, nesse caso, eu tenho que dizer que tem havido retrocesso.

Não é só na demarcação de terras. Tem ainda a questão de saber se a concessão de novas terras são atribuição do parlamento e não do Executivo, o que seria a mesma coisa que dizer que nunca mais haverá qualquer concessão.

Então eu acho que a presidente Dilma está a perder uma batalha, está realmente com uma grande insensibilidade ao movimento indígena camponês, que foi uma grande forma de transformação em toda América Latina.

O senhor considera o governo Dilma de direita?

Eu venho da Bolívia, estive no Equador, conheço os outros países [da região]. Alguns deles são muito mais à direita no governo, é o caso do México. E lá estamos assistindo a uma grande vitória de um povo indígena que lutou contra uma barragem, La Parota, e conseguiu efetivamente parar essa barragem.

Eu colocaria a presidente Dilma no mesmo pé em que coloco o presidente da Bolívia [Evo Morales] e o governo do Equador. São governos que eu considero progressistas. Não os considero de direita. Eles, de alguma maneira, fazem muito do que sempre fez a direita: têm o mesmo modelo de acumulação, o mesmo modelo capitalista, o mesmo neoliberalismo, aproveitaram a mesma onda de extrativismo, com a reprimarização da economia.

Mas o que esses governos fazem e que a direita nunca fez na América Latina foi redistribuir esses rendimentos de alguma maneira. Distribuem muito mais que os outros governos. Para muitos grupos sociais, isso não é suficiente. Até porque essa forma de redistribuição é relativamente precária, não é com direitos universais, é algo que pode parar de um momento para outro. Mas há problemas. Os ambientais são extraordinários.

Qual o senhor citaria?

É certo que o Congresso é outra coisa. Mas eu fico espantado como é que é possível, estando a frente do país alguém como Dilma Rousseff, como é possível abrir uma discussão sobre a semente Terminator no Congresso. É a semente que fica estéril, a suicida. Isso está suspenso. É ilegal para o mundo inteiro. É um escândalo, se aprovar. Ela foi suspensa no âmbito da convenção de biodiversidade exatamente porque coloca os camponeses nas mãos da Monsanto e das outras três ou quatro empresas que têm a patente. Isso é o fim da agricultura camponesa.

Em muitos países é a agricultura camponesa que alimenta as populações, pois a grande indústria produz soja e outros produtos de exportação. A diversidade da produção agrícola é feita por pequenas propriedades, a agricultura familiar, a camponesa. Portanto isso significa arrogância dessas empresas transnacionais que têm acesso ao parlamento para ditar sua lei. E se você olhar bem, há uma aliança entre os religiosos evangélicos e os ruralistas. Então aqui há uma convergência de forças, uns que vêm da tradição ruralista, outros que vêm de uma tradição religiosa de direita, que se armou contra o comunismo e contra a revolução na América Latina.

Então não considero a presidente Dilma um governo de direita por sua capacidade de distribuição, agora há uma grande insensibilidade, que não vem de agora.

Onde mais há problemas?

Basta ver quantas vezes foram recebidas a CUT e outras entidades antes desses protestos: zero. Portanto significa que a presidente Dilma tem uma grande insensibilidade social, que se tornou ainda mais evidente por conta da posição do Lula, ao estilo Lula, que era de muito mais aproximação com os movimentos sociais. Isso perdeu-se. Eu considero uma perda muito grave.

A ex-ministra Marina Silva tem um discurso mais próximo desses segmentos que o senhor mencionou, meio ambiente, indígenas. Ela serve para a esquerda?

Eu penso que não. Sou amigo da Marina Silva, estive em vários painéis com ela e comungo com ela muitas causas ambientalistas. Mas acho que não porque a influência religiosa no país iria nitidamente continuar a desequilibrar. A dimensão religiosa que está por trás dela é uma dimensão que, no meu entender, tem mais um potencial conservador do que um potencial da Teologia da Libertação. Portanto é um potencializador de uma interferência conservadora na sociedade.

Isso pode ter outras dimensões para os direitos das mulheres, dos homossexuais, para as diversidades sexuais.

Por outro lado, sua política econômica, por aquilo que tenho visto e pelos apoios que ela recorre, é realmente uma tentativa de, com uma cara nova, uma mulher, repor o sistema que estava antes. Seria desacelerar ainda mais as políticas de redistribuição social que foram aquelas que, no meu entender, mais caracterizaram o período Lula.

Não penso que a Marina Silva esteja muito sensível a isso tudo. Então eu penso que ela é uma cara nova para a direita. Não é uma cara para a esquerda, no meu entender.

Milhares de pessoas foram às ruas no Brasil para protestar por diversas causas. Tudo muito rápido e inédito. O senhor tem alguma reflexão sobre o que ocorreu no país?

Analiso os diversos movimentos que surgiram no mundo desde 2011: a primavera árabe, o ocuppy [Wall Street, nos EUA], o dos indignados no sul da Europa e na Grécia, o movimento “Yo soy 132”, que é contra a fraude eleitoral no México, o movimento estudantil do Chile em 2012 e também os protestos no Brasil.

Considero que 2011-2013 é um daqueles momentos no mundo como nós tivemos em 1968, 1917, 1848. São momentos de movimentos revolucionários.

O que os caracterizam fundamentalmente hoje? São sinais de que, em muitos países, estamos a entrar num processo de guerra civil de baixa intensidade: uma grande agitação social porque as instituições não funcionam propriamente. Na Europa, a rua é o único espaço público que não está colonizado pelo capital financeiro. Nos EUA, a mesma coisa. Há uma deterioração das instituições, uma ideia de que a democracia foi derrotada pelo capitalismo. No sul da Europa isso parece muito claro, e as ruas e as praças são os únicos espaços onde o cidadão pode se manifestar.

Quem é esse cidadão?

É um cidadão diferente dos [cidadãos dos] processos anteriores. Um erro do pensamento político foi pensar em cidadãos organizados que fazem essas revoltas. De fato, não é assim. Essas revoltas são feitas, normalmente, por jovens que nunca participaram de movimento social, de partidos, que nunca votaram, nunca estiveram em nenhuma ONG. E de repente estão na rua. Isso não foi só aqui. Foi no Egito, na Europa, nos EUA. São movimentos que surgem a partir de momentos em que as instituições parecem não dar respostas às aspirações populares. Obviamente são diferentes. Não se pode pôr a primavera árabe ao lado do Brasil ou do occupy. São coisas distintas.

O movimento do Brasil tem uma genealogia, uma história, semelhante ao movimento dos indignados de Portugal, da Espanha e da Grécia. São jovens democracias onde houve uma expectativa de uma social-democracia, uma democracia com fortes direitos sociais, de educação, saúde, transporte. Havia uma expectativa de uma sociedade mais inclusiva. Essa era a promessa. A democracia não é simplesmente mero voto e a representação política, mas se traduz em direitos sociais e econômicos. Portanto nesses casos [Brasil e indignados], os movimentos surgem da ruína dessas aspirações. Democracias suficientemente jovens para ainda acreditar que eles têm esses direitos.

Os occupy já nem têm sequer essa ilusão, pois a democracia americana é cada vez mais restringida e eu nem acho mais que é uma democracia a sério nos EUA; eu vivo lá metade do ano, como você sabe, e conheço o país.

Uma crise da democracia?

Aqui [no Brasil], a juventude se dá conta que aquela democracia que ela acreditou não funciona, está sendo derrotada pelo capitalismo. Os países dão mais atenção aos mercados internacionais, aos grandes grupos transnacionais, do que dão aos seus cidadãos. Na Europa isso é muito claro. O meu governo [Portugal] está mais atento à agência de classificação Standard & Poor’s, sobre o que ela dirá amanhã sobre a taxa de rating do crédito português, do que as demandas dos portugueses, as reivindicações. E quanto mais as pessoas vão para as ruas, mais abaixa a nota do crédito internacional. Ou seja: a democracia está sendo usada contra os cidadãos. A democracia é exercida hoje contra o bem estar. Tinha-se a ideia que caminhávamos para um estado de bem estar. De alguma maneira, hoje, o Estado é um Estado de mal estar. O que aconteceu no Brasil, no meu entender, é essa frustração.

Compartilha com os outros movimentos essa espontaneidade. E o fato de não ser ideologicamente unitária, é o mais diverso possível. E com demandas contraditórias. E com uma característica também comum em todos eles: prevalece o negativo sobre o positivo. Esses grupos, que eu nem chamo de movimentos sociais, chamo de presenças coletivas, sabem o que não querer, mas não sabem bem o que querem. Podem ter uma demanda, como foi o caso do Movimento Passe Livre, mas essa é uma demanda que rapidamente pode ser superada por grandes demandas de superação do Estado. Como aconteceu na Tunísia. O moço que se imolou na Tunísia queria apenas que legalizassem o seu comércio de rua, e de repente aquilo era uma luta contra a ditadura.

O que todos estão a dizer? Estão a dizer que o mundo está escandalosamente desigual. Essa não é uma questão da pobreza. É que nos países, internamente, a diferença entre ricos e pobres nunca foi tão grande. Em meio aos maiores sacrifícios da sociedade portuguesa, com cerca de 50% dos jovens até 25 anos sem emprego, o número de ricos aumentou em Portugal nos últimos anos. E os ricos ficaram ainda mais ricos.

Essa descrição não coincide exatamente com o que ocorreu no Brasil. A distribuição de renda brasileira medida pelo índice Gini ainda é uma das piores do mundo, mas melhorou.

Sim, está reduzindo [a desigualdade de renda], nunca tinha acontecido antes, isso é preciso reconhecer. O que nós temos que ver, isso é minha leitura, é que as políticas que foram criadas para essa redução ocorrer – e por isso que eu digo que [Dilma] não é um governo de direita – são as que eu chamo de políticas de primeira geração. A segunda geração é que essa gente que agora come bem, agora que tem algum apoio, quer evoluir, quer ir para a universidade, quer outra qualidade dos serviços públicos. E aí estancou.

O senhor disse que esses grupos sabem dizer o que não querem, mas não sabem dizer bem o que querem. No Brasil, entre as coisas que eles diziam não querer estavam os partidos políticos. Teve até hostilidade, violência. O senhor vê isso com preocupação?

Sim, evidentemente. Mas ao mesmo tempo compreendo o que está ocorrendo. É aquilo que eu disse, que a democracia representativa liberal foi dominada e vencida pelo capitalismo, pela corrupção, pela presença do dinheiro nas eleições, nas campanhas eleitorais. Isso faz com que os representantes estejam cada vez mais distantes dos representados. É aquilo que a gente chama de patologia da representação: os representados não se sentem representados por seus representantes.

É um processo conhecido, pois há anos discute-se no Brasil a necessidade de se fazer uma reforma política, uma reforma do sistema eleitoral, do financiamento dos partidos. E todas essas reformas têm sido bloqueadas. Então essa negação não é propriamente a negação da democracia representativa. São duas ligações importantes: esta democracia participativa não serve, o dinheiro não pode ter o poder que tem hoje nas eleições; e a democracia representativa nas sociedades complexas não chega, ela precisa ser complementada pela democracia participativa.

Eu acho extraordinário que, no caso da primavera árabe – jovens de vários países que não tiveram democracia propriamente – a grande bandeira é a democracia real. Portanto quando dizem que há luta contra os partidos, não é que eles estejam dizendo que, em princípio, eles não têm nenhuma validade. É esta forma de democracia, a do poder do dinheiro, que está derrotada. E se ela não se alterar, temos altos riscos para a sociedade. É por isso que eu digo, escrevi dois artigos sobre isso, que há uma grande oportunidade: a oportunidade de uma reforma política. Esse é grande tema com o qual o PT chegou ao poder, não podemos esquecer.

Mas nos protestos ninguém levantou uma plaquinha sequer pedindo reforma política.

(risos) É por isso que eu digo: as pessoas não sabem o que querem, sabem o que não querem. Como é que se faz formulação política? Para sair daquilo que elas não querem, é preciso uma reforma política. Obviamente. E é por isso que temos partidos.

Eu acho que cabe à classe política encontrar as soluções. Os jovens não têm que saber [como fazer]. Nem dá para exigir que eles saibam. Como é que vai fazer um serviço unificado de saúde suficientemente robusto? Não têm que saber. Há técnicos e há políticos que vão fazer isso. A reforma política é a mesma coisa. E a presidente Dilma deu uma certa esperança quando falou nas cinco medidas que seriam tomadas e incluiu a reforma política, mas, infelizmente, os poderes conservadores do Congresso…

Foi nesse contexto que surgiram os grupos “black blocs”, com a tática de causar danos materiais para fazer suas denúncias. Eles aparecem em tudo, da greve de professores à ação para libertar cachorros de um laboratório de pesquisa médica. Qual é a opinião do senhor sobre esses grupos?

Esses grupos nasceram nos anos 70 na Alemanha, na luta contra a energia nuclear. Na década de 80, adquiriram uma ideologia autonomista. A ideia de que “temos que criar na sociedade espaços de autonomia que não dependem do capitalismo e que, portanto, podem oferecer outra maneira de viver”. Tiveram muita repercussão.

No momento em que começam os protestos contra a globalização, Seatle (EUA) é o marco, eles começaram a assumir duas características de sua tática: de um lado a ideia de violência contra propriedades símbolos do capitalismo, que pode ser um McDonald’s, um banco; de outro lado, a defesa dos manifestantes. Eles assumiram isso. Em muitas mobilizações, foram eles que, diante da violência policial, defenderam mais eficazmente os manifestantes pacíficos. Então a violência policial, no meu entender, é uma das grandes responsáveis pelo protagonismo “black bloc”. Eles enfrentavam. E a notícia muitas vezes passava a ser o enfrentamento entre os “black blocs” e da polícia.

Um terceiro fator que complica, principalmente a partir do ano 2000, isso está documentado, é que a polícia infiltra o “black bloc” para depois justificar sua violência. Isso está demonstrado em vários países. E este é o contexto em que nós estamos.

Mas como entender o “black bloc”?

Não são grupos de extrema-direita. Eu penso que, acima de tudo, temos que entender por que surgem esses movimentos. E encontrarmos, através do diálogo, formas de ver se estas são as melhores formas de luta. No meu entendimento, como já disse, estamos num momento político daquilo que chamo de guerra civil de baixa intensidade. Numa guerra assim, queremos que cada vez mais gente venha para a rua. No meu entender, para fazer pressão pacífica sobre os Estados.

Quando o capital financeiro será cada vez mais influentes, quando as Monsantos conseguem pôr no Congresso a [semente] Terminator, quando os evangélicos dominam a agenda política, quando os ruralistas dominam a agenda política, os governos, mesmo que tenham uma orientação de esquerda, precisam ser pressionados de baixo. A partir de baixo. E essa pressão tem de ser pacífica. E tem de ser inclusiva. E para ser inclusiva tem de trazer para a rua as pessoas que nunca foram para a rua, os chamados despolitizados, as avós, os netos.

Ora bem, se é esse o objetivo, o “black bloc” é uma força contraproducente. As pessoas querem ir para a manifestação, mas com medo que haja violência, com medo da brutalidade e violência policial, dizem ao final “não vamos”. Penso, portanto, que o “black bloc” deve analisar em que contexto nós estamos.

O ex-presidente Lula fez uma crítica direta ao uso das máscaras. Disse que participou de muita manifestação de rua, mas que nunca usou máscara porque não tinha vergonha do que fazia.

Eu acho que é uma posição legítima, mas não sei se é a única resposta que se pode dar. As pessoas têm suas formas de representação. Exemplo disso é o governo do Peña Nieto, o [partido] PRI, no México, que eu considero de direita. Nas últimas manifestações, o protesto de professores no México, teve a presença dos “black blocs” com as máscaras negras. E chegou ao ponto também em que o governo está para promulgar uma lei que proíbe as máscaras. Sabe qual foi a reação? Os homossexuais começaram a usar máscaras pink. Foram para os protestos com máscaras cor-de-rosa, máscara homossexual. Então a polícia vai prender? Eles não praticam nenhuma violência, usam máscara agora para afirmar a diversidade sexual.

Isso é para ver como a coisa é complicada. Criou-se uma solidariedade entre os homossexuais e o “black bloc”. Então, por vezes, as autoridades se excedem na forma. Eu penso que essa não é a forma. Penso que a forma é de dialogar, de trazer para uma mesa de conversa. Obviamente é uma discussão muito difícil, mas é uma discussão que é preciso ter.

 

Observo, para terminar, que cada um vê o que quer. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães, já dizia Guimarães Rosa no Grande Sertão: Veredas.

Compare o título da Folha, que ataca Dilma [‘Dilma tem grande insensibilidade social’, diz guru da esquerda], com o título do Brasil 24/7, que ataca Marina [Boaventura: “Marina é uma cara nova para a direita”].

 

:: Sobre os livros

Boaventura de Sousa Santos, Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos. São Paulo: Cortez Editora, 2013, 168 p. – ISBN 9788524920622.

Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos, Ele ou Ela estaria em busca de uma concepção contra-hegemônica dos direitos humanos e de uma prática coerente com ela. Nesta obra, o autor centra-se nas dificuldades e contradições enfrentadas pelos direitos humanos quando confrontados com movimentos que reivindicam presença da religião na esfera pública. Propõe uma aliança entre as diferentes teologias da libertação existentes em diferentes religiões e concepções contra-hegemônicas de direitos humanos.

Boaventura de Sousa Santos e Marilena Chauí, Direitos humanos, democracia e desenvolvimento. São Paulo: Cortez Editora, 2013, 136 p.  – ISBN 9788524921377.

Este livro teve origem na concessão do grau de Doutor Honoris Causa ao Professor Boaventura de Sousa Santos pela Universidade de Brasília em 29 de outubro de 2012. A saudação, que ficou a cargo da Professora Marilena Chauí, salienta que “a obra inovadora de Boaventura de Sousa Santos abre perspectivas e horizontes inéditos para a compreensão de nosso presente. Num mundo atualmente pobre em pensamento, acomodado na razão indolente, é preciso fazer valer o trabalho criador do pensamento”. O texto de Boaventura de Sousa Santos é a versão revista e muito ampliada da sua palestra de aceitação do grau. Nele são analisados os dilemas com que hoje se enfrentam os direitos humanos na sua relação com a democracia e as políticas de desenvolvimento que constituem a pauta dominante do mundo em que vivemos. O livro conta ainda com o Prefácio do Professor José Geraldo Sousa Junior, ao tempo Reitor da Universidade de Brasília (2008-2012), que presidiu a cerimônia de outorga do título.

Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale (USA), Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal), Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison (USA) e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick (Reino Unido). É igualmente Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

Uso compulsivo da Internet e distúrbios mentais

As novas doenças provocadas pelo uso da internet – Evan Dashevsky: TechHive, em Adital 23/10/2013
Conheça oito novas doenças que surgiram -ou pioraram- por conta do uso quase compulsivo da Internet e dos dispositivos digitais móveis: nomophobia, síndrome do toque fantasma, náusea digital, depressão de Facebook, transtorno de dependência da Internet, vício de jogos online, cibercondria, efeito Google… À medida que a Internet evoluiu para ser onipresente da vida moderna, testemunhamos o aumento de uma série de transtornos mentais distintos ligados diretamente ao uso da tecnologia digital. Até recentemente, esses problemas, amenos ou destrutivos, não tinham sido reconhecidos oficialmente pela comunidade médica. Algumas dessas desordens são novas versões de aflições antigas, renovadas pela era da banda larga móvel, enquanto outras são criaturas completamente novas. Não fique surpreso se você sentir uma pontinha de –pelo menos– uma ou duas delas.

Eight new mental illnesses brought to you by the Internet – Evan Dashevsky: TechHive 16/10/2013
“As the Internet evolved into a ubiquitous part of #ModernLife, we’ve witnessed a rise in the number of distinct mental disorders directly tied to our use of digital technology. These afflictions, which range from benign to destructive, weren’t recognized by the medical community until very recently, and didn’t even exist before the Clinton administration. Some of these disorders are new versions of old afflictions retooled for the mobile broadband age, while others are wholly new creatures. Don’t be surprised if you’ve felt a tinge of at least one or two of them”.

Leia Mais:
Aviso aos navegantes: Internet pode viciar e se tornar problema psiquiátrico

Lightbeam, extensão para Firefox

Lightbeam para Firefox mostra quem monitora sua navegação com cookies – João Kurtz: TechTudo 25/10/2013

A Mozilla anunciou o lançamento do Lightbeam para Firefox, um novo add-on [complemento, extensão] para seu navegador que permite ao usuário saber quais sites e serviços de terceiros estão coletando seus dados de navegação com cookies.  Conforme o usuário navega, o software coleta mais informações sobre os locais visitados, construindo um mapa completo e com uma interface fácil de usar sobre as relações entre os serviços e a localização dos servidores. Os dados podem ser visto de três formas diferentes. Na forma de gráfico, o usuário pode analisar em tempo real todos os serviços de terceiros, como opções de compartilhamento em redes sociais, propaganda e customizações que estão rastreando o seu histórico de navegação com diferentes objetivos de publicidade e serviço. Estes dados podem ser visualizados também de acordo com a hora (relógio) em que foram acessados e em forma de lista, que permite achar determinado serviço com mais rapidez. Tudo o que o Lightbeam coleta fica armazenado apenas no computador do usuário e estes dados só são compartilhados se ele desejar. Todos os itens podem ser apagados e salvos. A Mozilla vem experimentando este tipo de add-on há tempos. A primeira vez foi em 2011 com um experimento chamado Collusion, que deu origem ao Lightbeam. O novo escopo do projeto é permitir que os usuários saibam exatamente quem está monitorando seu dados. Segundo a empresa, a ideia ainda está engatinhando e o Lightbeam deve receber novas melhorias com o tempo. O código aberto do add-on está disponível para download gratuito no site da Mozilla, o que permite que outros desenvolvedores editem e melhorem o sistema.

Leia Mais:
Privacidade na Internet
Mozilla’s Lightbeam is info porn for privacy geeks
Help Guard Your Online Privacy with this Nifty Firefox Add-On

Os impérios não têm coração

Este foi o título de um artigo que publiquei em maio de 1997.

Analisando a helenização da Palestina: Os impérios não têm coração: a cidade grega e a etnia judaica.

Os impérios não têm coração. Só interesses. Como se sabe, desde a antiguidade.

Se olharmos os últimos 30 anos e, sobretudo, a partir dos atentados de 11 de setembro, há uma ideia de que os norte-americanos querem aplicar: utilizar o terrorismo mundial para que as pessoas tenham medo de agir com as mãos livres. É uma desculpa para torturar, sequestrar e prender. Agora estão usando a mesma desculpa para espionar. Os documentos sobre a maneira pela qual os EUA espionam e sobre os objetivos da espionagem pouco têm a ver com o terrorismo. Muitos têm a ver com economia, empresas e os governos, e estão destinados a entender como funcionam esses governos e essas empresas. A ideia central da espionagem é essa: controlar a informação para aumentar o poder dos Estados Unidos pelo mundo.

Leia:

Greenwald: espionagem dos EUA pouco tem a ver com terrorismo – Eduardo Febbro: Carta Maior 21/10/2013.

O programa de espionagem aplicado na França se chama “US-985D”. Seu nome se assemelha bastante ao dos programas que a NSA utilizou na Alemanha. “US-987LA” e “US-987LB”. Especula-se que esses números identificam os blocos ou círculos dentro dos quais Washington põe seus aliados. A França estaria dentro do “terceiro círculo”, no qual também se encontram Alemanha, Polônia, Bélgica e Áustria. O segundo círculo, conhecido como “Cinco olhos”, está composto pelos países anglo-saxões como Grã-Bretanha, Canadá, Nova Zelândia e Austrália. O primeiro círculo corresponde às 16 agências de inteligência norte-americanas. “DRTBOX” e “WHITEBOX” designam nos documentos relevados por Snowden as técnicas empregadas para a espionagem. Até agora, nem o diário nem nenhum outro especialista conseguiram elucidar a tecnologia. “DRTBOX” permitiu que, entre meados de dezembro de 2012 e princípios de 2013, fossem interceptados 62,3 milhões de dados telefônicos. O segundo, “WHITEBOX”, utilizado no mesmo período, acessou dados e conteúdos de 7,8 milhões de chamadas. O vespertino francês aponta informações que vão para além da França. O jornal revela que entre 8 de fevereiro e 8 de março deste no, a NSA conseguiu coletar em todo o mundo cerca de 124,8 bilhões de comunicações telefônicas (DNR) e mais de 97 bilhões de conexões pertencentes ao campo digital (DNI).

Leia:
França espionada: “EUA não têm aliados. Só alvos e vassalos” – Eduardo Febbro: Carta Maior 22/10/2013.

E:
Surveillance de la NSA : “Les Etats-Unis n’ont pas d’alliés, que des cibles ou des vassaux”  – Nicolas Chapuis: Le Monde 21/10/2013.

Resenhas na RBL – 11.10.2013

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

OED Bennett and David B. Growler, eds.
Radical Christian Voices and Practice: Essays in Honour of Christopher Rowland
Reviewed by Yongbom Lee

Alexander Böhlig; Siegfried G. Richter and Peter Nagel, ends.
Die Bibel bei den Manichäern und verwandte Studien
Reviewed by Jason Beduhn

Brian Arthur Brown
Three Testaments: Torah, Gospel, and Quran
Reviewed by John Kaltner

Mary L. Coloe and Tom Thatcher, eds.
John, Qumran, and the Dead Sea Scrolls: Sixty Years of Discovery and Debate
Reviewed by Jörg Frey

Deborah A. Green
The Aroma of Righteousness: Scent and Seduction in Rabbinic Life and Literature
Reviewed by Bálint Károly Zabán

Joseph A. Marchal, ed.
Studying Paul’s Letters: Contemporary Perspectives and Methods
Reviewed by Robert N. Stegmann

Victor H. Matthews and James C. Moyer
The Old Testament: Text and Context
Reviewed by Aren M. Maeir

John F. A. Sawyer
Sacred Texts and Sacred Meanings: Studies in Biblical Language and Literature
Reviewed by Albert Wolters

John H. Walton
Job
Reviewed by Martin A. Shields

Hans-Ulrich Weidemann, ed.
Er stieg auf den Berg … und lehrte sie (Mt 5,1f.): Exegetische und rezeptionsgeschichtliche Studien zur Bergpredigt
Reviewed by Edwin Broadhead

>> Visite: Review of Biblical Literature Blog

A História Antiga de Israel no Brasil: três opiniões

Josué Berlesi disponibilizou em Academia.edu uma entrevista com três estudiosos brasileiros de História de Israel:

A História Antiga de Israel no Brasil: três opiniões sobre o tema

Respondem às 6 questões: Nelson Kilpp, Fernando Cândido da Silva e Airton José da Silva.

Confiram.

O que é Academia.edu?

Casta insalubre troca estetoscópio por cabresto

O fracasso dos médicos em influir na sociedade para obrigar o governo federal a interromper o programa Mais Médicos só fez estimular as entidades representantes da categoria a intensificar suas ações políticas. Sob estímulo das entidades de classe, estão ocorrendo filiações em massa de médicos a partidos de oposição, principalmente ao PSDB e ao DEM. Os médicos que não conseguiram chantagear o governo agora querem derrotá-lo na eleição presidencial de 2014. Médicos dizem que querem se aproveitar da baixa escolaridade de pessoas humildes para fazê-las votar de forma que beneficie só a eles mesmos. 

Médicos furiosos com Dilma podem afundar o PSDB e o DEM – Eduardo Guimarães: Blog da Cidadania  15/10/2013

Os médicos que aceitarem fazer essa pregação abjeta e, em boa medida, imoral – médicos dizem que querem se aproveitar da baixa escolaridade de pessoas humildes para fazê-las votar de forma que beneficia só a eles mesmos – estão superfaturando a própria influência política, como mostram as pesquisas.

A ameaça que alguns médicos – seguramente não todos e, talvez, não tantos – estão fazendo à presidente da República pode produzir efeito oposto, pois com o programa Mais Médicos tendo se tornado tão popular os partidos que estão filiando em massa médicos contrários a esse programa certamente colarão em si mesmos a pecha de serem contra o desejo da maioria votante.

O que fica da nova ofensiva de parte da classe médica é uma certa perplexidade com profissionais que deveriam ser humanistas por definição, mas que, com a postura que estão adotando de forma crescente, vêm desmoralizando a sua profissão, fazendo com que seja vista como exercida por pessoas insensíveis, arrogantes e gananciosas (continua).