The Catholic Biblical Quarterly – October 2006

Acabo de receber o número de outubro de 2006 da revista The Catholic Biblical Quarterly, publicada por The Catholic Biblical Association of America.

Este é o n. 4 do volume 68, o último número do ano. São 5 artigos e 88 páginas de resenhas, cada uma com cerca de página e meia.


Os quatro números de 2006 totalizaram mais de 800 páginas de texto.

RIBLA apresenta uma introdução aos Escritos, terceira parte da Bíblia Hebraica

Estou folheando o terceiro fascículo de 2005 da RIBLA – Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Este fascículo fecha o n. 52 da RIBLA e é dedicado à terceira parte da Bíblia Hebraica, os Escritos ou Ketubim.

A RIBLA, como diz a página do Instituto Teológico Franciscano, dedicada às revistas da Vozes de Petrópolis, situa-se dentro das experiências de fé e de luta das comunidades e das Igrejas da América Latina e do Caribe, fazendo uma leitura da Bíblia que procura responder à realidade destas duas regiões. Por isso tem em seu conselho de redação os principais nomes da leitura popular da Bíblia da América Latina.

RIBLA é publicada em espanhol pela RECU, de Quito, Equador, e em português pela Vozes, de Petrópolis, RJ, Brasil, com o intuito de ser um elo de interligação da diversidade cultural latino-americana e caribenha. RIBLA é ecumênica e seus ensaios são elaborados por exegetas, pastores e professores das Igrejas Católica, Luterana e Metodista. É coordenada por Milton Schwantes.

Este fascículo traz o seguinte sumário:
Jacir de Freitas Faria – O livro dos Salmos no seu contexto literário, 11
Tércio Machado Siqueira – O lamento, 29
Sandro Gallazzi – O grito de Jó e de sua mulher, 39
Mercedes García Bachmann – Livro dos Provérbios, 66
Mercedes Lopes – O livro de Rute, 88
Alzir Sales Coimbra – O Cantar dos Cantares, 101
Lilia Ladeira Veras – Um primeiro contato com o livro do Eclesiastes ou o livro Coélet, 119
Marcos Calovi – Lamentações – Uma introdução, 140
Darío Barolín – Ester e a morte do dualismo, 148
José Ademar Kaefer – “Bem-aventurado aquele que perseverar” (Daniel 12,12) – Uma introdução ao livro de Daniel, 160
Nelson Kilpp – Esdras e Neemias, 169
Shigeyuki Nakanose – Reescrevendo história – Uma leitura dos livros das Crônicas, 184
Resenhas, 198

Milton Schwantes, no Editorial, nos diz que em volumes anteriores já foram publicados introduções à Torah ou Pentateuco (vol. 23) e aos Nebi’im ou Livros Proféticos (vol. 35/36). e que a intenção desta série de números é a de apresentar uma introdução ao Primeiro Testamento, obedecendo à seqüência da Bíblia Hebraica (Lei, Profetas, Escritos), também adotada na TEB, Tradução Ecumênica da Bíblia, publicada entre nós pela Loyola.

Nas resenhas são apresentadas duas obras: o vol. 2 da série alemã Biblische Enzyklopädie, escrito por Volkmar Fritz, com o título Die Entstehung Israels im 12. und 11. Jahrhundert v.Chr. [A origem de Israel nos séculos 12 e 11 a.C.], publicado em Stuttgart em 1996; e a tese de doutorado de Elaine Gleci Neuenfeldt, Práticas e experiências religiosas de mulheres no Antigo Israel: Um estudo a partir de Ezequiel 8,14-15 e 13,17-23, São Leopoldo, IEPG, 2004. A primeira resenha é feita por Nelson Kilpp, a segunda por Maricel Mena López.

Interessa-me, sobretudo, a leitura da resenha do livro de Volkmar Fritz, pois estou com alguns números desta série aqui, como comentei outro dia, esperando um tempo livre para leitura…

Journal of Biblical Studies – June 2006

Saiu mais um número do Journal of Biblical Studies, que é uma publicação eletrônica dedicada aos Estudos Bíblicos em geral. Publica artigos acadêmicos, relatórios de projetos e resenhas. Abrange arqueologia, linguística, exegese, história e questões textuais. Tem como editor geral J. Brian Tucker e editor técnico Jim West.

Neste número há artigos de Michael Avioz, da Universidade Bar-Ilan, Israel; de Jim West, Quartz Hill School of Theology, USA; de Randy W. Nelson, Northwestern College, USA, além de resenhas feitas por Kevin W. Woodruff e J. Brian Tucker.

A Obra Histórica Deuteronomista na revista Estudos Bíblicos

Acabo de receber o número 88 da revista Estudos Bíblicos, o quarto e último fascículo de 2005, com 101 páginas.
Seu título: Obra Histórica Deuteronomista.
Coordenador deste número: Telmo José Amaral de Figueiredo

Autores: o grupo dos “Biblistas Mineiros”, escrevendo desta vez:
Johan Konings: Editorial – A Obra Histórica Deuteronomista: uma narrativa da (in)fidelidade
Airton José da Silva: O Contexto da Obra Histórica Deuteronomista
José Luiz Gonzaga do Prado: A invasão/ocupação da terra em Josué. Duas leituras diferentes
Jacir de Freitas Faria: Juízes: utopia ou invenção de uma sociedade igualitária?
Euclides Balancin: Sobre juízes, sacerdotes, reis e… profetas
Leyde Maria Leite: “A solidão da fé” (1Sm 1,4-5)
Jaldemir Vitório: O livro dos Reis: redação e teologia
Jaldemir Vitório: Monarquia e profetismo: duas instituições em conflito. 1Rs 21,1-19 – A vinha de Nabot.

Konings começa assim o editorial:

No presente número de Estudos Bíblicos, os “biblistas mineiros” damos continuidade ao assunto tratado no número 71 (2001), intitulado “Israel e sua história”, entretanto publicado também como livro avulso pela Ed. Vozes (como possivelmente o será também o presente fascículo). Alguns pressupostos literários e históricos encontram-se mais amplamente desenvolvidos na publicação anterior…

CBQ de outubro: considerações sobre profetas e sacerdotes

Acabo de receber o número 4, de outubro de 2005, do volume 67 da CBQ – the Catholic Biblical Quarterly. O último do ano, e traz seis artigos:

Sara R. Johnson, Novelistic Elements in Esther: Persian or Hellenistic, Jewish or Greek?
Craig E. Morrison, The “Hour of Distress” in Targum Neofiti and the “Hour” in the Gospel of John
John Clabeaux, The Story of the Maltese Viper and Luke’s Apology for Paul
John Fotopoulos, Arguments Concerning Food Offered to Idols: Corinthian Quotations and Pauline Refutations in a Rhethorical Partitio (1 Corinthians 8:1-9)
Terrance Callan, The Syntax of 2 Peter 1:1-7
David J. Downs, “Early Catholicism” and Apocalypticism in the Pastoral Epistles.

Na seção Biblical News há um Report of the Sixty-eighth International Meeting of the Catholic Biblical Association of America, realizada de 6 a 9 de agosto de 2005, na Saint John’s University and Abbey, Collegeville, Minnesota. Entre outras coisas, chamou-me a atenção a prestação de contas de Linda Day, editora da revista, sobre a CBQ em 2004: 67 artigos foram recebidos pela revista, dos quais 21 foram aceitos, 28 recusados e 18 ainda estão sendo analisados. Em 2005 a revista publicou 208 resenhas de livros.

Das Resenhas, por enquanto, duas obras analisadas chamaram minha atenção. A primeira foi:

Lester L. GRABBE and Alice Ogden BELLIS (eds.), The Priests in the Prophets: The Portrayal of Priests, Prophets and Other Religious Specialists in the Latter Prophets, London: T & T Clark, 2005. Pp. xii + 230. Este volume traz 11 ensaios que foram apresentados no encontro da SBL de 2002, realizado em Toronto, ocasião em que o grupo dedicado ao tema “Textos Proféticos e seus Antigos Contextos” (Prophetic Texts and Their Ancient Contexts), discutiu o assunto do título.

Lester L. Grabbe, na “Introdução”, sintetizou as posições dos autores sobre o assunto debatido em 4 direções: 1. a natureza do antagonismo, sustentado por muitos especialistas, entre sacerdotes e profetas; 2. o lugar (ou função) do sacerdote nas sociedades israelita e judaíta; 3. a relação dos profetas com o culto; 4. a relação dos sacerdotes com adivinhos, profetas e intelectuais. A resenha foi feita por Dale Launderville, St. John’s University, Collegeville, MN, que no final recomenda a obra para as bibliotecas, talvez por seu preço abusivo!

Na página da editora T & T Clark, há a seguinte descrição da obra:

 

Since at least the 19th century Hebrew Bible scholarship has traditionally seen priests and prophets as natural opponents, with different social spheres and worldviews. In recent years several studies have started to question this perspective. The Priests in the Prophets examines how the priests are portrayed in the Latter Prophets and analyzes the relationship between priests and prophets. The contributors also provide insights into the place of priests, prophets, and some other religious
specialists in Israelite and Judean society in pre-exilic and post-exilic times.

Ou seja: estaria ocorrendo, nos últimos anos, uma mudança da postura, assumida pelos especialistas desde o século XIX, sobre a relação entre sacerdotes e profetas como oponentes naturais. Nos últimos anos, muitos estudos começaram a questionar esta perspectiva…

Li também duas outras resenhas sobre o livro e que foram publicadas pela Review of Biblical Literature.

A de Jacob L. Wright, da Universidade de Heidelberg, Alemanha, publicada em 09 de julho de 2005, que assim termina seu texto:

That the prophets’ criticism of the cult was directed at the incumbents of the priestly office, not the office itself, has been forcefully argued from a wide range of perspectives in this volume. After reading it, I am once again impressed by the need for more research on the place of the Jerusalem temple in the politics and economy of Judah during the Babylonian, Persian, and Hellenistic periods. This research is indeed indispensable to our ongoing attempt to appreciate the social and religious factors that motivated the prophets’ criticisms of the priests.

A de Henrietta L. Wiley, Denison University, Granville, OH, USA, publicada em 17 de dezembro de 2005 e que diz, ainda no começo de seu texto:

Most of the questions that these authors address pertain to the history of Israelite religious life. What were historical characteristics of the roles of priest and prophet? How did they interact? To what historical realities of cultic politics and public worship are the authors of the prophetic books responding? Some pieces address these issues as they relate to specific passages in prophetic literature, while others concern themselves with the role of prophets in general vis-à-vis the cult. Among those in the latter category, a number address the idea that there was bitter antagonism between priests and prophets. This notion has dominated Protestant scholarship for decades, if not centuries, with the claim that prophets of Yahweh preached a religion of ethics against priestly legalism and ritualism that sought not to serve Yahweh but to imitate the imitate Israel’s pagan neighbors. Several of the authors in this volume refute this claim quite nicely.

Bom, como gosto de estudar o profetismo bíblico, é algo que devo tomar como uma “provocação” a ser considerada. “Oponentes naturais” eu não diria, mas continuo a ver, em muitos profetas, uma crítica muito profunda ao modo como o sacerdócio era exercido em Betel, em Jerusalém e, talvez, em outros lugares…

Por outro lado, concordo com Jacob L. Wright, quando ele diz que é necessário aprofundarmos o conhecimento sobre a função do Templo de Jerusalém na política e na economia de Judá durante as épocas babilônica, persa e helenística. O conhecimento destes elementos é fundamental para que possamos avaliar os fatores sociais e religiosos que motivaram a crítica dos profetas aos sacerdotes.

A segunda resenha que me chamou a atenção foi:

Louise J. LAWRENCE and Mario I. AGUILAR (eds.), Anthropology and Biblical Studies: Avenues of Approach, Leiden: Deo, 2004. Pp. 324 $29.95 (resenha feita por John J. Pilch, Georgetown University, Washington, DC).

Isto tem a ver com minha proposta de leitura socioantropológica dos textos bíblicos. Mas o comentário desta obra fica para outra ocasião.

A OHDtr em Estudos Bíblicos

O número 88 da revista Estudos Bíblicos, que será o último de 2005, está sendo finalizado pelos Biblistas Mineiros. O tema abordado: A Obra Histórica Deuteronomista, assunto espinhoso e sobre o qual temos pouca bibliografia publicada no Brasil. O meu artigo trata do Contexto da Obra Histórica Deuteronomista. Espero que este número de Estudos Bíblicos seja um recurso válido para os nossos alunos de Teologia e para os agentes de pastoral que precisarem estudar melhor o tema.

Meu artigo começa assim:

Königsberg, Alemanha, 1943: nesta ocasião, Martin Noth propõe, pela primeira vez, que os livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis formam uma coletânea (Sammelwerk) de tradições, que deverá ser chamada de historiografia deuteronomista. Nome que lhe é atribuído por sua grande semelhança com as leis e os discursos exortativos do Deuteronômio. Livro este, que, por sua vez, em seus discursos iniciais, cumpre a função de introdução à coletânea. Para Noth, a OHDtr (= Obra Histórica Deuteronomista) teria sido redigida por um só autor, possivelmente na Palestina do século VI a.C., com o objetivo de explicar o fim do reino de Judá e o exílio babilônico então em curso como fruto da apostasia do povo (1).Hoje, mais de 60 anos após a “invenção” de Noth, dezenas de hipóteses sobre a OHDtr, espalhadas em milhares de estudos, são propostas pelos especialistas, destacando-se, entre elas, duas correntes: a de Cross e a de Smend.

Frank Moore Cross, em um artigo de 1968, reeditado em 1973, propõe duas edições da OHDtr: a primeira, elaborada na época de Josias (640-609 a.C.), é um escrito otimista que dá suporte e celebra a reforma político-religiosa deste rei de Jerusalém; a segunda, escrita durante o exílio, é marcada pela experiência da catástrofe de 586 a.C. e transforma o anterior escrito de propaganda em explicação teológica das causas da desgraça que atingiu Jerusalém e Judá. Seus discípulos R. D. Nelson e R. E. Friedman, além de muitos outros pesquisadores, seguem-no de perto (2).

Saindo de Harvard, nos Estados Unidos, para Göttingen, na Alemanha, encontramos a hipótese de Rudolf Smend, feita em 1971 e retomada em 1978, e de seus discípulos W. Dietrich e T. Veijola. Eles propõem três redações para a OHDtr, todas escritas no tempo do exílio. Para Smend, à semelhança de M. Noth, o objetivo da OHDtr seria o de explicar a catástrofe do exílio. Muitos pesquisadores, sobretudo nos países de língua alemã, aderiram às suas explicações (3).

É evidente que a maior parte das questões sobre a OHDtr ainda não foram satisfatoriamente respondidas. Como, por exemplo: quem escreveu esta obra? Quando? Quantas modificações sofreu? Onde começa? Qual o seu objetivo? E até: existe mesmo uma OHDtr? Também: não estaríamos atribuindo ao “deuteronomista” muitas coisas sobre as quais não conhecemos a origem? Existe, de fato, um “pan-deuteronomismo”? Uma “invasão” de teologia deuteronomista em vários livros bíblicos, como muitos sugerem, é aceitável?

A proposta deste artigo é apontar, apesar de todas estas questões, o contexto em que a OHDtr foi escrita. Esta tentativa talvez suscite mais questões do que ofereça respostas. Entretanto, um bom ponto para começarmos a pensar a situação é o seguinte: do século XII a.C. (época da chegada dos “Povos do Mar”) até 745 a.C. (época do rei assírio Tiglat-Pileser III), quase nenhuma interferência duradoura de grandes impérios pode ser detectada na região de Canaã, permitindo aos povos da região uma relativa estabilidade e a construção de sua independência (4) . Mas a partir de 745 a.C…. Assim começaremos a delinear nosso contexto a partir da metade do século VIII a.C.

NOTAS
(1). O livro de M. Noth chama-se Überlieferungsgeschichtliche Studien [Estudos de história das tradições]. Cf. DE PURY, A.; RÖMER, T.; MACCHI, J.-D. (éds.) Israël construit son histoire: l’historiographie deutéronomiste à la lumière des recherches récentes. Genève: Labor et Fides, 1996, p. 18-39.
(2). O artigo de CROSS, F. M. The Themes of the Book of Kings and the Structure of the Deuteronomistic History pode ser lido em seu livro Canaanite Myth and Hebrew Epic: Essays in the History of the Religion of Israel. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1973, p. 274-289 (Reprint Edition: 1997).
(3). Cf. SMEND, R. Die Entstehung des Alten Testaments. Stuttgart: Kohlhammer, 1978 [1990].
(4). Autores tão diferentes como John Bright e Mario Liverani concordam neste ponto. Cf. BRIGHT, J. História de Israel. 7. ed. São Paulo: Paulus, 2003, p. 327; LIVERANI, M. Oltre la Bibbia: storia antica di Israele. Roma-Bari: Laterza, 2003 [4. ed.: 2005], p. 159

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