Cristofascismo: uma teologia do poder autoritário

Cristofascismo, uma teologia do poder autoritário: a união entre o bolsonarismo e o maquinário político sociorreligioso. Entrevista especial com Fábio Py – Por Patricia Fachin e João Vitor Santos – IHU: 01.07.2020

O modelo de governança do presidente Bolsonaro é sustentado pelo fundamentalismo religioso, diz o teólogo.

O uso da linguagem cristã, a apropriação do cristianismo e o aceno que o presidente Bolsonaro faz a determinados grupos religiosos, especialmente aos evangélicos e aos católicos conservadores que formam a sua base eleitoral, indicam uma novidade em relação a outros momentos em que chefes de Estado e líderes religiosos estiveram lado a lado. O traço distintivo desta relação é que “o bolsonarismo se constrói a partir e junto às máquinas sociorreligiosas” e o “maquinário político sociorreligioso de Edir Macedo, Silas Malafaia, R. R. Soares e Valdomiro Santiago” está voltado às demandas do bolsonarismo, diz o teólogo Fábio Py à IHU On-Line. A partir dessas relações, o presidente instituiu o que Py vem chamando de “cristofascismo”, uma “forma de governança baseada no fundamentalismo que pratica o ódio aos diferentes”.

Fábio Py é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF. Py é autor de Pandemia cristofascista (São Paulo: Editora Recriar, 2020). O livro online está disponível aqui.

Transcrevo, a seguir, trechos da entrevista.

 

IHU On-Line – Em que consiste a ideia de cristofascismo? Quais as bases teóricas desse conceito e de que forma o cristofascismo tem se manifestado na conjuntura brasileira?

Fábio Py – Li textos da Dorothee Solle pela indicação nas aulas da querida professora Maria Clara Bingemer (PUC-RIO). Quando Bolsonaro começou a falar em “Deus acima de todos”, percebi a linha de discursos de traços autoritários que estavam sendo proferidos por ele. E, com a expressão acima, ele está se apropriando do cristianismo, tal como se teceu na época do nazismo. Inspirei-me nos textos de Dorothee Solle, uma teóloga que escreveu nos anos 1970 e 1980, lembrando como era na época do nazismo, ao descrever os fenômenos neonazistas nos EUA, quando lecionou na Universidade de Columbia, em Nova York. Contudo, ela é uma teóloga mística e não estava tão preocupada com as descrições. As minhas pesquisas estão mais preocupadas em descrever, a partir da Ciência Política, Ciências Sociais e História, a apropriação que Bolsonaro faz da teologia evangélica fundamentalista expressa pelo texto bíblico: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Ora, deve-se lembrar que esse fragmento bíblico é simbólico, pois é o jargão das igrejas protestantes de evangelização no Brasil e nas Américas.

Os evangélicos do sul dos EUA, que são ligados historicamente aos grandes latifúndios e ao racismo e vieram evangelizar o Brasil, usam esse texto há muitos anos. As igrejas batistas e metodistas, chamadas de protestantes tradicionais, também usam esse texto. Assim, quando Bolsonaro faz uso do texto bíblico, ele está dialogando com o setor, sinalizando que está alicerçado num conjunto de práticas e ações políticas do cristianismo ao longo da história do Brasil e do mundo.

Nessa linha, o cristofascismo seria a apropriação de uma teologia fundamentalista pelo governo autoritário, que tem práticas de desprezo pelos pobres, de defesa da família idealizada cristã, de contrariedade em relação às políticas de esquerda e em relação aos setores ditos minoritários. Deve-se ressaltar, novamente, que Bolsonaro está apoiado sobre uma lógica fundamentalista (evangélica) que tem como sua base social e hermenêutica de argumentação a ideia de família.

Há todo um discurso de acoplamento e de relacionamento do governo atual com o fundamentalismo brasileiro. Isto seria o cristofascismo: a partir da plataforma cristã, da linguagem cristã e da forma discursiva cristã, se constrói uma governança dos corpos e das vidas que está baseada desde ações para se instituir um dia de jejum, até disparar elementos cristãos nas redes sociais para recuperar a base social que estava sendo perdida. Então, cristofascismo seria uma forma de governança baseada no fundamentalismo que pratica o ódio aos diferentes, às minorias e aos pobres. É uma guerra cultural. Ou, como Michael Löwy afirma, está se praticando no Brasil uma “guerra dos deuses” contra as demais divindades afro, indígenas e do cristianismo ecumênico, que aceita as outras tradições em diálogo. Então, o cristofascismo seria esta plataforma: uma intensa “teologia do poder autoritário”.

IHU On-Line – Esse conceito se aproxima do conceito tradicional de fascismo de algum modo?

Fábio Py – De forma nenhuma. Quando falo de fascismo, não estou considerando que exista uma etapa fascista, mas, sim, que o fascismo faz parte da sociedade democrática liberal desde a formação das sociedades liberais. Assim, existem territórios onde continuamente, desde a colonização brasileira, se espalham táticas fascistas. Sempre é bom lembrar o que o poeta popular grafou: “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”. Assim, nas favelas, o estado de sítio é completado por meio das políticas do Estado que não permitem às pessoas circularem. Seus agentes são os algozes que matam, violentam famílias e encarceram seus filhos.

Então, quando falo de cristofascismo, estou usando a noção de fascismo de Walter Benjamin, de que não se trata de uma etapa, mas de uma estrutura dentro do capitalismo atual. Ao mesmo tempo, estou intuindo a noção de neofascismo de Michael Löwy, quando diz que o neofascismo não é mais representado por uma pessoa, mas por práticas de subordinação ao neoliberalismo na sociedade atual, que constrói uma pauta autoritária, a partir do cristianismo, para poder construir e consolidar uma agenda castradora necropolítica, tal como descreve Achille Mbembe.

Não há somente um cristofascismo no Brasil, mas um cristofascismo do Sul, que está se desenvolvendo agora na Bolívia. Também, não podemos deixar de destacar a operação no governo Trump, nos EUA.

IHU On-Line – Que ameaças o cristofascismo representa à democracia?

Fábio Py – Ele é uma ameaça e percebemos isso ao ver a existência de um grupo chamado 300 do Brasil, que esteve acampado em Brasília, fazendo ameaças à democracia, ameaçando juízes, desembargadores, os ministros do STF, enquanto Bolsonaro tenta desarticular o tempo todo a estrutura do Estado brasileiro. Ele declara guerra, constrói linchamentos públicos aos prefeitos e governadores que não aceitam a sua deliberação de quarentena vertical. Lembre-se de que Bolsonaro foi “treinado” desde sua juventude na ditadura civil-empresarial brasileira, desabrochou seu autoritarismo nos mandatos parlamentares e solidificou o desprezo pela morte dos pobres agora que está na presidência.

Também, estamos assistindo a um aumento drástico de crimes nas roças brasileiras em prol dos latifúndios, com grilagens, assassinatos, queimadas e deliberações contra os índios. Nesse sentido já estamos vivendo uma nova forma de expressão do fascismo brasileiro que se criou a partir da memória da Ditadura Civil-Empresarial-Militar no Brasil de 1964.

O governo Bolsonaro promove violências, racismos e eugenias a partir das grandes estruturas religiosas cristãs: evangélicas e católicas. Além de grupos organizados, como o 300 do Brasil, deve-se destacar os vínculos da família Bolsonaro com setores das milícias do Rio de Janeiro. Há também uma caça aos jornalistas e às expressões das mídias. Não se fala isso, de forma tão direta, nas mídias, mas já estamos vivendo um clima tórrido de formas ditatoriais.

Leia a entrevista completa.

Fonte: IHU – 01.07.2020

Print Friendly, PDF & Email

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.