Bibliografia Bíblica Latino-Americana em novo site

Metodista lança novo site da Bibliografia Bíblica Latino-Americana Milton Schwantes

O novo site da Bibliografia Bíblica Latino-Americana Milton Schwantes está no ar [desde junho de 2016, mas algumas seções ainda estão em construção]. O projeto está ligado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, e tem como objetivo incentivar e democratizar a pesquisa bíblica, reunindo informações e facilitando o acesso ao conteúdo produzido sobre estudos bíblicos na América Latina e no Caribe.

A Bibliografia Bíblica foi iniciada em 1988 pelo falecido biblista e professor da Metodista Milton Schwantes, que viu a importância dos estudos bíblicos naquela época, quando a Bíblia estava sendo descoberta pelas comunidades cristãs da América Latina e do Caribe como fonte para uma maneira de formular a religião. O projeto foi relançado e renomeado para homenagear Schwantes pela importância e extensão de seu trabalho.

“Quando o projeto foi desativado em 2012, por falta de verbas, houve um ‘protesto’ muito grande por parte dos biblistas em todo Brasil. A Bibliografia Bíblica é muito estimada e conhecida pelos que estudam Bíblia na América Latina”, conta o professor José Ademar Kaefer, do programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, responsável pela retomada do projeto.

Kaefer destaca que não existe nenhum outro site na América Latina com um arquivo tão grande sobre o tema como a Bibliografia Bíblica. O novo site possui um índice com nomes e contatos de biblistas, editoras, autores latino-americanos e publicações acessíveis ao público. O projeto já publicou oito volumes que reúnem as publicações bíblicas referentes aos anos de 1988 a 1995, e disponibiliza dados de 1996 até os dias atuais integralmente no site.

(…)

Visite o site da Bibliografia Bíblica Latino-Americana Milton Schwantes clicando aqui.

Thomas Römer: os diversos papéis de Moisés no Pentateuco

Transcrevo aqui texto publicado no dia 02/09/2016 no portal da Universidade Metodista de São Paulo sobre a Conferência de Thomas Römer no VII Congresso da ABIB.

Exegeta Thomas Römer discute os diversos papéis de Moisés no Pentateuco

Conversa integrou o VII Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica

O exegeta suíço Thomas Römer foi o convidado da conferência desta quarta-feira (31) do VII Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica. Promovido pelo Programa de Pós-Thomas RömerGraduação da Universidade Metodista de São Paulo e pela Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB), o evento inclui diversas conferências e mesas de debate sobre o Pentateuco.

Thomas Römer, do Collège de France/Université de Lausanne, falou a respeito dos papéis de Moisés no Pentateuco. Nos livros, ele aparece como legislador, rei, chefe e juiz de Israel, mas de acordo com Römer, o papel mais importante de Moisés é o de legislador. 

Moisés: legislador, rei e juiz

“No Antigo Oriente, o rei é o mediador tradicional entre os deuses e o povo. Na Mesopotâmia, o governante político é frequentemente também o primeiro de todos os sacerdotes, devido à sua relação especial com uma divindade particular”, diz. O rei era também considerado o pastor de seu povo, legislador e juiz, como responsável pela ordem do país.

No entanto, de acordo com as fontes, os reis de Israel e Judá não eram legisladores, pois seguiam e eram julgados diante da Lei de Moisés. “O fato de que, na Bíblia Hebraica, é Moisés quem aparece como o legislador, e não Davi ou Salomão, pode ser explicado com a situação do judaísmo emergente no período persa. A realeza judaíta não existia mais, e os intelectuais judaítas que editaram o Pentateuco e os Profetas Anteriores aceitaram o governo persa e eram contra a restauração da monarquia judaíta”, explica.

“Em Êxodo, Moisés é apresentado desde o início como um rei. A história de seu nascimento e seu enjeitamento mostra uma dependência literária da lenda sobre o nascimento de Sargão, o fundador de Akkad”, esclarece. “É possível que o autor tenha recorrido à lenda sobre Sargão, tanto mais se considerarmos a possibilidade de que a figura da irmã de Moisés é um acréscimo posterior. Tanto Sargão como Moisés são enjeitados por suas mães, e ambas têm certa relação com o sacerdócio”.

Römer sustenta esse argumento dizendo que aparecem traços reais em relação a Moisés no episódio em que Javé o estabelece como aquele que deve tirar os israelitas do Egito: ele é apresentado como um pastor, um título dos reis. Nos trechos de construção do templo, Moisés pode ser comparado ainda a Salomão, o construtor do templo de Jerusalém.

Segundo Römer, antes da transmissão do primeiro código, o chamado “Código da Aliança”, Moisés foi retratado exercendo a prerrogativa de julgar o povo. “Todos os códigos de leis no Pentateuco são comunicados por Javé a Moisés, que é depois responsável pela sua comunicação a Israel. A afirmação de que “toda causa importante, eles a levavam a Moisés, e toda causa menor, eles mesmos a julgavam” reflete o princípio de que toda questão ligada a uma prescrição diretamente abordada na Torá pode ser adjudicada pelas autoridades competentes; casos que parecem não ter o respaldo de prescrições da Torá precisam ser investigados diretamente por Moisés”.

Conclusão e interação

O estudioso acredita, no entanto, que “o papel de Moisés como legislador seja o mais importante de suas atuações, pois devido à transferência de uma função real a Moisés, que antes da conquista da terra e da fundação da monarquia tinha transmitido todas as leis a Israel, o judaísmo tinha condições de existir como uma religião sem-terra e sem Estado”.

Confira algumas das respostas do palestrante às questões do público (continua)

Minhas sugestões de leitura sobre o tema

:: Um livro:

BORGEAUD, Ph.; RÖMER, T.; VOLOKHINE, Y. (eds.) Interprétations de Moïse: Égypte, Judée, Grèce et Rome. Leiden: Brill, 2010, XIV + 306 p. – ISBN 9789004179530

:: Dois artigos [procure por Moisés em]:

Quem são os judeus? Falam autores gregos antigos
Quem somos nós? Falam autores judeus antigos

Livro de Thomas Römer: A origem de Javé

RÖMER, T. A origem de Javé: o Deus de Israel e seu nome. São Paulo: Paulus, 2016, 256 p. – ISBN 9788534944571.

 

Thomas Römer, A origem de Javé: o Deus de Israel e seu nome

Diz José Ademar Kaefer na apresentação da versão brasileira do livro de Thomas Römer:

Sob o título original francês “L’invention de Dieu”, traduzido para o inglês “The Invention of God”, a versão brasileira optou por “A origem de Javé”, que na realidade é do que trata o livro. É também esse o sentido que o autor quer dar quando emprega o conceito “invenção”. Ou seja, como a imagem de Javé-Deus foi sendo entendida e construída gradativamente na história dos povos da Bíblia, desde a Era do Bronze até o período helenista. A origem de Javé é um tema complexo, perseguido pelos pesquisadores desde que as ciências começaram a fazer parte da exegese bíblica. Portanto, o livro não parte do zero nem esgota a investigação. Ele apresenta, de forma muito didática e de fácil leitura, o panorama histórico da investigação acerca das possíveis origens de Javé e acrescenta novos elementos em todos os tópicos abordados. O novo é oriundo da pesquisa literária moderna, das recentes e abundantes descobertas arqueológicas e, evidentemente, da pesquisa pessoal do autor, que é vasta e qualificada.

O original francês é:

RÖMER, T. L’invention de Dieu. Paris: Seuil, 2014, 331 p. – ISBN 9782021088151.

Nova edição da Introdução ao Profetismo do Sicre

A Vozes acaba de publicar em português a nova edição da Introdução ao Profetismo de José Luis Sicre Díaz.

O livro saiu em espanhol em 2012, como se pode ver em Sicre: nova edição da introdução ao profetismo. Esta edição substitui o conhecido Profetismo em Israel: OSICRE DÍAZ, J. L. Introdução ao Profetismo Bíblico. Petrópolis: Vozes, 2016 Profeta, os Profetas, a Mensagem. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

E traz as novas tendências da pesquisa na área. Nota-se a diminuição do interesse pelas figuras proféticas e o aumento da atenção dispensada aos livros proféticos.

SICRE DÍAZ, J. L. Introdução ao Profetismo Bíblico. Petrópolis: Vozes, 2016, 536 p. – ISBN 9788532652416.

Escreveu Sicre em 2012: 
El mayor cambio en el estudio del profetismo durante las últimas décadas ha sido el paso del interés por los profetas (Isaías, Jeremías, etc.) al interés por los libros. La reconstrucción de las vidas de los profetas, tan típica del siglo pasado, es juzgada ahora como una labor muy subjetiva, sin base histórica cierta; además, no permite explicar el libro o el escrito atribuido a un profeta, ya que la mayor parte del mismo procede de autores posteriores.

Ska: tendências do estudo do Pentateuco na última década

Transcrevo aqui texto publicado no dia 31/08/2016 no portal da Universidade Metodista de São Paulo sobre a Conferência de Jean-Louis Ska no VII Congresso da ABIB.

Jean-Louis Ska aborda as tendências do estudo do Pentateuco na última década

Conferência foi realizada no VII Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica

Ontem (30) foi realizada a segunda conferência do VII Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica, na Universidade Metodista de São Paulo. O evento é promovido pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Metodista e a Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB).

O teólogo belga Jean-Louis Ska participou com a discussão “Pentateuco: História, Tradução e Exegese”, a mesa ainda contou com a participação de Vicente Artuso, da PUC do Paraná, que coordenou a mesa e Telmo Figueiredo, membro da ABIB, que realizou a tradução do italiano para o português.

A conferência falou sobre as tendências do estudo do Pentateuco nos últimos dez anos. Ska é uma autoridade no assunto, além de ser professor de Exegese do Antigo Testamento no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, já escreveu diversos livros, incluindo “Introdução à Leitura do Pentateuco”, publicado no Brasil.Jean Louis Ska (Arlon, Bélgica, 1946)

 

Perguntas fundamentais dos últimos 10 anos

Para iniciar a conversa, Ska ressaltou que com o livro Deuteronômio, reencontramos a lei e o mundo jurídico da Torá, tema pelo qual Eckart Otto trabalhou para devolver importância, pois acredita que a solução dos problemas do Pentateuco não vem das narrativas, mas sim das leis. Por outro lado, John Van Seters sustenta que o Código da Aliança seja mais recente do que o Código Deuteronômico e que a Lei de Santidade.

Ska explica que duas tendências importantes da pesquisa são a reforma de Josias e a natureza de Deuteronômio. No passado, a reforma de Josias foi considerada historicamente importante, porque teria acontecido a purificação de elementos estranhos e centralização do culto em Jerusalém, por meio da destruição dos cultos rivais.

No entanto, surgem perguntas a respeito do valor histórico da narrativa, pois a arqueologia não confirma nenhuma destruição maciça de altares ou de santuários no período que precede imediatamente a conquista de Jerusalém em 585 a.C e existem indícios de que o santuário de Betel tenha continuado em atividade mesmo durante o período do exílio, enquanto o templo de Jerusalém estava em ruínas.

“Por outro lado, a narrativa é mais bem interpretada como uma tentativa de dar ao Deuteronômio e à centralização do culto as suas cartas de recomendação. Isso foi ampliado e enfeitado para justificar a ordem das coisas instauradas na época da reconstrução do segundo templo. Foi reconstruído um só santuário, e por isso havia um só altar, um só sacerdócio e um só centro administrativo na província persa de Yehud”, diz Ska.

O estudioso continua: “era necessário demonstrar que a reforma não era uma inovação introduzida pelos exilados que voltaram da Babilônia. Ela tinha raízes antigas num evento precedente ao exílio e podia ser colocada sob a autoridade de uma grande figura, o rei Josias, que, por sua vez, não tinha feito nada mais que tornar efetiva uma lei esquecida, a de Moisés. O “livro achado” é um argumento conhecido no mundo antigo que serve geralmente para justificar reformas e inovações”.

A segunda tendência recente citada por Ska, é a descoberta de uma nova cópia do chamado tratado de vassalagem de Esarhaddon, filho de Senaquerib. Descoberto em 1955 em Nimrud, tem como primeira finalidade assegurar a sucessão de Esarhaddon a favor de seu filho Assurbanipal, sobretudo porque ele não era o primogênito. O professor compara Deuteronômio e o tratado de sucessão de Esarhaddon na questão da sucessão. Deuteronômio se apresenta como o testamento de Moisés, proclamado diante de todo o povo durante as últimas horas da sua vida.

“Uma das perguntas essenciais do livro é sobre o pós-Moisés: o que vai acontecer depois da sua morte, quando o povo tiver entrado na terra prometida? Como enfrentar as incertezas do futuro? Assim como o tratado de sucessão de Esarhaddon procura com todos os meios assegurar a continuidade da dinastia e a estabilidade do Império”, comenta.

“O Deuteronômio revelou-se determinante nos estudos sobre o Pentateuco, desde o tempo de W. L. M. de Wette. Isso se mantém ainda hoje, por dois motivos principais: Primeiro, porque é um dos escritos que podem ser identificados e datados mais facilmente, sobretudo graças aos paralelos neoassírios. Segundo, porque fornece uma das chaves mais importantes para interpretar a função da Torá na existência de Israel. O Deuteronômio faz depender a existência do povo, e de todas as suas gerações, não da sua força militar, não da sua economia, não da sua política, não dos seus recursos materiais ou humanos, mas sim unicamente da fidelidade à Torá de Moisés”, finaliza.

A respeito das discussões sobre autores e redatores, Ska acredita que “temos bons motivos para pensar que na composição do Pentateuco existam traços de trabalhos de escribas que se assemelham àqueles dos documentos encontrados em Qumran e atestados nas comparações entre o Texto Massorético, o Pentateuco Samaritano e a Septuaginta. E tudo isso apesar das amargas críticas daqueles que negam a existências de ‘editores’ ou ‘redatores’”.

Para finalizar a conferência, Ska declarou: “Os problemas da exegese – seja diacrônica, seja sincrônica – são problemas reais, não inventados. Portanto, resta somente uma coisa a fazer: retomar o caminho que conduz aos textos para relê-los com mais atenção e mais gosto”.

Ska respondeu a algumas questões do público que acompanhava a conferência (continua).

Helder Câmara e Luciano Mendes de Almeida

Por ocasião do processo de impeachment da presidenta Dilma, Jacques Távora Alfonsin, procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos, faz memória de D. Helder Câmara e D. Luciano Mendes de Almeida, cuja vida e morte são recordadas no dia de hoje, 27 de agosto.

D. Helder Camara e D. Luciano Mendes de Almeida

Assim começa o artigo 27 de agosto: boa hora para recordar Helder Câmara e Luciano Mendes de Almeida

Quando começa a fase definitiva de julgamento do que está se chamando de impeachment da presidenta Dilma, a lembrança de uma coincidência – duas mortes de bispos da Igreja – ocorrendo ambas no dia 27 de agosto, a de Dom Helder em 1999 e a de Dom Luciano, 7 anos depois, oportuniza serem lembradas essas duas personalidades brasileiras de grande presença pastoral e política no Brasil, contrária à prolongada ditadura imposta ao país em 1964, ainda hoje  inspirando grande parte das iniciativas golpistas em andamento.

Leia.

A volta do fascismo e o crescimento da intolerância

A volta do fascismo e a intolerância como fundamento político

Revista IHU On-Line 490 – 08.08.2016

Ao mesmo tempo que há o incremento das possibilidades de expressão a partir do desenvolvimento de múltiplas tecnologias de comunicação que potencializam espaços de interação e manifestação de pensamento, simultaneamente observamos a redução da capacidade de debate, reflexão conjunta e coexistência de diferentes pontos de vista. Sobretudo no campo político, recrudescem posicionamentos autoritários, por vezes até violentos, fundados em posturas fascistas, em uma antítese da democracia. No entanto, como alerta um dos entrevistados, não se trata somente de continuar pensando no binômio “democracia-ditadura”, procurando salvar a democracia, mas de “desarticular as formas “religiosas” do capitalismo”.

Revista IHU On-Line 490 - 08.08.2016

Contribuem Rodrigo Karmy, doutor em Filosofia, professor e pesquisador da Universidade do Chile, o historiador alemão Andrej Angrick, Sérgio Villalobos-Ruminott, professor de Estudos Latino-Americanos e Espanhóis da Universidade de Michigan, Estados Unidos, Ricardo Timm, doutor em Filosofia, professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS, Adriano Correia, doutor em Filosofia e professor da Universidade Federal de Goiás – UFG, Edson Teles, filósofo e professor da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, Leonardo Avritzer, doutor em Sociologia Política e professor da Universidade Federal de Minas Gerais – da UFMG.

Sumário:

  • Rodrigo Karmy Bolton: O fascismo vive em nós através do dispositivo do neoliberalismo
  • Andrej Angrick: Continuidade, transformação ou apenas rotulagem incorreta?
  • Sérgio Villalobos-Ruminott: O esgotamento da política como efeito inevitável da globalização
  • Ricardo Timm de Souza: O fascista não argumenta; rosna. A exclusão de temáticas humanísticas dos currículos escolares
  • Adriano Correia: Um fascismo liberal exótico e a nostalgia do Brasil Colônia
  • Edson Teles: Na dissimulação democrático-liberal, o fascismo apresenta suas armas
  • Leonardo Avritzer: As avenidas de inclusão no Brasil e uma disputa política intensa