O discurso socioantropológico

O discurso socioantropológico: origem e desenvolvimento

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O objetivo deste artigo é esboçar um panorama da origem e do desenvolvimento de duas ciências sociais que estão sendo hoje muito utilizadas na leitura da Bíblia. Trata-se da sociologia e da antropologia cultural ou social, somadas no discurso que caracterizamos como socioantropológico. Em inglês, a terminologia comumente utilizada é Social-Scientific Criticism.

A parte dedicada à sociologia está razoavelmente delineada no artigo, enquanto que a antropologia precisaria ser melhor desenvolvida, mas o pouco conhecimento da área impõe-me, por ora, tais limites.

 

1. Deslocamentos no pensamento europeu do século XV ao século XVIII

Do século XV ao século XVIII acontecem dois deslocamentos no pensamento humano na Europa.

O primeiro é a passagem da especulação escolástica à filosofia da natureza. A natureza passa a ser entendida e explicada experimentalmente: “O que antes era visto como mero local de tentações para uma alma que aspirasse a recompensas noutro mundo, torna-se objeto de conhecimento científico. Em consequência, desenvolvem-se tentativas de estudo experimental dos fenômenos – esboçadas desde o século XIII nas Universidades de Paris e Oxford. Este tipo de investigação é que ganhará contornos definidos com os trabalhos científicos de Leonardo da Vinci (1452-1519) e de outros pensadores, a prenunciar a física de Galileu e Newton, desenvolvida no século XVII. Copérnico (1473-1543) formula a célebre teoria heliocêntrica. Tycho Brahe (1546-1601) prepara o caminho para a descoberta da lei da gravitação universal de Newton”[1].

A natureza, considerada pelo sobrenaturalismo da Idade Média como objeto de medo e de contemplação, torna-se objeto de estudo e de atuação do homem que procura modificá-la para que se adapte melhor às suas necessidades. Surgem, para isso, métodos mais empíricos e precisos, como mencionado acima. Este fenômeno se dá com a ascensão da burguesia, na forma de capitalismo mercantilista.

Galileu (1564-1642)É importante observarmos que, norteando-se por três princípios fundamentais para a ciência moderna – 1. É necessário observar os fenômenos tais como eles ocorrem, sem se deixar perturbar por preconceitos de natureza filosófica ou religiosa; 2. Toda afirmação sobre os fenômenos naturais deve ser verificada empiricamente; 3. A matemática oferece ao cientista a linguagem rigorosa de que ele necessita para descrever a natureza – Galileu (1564-1642) destrói a anterior concepção do universo como sistema imutável e hierarquizado, governado por Deus e reduz o universo a um mundo geométrico, a uma física mecanicista. Em O Ensaiador Galileu deixa claro que a matemática é a linguagem da física que começa a se constituir, quando diz: “A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em linguagem matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto”[2].

O segundo deslocamento se dá quando se passa da análise da natureza para a análise da sociedade. Percebe-se, então, que a organização da sociedade não é natural, mas histórica. Questionam-se, filosoficamente, os fundamentos da sociedade a partir da ótica da nova ordem burguesa. É uma crítica ao poder absoluto, no qual Deus criava, organizava e geria o mundo através da Igreja e de suas leituras da realidade.

É de se notar: Descartes (1596-1650) descobre o sujeito pensante autônomo, coloca a consciência como a medida e a forma do ser, marcando uma definitiva virada antropocêntrica[3]. De outro lado, o empirismo inglês do século XVII, representado especialmente por T. Hobbes (1588-1679) e J. Locke (1632-1704), é responsável por uma nova abordagem da questão política. Hobbes e Locke viveram intensamente o processo de consolidação do poder político da burguesia inglesa.

Como tão bem explica Tiago Adão Lara, “ao terminar o século XVII, estavam consolidadas as duas correntes modernas de pensamento”, o Descartes (1596-1650)racionalismo e o empirismo. “O Estado substitui a Igreja, na tarefa de marcar os limites da racionalidade, para a convivência humana (…) Nesta sociedade, desvinculada da Igreja, embora ainda religiosa, não é mais à teologia que se vai pedir a última palavra a respeito dos princípios supremos da moralidade e da política, mas, sim, à filosofia, enquanto produção da razão humana. E a filosofia inovava e abria horizontes mais largos. O empirismo rompia com as barreiras tradicionais da cultura. Não era mais a partir do alto, do mundo das essências, mas a partir de baixo, do mundo dos fatos ou dos fenômenos que se devia construir algo de positivo. O Estado, concebido pelo empirismo, é criatura humana, fruto da convenção, destituído de sacralidade, religiosa ou profana. É o próprio homem que dá as cartas de leitura da sua existência e do mundo que o cerca. O homem torna-se, realmente, a medida do seu mundo significativo”[4].

 

2. A síntese kantiana entre o empirismo e o racionalismo

Mas se Descartes, no século XVII, representa a burguesia progressista pela racionalização (“penso, logo existo”) é Kant, no século XVIII, quem incorpora ao racionalismo os elementos do empirismo inglês (existo como um feixe de sensações organizadas), resultando que o homem pode ser feliz e organizar a sociedade com o uso de sua razão. Não é Deus, através da Revelação, que ordena a sociedade, mas é a própria Razão humana que fornece ao homem os instrumentos políticos para organizar e alcançar a sua felicidade.

Kant (1724-1804), de tradição racionalista, faz uma síntese entre o empirismo inglês e o racionalismo europeu. Nega que o homem possa conhecer algo que transcenda completamente a matéria (solução empirista), mas nega também que a experiência baste para o homem conhecer a matéria (solução racionalista).

Kant (1724-1804)Afirma que aquilo que conhecemos da matéria, cientificamente, é o que a razão dá à matéria, ou seja, as formas. O Fenômeno torna-se compreensível pelas aplicações das categorias a priori do Espírito. Mas o Espírito não conhece o em si, o noumenon, a essência da coisa: Kant assim interdita a metafísica e fundamenta a física, a ciência por excelência.

As questões básicas para Kant são:
. como fundamentar, filosoficamente, a nova ciência, ou seja, a física?
. como fundamentar a moralidade?

Kant é a encarnação filosófica da classe burguesa, confiante no poder demiúrgico do homem: nada melhor do que a concepção de um homem que cria o universo científico e o universo moral, segundo as normas da própria razão, para traduzir a experiência histórica do burguês que descobre, inventa, constrói e domina. Não é mais Deus o fiador do conhecimento científico nem da vida moral. É o homem[5].

Se o idealismo metodológico de Descartes privilegia a razão ante os sentidos e a tradição, o idealismo gnoseológico de Kant privilegia a forma do conhecimento – produto espontâneo da razão – ante a matéria do conhecimento – que é oferecida na sensação[6].

 

3. O idealismo ontológico de Hegel

Mas é Hegel (1770-1831) o intérprete fiel do momento histórico da Revolução. Ele é o representante máximo do idealismo alemão do século XVIII. A razão é, para ele, uma deusa. A ideia é a totalidade. Tudo o que existe é a exteriorização da ideia. O real é o racional e vice-versa! O idealismoHegel (1770-1831) hegeliano é ontológico. O mundo é a explicitação da ideia que lhe é imanente.

Hegel filosofou assim porque viveu plenamente a Revolução Francesa (1789). A burguesia triunfara, vencendo o clero e a nobreza. Era uma nova ordem, ordem racional baseada nos moldes que o homem queria, e não mais em tradições e fé religiosas. A razão humana conseguira sua libertação. Explodiam as instituições liberais vigorosamente, com toda a sua pujança. Era o homem, era a razão humana – da burguesia, mas que se julgava universal! – que triunfara. A sensibilidade pela história estava no auge. A burguesia estava consciente de que suas ideias, finalmente, se encarnavam em estruturas sociopolíticas, aptas a viabilizar a nova realidade econômica.

No hegelianismo a ordem estabelecida não retrata mais um plano divino, mas a racionalidade imanente da própria história. História que é palco de lutas entre contrários, fruto da contradição, superando-se sempre (tese, antítese, síntese). Daí a grande novidade hegeliana: a dialética.

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[1]. Vida e Obra de Bruno, em Bruno, Galileu, Campanella. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978, coleção “Os Pensadores”, p. VII-VIII. Cf. também LARA, T. A. Caminhos da Razão no Ocidente: A filosofia ocidental do Renascimento aos nossos dias. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 26-30.

[2]. GALILEU, O Ensaiador, em Bruno, Galileu, Campanella, o. c., p. 119. Cf. ainda Vida e Obra de Galileu, em o. c., p. 97-98. De Galileu devem ser lidos O Ensaiador (Il Saggiatore de 1623), neste volume citado de “Os Pensadores”, e o fundamental A Mensagem das Estrelas (Sidereus Nuncius de 1610). Rio de Janeiro: Museu de Astronomia e Ciências Afins/Salamandra, 1987. Sobre Galileu devem ser lidos KOYRÉ, A. Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. 2. ed.  Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1986, p. 90-100; Idem, Estudos Galilaicos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1986; PAGANI, S. M. ; LUCIANI, A. Os Documentos do Processo de Galileu Galilei. Petrópolis: Vozes, 1994.

[3]. De Descartes devem ser lidos o famoso Discurso do Método, de 1637, e outros textos, em DESCARTES.  3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983, Coleção “Os Pensadores”. Em o Discurso do Método Descartes formula a proposta de um novo método, baseado no procedimento da matemática. Esse método deverá servir “para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade das ciências”. O título original do livro, com efeito, é: Discours de la Méthode pour bien Conduire Sa Raison et Chercher la Vérité à travers les Sciences.

[4]. LARA, T. A. Caminhos da Razão no Ocidente, p. 49-50.

[5]. “O que são as Luzes? A saída do homem de sua menoridade e pela qual ele próprio é responsável. Menoridade, isto é, incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outrem, menoridade pela qual ele é responsável, uma vez que a causa reside não em um defeito do entendimento, mas numa falta de decisão e coragem em se servir dele sem a direção de outrem. Sapere aude! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento. Eis a divisa das Luzes” diz KANT, O que é a Aufklärung? De Kant deve ser lida pelo menos a Crítica da Razão Pura, de 1781, em KANT (I). 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983, Coleção “Os Pensadores”. Mas são importantes também a Crítica da Razão Prática, de 1788, e a Crítica da Faculdade de Julgar, de 1790.

[6]. Cf. LARA, T. A. Caminhos da Razão no Ocidente, p. 60-64.

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