O discurso socioantropológico 7

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Raymond Aron define isto com muita competência quando diz que “Marx era incontestavelmente um sociólogo, mas um sociólogo de tipo determinado, sociólogo-economista, convicto de que não podemos compreender a sociedade moderna sem uma referência ao funcionamento do sistema econômico, nem compreender a evolução do sistema econômico se desprezamos a teoria do seu funcionamento. Enfim, como sociólogo, ele não distinguia a compreensão do presente da previsão do futuro e da determinação de agir. Comparativamente às sociologias ditas objetivas, de hoje, era, portanto, um profeta e um homem de ação, além de um cientista”[51].

Não tratarei aqui do polêmico tema da religião em Marx, mas o que foi dito já é suficiente para percebermos que, como a religião pertence ao nível ideológico da realidade, ao nível da consciência humana, é preciso, quando se quer analisá-la, antes de qualquer coisa, desvendar a influência dos fatores materiais de uma sociedade determinada sobre as práticas religiosas e os sistemas de crenças das pessoas que a vivem.

Para se compreender a Bíblia, neste caso, devemos verificar a totalidade do processo social ao qual ela pertence. Não são misteriosas inspirações nem complexas psicologias dos autores que, em nosso caso, explicam os textos bíblicos. O que explica um texto é sua mundivisão, sua maneira específica de ver a realidade, condicionada pelas ideologias da sua época e classe social.

Compreender um texto bíblico implica, portanto, analisar as relações complexas e indiretas – em geral, extremamente mediatizadas – entre este texto e o mundo em que foi produzido e lido.

 

11. Origem e características do discurso  antropológico

Enquanto que a sociologia foi aqui definida como o estudo da sociedade humana e de suas instituições, a antropologia pode ser definida, de modo geral, como o estudo dos seres humanos e da cultura humana. O Dicionário Aurélio assim a caracteriza: “Ciência que reúne várias disciplinas cujas finalidades comuns são descrever o homem e analisá-lo com base nas características biológicas (antropologia física) e culturais (antropologia cultural) dos grupos em que se distribui, dando ênfase, através das épocas, às diferenças e variações entre esses grupos”[52].

Como se vê na definição do Aurélio, a antropologia divide-se em duas áreas: a antropologia física e a antropologia cultural. Há certa ambiguidade na terminologia usada para designar esta última, mas o mesmo Aurélio vem nos socorrer: “A designação antropologia cultural é mais usada nos E.U.A., enquanto na Grã-Bretanha o termo antropologia social designa ou a etnologia, ou a antropologia cultural. Nos demais países europeus – p. ex., na França – observa-se uma tendência para o uso dos três termos que representam os níveis de pesquisa que, gradualmente, se vêm estabelecendo nos E.U.A. dentro da antropologia cultural: etnografia, etnologia comparada, antropologia social. Os autores nacionais fazem uso de ambas as designações”[53].

Refazendo o percurso histórico dos conceitos antropológicos, Philippe Laburthe-Tolra e Jean-Pierre Warnier explicam os motivos da diferença terminológica: “Por oposição à antropologia americana definida e considerada uma antropologia cultural herdeira de Herder e de Tylor, a antropologia definiu-se na Grã-Bretanha por referência a Morgan e Durkheim, isto é, como uma antropologia social. À medida que não existe civilização que não seja a de uma dada sociedade, nem sociedade que não seja portadora de uma civilização, os adjetivos ‘cultural’ e ‘social’ que qualificam, respectivamente, a antropologia americana e britânica não indicam uma divergência teórica radical mas uma diferença de ênfase, ou, antes, de opção quanto à forma escolhida para abordar os fatos socioculturais”[54].

Quanto ao seu desenvolvimento, podemos dizer que da segunda metade do século XIX até o começo deste século dominava na antropologia a perspectiva da evolução cultural e o método comparativo, que fundamentou melhor o estudo das culturas humanas.

Sobre Durkheim já falamos o suficiente para percebermos que segundo seu pensamento todas as sociedades poderiam ser classificadas de acordo com um movimento de transformação do mais simples para o mais complexo. As mudanças na divisão do trabalho social são vistas por ele como a lei que explica o processo evolutivo na sociedade. Durkheim fala de solidariedade mecânica nas sociedades pré-capitalistas e de solidariedade orgânica nas sociedades capitalistas.

Já o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936) formulou a distinção, tornada clássica, entre dois tipos básicos de organização social: a comunidade (Gemeinschaft) e a sociedade (Gesellschaft). As relações de comunidade, típicas de grupos de caçadores/coletores e hordas – portanto, grupos relativamente pequenos e pré-industriais – baseiam-se na coesão nascida do parentesco, das práticas herdadas dos antepassados e dos fortes sentimentos religiosos que unem o grupo. Já as relações de sociedade são típicas de grupos que vivem vida urbana desenvolvida, organizam-se em Estados e possuem uma complexa divisão do trabalho[55].

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[51]. ARON, R. o. c., p. 135.

[52]. LACERDA, C. A. ; GEIGER, P. (eds.) Dicionário Aurélio Eletrônico, versão 2.0, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, verbete Antropologia.

[53]. Idem, ibidem, verbete Antropologia. Cf. também CARTER, C. E. A Discipline in Transition: The Contributions of the Social Sciences to the Study of Hebrew Bible, em CARTER, C. E. ; MEYERS, C. L.(eds.) Community, Identity and Ideology, p. 7, nota 7. Por outro lado, Philip R. Davies, In Search of Ancient Israel, p. 11, nota 1, diz que não consegue encontrar uma distinção satisfatória entre as abordagens sociológica e antropológica: “Onde, por exemplo, a sociologia é entendida como ‘a antropologia de sociedades industrializadas’ e se afirma a existência da antropologia social, é difícil ver uma demarcação nítida”. Cf. a mesma perspectiva em CASTILHO COSTA, M. C. Sociologia:Introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Moderna, 1987, p. 90 e 104-105.

[54]. LABURTHE-TOLRA, Ph. ; WARNIER, J.-P. Etnologia-Antropologia. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 68.

[55]. A principal obra de Ferdinand Tönnies é Gemeinschaft und Geselschaft e foi publicada em 1887. A tradução inglesa é Community and Association. London: Routledge & Kegan Paul, 1955.

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