Pensar Deus a partir da Nova Física

Inventando o Universo. Pensar Deus a partir da Nova Física. Cadernos de Teologia, Campinas, n. 4, p. 7-24, 1997.

Einstein disse certa vez que  estava interessado mesmo era em saber como Deus criara este mundo. Ora, já se passou mais de um século desde que a teoria da relatividade e a mecânica quântica começaram a ajudar os homens a compreenderem melhor como é feito este mundo em que vivemos. Porém, muitos teólogos ainda encontram sensíveis dificuldades em pensar Deus e o homem a partir da cosmologia que surgiu com as descobertas da física do século XX. Em pleno terceiro milênio, teólogos há que, por razões diversas, ainda continuam a ler os textos bíblicos e a elaborar suas reflexões como se as cosmologias antiga e medieval fossem mais do que suficientes para explicar o universo e o lugar do homem nele. Tempo, espaço, matéria, Deus, causalidade, alma, criação, salvação, redenção, determinismo, livre-arbítrio e tantos outros conceitos precisam ser revisitados sob o olhar vigilante da nova física.

E há mais uma coisa: acontece de pessoas confundirem Teologia com Religião ou com Fé. Ora, a Teologia usa sistemas conceituais, trabalha a partir de regras bem – ou razoavelmente bem – definidas, se esforça em usar com o máximo rigor possível todos os recursos da razão e, assim, se diferencia do discurso religioso, enquanto este é altamente simbólico e tem uma preocupação direta e imediatamente prática, como os discursos catequéticos, homiléticos ou proféticos. Vai daí que discursos teológicos são mais eficazes quando são teorias sobre a Fé e não teorias da Fé. Uma Teologia responsável procura produzir conhecimento e não reconhecimento. Conclui-se, deste modo, que a melhor Teologia é aquela que não toma o lugar da Fé e nem deixa que esta tome o seu (cf. BOFF, Cl. Teologia e Prática: Teologia do Político e suas mediações. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1993, II parte, cap. III).

Pois bem. O que modestamente proponho neste artigo é descrever a postura de alguns cientistas sobre Deus e a religião de modo geral e apresentar algumas das questões da cosmologia científica colocadas por esta nova física, levando a sério os desafios que daí surgem para o biblista e para o teólogo.

Este artigo está disponível na Ayrton’s Biblical Page, com bibliografia atualizada até 2015. Clique aqui e continue a leitura.

Leia Mais:
Sobre minhas publicações [links para todos os artigos publicados]

Teologia pós-colonial na Concilium

Lembro aos interessados que o fascículo 350 (2013/2) da Revista Internacional de Teologia Concilium trata da Teologia pós-colonial.

Diz o editorial, assinado por Hille Haker, Luiz Carlos Susin e Eloi Messi Metogo que:

O colonialismo deixou sua sombra sobre as sociedades contemporâneas de muitas maneiras. Alguns argumentam que ele nunca foi superado, mas continua a governar o “mundo” sob o nome de globalização. O colonialismo como conceito filosófico significa a pretensão de domínio e/ou superioridade de uma cultura sobre outra(s) cultura(s). Há algumas décadas Edward Said, que alguns consideram o fundador da teoria pós-colonial, examinou os termos “ocidentalismo” e “orientalismo” para mostrar como a conceitualização “colonial” construiu o “Oriente” como “outro”. A história do cristianismo mostra que estes termos não são só conceitos culturais, mas estão profundamente entrelaçados com conceitos religiosos e teológicos (…) A teologia pós-colonial surgiu como a tentativa de abordar a linha divisória entre o “colonizador” e o “colonizado”, muitas vezes associada a uma cultura básica, a uma religião e a uma forma de raciocinar que apresenta como “outros” os que não pertencem a “eles” (…) O presente fascículo de Concilium traz diversos autores que se engajam na “teologia pós-colonial” ou respondem a ela de forma crítica.

No artigo Dissonância epistemológica: Descolonizando o “cânon” teológico pós-colonial (p. 10-18), Joseph Duggan, doutor em filosofia e fundador do Postcolonial Networks, diz:

Ao longo da última década as teologias pós-coloniais começaram a tomar forma como uma disciplina (…) Assim como cresceu dramaticamente o número de teólogos que escreviam teologias pós-coloniais, cresceu também a oportunidade de dissonância epistemológica. A máxima “Médico, cura-te a ti mesmo” precisa ainda entrar nas teologias pós-coloniais de maneira a descolonizar autorreflexivamente a teologia, o cristianismo e as Igrejas. Ou a ignorância ou a ingenuidade sustenta a natureza viral do pensamento colonial incrustado nas teologias pós-coloniais.

Enquanto isso, Enrique Dussel, no artigo Descolonização epistemológica da teologia (p. 19-30), explica:

A teologia da cristandade latino-germânica metropolitana (e colonialista) é talvez a quintessência, a coluna vertebral do eurocentrismo (mais ainda do que a própria filosofia, embora as duas disputem quem ocupa um lugar pior nesta ideologia). Quando as teologias apresentam o cristianismo (não messiânico) como a religião por excelência, custa ao membro da cristandade permitir às outras crenças ou religiões sua respectiva pretensão de verdade universal (…)

Mesmo os grandes teólogos do século XX, como Henri de Lubac, Karl Rahner, Yves Congar ou Jürgen Moltmann, eram, e não puderam deixar de ser, eurocêntricos. Renovaram criativamente as teologias europeias, mas não puderam situar sua subjetividade (e também sua corporeidade) no “espaço colonial”, no mundo do Outro colonizado (…)

A melhor teologia europeia era compartilhada com os estudantes latino-americanos, africanos ou asiáticos que frequentavam as aulas das universidades europeias, os quais, profundamente colonizados sem disso ter consciência, tentarão titanicamente desarraigar seus discípulos de sua própria cultura do Sul para enxertar neles a europeia (que lhes era estranha). Só em pouquíssimos casos, e será o caminho tomado pela teologia latino-americana da libertação, uma comunidade de teólogos assumiu em grupo a responsabilidade de criar uma nova teologia não colonizada. Para isso teve de recorrer às ciências sociais críticas que a teologia eurocêntrica nunca havia usado (como o marxismo, a psicanálise, uma história não eurocêntrica etc). Mas esta nova teologia será perseguida, não tanto por seu conteúdo, e sim pela pretensão de pensar a partir de fora da Europa e contra a Europa moderna, capitalista, metropolitana, eurocêntrica, machista, racista etc, que havia confundido sua particularidade com uma pretensão de universalidade. A teologia eurocêntrica, e as estruturas igualmente eurocêntrica e metropolitana da cristandade latino-germânica, não podiam suportar a crítica de um pensar teologicamente descolonizado. E se a teologia latino-americana da libertação tinha uma especial percepção da questão da pobreza, a africana a teria no aspecto da cultura comunitária ancestral, e a asiática em problemas ainda mais árduos (… )

A descolonização epistemológica eurocêntrica da teologia é um fato que começou na segunda metade do século XX, mas que ocupará todo o século XXI. A descolonização epistemológica da teologia começa ao saber situar-se num novo espaço, a partir do qual, e como locus enuntiationis e hermenêutico original, será necessário refazer toda a teologia. Na Idade Transmoderna que se aproxima (para além da Modernidade e do capitalismo) será necessária igualmente uma trans-teologia para além da teologia da cristandade latino-germânica, eurocêntrica e metropolitana, que ignorou o mundo colonial, e em especial as cristandades coloniais (da América Latina e, em parte, da África, e das minorias cristãs na Ásia) que deve superar a colonialidade e a modernidade capitalista, invertendo a cristandade para retornar a um cristianismo messiânico* profundamente renovado.

* Embora, como nota o autor, mais no início do artigo, p. 20, “falar de cristianismo messiânico é uma tautologia: é repetir duas vezes a mesma coisa. ‘Cristianismo’ vem de ‘Cristo’, que em grego é o messias (khristós) e seus seguidores os messiânicos (khristianoí)”.

Semana Teológica no CEARP em 2014

A Faculdade da Arquidiocese de Ribeirão Preto (FARP), situada em Brodowski, SP, promove, de 2 a 4 de junho de 2014, a V Semana Teológica, com o tema As mudanças de época e a revelação na Constituição Dei Verbum.

  • Dia 2 às 08h00: Abertura – Dom Moacir
  • Dia 2 às 08h30: As mudanças de época e a Constituição Dei Verbum, com Matthias Grenzer, Professor da PUC-SP
  • Dia 3 às 08h00: A revelação e a Constituição Dei Verbum, com Maria de Lourdes C. Lima, Professora da PUC-RJ
  • Dia 3 às 10h30: Mesa Redonda
  • Dia 4 às 08h00: Grupos de Trabalho

Informações e inscrições: farpo2012@gmail.com

Leia Mais:
Alguns livros e artigos sobre o Vaticano II
Semana Teológica no CEARP em 2013
O Vaticano II no Observatório Bíblico

Teologia e ciências: um diálogo possível?

Em pleno terceiro milênio, teólogos há que, por razões diversas, ainda continuam a ler os textos bíblicos e a elaborar suas reflexões como se as cosmologias antiga e medieval fossem mais do que suficientes para explicar o universo e o lugar do homem nele.

Da dove veniamo? Come si è formato l’universo? Esiste o no un’anima separata dal corpo? Le nostre azioni sono libere o frutto di necessari rapporti di causa e effetto? E che ne è, in quest’ultimo caso, della nozione di responsabilità morale? Sono queste le principali domande che la filosofia occidentale si è posta nel corso dei secoli, alle quali la ricerca scientifica è oggi in grado di offrire alcune risposte che, per quanto parziali e provvisorie, rendono superfluo ogni ulteriore ricorso alla speculazione astratta e alla metafisica.

Em pleno terceiro milênio, teólogos há que, por razões diversas, ainda continuam a ler os textos bíblicos e a elaborar suas reflexões como se as cosmologias antiga e medieval fossem mais do que suficientes para explicar o universo e o lugar do homem nele.

Da dove veniamo? Come si è formato l’universo? Esiste o no un’anima separata dal corpo? Le nostre azioni sono libere o frutto di necessari rapporti di causa e effetto? E che ne è, in quest’ultimo caso, della nozione di responsabilità morale? Sono queste le principali domande che la filosofia occidentale si è posta nel corso dei secoli, alle quali la ricerca scientifica è oggi in grado di offrire alcune risposte che, per quanto parziali e provvisorie, rendono superfluo ogni ulteriore ricorso alla speculazione astratta e alla metafisica.

 

Discussões e polêmicas entre ciência e religião. Artigo de Carlo Molari

Tornam-se cada vez mais frequentes as referências dos teólogos aos dados das ciências naturais, humanas e sociais na exposição da doutrina da fé cristã. Dessa constatação, segue-se a necessidade por parte dos teólogos de acolher as conclusões ou aquisições das diversas culturas.

A opinião é do teólogo italiano Carlo Molari, sacerdote e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana de Roma, em artigo publicado na revista Rocca, n. 8, 15-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto

 

Eis o texto.

Na edição 1/2014 da revista Micromega (Almanacco della scienza, p. 183) estão publicados alguns artigos que repropõem o conflito entre dois modos de considerar a pesquisa científica e desaprovam a utilização das suas conclusões por parte de filósofos e de teólogos.

Telmo Pievani critica o “paleoantropólogo e sacerdote” Fiorenzo Facchini, de Bolonha, e o teólogo Vito Mancuso pela sua interpretação finalista da evolução biológica e cósmica; Carlo Rovelli zomba daqueles que distorcem em sentido providencialista o princípio antrópico, passando “da ciência à lenda”; Amedeo Balbi ridiculariza aqueles que querem encontrar harmonias e finalismos nos processos cósmicos em que reinam apenas contingências e casualidades; Edoardo Boncinelli analisa o muito pouco que resta da tradicional noção de alma; Arnaldo Benini defende a redução pura e simples da mente aos mecanismos cerebrais; Stewart Guthrie descreve o sentido religioso humano em continuidade com o animismo animal; e Vittorio Girotto explica por que razão os humanos, mesmo tendo “nascido para crer” (como conclui um livro – edições Codice, 2008 – ao qual ele mesmo contribuiu), podem e devem rejeitar a fé religiosa. Ele argumenta assim: “Mesmo que as propensões cognitivas que estão na base das crenças religiosas sejam parte integrante da natureza humana, os seres humanos possuem capacidades cognitivas e organizações sociais para desenvolver e sustentar visões menos intuitivas do mundo” (p. 171); o ateísmo, portanto, representaria a meta de uma maturação cultural à qual muitos chegaram, como demonstra o fato de que os ateus hoje no mundo constituem “o quarto maior grupo social mais numeroso, depois dos cristãos, muçulmanos e hindus” (p. 165, n. 1).

Não pretendo aqui para examinar os diversos argumentos. Limito-me a defender a legitimidade das referências às doutrinas científicas por parte dos teólogos com a indicação àqueles cientistas que ampliam a perspectiva das suas reflexões e superam o puro “reducionismo” ou “naturalismo”.

Pievani acusa a “instrumentalização da ciência a um uso filosófico, teológico e ideológico” com todo o respeito aos teólogos (“hereges” ou não) (p. 4).

Mas o debate não é apenas entre teólogos e cientistas, mas sim entre dois grupos de cientistas que interpretam os dados de modos diferentes. Alguns (reducionistas ou naturalistas) consideram que todo sistema físico ou biológico nada mais é do que a soma das suas partes, de modo que todos os seus processos podem ser explicados considerando os componentes individuais.

Outros, ao contrário, consideram que o todo é maior do que a soma das partes, razão pela qual algumas propriedades não podem ser previstas considerando apenas os elementos constituintes, mas “emergem” da complexidade que deriva da sua união, e isso em virtude de uma força “arcana”.

Ugo Amaldi, introduzindo a sessão “Deus e as ciências” no congresso da Conferência Episcopal Italiana (CEI) intitulado “Deus hoje. Com Ele ou sem Ele, tudo muda”, de setembro de 2009 (http://www.progettoculturale.it/questionedio/), lembrou que a ciência aborda apenas os problemas que respondem “aos critérios intersubjetivos da observabilidade repetitiva e da mensurabilidade”.

As perguntas às quais a ciência responde estão todas dentro da fronteira da verificabilidade, e “todas as outras perguntas, seja as que dizem respeito à totalidade do ser, isto é, as perguntas filosóficas, sejam todas as perguntas de sentido”, permanecem excluídas do âmbito da ciência. Isso não impede que os cientistas também abordem os problemas vitais e as perguntas relativas ao sentido da vida levando em conta a perspectiva científica.

De fato, há cientistas que ultrapassam essa fronteira em duas direções, razão pela qual Amaldi fala de uma dupla transcendência. Alguns dão um passo que ele chama de “transcendência horizontal. ‘Transcendência’ porque esse termo indica tanto a existência de uma fronteira quanto a presença de algo que se encontra além da própria fronteira. ‘Horizontal’ porque nos movemos no plano metafórico onde estão distribuídas todas as perguntas”.

O segundo grupo compreende os cientistas que dão o mesmo passo em direção vertical e identificam na realidade componentes transcendentes. Amaldi defende “a igual legitimidade intelectual dos passos de ‘transcendência horizontal’ e de ‘transcendência vertical’ dados por aqueles que dão peso à Natureza e às ciências que a estudam”.

“Trata-se de pôr em em destaque, em toda ocasião, que mesmo aqueles que afirmam a sua fé no Naturalismo saem das fronteiras da ciência, dando um passo lógico legítimo, mas que, contudo, ‘transcende’ o saber científico”.

Como exemplo da primeira superação, ele cita o biólogo Jacques Monod, que, no livro O acaso e a necessidade, rejeita toda interpretação dos fenômenos biológicos que evocam um finalismo e, portanto, se recusam a falar de um projeto. No fim do livro, porém, Monod levanta a questão de como é possível que um cientista construa uma ética e – dando o que eu chamei de um passo de transcendência horizontal – conclui que a única escolha que a razão pode realizar é a de estender esse princípio científico de rejeição do projeto também para fora das fronteiras da ciência.

Feita essa escolha, que Monod chama de ética do conhecimento, não é mais legítimo falar de um “projeto divino” sobre a Natureza e o homem, e O acaso e a necessidade termina com a citadíssima frase: “A antiga aliança já está rompida; o homem sabe finalmente que está sozinho na imensidão indiferente do universo, de onde emergiu por acaso”.

Como exemplo de transcendência vertical, podemos citar Stuart Kauffman (Reinventare il sacro, Torino: Codice, 2010), sobre o qual se desdobra agora um debate entre Pievani e Mancuso (Risposta a Telmo Pievani; e Perseverare diabolicum. Risposta a Vito Mancuso) que ainda está à espera de um cumprimento da promessa de Pievani de criticar Thomas Nagel e o seu Mente e cosmos. Por que a concepção materialista neodarwinista da natureza é certamente falsa (Oxford University Press, 2012).

Roberto Ferrari (Centro Studi Asia) no site de Mancuso relatou uma entrevista com Kauffman em que este ilustra claramente a importância das pré-adaptações darwinianas (exaptations) como a da bexiga natatória dos Dipnoi e critica depois o reducionismo científico: “Nem leis de seleção nem contingência, mas uma autocriação de ordem que não permite prever sequer quais eventos evolutivos podem se verificar”.

Sobre a legitimidade dessas referências aos cientistas, Vito Mancuso observou: “É evidente, de fato, que a sua filosofia da natureza tem estritamente a ver com as suas pesquisas científicas: por exemplo, se Francis Collins chegou a falar de uma ‘linguagem de Deus’ na natureza é porque ele trabalhou por décadas sobre o genoma”.

Ele também cita Christian de Duve, que escreve: “Eu considero este Universo não como uma piada cósmica, mas sim como uma entidade dotada de significado, feita de tal modo que pode gerar a vida e a mente, destinada a dar origem a seres pensantes capazes de discernir a verdade, de aprender a beleza, de sentir o amor, de possuir o bem, de definir o mal, de experimentar o mistério” (Polvere vitale, Longanesi, 1998, p. 490).

A essas afirmações, é preciso acrescentar a observação do citado físico teórico Rovelli: “A sociologia da ciência destacou a complexidade do processo de crescimento do conhecimento científico, que, como toda obra humana, está embebida de irracionalidade e se cruza com o jogo do poder e com toda espécie de influências sociais e culturais” (C. Rovelli, La realtà non è come ci appare, p. 183).

Tornam-se cada vez mais frequentes as referências dos teólogos aos dados das ciências naturais, humanas e sociais na exposição da doutrina da fé cristã. Isso foi solicitado pelo Concílio Vaticano II, segundo o qual a “mentalidade científica modela a cultura e os modos de pensar de um modo diferente do que no passado” (Constituição pastoral, n. 5). Dessa constatação, segue-se a necessidade por parte dos teólogos de acolher as conclusões ou aquisições das diversas culturas e de “ouvir atentamente, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo” (ibid., n. 44).

Ugo Amaldi, no congresso citado, salientou esta urgência: “Trata-se da necessidade já urgente de construir uma visão do mundo que acolha todos os resultados e os desenvolvimentos das ciências da Natureza, em outras palavras, que aceite as bases científicas daquilo que eu chamei de ‘naturalismo’ e, ao mesmo tempo, que abrace a ideia de que a Natureza e as suas estruturas feitas de massa-energia são obra de Deus que as criou e as mantém no ser. Essa concepção foi chamada de ‘naturalismo religioso’. […] Parece-me mais apropriado o nome de ‘naturalismo dualista’ ou, melhor ainda, de ‘naturalismo dual’, para indicar a diferença ontológica, mas não a contraposição, entre Deus e a Natureza. Essa denominação distingue claramente essa posição do ‘naturalismo’ puro, aquele que eu gostaria de chamar de ‘naturalismo monista’. Como quer que se o chame, o naturalismo dual ainda deve ser construído. E a sua necessidade não é indicada apenas pelos cientistas crentes”.

Acredito que a nova evangelização também passa por um debate cerrado entre crentes e cientistas.

Fonte: IHU On-Line – 22/04/2014

 

Da revista MicroMega 1/2014:

Da dove veniamo? Come si è formato l’universo? Esiste o no un’anima separata dal corpo? Le nostre azioni sono libere o frutto di necessari rapporti di causa e effetto? E che ne è, in quest’ultimo caso, della nozione di responsabilità morale? Sono queste le principali domande che la filosofia occidentale si è posta nel corso dei secoli, alle quali la ricerca scientifica è oggi in grado di offrire alcune risposte che, per quanto parziali e provvisorie, rendono superfluo ogni ulteriore ricorso alla speculazione astratta e alla metafisica.

Eppure, spiega Pievani nel saggio introduttivo di questo almanacco di scienza, c’è ancora oggi chi si ostina a considerare tanto l’universo quanto l’essere umano, che starebbe al centro di esso, non come frutto di un’evoluzione cieca, ma come il risultato di uno sviluppo finalizzato, rispondente a un disegno e a uno scopo precostituiti. È il caso, ad esempio, di tutti quei teologi, “eretici” o no, che chiamano in causa la scienza per fondare la propria visione finalistica del mondo. Le loro argomentazioni vengono analizzate e smontate pezzo per pezzo da Pievani, che ne mostra tutta la contraddittorietà e la fallacia logica, in quello che assume le sembianze di un vero e proprio catalogo ragionato delle strumentalizzazioni della scienza ad uso dei teologi.

Oltre al lungo saggio introduttivo, l’almanacco si compone di vari interventi firmati da alcuni dei più prestigiosi biologi, fisici e neuroscienziati contemporanei: Carlo Rovelli, Amedeo Balbi, Ian Tattersall, Edoardo Boncinelli, Arnaldo Benini, Alessandro Treves, Giorgio Vallortigara, Daniel C. Dennett, Paolo Legrenzi, Stewart Guthrie e Vittorio Girotto.

Telmo Pievani – Con buona pace dei teologi (‘eretici’ e non)
De Duve, Collins, Margulis, Capra sono alcuni fra gli scienziati prediletti dai teologi che pretendono di fondare scientificamente la loro visione finalistica della vita, in testa Vito Mancuso. Ma citare questi scienziati in quanto scienziati, allo scopo di fornire argomentazioni scientifiche alla propria visione teologica (e teleologica) è un non sequitur, una fallacia logica, uno sfondone. Ecco un catalogo ragionato delle strumentalizzazioni della scienza ad uso filosofico, teologico e ideologico.

Carlo Rovelli – Il principio antropico dalla scienza alla leggenda
Negli anni Settanta il fisico Brandon Carter enuncia il principio antropico, che nella sua forma sensata – ma anche ovvia – indica semplicemente che noi potremmo vivere solo in universi tali da permettere la nostra vita. Successivamente alcuni studiosi hanno stravolto il suo pensiero sostenendo che l’universo è precisamente aggiustato per poter dare origine alla vita. Un’inesattezza che rende così oggi il principio antropico una ‘vuota sciocchezza’ buona per aspiranti teologi.

Amedeo Balbi – L’universo è contingente
All’epoca di Keplero si conoscevano solo sei pianeti e l’astronomo tedesco cercò di rispondere a domande come: perché i pianeti erano proprio sei? E perché le loro orbite attorno al Sole si trovavano a una certa distanza fra tutte quelle possibili? Non poteva certo essere un caso! E, invece, è proprio così. Il modello del big bang spiega perfettamente l’evoluzione dell’universo a partire dalle ‘condizioni iniziali’ contingenti dei pochi istanti successivi. Il racconto della storia imprevedibile della formazione della materia e dell’universo conosciuto.

Ian Tattersall – La seconda nascita di Homo sapiens
La transizione dal vecchio modo di ragionare a quello radicalmente nuovo, simbolico e senza precedenti, si è verificata sorprendentemente tardi nella storia evolutiva umana ed è avvenuta durante il periodo di diffusione della nostra stessa specie Homo sapiens. L’inizio di tale trasformazione deve per forza essere associato a un cambiamento culturale e non biologico. Ma i meccanismi che l’hanno resa possibile sono del tutto ordinari.

Edoardo Boncinelli – Che cosa resta dell’anima
Il concetto di anima è antichissimo, ma è sopravvissuto fino ai giorni nostri dimostrando straordinaria resistenza e capacità evocativa. Oggi parliamo comunemente di anima per indicare uno spettro assai ampio di facoltà, entità, fenomeni: lo spirito vitale, la percezione, la mente, la psiche, la presa di coscienza, la volontà e la sua autonomia, il collettivo umano. Ma quali di questi significati moderni di anima può avere ancora un senso alla luce di ciò che la scienza può dirci dell’uomo e dei suoi meccanismi di funzionamento? Certamente non può trattarsi di qualcosa di immortale.

Arnaldo Benini – La mente è il cervello
Da tempo le neuroscienze hanno chiarito che il dualismo mente-cervello è incompatibile con la natura. Eppure, è difficile per noi esseri umani accettare il fatto che siamo ciò che il nostro cervello ci fa essere, e che tutta una serie di astrazioni, a partire dalla nozione di libero arbitrio, non corrisponde alla realtà dei dati scientifici. Anche per questo si assiste ultimamente al diffondersi di un atteggiamento tendente a superare i vincoli della ricerca scientifica con la speculazione astratta.

Alessandro Treves – Il nostro cervello è una democrazia corticale
Per secoli i filosofi hanno studiato la mente umana. Oggi, con la definitiva affermazione delle neuroscienze, ‘studiare la mente’ significa essenzialmente studiare la corteccia celebrale, e in particolare quella sua porzione chiamata neocorteccia. Quest’ultima però non è un’‘invenzione’ umana: appartiene a tutti i mammiferi e la sua nascita risale a circa 200 milioni di anni fa. Nel nostro cervello la maggioranza delle trasmissioni corticali avviene fra cellule di status equivalente: ecco perché abbiamo a che fare con un sistema sostanzialmente ‘democratico’, accompagnato come tutte le democrazie avanzate, da un variegato sistema di pesi e contrappesi.

Giorgio Vallortigara – Kant e le neuroscienze
Le intuizioni di spazio e tempo – due forme kantiane a priori – esistono nei nostri cervelli perché catturano fondamentali proprietà del mondo ed esistono nelle forme base sia negli uomini adulti che negli infanti, sia nelle persone delle società occidentali che in quelle delle società tradizionali in cui l’economia di sussistenza è ancora legata alla caccia e alla raccolta, e infine nei cervelli delle altre specie, che non possiedono linguaggio verbale e forme avanzate di cultura.

Daniel C. Dennett – Criminali si nasce o si diventa?
È colpa dei nostri geni se ci comportiamo male? Un’infanzia trascorsa tra abusi e stenti può renderci così? O dobbiamo chiamare in causa la nostra cultura che esalta i dominanti? Il libro Anatomy of violence di Adrian Raine, studioso di neuroscienze, pone degli interrogativi sull’attitudine criminogena di alcuni individui, arrivando a sostenere che la causa dello squilibrio a volte sia un difetto anatomico del cervello, come una regione poco o eccessivamente sviluppata. Ma le componenti non genetiche continuano a giocare un ruolo centrale. E a garantire dunque la nostra libertà (e responsabilità).

Paolo Legrenzi – L’empatia, il bene e il male
Dalla disumanizzazione e umanizzazione dell’altro ai geni dell’empatia, passando per le basi biologiche dell’aggressività e i ‘neuroni specchio’, le ricerche scientifiche ed empiriche dimostrano come sia assurdo individuare categorie prefissate come buono, cattivo, onesto, disonesto, coraggioso, pavido. Gli individui sono semplicemente fatti per capire le intenzioni e gli scopi altrui e influenzati da altri fattori: in primis le circostanze e un’educazione che spinga a pensare con la propria testa.

Stewart Guthrie – Dall’animismo animale al senso religioso
L’animismo – ossia l’attribuzione della capacità di agire a oggetti che non la possiedono – è un’attitudine che accomuna l’uomo e gli altri animali ed ha una radice evoluzionistica: presumere che dietro il fruscio di un ramo ci sia un predatore anche quando non c’è è, dal punto di vista evolutivo, preferibile all’atteggiamento contrario. E questo ‘istinto’ animista è anche alla base delle religioni.

Vittorio Girotto – Se siamo nati per credere, da dove vengono gli atei?
La spiegazione delle credenze superstiziose nel sovrannaturale come sottoprodotto di alcune tendenze cognitive innate è ormai suffragata da un grande numero di studi e ricerche empiriche. Come mai allora esistono gli atei? Come può svilupparsi un pensiero critico al punto da non manifestare alcun segnale di attaccamento a una qualsiasi fede? Che ‘possibilità’ biologiche ci sono dietro la tendenza allo scetticismo o all’incredulità che nel mondo contemporaneo sono dilagante maggioranza all’interno delle élite scientifiche e intellettuali?

Não sou um herege: entrevista com Hans Küng

Não sou um herege, mas um teólogo reformista crítico que, ao contrário de muitos de seus críticos, usa o Evangelho em vez da teologia medieval, da liturgia e da lei da Igreja como referência.

I’m not a heretic, but a critical reform theologian who, unlike many of his critics, uses the gospel instead of medieval theology, liturgy and church law as his benchmark.

Controversial Theologian Hans Küng: ‘I Don’t Cling to This Life’ [O controverso teólogo Hans Küng: ‘Não sou apegado a esta vida’] – By Markus Grill: Der Spiegel – December 12, 2013

O teólogo suíço Hans Küng tem sido uma voz Hans Küng: 19 de março de 1928 - 6 de abril de 2021que vem lutando pela reforma na Igreja Católica por décadas em questões como a infalibilidade papal, o celibato dos padres e a eutanásia. Sua posição custou-lhe a licença para ensinar teologia católica e levou muitos a considerá-lo herege. Enquanto o homem de 85 anos sofre de mal de Parkinson e outras doenças, ele observa a Igreja sob o papa Francisco contemplar muitas das reformas que ele há muito defende. Ele recentemente recebeu a revista Der Spiegel para uma ampla conversa sobre sua vida e as esperanças para o futuro da Igreja.

Swiss theologian Hans Küng has been a voice for reform in the Catholic Church for decades on issues such as papal infallibility, the celibacy of priests and euthanasia. His advocacy cost him his license to teach Catholic theology and has led many to brand him a heretic. As the 85-year-old suffers from Parkinson’s disease and other ailments, he watches the church under Pope Francis contemplate many of the reforms he has long championed. He recently sat down with SPIEGEL for a wide-ranging conversation about his life and hopes for the future of the church.

 

“Não sou apegado a esta vida”

A revolução pela qual Hans Küng lutou por toda a vida está ocorrendo atualmente no Vaticano. Mas o teólogo está no limite das forças e só pode assistir. Uma conversa sobre a primavera católica e o inferno na terra.

“Ich hänge nicht an diesem Leben”
Im Vatikan findet zurzeit jene Revolution statt, für die Hans Küng ein Leben lang gekämpft hat. Doch der Theologe ist am Ende seiner Kräfte und kann nur noch zuschauen. Ein Gespräch über den katholischen Frühling und die Hölle auf Erden.

Evangelii Gaudium: o anúncio do Evangelho no mundo atual

A Exortação sobre a alegria do Evangelho, do Papa Francisco, é uma verdadeira apostila missionária com imperativos e convites, dicas metodológicas e pedagógicas interligadas para fazer avançar a “nova evangelização”. Procurei agrupar os múltiplos temas em torno de sete núcleos de radiação. Alguns desses núcleos já fazem parte do set pastoral latino-americano, outros pertencem à tradição da Igreja universal e ainda outros são “bergoglianos”. Em seu conjunto podem servir para as comunidades aprofundarem a relevância do Vaticano II e do Documento de Aparecida para os dias de hoje em função de uma pastoral missionária em estado de conversão permanente.

Exortação apostólica do Papa Francisco – Um vade-mécum sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual – Paulo Suess: Adital 06/12/2013

Depois de uma longa fase depressiva do tempo pós-conciliar da Igreja católica, com a Exortação Apostólica “A alegria do Evangelho” (Evangelii gaudium, 24.11.2013) do Papa Francisco voltou a reflexão sobre a “alegria” como desejo de reforma, pressuposto de conversão e autocrítica (cf. EG 14), como convite não somente a “todos os que invocam o nome de Cristo”, mas, segundo a Constituição Pastoral “Gaudium et spes”, a toda a humanidade (cf. GS 2). Parecia que a ponte entre o Concílio Vaticano II e a Igreja de hoje não suportava mais os caminhões pesados da realidade contemporânea. Novos caminhos desatualizaram os mapas de motoristas experientes.

Em sua Exortação, o Papa Francisco se dirige aos motoristas desses caminhões. Sem muitos rodeios, procura lhes dizer que o perigo não está no caminho ou na ponte, mas nos motoristas desabilitados. Estes percorrem as paisagens pastorais com excesso de velocidade ou com lentidão sem rumo. Francisco pergunta a cada um de seus agentes de pastoral: Com sua carteira de motorista vencida, seu exame de vista caducado e o mapa de estradas desatualizado –como você pode passar a ponte para o mundo de hoje? Com “A alegria do Evangelho”, Francisco oferece a todos nós um manual de motorista atualizado– um vade-mécum pastoral em chave missionária sobre mudanças necessárias e possíveis. Contudo, nem todas as estradas novas constam nesse mapa. Uma vez que Francisco não tem o poder de um príncipe renascentista, nem tudo que seria necessário mudar ele vai poder transformar. A gerontocracia eclesial, por exemplo, é uma questão cultural e a transformação de cristalizações culturais são transformações que levam muito tempo. Enfaticamente, o Papa Francisco afirma: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação” (EG 27). O sonho antecipa realidades possíveis. Acontece que muitos dos próprios irmãos do Papa sonhador, que têm medo dessa nova realidade na qual o poder lhes será tirado, já pensam em como livrar-se do sonhador e buscam a cisterna mais próxima (cf. Gn 37).

Depois de uma contextualização concisa do documento, procuro através de sete núcleos interligados sistematizar a apostila missionária de Francisco. Ela nos dá os contornos pastorais de seu pontificado em forma de uma Exortação, às vezes, elementar e revolucionária outras vezes prolixa e tradicional, contudo sempre oferecendo algo do frescor da nossa alma latino-americana ao mundo.

Após a introdução acima, este é o esquema do artigo de Paulo Suess:
1. Contextualização
2. Núcleos estruturantes
2.1. A misericórdia
2.2.Os pobres
2.3. A atração
2.4. O anúncio
2.5. A inculturação
2.6. As estruturas
2.7. O diálogo
Notas

 

Leia Mais:
Francisco: a alegria do Evangelho
Leituras da Evangelii Gaudium

Batalha pelo controle do pensamento de Francisco

A batalha pelo controle do pensamento de Francisco continua.

O coletor mais refinado e sofisticado dessas nostalgias ratzingerianas e sentimentos anti-bergoglianos de matriz teológica é o vaticanista do L’Espresso, Sandro Magister, com o seu blog plurilíngue Settimo Cielo…” [e também Chiesa.it] (As oposições ao Papa Francisco. Artigo de Massimo Faggioli – Notícias: IHU On-Line 11/10/2013).

Leia:

:: Quando Bergoglio derrotou os teólogos da libertação – Sandro Magister: Chiesa.it, 01/10/2013, em Notícias: IHU On-Line 05/10/2013 [original italiano aqui]

:: A mudança de Francisco – Sandro Magister: Chiesa.it, 03/10/2013, em Notícias: IHU On-Line 07/10/2013 [original italiano aqui]

:: Também o Papa faz autocrítica. E corrige três erros, segundo vaticanista – Sandro Magister: Chiesa.it, 22/11/2013, em Notícias: IHU On-Line 23/11/2013 [original italiano aqui]

:: A Secretaria de Estado ordena a retirada do sítio do Vaticano da entrevista entre o Papa e Scalfari – Jesús Bastante: Religión Digital 15/11/2013, em Notícias: IHU On-Line 18/11/2013 [original espanhol aqui]

:: “Francisco me deu duas vezes um “ok” para a publicação da entrevista”, afirma Scalfari  – Redacción: Religión Digital 22/11/2013, em Notícias: IHU On-Line 23/11/2013 [original espanhol aqui]

Para as duas entrevistas, confira:

:: Entrevista de Francisco a Spadaro

:: Entrevista de Francisco a Scalfari

Leia Mais:
Francisco