Amós deve ser lido como uma retrospectiva da queda de Israel?

Segundo alguns autores, sim.

Por exemplo, Jason Radine, Professor de Estudos Bíblicos e Judaicos no Moravian College, Bethlehem, Pensilvânia, defende que o livro de Amós foi escrito em Judá logo Jason Radineapós a conquista do reino de Israel pela Assíria em 722 a.C.

O livro faz uma análise teológica da injustiça social do reino de Israel durante o reinado de Jeroboão II. O público-alvo do livro seria a população de Judá após a conquista assíria de Israel, uma combinação de refugiados israelitas e da população nativa de Judá.

E, muito mais do que um profeta de carne e osso, Amós deve ser visto como um personagem no livro.

Cito alguns trechos do artigo.

Jason Radine, The Book of Amos: A Retrospect on the Fall of Israel. TheTorah.com, April 22, 2021.

Escrito como um comentário sobre a injustiça social no reino de Israel no auge de sua riqueza e poder, o livro de Amós explica aos exilados israelitas por que eles foram punidos e alerta os judaítas para não cair na mesma armadilha.

O livro de Amos chama nossa atenção por fazer uma crítica feroz da injustiça social e da desigualdade econômica no reino de Samaria. Denuncia a hipocrisia descarada do culto formal por parte daqueles que perpetram a exploração de seus semelhantes. Os credores mercantilizaram seus tomadores de empréstimo, afogando-os em juros e, em seguida, executando dívidas até mesmo pequenas, prendendo os endividados na escravidão por dívida.

O livro começa com a afirmação de que Amós profetizou durante os reinados coincidentes do rei Ozias de Judá e de Jeroboão II de Israel. Isso teria sido por volta de 760 a.C. Este foi um ponto alto do poder de Israel, mas Amós prediz que Israel será destruído por causa de suas falhas éticas. Isso ocorre, de fato, anos depois, quando o reino de Israel sucumbiu a uma série de campanhas militares assírias entre 734 e 722 a.C., finalmente desmoronando completamente em 722 a.C. A Assíria deportou muitos israelitas, substituindo-os por pessoas de outras partes do império, e transformou Israel em província assíria.

Amós prevê tal queda por ataque militar do inimigo em vários lugares de seu livro. Prevê um colapso com baixas em massa para os exércitos israelitas. E o exílio é especificamente previsto várias vezes, sendo a classe alta exilada primeiro.

Embora todos os itens acima sejam apresentados como uma predição, parece mais provável que o livro de Amós seja uma explicação retrospectiva da queda do reino de Israel, em vez de uma predição antecipada da queda.

Este argumento é apoiado, por exemplo, pelo fato de Amós avisar os israelitas para observarem os destinos das cidades sírias de Calane e Emat como exemplos de cidades fortes que não podiam resistir às forças assírias. Os registros assírios indicam que Calane e Emat foram conquistadas pela Assíria em 738 a.C., quando os reis Ozias e Jeroboão, citados em Am 1,1, já tinham morrido. Os israelitas na época de Jeroboão II teriam visto apenas cidades prósperas ao olhar para Calane e Emat, mas observadores, algumas décadas depois, estariam cientes de que essas cidades fortes caíram nas campanhas da Assíria.

Outras evidências da redação posterior do livro podem ser vistas no modo como Amós acusa os israelitas de adorar as divindades assírias Ashimah, Sikkut e Kiyyun. Duas dessas divindades, Ashimah e Sikkut, são mencionadas no 2Reis como tendo sido veneradas por pessoas trazidas, pela Assíria, para Samaria depois que Israel foi conquistado em 722 a.C. Assim, parece claro que esses deuses só foram adorados em Israel após sua conquista pela Assíria, não antes. No entanto, Amós fala sobre eles como um problema contemporâneo, em 760 a.C.

Em conjunto, esta evidência sugere que o livro de Amós foi composto pela primeira vez após a queda do reino de Israel, não antes. Por mais convincentes que sejam as exigências éticas do livro, o objetivo do(s) autor(es) não era mudar o comportamento do suposto público do profeta no reino do norte de Israel. O livro parece ter sido composto após a queda de Israel, quando já era tarde demais para Israel mudar seu comportamento ou seu destino.

A análise das evidências aponta para a profecia bíblica como um gênero literário característico, ao invés da profecia israelita como uma prática concreta. O profeta Amós, portanto, é melhor entendido como personagem do livro de Amós. Como tal, o livro de Amós deve ser lido como uma peça de literatura político-religiosa, na qual um certo profeta Amós avisa Israel com antecedência sobre a punição, que o público sabe que já ocorreu.

O livro de Amós não é “profecia” em si, mas sim um “texto literário preditivo” – um texto escrito como profecia para explicar um desenvolvimento histórico em termos da vontade divina. O livro é, portanto, uma acusação e uma autópsia do Israel caído, parte do entendimento bíblico geral das catástrofes de Israel como sendo devidas às próprias falhas religiosas e morais dos israelitas.

O público-alvo do livro seria a população de Judá após a conquista assíria de Israel, uma combinação de refugiados israelitas e da população nativa de Judá. O livro apresenta ao componente refugiado da audiência uma perspectiva judaica sobre seu papel em sua própria queda, bem como uma indicação do que é moralmente esperado deles em Judá. Para o público de Judá, o livro declara que, embora o Israel mais rico pudesse parecer favorecido por Iahweh, Judá de fato é favorecido. Ao mesmo tempo, Judá permanece vulnerável e pode sofrer o mesmo destino de Israel se seu povo não aprender com a experiência de Israel.

As pesadas acusações do livro feitas ao reino de Israel provavelmente vêm do ressentimento com o sucesso relativo de Israel em comparação com seu vizinho do sul, Judá. Israel sempre foi mais rico do que Judá, mas sua riqueza é apresentada como sua própria ruína: Israel sofreu o destino que merecia, na visão do livro. Tal relato da catástrofe, por um lado, defende Iahweh da acusação de que não protegeu Israel, e, por outro lado, dá poder aos judaítas, afirmando que eles podem controlar seu futuro por meio de seu comportamento.

Jason Radine é Professor de Estudos Bíblicos e Judaicos no Moravian College, Bethlehem, Pensilvânia, USA. Estudou na Universidade de Michigan, USA, e na Georg-August Universität, em Göttingen, Alemanha. É autor do livro The Book of Amos in Emergent Judah. Tübingen: Mohr Siebeck, 2010.

 

Written as a commentary on the social injustice in the kingdom of Israel at a high point of its wealth and power, the book of Amos explains to exiled Israelites why they were punished and warns Judahites not to fall into the same trap.

RADINE, j. The Book of Amos in Emergent Judah. Tübingen: Mohr Siebeck, 2010The book of Amos stands out as a ferocious critique of callous social injustice and economic inequality. It castigates the brazen hypocrisy of pious worship by those who perpetrate the exploitation of their fellow human beings. Creditors commodified their borrowers, drowning them in interest and then foreclosing on even small debts, trapping the borrowers into debt slavery (…)

The book opens with a claim that Amos prophesied during the overlapping reigns of King Uzziah of Judah and King Jeroboam II of Israel (…)

This would have been in the 760s B.C.E. This was a high point of Israel’s power, but Amos predicts that Israel will be destroyed because of their ethical failings. This takes place years later when the kingdom of Israel succumbed to a series of Assyrian military campaigns in the 730s and 720s B.C.E., finally collapsing completely in 722–721 B.C.E. Assyria deported many of the Israelites, replacing them with people from elsewhere in the empire, and transformed Israel into the Assyrian province of Samerina (…)

Amos predicts such a fall by military attack in several places (…) The book predicts a collapse with mass casualties for the Israelite armies (…) Exile is specifically predicted several times, with the upper class exiled first (…)

While all of the above is presented as a prediction, it seems more likely that the book of Amos is a retrospective explanation of the fall of the kingdom of Israel rather than a prediction of the fall in advance (…)

This argument is supported from how Amos warns the Israelites to observe the fates of the Syrian cities of Calneh and Hamath as examples of strong cities that could not resist the Assyrian forces (…) Assyrian records indicate that Calneh and Hamath were conquered together by Assyria in 738 B.C.E., after the kings from Amos 1:1 had died. Israelites in the time of Jeroboam II would have seen only thriving cities when looking at Calneh and Hamath, but observers a few decades later would be aware that these strong cities fell to Assyria’s westward campaigns that eventually engulfed Israel (…)

Further evidence of the books later date can be seen from how Amos accuses Israelites of worshiping Assyrian deities Ashimah, Sikkut, and Kiyyun (…) Two of these deities, Ashimah and Sikkut, are mentioned in Kings as having been venerated by people transplanted by Assyria into Samaria after Israel was conquered (…)

Thus, it seems clear that these gods were only worshipped in Israel after its conquest by Assyria, not before. Yet Amos speaks about them as a contemporary problem.

In aggregate, this evidence suggests that the book of Amos was first composed after the kingdom of Israel’s fall, not before. However compelling the book’s ethical demands are, its author(s) goal was not to change the behavior of the prophet’s ostensible audience in the northern kingdom of Israel. The book seems to have been composed during the period after the fall of Israel, when it was already too late for Israel to change its behavior, or its fate (…)

The balance of evidence points to biblical prophecy as a distinctive literary genre, rather than to Israelite prophecy as a distinctive practice. The prophet Amos, therefore, is best understood as a character in the book of Amos (…) As such, the book of Amos should be read as piece of religio-political literature, in which a prophet Amos warns Israel in advance of the punishment that the audience knows has already occurred (…)

The book of Amos is not “prophecy” per se, but rather is a “literary-predictive text”—a text written as prophecy to explain a historical development in terms of divine will. The book is thus both an indictment and an autopsy of fallen Israel, part of the general biblical understanding of Israel’s catastrophes as being due to the Israelites’ own religious and moral failures.

The intended audience of the book would have been the people of Judah in the aftermath of the Assyrian conquest of Israel, a combination of Israelite refugees and the native Judahite population. The book presents to the refugee component of the audience a Judahite perspective on their role in their own fall, as well as an indication of what is morally expected of them in Judah. To the Judahite audience, the book declares that while wealthier Israel might have seemed favored by YHWH, Judah in fact is favored. At the same time, Judah remains vulnerable to suffering Israel’s fate if its people do not learn from Israel’s experience.

The book’s searing indictments of the kingdom of Israel probably come from resentment at Israel’s relative success compared with its southern neighbor, Judah. Israel was always wealthier than Judah, but its wealth is presented as its own undoing: Israel suffered the fate that it deserved, in the book’s view. Such an accounting of catastrophe both defended YHWH from blame for not protecting Israel, and, at the same time, empowered ancient Jews by asserting that they could control their future by their behavior.

Jason Radine is Professor of Biblical and Jewish Studies and Chair of the Department of Global Religions, Moravian College, Bethlehem, Pennsylvania. He earned his Ph.D in Near Eastern Studies at the University of Michigan in 2007 and was awarded a Post-Doctoral Humboldt Fellowship for study at the Georg-August Universität, Göttingen, Germany in 2011-2012. He is author of The Book of Amos in Emergent Judah (Tübingen: Mohr Siebeck, 2010) and various articles on the Minor Prophets.

O livro de Josué não é um relato de conquista

Segundo Thomas B. Dozeman, esta é uma história sobre a execução de reis, destruição de cidades reais e extermínio de populações urbanas. Mas não é uma narrativa de conquista.

DOZEMAN, T. B. Joshua 1-12: A New Translation with Introduction and Commentary. New Haven, CT: Yale University Press, 2015, 600 p. – ISBN 9780300149753.

Explica Thomas B. Dozeman nas páginas 3-5:DOZEMAN, T. B. Joshua 1-12: A New Translation with Introduction and Commentary. New Haven, CT: Yale University Press, 2015

O livro de Josué narra a invasão israelita da terra prometida sob a liderança de Josué, o servo de Moisés. O livro pretende ser a conclusão da história do êxodo e da jornada do deserto, quando Moisés lidera os israelitas do Egito até a Transjordânia, conforme contado nos livros do Êxodo até Deuteronômio. O autor retrata a invasão da terra prometida como a conclusão da jornada.

Mas a invasão não é uma narrativa de conquista, na qual os israelitas vencem a população local e assumem suas cidades.

Em vez disso, é uma história sobre a execução de reis, a destruição de suas cidades reais e o extermínio da população urbana através da implementação do anátema – um tipo de guerra na qual todos os homens, mulheres e crianças são mortos. O abate dos povos nativos é um sacrifício para Iahweh que prepara a terra prometida para as tribos israelitas, que viverão uma vida mais rural, livres de reis e de cidades reais. Josué 1-12 narra a destruição dos reis, cidades reais e população nativa, enquanto Josué 13-24 descreve a redistribuição da terra para as tribos.

A invasão da terra prometida em Josué 1-12 começa com a incumbência de Josué no capítulo 1, que funciona como o prólogo para o livro. O prólogo estabelece os temas centrais da história: Josué é o sucessor autorizado de Moisés, enquanto os israelitas mesmo não sendo nativos da terra, recebem de Iahweh a promessa da terra como um lugar de descanso. A promessa divina deve ser realizada através de um ato corajoso de guerra santa, para que se cumpra a Lei de Moisés.

A invasão em Josué 2-12 ocorre em duas etapas. A primeira, narrada em Josué 2-8, concentra-se na jornada da Arca de Setim, no lado leste do Jordão, para o seu lugar de descanso nos montes Ebal e Garizim, perto de Siquém, no lado oeste do Jordão. A segunda etapa, Josué 9-12, relata as guerras de Josué contra as coalizões sul e norte dos reis, resultando em descanso da guerra na terra (Js 11,23).

A jornada da Arca em Josué 2-8 significa a reivindicação de Iahweh sobre a terra prometida. A confissão de Raab, em Js 2, dizendo que Iahweh deu a terra a Israel, funciona como uma introdução à jornada da Arca em Josué 3-8, concentrando a narrativa sobre Iahweh, que é capaz de dar a terra a Israel. A narrativa de Josué 3-8 explora o caráter de Iahweh e a natureza da religião javista, já que a Arca viaja para o seu local de culto em Siquém.

Cinco locais estão associados à jornada da Arca, que deixa Setim para entrar na terra prometida: o rio Jordão, Guilgal, Jericó, Ai e os montes Ebal e Garizim em Siquém. Cada local fornece uma pista sobre a interpretação da religião javista por parte do autor:
. a passagem do Jordão revela Iahweh como “o Deus vivo”, que habita no meio do povo israelita (3,10).
. em Guilgal, Iahweh revela que ele é o Deus do êxodo, que é capaz de remover a desonra do Egito que pairava sobre o povo israelita (5,9). Os israelitas respondem observando os rituais da circuncisão, da Páscoa e do pão sem fermento, após o que o maná cessa e os israelitas comem dos frutos da terra de Canaã (5,2-12).
. em Jericó, Iahweh revela que ele é um guerreiro divino que se opõe a reis e cidades reais (5,14;6,16.26).
. em Ai, Iahweh demonstra a natureza exclusiva da aliança, que exige que os israelitas permaneçam separados da cultura dominante dos cananeus. Acã viola essa aliança, roubando o espólio de Jericó, o que causa a derrota israelita na batalha de Ai. Acaba executado junto com sua família (Js 7).
. em Ebal, Josué estabelece o local central do culto a Iahweh. Ele constrói um altar de pedras brutas no qual é inscrito o livro da Lei de Moisés, estabelecendo uma forma estrita de culto anicônico (8,30-35).

Em Josué 9-12, o foco muda da jornada da Arca em direção a seu local de culto em Siquém para as guerras de Josué contra os reis nativos. A narrativa se ramifica para descrever os limites do sul e norte da terra. As duas seções de Josué 3-8 e 9-12 estão inter-relacionadas. A jornada da Arca em Josué 3-8 fornece a base religiosa para a guerra contra os reis da terra e a destruição de suas cidades reais em Josué 9-12.

As guerras de Josué começam em Josué 9 com os gabaonitas, que enganam os israelitas para fazer uma aliança de paz para salvar sua nação da destruição.

A aliança suscita uma coalizão de reis do sul, liderado por Adonisedec de Jerusalém, para atacar os gabaonitas, conduzindo Josué e os israelitas para a batalha em Josué 10. Josué derrota o exército da coalizão sulista, executa os reis na caverna de Maceda, e assegura a porção sul da terra prometida.

No capítulo 11 Josué derrota a coalizão dos reis do norte liderada por Jabin de Hasor, adicionando assim esta região à terra prometida.

As guerras de Josué terminam em Josué 12 com uma recapitulação dos reis derrotados. O resultado das vitórias de Josué é o despovoamento das nações locais e a destruição das cidades reais de modo que “a terra descansou da guerra” (11,23).

A destruição dos reis e suas cidades reais permitem a repovoamento da terra prometida em Josué 13-24 como uma sociedade mais rural e tribal. Josué 13-19 descreve a distribuição da terra para as tribos.

O processo começa em Josué 13 com as regiões tribais a leste do Jordão, incluindo os territórios de Rúben, Gad e metade da tribo de Manassés, antes do foco mudar para a região oeste em Josué 14-19.

A distribuição da terra a oeste do Jordão inclui Judá (Js 15), as duas tribos da casa de José, Efraim e metade de Manassés (Js 16-17), e as restantes sete tribos: Benjamim, Simeão, Zabulon, Issacar, Aser , Neftali e Dã (Js 18-19).

Josué 20-21 explica que as únicas cidades apropriadas na terra prometida são centros judiciais de refúgio (Js 20) e centros religiosos levíticos (Js 21), em vez das cidades reais dos reis nativos anteriores. Uma vez concluída a distribuição tribal e as cidades estabelecidas, Josué 22 aborda o tema da identidade étnica, explorando a relação entre as tribos do leste e do oeste do Jordão.

O livro conclui com dois discursos de Josué nos capítulos 23-24. O primeiro é um lembrete para a exclusão social e religiosa contínua das nações nativas (Js 23), e o segundo enfatiza mais a necessidade de as tribos resistirem a retornar à religião arcaica dos ancestrais e continuar a adorar apenas a Iahweh (Js 24).

O livro termina com as notícias dos enterros de Josué e de Eleazar e o repatriamento dos ossos de José (Js 24, 29-33).

Uma resenha do livro feita por Deane Galbraith pode ser lida em The Bible & Critical Theory, Vol 13, No 1 (2017).

 

Thomas B. DozemanThe book of Joshua recounts the Israelite invasion of the promised land under the leadership of Joshua, the servant of Moses. The book is intended to be the conclusion to the story of the exodus and the wilderness journey, when Moses leads the Israelites from Egypt to the eastern bank of the Jordan River, as recounted in the books of Exodus-Deuteronomy. The author portrays the invasion of the promised land as the completion of the journey. But the invasion is not an account of conquest, in which the Israelites subdue the indigenous population and take over their cities. Rather, it is a story about the execution of kings, the destruction of their royal cities, and the extermination of the urban population through the implementation of the ban—a form of warfare in which all men, women, and children are killed. The slaughter of the indigenous people is a sacrifice to Yahweh that prepares the promised land for the Israelite tribes, who will live a more rural life, free of kings and their royal cities. Joshua 1-12 narrates the destruction of the kings, royal cities, and indigenous population, while Josh 13-24 describes the redistribution of the land to the tribes.

The invasion of the promised land in Josh 1-12 begins with the commission of Joshua in Josh 1, which functions as the prologue to the book. The prologue establishes the central themes of the story: Joshua is the commissioned successor of Moses; the Israelites are not indigenous to the land; yet Yahweh promises the land to them as a place of rest. The divine promise must be realized through a courageous act of holy war, which fulfills the Torah of Moses. The invasion in Josh 2-12 takes place in two stages. The first, Josh 2-8, focuses on the procession of the ark from Shittim, on the east side of the Jordan River, to its resting place at the mountains of Ebal and Gerizim, near Shechem, on the west side of the Jordan. The second stage, Josh 9-12, recounts the wars of Joshua against the northern and southern coalitions of kings, resulting in rest from war in the land (11:23).

The procession of the ark in Josh 2-8 signifies Yahweh’s claim to the promised land. The confession of Rahab, in Josh 2, that “Yahweh has given Israel the land” functions as an introduction to the procession of the ark in Josh 3-8 by focusing the narrative on Yahweh as the one who is able to give the land to Israel. The narrative of Josh 3-8 explores the character of Yahweh and the nature of Yahwistic religion, as the ark travels to its cultic site at Shechem. Five locations are associated with the procession of the ark as it leaves Shittim to enter the promised land: the Jordan River, Gilgal, Jericho, Ai, and the mountains of Ebal and Gerizim at Shechem. Each location provides insight into the author’s interpretation of Yahwistic religion. The crossing of the Jordan reveals Yahweh as “El, the living,” who dwells in the midst of the Israelite people (3:10). At Gilgal, Yahweh discloses that he is the God of the exodus, who is able to remove the disgrace of Egypt from the Israelite people (5:9). The Israelites respond by observing the rituals of circumcision, Passover, and unleavened bread, after which manna ceases and the Israelites eat the crops of the land (5:2-12). At Jericho, Yahweh reveals that he is a divine warrior who opposes kings and royal cities (5:14; 6:16, 26). At Ai, Yahweh demonstrates the exclusive nature of the covenant, which demands that the Israelites remain separate from the dominant culture of the Canaanites. Achan violates this covenant by stealing booty from Jericho, causing the Israelite defeat in battle at Ai and the eventual execution of Achan and his family (7:10-11). Finally, at Ebal, Joshua establishes the central cultic site for worshiping Yahweh. He builds an altar of uncut stones on which is inscribed the book of the Torah of Moses, thus modeling a strict form of aniconic worship that is grounded in a monotheistic worldview (8:30-35).

In Josh 9-12 the focus shifts from the procession of the ark toward its central cultic site at Shechem to the wars of Joshua against the indigenous kings. The narrative branches out to describe the southern and northern boundaries of the land. The two sections of Josh 3-8 and 9-12 are organically related. The procession of the ark in Josh 3-8 provides the religious basis for the war against the indigenous kings and the destruction of their royal cities in Josh 9-12. The wars of Joshua begin in Josh 9 with the Gibeonites, who trick the Israelites into making a covenant of peace in order to save their nation from destruction. The covenant prompts a coalition of southern kings, led by Adoni-zedek of Jerusalem, to attack the Gibeonites, drawing Joshua and the Israelites into the battle in Josh 10. Joshua defeats the army of the southern coalition, executes the kings at the cave of Makkedah, and secures the southern portion of the promised land. In Josh 11 Joshua defeats the coalition of northern kings led by Jabin of Hazor, thus adding this region to the promised land. The wars of Joshua conclude in Josh 12 with a summary of the defeated kings. The result of Joshua’s victories is the depopulation of the indigenous nations and the destruction of the royal cities so that “the land had rest from war” (11:23).

The destruction of the kings and their royal cities allows for the repopulation of the promised land in Josh 13-24 as a more rural and tribal society. Joshua 13-19 describes the distribution of the land to the tribes. The process begins in Josh 13 with the tribal regions east of the Jordan River, including the territories of Reuben, Gad, and half of the tribe of Manasseh, before the focus shifts to the western region in Josh 14-19. The allotment of the western land includes Judah (Josh 15), the two tribes of Joseph, Ephraim and half of Manasseh (Josh 16-17), and the remaining seven tribes of Benjamin, Simeon, Zebulun, Issachar, Asher, Naphtali, and Dan (Josh 18-19). Joshua 20-21 clarifies that the only appropriate cities in the promised land are judicial centers of refuge (Josh 20) and levitical religious centers (Josh 21), rather than the royal cities of the past indigenous kings. Once the tribal distribution is complete and the cities are established, Josh 22 addresses the topic of ethnic identity by exploring the relationship between the eastern and western tribes. The book concludes with two speeches by Joshua in Josh 23-24. The first is a call for continued social and religious exclusion of the indigenous nations (Josh 23), and the second stresses more the need for the tribes to resist returning to the archaic polytheistic religion of the ancestors and to continue worshiping only Yahweh (Josh 24). The book ends with the burial notices of Joshua and Eleazar, as well as the internment of the bones of Jacob (24:29–33).

O mundo das origens de Israel, segundo Mario Liverani

LIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008, p. 59-80.

Capítulo 2: A transição (século XII)LIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008

Anotações de leitura

 

1. Uma crise multifatorial

Liverani começa o capítulo falando resumidamente das pesquisas sobre a ocupação da terra de Canaã e das principais teorias hoje existentes sobre as origens de Israel

Uma apresentação das teorias pode ser conferida em minha “História de Israel” online, no capítulo sobre as origens de Israel.
. a teoria da conquista
. a teoria da instalação pacífica
. a teoria da revolta
. a teoria da evolução pacífica e gradual

Mas, segundo Liverani este é um fenômeno complexo, e talvez uma só teoria não seja suficiente para explicar as origens de Israel. Ele propõe que os especialistas, deixando de contrapor uma a outra, deveriam utilizá-las todas “para compor um quadro multifatorial próprio de um fenômeno histórico complexo” (p. 60).

Há uma grande crise socioeconômica na Idade do Bronze Recente [Bronze Recente=1550-1150 a.C.].

Observo que Eric H. Cline, em 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed. Princeton: Princeton University Press, 2014, faz um ótimo estudo sobre o colapso das grandes civilizações do antigo Oriente Médio no Bronze Recente. Uma apresentação do livro pode ser conferida em 1177 a.C.: o ano em que a civilização entrou em colapso.

Esta crise durou cerca de 3 séculos, de 1500 a 1200 a.C., assim como também cerca de 3 séculos vai durar a construção de uma nova ordem, de 1200 a 900 a.C.

Mas o momento mais agudo da crise foi na primeira metade do século XII (1200-1150 a.C.).

 

2. Fatores climáticos e migrações

Uma severa crise climática na região do Saara fez com que tribos líbias entrassem no vale do rio Nilo à procura de pastagens e água aí pelo fim do século XIII e início do século XII a.C. Os faraós Merneptah e Ramsés III se vangloriam de tê-las combatido.

Também na Anatólia houve uma sequência de anos muito áridos no final do século XIII, com escassas precipitações, provocando uma grave carestia, como atestam textos hititas, ugaríticos, egípcios e a moderna dendrocronologia.

CLINE, E. H. 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed. Princeton: Princeton University Press, 2014A tudo isso se somou a pressão dos “povos do mar”, o fenômeno mais impressionante desta época.

Anoto que sobre os “povos do mar” é preferível consultar Eirc H. Cline, resumidamente, em 1177 a.C.: o ano em que a civilização entrou em colapso.

O resultado: Ugarit, Alashiya (Chipre) e toda uma série de reinos e cidades do Egeu, Anatólia, Síria e Palestina foram destruídos. “Todo o sistema político do Bronze Recente no Mediterrâneo oriental ruiu sob os golpes dos invasores” (p. 63).

E acrescenta Liverani: “Certamente, a crise socioeconômica de longa data, a crise demográfica em curso, a indiferença da população camponesa pela sorte dos palácios reais e as recentes carestias foram outros tantos fatores de fraqueza para o mundo siro-palestino diante dos invasores” (p. 63).

Um dos povos do mar é conhecido através de textos bíblicos: os filisteus, que ocuparam a faixa costeira da Palestina entre o Egito e a Fenícia.

Sobre os filisteus, consultar:
. 1177 a.C.: o ano em que a civilização entrou em colapso
. Os filisteus e a crise da idade do bronze
. DNA indica origem europeia dos filisteus

 

3. A queda do sistema regional

O quadro político da Palestina mudou muito com a queda do sistema regional que era estruturado pelos reinos de Hatti, Egito, Assíria e Babilônia.

O império hitita foi totalmente destruído, o Egito recuou de suas possessões na Ásia, Assíria e Babilônia encolheram.

Depois de séculos, a Palestina se viu livre de controle externo que lhe havia sido imposto pelo Egito a partir do faraó Tutmósis III (1479-1425 a.C.)

 

4. A crise dos palácios

Na Palestina, o sistema dos palácios foi destruído e, com ele, desabam as estruturas administrativas, artesanais e comerciais.Batalha naval dos egípcios contra os povos do mar em imagem de Medinet Habu

Diz Liverani: “Muitos palácios reais e cidades palestinas do Bronze Recente foram destruídos durante as invasões ou depois delas: a relação seria longa. Praticamente todos os sítios arqueológicos pesquisados apresentam um quadro de destruição situado no início do século XII” (p. 68).

Como as destruições não estão “assinadas”, várias hipóteses já foram levantadas para explicar o fenômeno, entre elas: povos do mar, tribos proto-israelitas, intervenções egípcias, guerras locais, revolta de camponeses.

Mas o importante é o quadro de conjunto: “Um quadro de destruição geral da instituição palatina e, portanto, de um tipo de reino baseado na centralidade do palácio” (p. 68). Somente uns poucos núcleos de urbanização ficaram intocados pela crise.

Com a redução do tamanho do núcleo palatino, cidades sobreviventes viram povoados (vilas). “A redução é óbvia: basta tirar de uma cidade do Bronze Recente o palácio real, as habitações dos altos funcionários e da aristocracia militar, as oficinas dos artesãos, os arquivos e as escolas para obter uma grande vila semelhante às outras (p. 69).

 

5. O crescimento do elemento tribal

À destruição do sistema palatino segue-se um processo de sedentarização de tribos pastoris, documentado nos novos assentamentos do Ferro I. “À crise do palácio, com suas relações hierárquicas, serviu de contrapeso a consolidação da tribo, com suas relações de parentesco” (p. 70).

Nos povoados consolidam-se grupos de parentesco estáveis, formando unidades territoriais. É o que chamamos de clã. Grupos vizinhos se unem, formando o que chamamos convencionalmente de tribos. Matrimônios cruzados, necessidades de defesa, relações de trabalho, relações de hospitalidade, por exemplo, fortalecem estes laços.

Liverani observa que todas as relações sociais são apresentadas segundo o modelo genealógico: “O nome da vila é (ou pelo menos é assim interpretado) o do chefe de que todos os habitantes descendem por ramos familiares. E todos os epônimos das vilas serão considerados os filhos ou talvez os netos do epônimo tribal” (p. 70). Um epônimo é um fundador real ou mítico de uma família, clã, tribo, dinastia ou cidade e que lhe dá seu nome.

Mas é um modelo artificial: as vilas e as famílias são aparentadas não porque têm um único antepassado comum, mas porque se tornaram parentes através de matrimônios cruzados.

O fato é que assentamentos agrupados por este sistema de parentesco tomam uma dimensão tal que podem se apresentar como alternativa ao sistema político palatino. Este é um fenômeno documentado também na Síria, não é exclusivo da Palestina.

Portanto, a crise leva a uma nova ordem baseada na solidariedade de parentesco.

 

6. A mudança tecnológica

Esta época é marcada por inovações tecnológicas de grande impacto:
. a fabricação de ferramentas e armas de ferro, material mais resistente e mais fácil de ser obtido do que o bronze
. o alfabeto substitui a escrita cuneiforme e torna a escrita mais acessível a um grupo maior de usuários
. a domesticação do camelo e do dromedário e seu uso como animal de carga amplia o comércio
. o uso do cavalo como montaria muda as táticas de guerra
. a navegação em alto-mar é aprimorada
. a agricultura em região montanhosa se torna possível com a construção de terraços que evitam a erosão dos terrenos
. a água é recolhida e guardada em cisternas impermeabilizadas

Escavações no cemitério filisteu de AscalonLiverani, entretanto, nos alerta de que “esse conjunto de inovações não se desenvolveu de repente nem ao mesmo tempo: algumas técnicas foram se firmando progressivamente no tempo (ferro, alfabeto), outras eram recorrentes no tempo (socalcos, cisternas), outras ocorreram mais tarde (sistemas hídricos montanhosos) (…), mas todas juntas caracterizam o período do Ferro em relação ao período do Bronze e devem ser levadas em consideração para compreender a diferente ordem territorial e a diferente cultura material” (p. 78).

O resultado, como notado mais à frente, nas p. 81-82 desta mesma obra, é o crescimento do número de assentamentos nas montanhas, que saltam de 29 sítios no Bronze Recente para 254 no Ferro I na Cisjordânia e de 32 para 218 na Transjordânia.

 

7. Horizontes ampliados

Ocorre a ampliação e a homogeneização no uso do território. Diz Liverani: “Na Palestina foi se configurando uma nova ocupação territorial que se estendeu aos planaltos e às estepes semiáridas, bem diferente da ocupação do Bronze Recente, toda concentrada somente nas áreas facilmente utilizáveis para a agricultura” (p. 78).

Quanto aos assentamentos: cidades menores, povoados (vilas) em crescimento.

Assim a Palestina se vê no centro de uma rede de vias e trocas comerciais de longa distância, tanto na costa mediterrânea como na Transjordânia.

Entretanto a região montanhosa fica à margem deste processo, pois é rodeada, mas não cruzada, pela principais vias por onde circulam as mercadorias.

A invenção da conquista, segundo Mario Liverani

LIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008, p. 331-355.

Capítulo 14 – Sobreviventes e estranhos: a invenção da conquistaLIVERANI, M. Para além da Bíblia: História antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008

Mario Liverani faz uma demolição radical da conquista narrada no livro de Josué. Ele desmantela, ponto por ponto, a conquista de Josué.

Ele diz, por exemplo:

:. Sobre a conquista:
A história narrada no livro de Josué não somente não é confiável ao reconstruir uma mítica “conquista” do século XII, mas nem sequer é confiável ao reconstruir os episódios do regresso dos séculos VI-V. É um manifesto utópico que pretende dar força a um projeto de regresso que naqueles termos jamais se verificou (p. 333).

La storia narrata nel libro di Giosuè non solo non è attendibile nel ricostruire una mitica «conquista» del XII secolo, ma non è neppure attendibile nel ricostruire le vicende del rientro del VI-V secolo. È un manifesto utopico che intende dar forza ad un progetto di rientro che in quei termini non si è mai verificato.

:. Sobre os povos vencidos:
Extermina-se quem não existe – e o fato de não existirem demonstra que foram exterminados (p. 339).

Si stermina chi non c’è – e il fatto che non ci sia dimostra che lo si è sterminato.

:. Sobre o propósito do autor:
Legitimação arquetípica da posse da terra de Canaã (p. 339).

Legittimazione archetipica del possesso della terra di Canaan.

 

Algumas anotações de leitura:

1. As etapas do regresso

Os “pactos” ou “promessas” de Iahweh a Abraão e a Moisés correspondem aos editos dos reis persas no nível jurídico: fornecem a legitimação para o regresso e a posse da terra. As tradições patriarcais podiam ser invocadas como prefigurações de uma primeira presença no país, mas também podiam ser invocadas pelos remanescentes como como modelo de convivência entre grupos diversos e complementares. Assim, as tradições patriarcais fornecem, segundo Liverani, um modelo “fraco” de regresso do exílio, com pequenos grupos que ocupam espaços da terra de Yehud sem maiores conflitos com as populações locais.

Mas este não é o único modelo: a narrativa da conquista, como aparece no livro de Josué, fornece um modelo “forte” de regresso do exílio, permitindo a eliminação das populações estranhas no território de Yehud. Este modelo, defendido por grupos de linha dura, propagandeava um fechamento em relação aos povos “estranhos”.

Mas como ter-se-ia dado o regresso do exílio? Possivelmente nem “fraco” nem “forte” apenas. De modo algum unitário, mas complexo e lento. Agora, um evento militar que teria varrido o território está fora de questão.

A volta não é apenas da Babilônia, como se costuma pensar. A realidade é mais complexa e caótica. Há refugiados também no Egito, nos territórios palestinos antes ocupados pela Assíria e na Transjordânia. Os grupos que voltam do exílio têm motivações e interesses diversos. Voltam aos poucos, é preciso pensar em um regresso escalonado no tempo. Um cenário possível: grupos de pessoas amparadas financeiramente pelos que decidiram ficar na diáspora, mas que apoiam uma reocupação da terra judaíta.

Os textos sinalizam um grupo liderado por Sasabassar; outro liderado por Zorobabel e Josué, que pode ter vindo em 521 a.C., segundo ano de Dario I; outros grupos na época de Artaxerxes, 446 a.C., quando se mencionam Esdras e Neemias; outros mais tarde ainda. Mas, em nenhuma circunstância, aconteceu uma “conquista” do território na volta do exílio.

Por isso, “a história narrada no livro de Josué não somente não é confiável ao reconstruir uma mítica ‘conquista’ do século XII, mas nem sequer é confiável ao reconstruir os episódios do regresso dos séculos VI-V. É um manifesto utópico que pretende dar força a um projeto de regresso que naqueles termos jamais se verificou” (p. 333).

 

2. A Palestina no período dos aquemênidas

Um quadro dos assentamentos na época dos aquemênidas, especialmente no século V a.C., mostra uma faixa costeira mais densamente habitada e uma população bem ativa no comércio e na política local, em oposição a uma rala população na região montanhosa, que é a do assentamento judaico, o Yehud.

Estimativas arqueológicas sugerem uma pequena população judaíta, na região montanhosa, com cerca de 12 mil pessoas entre 550-450 a.C. e com cerca de 17 mil pessoas entre 450-330 a.C. Na região de Samaria: cerca de 42 mil pessoas.

Por que este quadro? Claramente a administração persa investiu na zona costeira da Palestina e, especialmente, da Fenícia, mais estratégica, construindo fortalezas, centros administrativos, urbanística planejada e instalações portuárias, deixando o interior montanhoso ir em frente com seus próprios recursos.

 

3. Os povos intrusos

A terra para onde regressam os descendentes dos exilados estava ocupada por vários grupos, como os que, escapando das deportações, nunca saíram de suas terras, os deportados de outras proveniências, os assentados durante o período assírio, as populações limítrofes que se deslocaram ou se expandiram para a terra.

Com a história de uma antiga conquista que elimina os povos residentes tenta-se negar o direito destes vários grupos à terra.

Os povos citados nesta antiga conquista originária são cananeus, heteus , amorreus, ferezeus, heveus e jebuseus.

Esses povos, com exceção dos cananeus, são fictícios, enquanto os povos reais da época do Ferro I [Ferro I=1150-900 a.C.], como fenícios, filisteus, edomitas, moabitas, amonitas, arameus e árabes não são mencionados.

Por que o destaque dado aos cananeus e por que é o único não anacrônico no final do Bronze Recente [Bronze Recente=1550-1150 a.C.]? Por ser um termo genérico, sem característica etnolinguística e unidade política, usado para as populações da região de Canaã, como o fazem os testemunhos egípcios.

Essas listas de supostos povos pré-israelitas, com exceção dos cananeus, não têm ligação alguma com a realidade histórica da Palestina, seja no século XIII (conquista), seja no século V (reocupação da terra pelos sobreviventes do exílio).

Ou seja: “extermina-se quem não existe – e o fato de não existirem demonstra que foram exterminados” (p. 339).

 

4. A fórmula do êxodo

“Outro elemento fundamental na legitimação arquetípica da posse da terra de Canaã, ao lado da teoria dos povos intrusos, é o da chegada de fora e da conquista armada, em cumprimento da promessa divina. As sagas sobre os ‘Patriarcas’ forneciam uma legitimação insuficiente, já que muito remota e localizada somente em alguns lugares-símbolo (os túmulos, as árvores sagradas). Um protótipo bem mais poderoso da conquista do país é posto em prática com a história do êxodo (ṣē’t, e outras formas de yāṣā’ ‘sair’) do Egito, sob a guia de Moisés, e da conquista armada, sob a guia de Josué” (p. 339).

Mario Liverani (nascido em Roma, em 1939)Saída (êxodo) não implica necessariamente deslocamento físico, mas saída de uma dependência política. Textos do Bronze Recente nas regiões da Síria e da Fenícia, por exemplo, indicam deslocamentos de soberania que não implicam nenhum deslocamento físico das populações envolvidas, mas sim o deslocamento da fronteira política.

Esta linguagem metafórica, porém, fica mais dramática, e passa a significar uma situação concreta, quando os assírios operaram as deportações cruzadas dos dominados no final do século VIII a.C. Liverani calcula que esta prática assíria de “deportação cruzada” de populações, envolveu, ao longo de três séculos, algo como 4 milhões e meio de pessoas no antigo Oriente Médio (cf. p. 193).

A fórmula do êxodo (algo como: Eu [Iahweh] vos fiz sair do Egito para vos fazer habitar nesta terra que vos dei) vai ser ligada a outras fórmulas, como a transumância pastoril patriarcal entre o Sinai e o delta do Nilo e o trabalho forçado dos hapiru nos empreendimentos dos raméssidas no Egito.

Isso faz do êxodo uma história de fundação do povo e do novo êxodo uma saída da diáspora assíria e babilônica. Observe-se que o Israel do êxodo reflete um povo formado, mostrando um quadro muito mais da volta do exílio do que das origens de Israel.

Há muito mais no capítulo:

5. Moisés, o deserto e os itinerários

6. O difícil assentamento

7. Josué e a “guerra santa”

8. Paisagem e etiologia

9. Compromisso e convivência

10. Fronteiras ideais e terras restantes

Morreu Hector Avalos

Nascido em 1958, em Nogales, no México, morreu Hector Avalos em 12 de abril de 2021, aos 62 anos de idade, em Ames, Iowa, USA.

Hector Avalos era professor na Iowa State University, no Departamento de Filosofia e Estudos Religiosos. Avalos publicou trabalhos em áreas como a relação entreHector Avalos: 1958-2021 violência e religião, ciência e religião, saúde no mundo antigo e outros temas.

Há alguns posts sobre Avalos no Observatório Bíblico, como:

Avalos publica livro contra os estudos bíblicos – 07.07.2007

Lemche para Avalos: os estudos bíblicos são necessários – 23.10.2010

Avalos para Lemche: os estudos bíblicos devem mudar – 31.10.2010

Roland Boer: considerações sobre o debate Lemche-Avalos – 17.11.2010

Avalos responde a seus críticos – 04.12.2010

Morreu Hans Küng

Morreu ontem, dia 6 de abril de 2021, aos 93 anos de idade, o teólogo Hans Küng.

Há no Observatório Bíblico muitos posts sobre Hans Küng. Confira aqui.

Quando estudante na Universidade Gregoriana, a partir de 1970, fui cativado pelo pensamento de Hans Küng.Hans Küng: 1928-2021

De 21 a 29 de outubro de 2007 Hans Küng fez, em várias universidades brasileiras, uma série de palestras em torno do tema Ciência e fé – por uma ética mundial.

Leia mais sobre Hans Küng aqui.

 

Comunicado da Stiftung Weltethos:

Faleceu o teólogo Prof. Dr. Hans Küng

Lamentamos a perda de nosso fundador e presidente de longa data, Hans Küng. Ele faleceu pacificamente em sua casa em Tübingen em 6 de abril de 2021 com 93 anos de idade.

Hans Küng viu desde cedo a necessidade de um ethos para toda a humanidade. Com o projeto de Ética Mundial, ele finalmente criou a base para uma consciência dos valores comuns fundamentais em todas as partes da sociedade e para uma coexistência pacífica e respeitosa além das fronteiras de religiões, culturas e nações. Um projeto que hoje é mais importante do que nunca – e que o acompanhou e o manteve ocupado até sua morte.

Tendo em vista a visão de esperança de Hans Küng “para tornar o mundo um lugar melhor”, é uma honra para a Fundação Ética Mundial poder continuar o trabalho de sua vida. Vamos mantê-lo, levá-lo adiante e desenvolvê-lo ainda mais, e nos curvamos em gratidão ao seu grande fundador.

 

Theologe Prof. Dr. Hans Küng verstorben

Wir trauern um unseren Gründer und langjährigen Präsidenten Hans Küng. Er ist am 06. April 2021 im Alter von 93 Jahren friedlich in seinem Haus in Tübingen verstorben.

Schon früh sah Hans Küng die Notwendigkeit eines Ethos für die Gesamtmenschheit. Mit dem Projekt Weltethos schuf er letztlich die Grundlage für ein Bewusstsein grundlegender gemeinsamer Werte in allen Teilen der Gesellschaft sowie für ein friedliches und respektvolles Miteinander über die Grenzen der Religionen, Kulturen und Nationen hinweg. Ein Projekt, das auch heute wichtiger ist, denn je – und ihn bis zu seinem Tod begleitete und beschäftigte.

Mit Blick auf Hans Küngs Hoffnungsvision „To make the world a better place“ ist es für die Stiftung Weltethos eine Ehre, sein Lebenswerk fortführen zu dürfen. Wir werden es in seinem Sinne bewahren, weitertragen und weiterentwickeln und wir verneigen uns in Dankbarkeit vor dessen großartigem Begründer.

06/04/2021

Quem eram os filisteus?

Quem eram os filisteus? – 3 de março de 2021

Um vídeo no canal Patheos do YouTube, onde Andrew Mark Henry explica quem eram os filisteus.

Este episódio faz parte de uma série chamada Excavating the History of the Bible: What Archeology Can Teach Us About the Biblical WorldEscavando a história da Bíblia: o que a arqueologia pode nos ensinar sobre o mundo bíblico. A série começou em 17 de fevereiro de 2021.

O episódio analisa testemunhos arqueológicos egípcios sobre os filisteus, bem como apresenta evidências que demonstram que eles eram migrantes em Canaã, viajando pelo Mediterrâneo a partir do mundo do Egeu. A seção final examina algumas das dificuldades que os estudiosos encontram ao tentar comparar a narrativa bíblica com o registro arqueológico.

 

Who Were the Philistines? March 3, 2021

This episode examines another arch-rival of the Israelites: The Philistines. The episode explores our earliest evidence of the Philistines from Egypt as well as lays out the evidence demonstrating that they were migrants to Canaan, traveling over the Mediterranean from the Aegean world. The final section examines some of the difficulties scholars encounter trying to compare the biblical narrative with the archaeological record.

O quebra-cabeças das origens de Israel

1962

MENDENHALL, G. The Hebrew Conquest of Palestine, The Biblical Archaeologist 25, 1962, p. 66.

Não existe problema da história bíblica que seja mais difícil do que a reconstrução do processo histórico pelo qual as Doze Tribos do antigo Israel se estabeleceram naGeorge Emery Mendenhall: August 13, 1916 - August 5, 2016 Palestina e norte da Transjordânia.

De fato, a narrativa bíblica enfatiza os poderosos atos de Iahweh que liberta o povo do Egito, o conduz pelo deserto e lhe dá a terra, informando-nos, deste modo, sobre a visão e os objetivos teológicos dos narradores de séculos depois, mas ocultando-nos as circunstâncias econômicas, sociais e políticas em que se deu o surgimento de Israel.

 

There is no problem of biblical history which is more difficult than that of reconstructing the historical process by which the Twelve Tribes of ancient Israel became established in Palestine and northern Transjordan.

The historical traditions in the Bible emphasize the religious significance of narrated events to the virtual exclusion of the kinds of information which the modern historian looks for and utilizes in his reconstruction of the past. This biblical emphasis upon the “acts of God” seems to modern man the very antithesis of history, for it is within the framework of economic, sociological and political organization that we of today seek understanding of ourselves and consequently of ancient man.

 

1995

DAVIES, P. R. In Search of ‘Ancient Israel’. Sheffield: Sheffield Academic Press [1992], 1995, p. 47-48, 51 e 56.

Philip R. Davies (1945-2018)Para quem se empenha numa pesquisa histórica, o Israel bíblico é um problema e não um dado (p. 47-48).

Nós não podemos transferir automaticamente nenhuma das características do ‘Israel’ bíblico para as páginas da história da Palestina (…) Nós temos que extrair nossa definição do povo da Palestina de suas próprias relíquias. Isto significa excluir a literatura bíblica (p. 51).

É simplesmente impossível pretender que a literatura bíblica ofereça um retrato suficientemente claro do que é o seu ‘Israel’, de modo a justificar uma interpretação e aplicação históricas. Desta forma, o historiador precisa investigar a história real independentemente do conceito bíblico (p. 56).

 

The biblical Israel is a problem and not a datum, when on engages in historical research.

We cannot automatically transfer any of the characteristics of the biblical ‘Israel’ onto the pages of Palestine’s history (…) We shall have to draw our definition of the people of Palestine from their own relics. That means excluding the biblical literature.

It is impossible to pretend that the biblical literature provides a clear enough portrait of what its ‘Israel’ is so as to justify an historical interpretation and application. The historian thus needs to investigate the real history independently of the biblical concept

 

2001

FINKELSTEIN, I.; SILBERMAN, N. A. The Bible Unearthed: Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. New York: The Free Press, 2001, p. 118.

O processo que nós descrevemos aqui é, na verdade, o oposto daquele que temos na Bíblia: a emergência do Israel primitivo foi uma consequência do colapso da culturaIsrael Finkelstein (1949-) e Neil Asher Silberman (1950-) cananeia, não a sua causa. E a maior parte dos israelitas não veio de fora de Canaã – eles emergiram de dentro desta terra. Não ocorreu um êxodo em massa do Egito. Não houve uma conquista violenta de Canaã. A maior parte das pessoas que formaram o primitivo Israel eram moradores locais – as mesmas pessoas que vemos nas montanhas nas Idades do Bronze e do Ferro. Os israelitas primitivos eram – ironia das ironias – eles mesmos originariamente cananeus!

 

The process that we describe here is, in fact, the opposite of what we have in the Bible: the emergence of early Israel was an outcome of the collapse of the Canaanite culture, not its cause. And most of the ‘Israelites did not come from outside Canaan-they emerged from within it. There was no mass Exodus from Egypt. There was no violent conquest of Canaan. Most of the people who formed early Israel were local people-the same people whom we see in the highlands throughout the Bronze and Iron Ages. The early Israelites were- irony of ironies-themselves originally Canaanites!

Sobre as origens de Israel, leia mais aqui e aqui.