História de Israel 7

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1.4. A Síria e a Fenícia

Para falar da Síria, com sua capital Damasco, temos que falar dos arameus. Dizia-se, até pouco atrás, que estes eram nômades semitas que a partir do deserto siro-arábico invadiram a Alta Mesopotâmia, a Anatólia (Ásia Menor) e a Síria. Mas hoje não temos mais tanta certeza disso, por isso seria melhor não falar mais dos arameus desta maneira. Certo é que nunca houve uma união política aramaica, sendo a Síria a sede de vários reinos arameus.

A primeira menção segura dos documentos antigos sobre os arameus data do ano 1110 a.C., mais ou menos, e está em textos cuneiformes do reinado do assírio Tiglat-Pileser I (1115-1077 a.C.). No quarto ano de seu reinado ele combateu os Ahlamu-Arameus no Eufrates e lhes queimou seis acampamentos no Djebel Bishri.

Eis o comunicado real:“Marchei contra os ahlamu-arameus, inimigos do deus Assur, meu senhor. Em um só dia realizei uma incursão desde as proximidades da terra de Suhi até Carquemish da terra de Hatti. Infligi-lhes baixas e trouxe prisioneiros, bens e gado sem conta”.

E ainda:“Por vinte e oito vezes, à razão de duas por ano, cruzei o Eufrates em perseguição aos ahlamu-arameus. Da cidade de Tadmor (Palmira) da terra de Amurru, da cidade de Anat da terra de Suhi, até a cidade de Rapigu da terra de Karduniash (Babilônia), sua derrota foi por mim consumada”[2].

Com o tempo, os termos ahlamu e arameu tornaram-se sinônimos, mas é possível que fossem dois grupos diversos, aparentados, contudo.

O reino de Aram-Damasco foi aniquilado pelos assírios, um pouco antes de Israel do norte. A província síria destacou-se depois, sob o domínio romano.

O LevanteA Fenícia, a faixa costeira ao norte de Israel e ao lado da Síria, era muito fértil. Seu nome vem da púrpura que era extraída ali de certas conchas. Em fenício-hebraico, “púrpura” se dizia canaan e em grego foinix, donde “Fenícia”. Líbano, seu nome atual, é devido à cadeia de montanhas assim chamada e significa “o branco”, por causa da neve no pico dos montes.

Começando pelo sul da Fenícia, encontramos a cidade de Tiro, existente desde o III milênio a.C., construída metade sobre uma ilha, metade no continente. Por isso resistiu maravilhosamente a terríveis assédios assírios e babilônicos. Foi tomada por Alexandre Magno após sete meses de cerco. Tiro era famosa por seu comércio e suas naves. Foi quase sempre aliada de Israel.

Sídon, habitada por cananeus, foi famosa por causa de seus navegantes. Os assírios conquistaram-na, mas foi cidade livre sob os romanos. Concorrente de Tiro no comércio e navegação.

Ainda: Ugarit (Ras Shamra), habitada por cananeus. É importante por causa de sua grande literatura, relacionada com a literatura bíblica e sua língua, parente da hebraica. As escavações aí realizadas enriqueceram muito os estudos bíblicos nos últimos tempos. Foi destruída pelos filisteus.

Assim se deu sua descoberta: em março de 1928, um lavrador alauíta, arando sua propriedade a cerca de 12 km ao norte de Latakia, antiga Laodicea ad mare, remove uma pedra na qual seu arado bate e encontra os restos de uma tumba antiga. Colocado a par da descoberta, o Serviço de Antiguidades da Síria e do Líbano, na época sob mandato francês, encarrega um especialista, M. L. Albanese, que imediatamente notifica a presença de uma necrópole e identifica a tumba como sendo do tipo micênico, datável aí pelos séculos XIII ou XII a.C.[3].

Uma necrópole supõe a existência de uma cidade. Por isso, Albanese e Dussaud prestaram atenção à colina vizinha, chamada Ras Shamra, de uns 20 metros de altitude, que tinha toda a aparência de ser um tell arqueológico, ou seja, um acúmulo de ruínas antigas, e que podia corresponder à cidade procurada.

Um ano mais tarde, no dia 2 de abril de 1929, sob o comando de Claude F. A. Schaeffer, começaram as escavações, primeiro da necrópole, e logo em seguida, no dia 8 de maio, no tell, que tem um extensão de uns 25 hectares e se encontra a cerca de 800 metros da costa. Ao norte se vê o Jebel Aqra’, “monte pelado”, ou Monte Zafon (o monte Casius, dos romanos) que separa a região dos alauítas do vale e da desembocadura do rio Orontes.

Poucos dias mais tarde, foram feitas as primeiras descobertas: tabuinhas de argila escritas em caracteres cuneiformes, objetos de bronze e de pedra.

A identificação do nome do local não foi difícil, pois os textos descobertos sugeriram imediatamente que se tratava de Ugarit (ú-ga-ri-it), já conhecida por referências da literatura egípcia e mesopotâmica, sobretudo pelas Cartas de Tell el-Amarna, onde se encontram algumas provenientes da própria Ugarit. Entre os textos encontrados aparece o nome da cidade.

Os textos foram encontrados todos no primeiro nível arqueológico (1500-1100 a.C.) , pertencendo, portanto, à última fase da cidade. Estavam principalmente na “Biblioteca” anexada ao templo de Baal e no “Palácio Real” ou “Grande Palácio”, que possuía diversas dependências para arquivos. As tabuinhas estão redigidas em sete sistemas diferentes de escrita, correspondente a sete línguas diferentes: em hieróglifos egípcios, em hitita hieroglífico e cuneiforme, em acádico, em hurrita, em micênico linear e cipriota e em ugarítico. Os textos que nos interessam estão em ugarítico, um sistema cuneiforme alfabético, que foi decifrado em poucos meses por H. Bauer, E. Dhorme e Ch. Virolleaud. Nesta língua, que é uma forma do cananeu, foram encontrados cerca de 1300 textos.

Para nós é muito importante o Ciclo de Baal (ou Ba’lu). As tabuinhas do Ciclo de Baal foram encontradas todas nas campanhas arqueológicas de 1930, 1931 e 1933 e estão hoje no Museu do Louvre, Paris, e no Museu de Aleppo, na Síria. São seis tabuinhas que trazem um ciclo mitológico composto de três mitos ou composições autônomas que giram cada uma em torno de um mitema particular: Luta entre Ba’lu e Yammu (1.1-2), O palácio de Ba’lu (1,3-4) e a Luta entre Ba’lu e Môtu (1.5-6). E o mais interessante no Ciclo de Baal é que as seis tabuinhas têm a mesma “caligrafia”, ou seja, foram escritas pelo mesmo escriba que se identifica como Ilimilku em 1.6 e 1.16, junto com o nome do Sumo Sacerdote, Attanu-Purlianni, para quem trabalhou e que deve ter ditado o texto, e a quem deveremos considerar como o autor, redator ou, quem sabe, apenas o transmissor desta versão tradicional do mito de Baal e o nome do rei, Niqmaddu, que governou Ugarit de 1370 a 1335 a.C.

 

1.5. A Palestina

Começamos a falar da Palestina na Idade do Bronze Antigo (3150-2200 a.C.), quando houve um notável progresso na vida urbana, na indústria (sobretudo na cerâmica) e um aumento geral da população, provável resultado da sedentarização de grupos novos que se estabeleciam na região.

Muitas das cidades que conhecemos através da Bíblia já existiam, como Jericó, Meguido, Bet-Shan, Gezer, Ai, Laquish. No centro e no norte da Palestina é que se situa a maior parte destas cidades, sendo mais rarefeita a população no sul.

A agricultura era a atividade básica. Cultivavam, nesta época, o trigo, a cevada, lentilhas, favas. Havia também a cultura da oliveira e da amendoeira. A vinha teria sido ali introduzida nesta época.

O comércio funcionava em direção à Síria do norte e do Egito. Os utensílios de pedra dominavam ainda, embora já se começasse a fabricação de armas de cobre.

Na Síria, a cidade de Biblos conheceu um progresso semelhante e a influência egípcia tornou-se marcante graças ao comércio marítimo.

Podemos chamar convencionalmente estes povos de cananeus. Sua língua era um semítico do noroeste, provavelmente a ascendente do cananeu falado nos tempos israelitas, do qual o hebraico bíblico é uma derivação.

Por volta de 2300 a.C. esta civilização sofreu forte decadência. Até a década de 70 do século XX se acreditava que povos teriam invadido, a partir do norte, seu território e as cidades teriam sido destruídas, algumas bem violentamente. O mesmo aconteceu na Síria. O curioso é que se observa que seus novos habitantes não reconstruíram imediatamente as cidades: ou acamparam sobre as ruínas, ou viveram em cavernas e quando reconstruíram as casas estas eram bastante modestas, e isto depois de alguns séculos de ocupação. Só por volta de 1900 a.C. é que há sinais de nova vida urbana. Dizia-se que possivelmente eram estes povos os mesmos amoritas ou semitas do oeste que invadiram também a Mesopotâmia. Hoje se reconhece que as mudanças ocorridas então se devem muito mais a mudanças climáticas do que a qualquer entrada de povos na região.

A Palestina conheceu a sua fase antiga mais próspera entre os anos de 1800 e 1550 a.C. Cidades populosas e bem guarnecidas, cercadas por poderosas muralhas floresceram, tais como Hazor, Taanak, Meguido, Siquém, Jericó, Jerusalém, Bet-Shemesh, Gezer, Tell Beit Mirsim, Tell el-Duweir, Tell el-Farah do sul etc. Já a Transjordânia não teve civilização sedentária até cerca de 1300 a.C. e o Negueb até o século X a.C.

Palestina é um nome derivado de “filisteus”, em hebraico pelishtim, um povo que habitava a faixa costeira situada entre o Egito e a  Fenícia. Os filisteus são de origem egeia, talvez de Creta. Faziam parte dos “povos do mar”, que após 1175 a.C., mais ou menos, tentaram invadir o Egito, mas foram vencidos pelo faraó Ramsés III e passaram a viver naquela parte da Palestina.

Canaã, ou terra de Canaã, é outro nome da região usado para designar esta terra, nome proveniente de seus antigos habitantes, os cananeus. Sob os hebreus, passou a ser chamada de terra de Israel, e mais tarde Judá ou Judeia, que era apenas uma parte de seu território.

A superfície da Palestina é de 16.000 km2, sem a Transjordânia. Contando com a Transjordânia, que nem sempre pertenceu a Israel, são 25.000 km2 de território. A superfície da Bélgica, mais ou menos.

Do Mediterrâneo ao Jordão, no norte, são cerca de 48 km de largura e na altura do mar Morto são cerca de 80 km. O comprimento é de 250 km de Dan a Bersheba, ou de 320 km de Dan a Cades-Barnea, incluindo o deserto do Negueb nesta última, que não era propriamente território de Israel.

Israel é uma zona subtropical, com chuvas de novembro a março e seca de abril a outubro. A temperatura vai de -2 a 45 graus Celsius, variando também segundo os lugares graças à topografia. Cai neve em Jerusalém e Jericó é muito quente. Tel-Aviv, Haifa e Tiberíades são quentes e úmidas.

Quando se trata de estimativa populacional encontramos muitas dificuldades para os tempos mais antigos. Mas para a Palestina do século I d.C.  calcula-se  que cerca de 500 mil habitantes viviam no território e algo em torno de 4 milhões de judeus estavam no exterior (diáspora). Jerusalém no tempo de Jesus não passava de 25 a 30 mil habitantes fixos.

A configuração geográfica é a seguinte: há duas cadeias de montanhas que percorrem a Palestina de norte a sul e são: a continuação do Líbano, Cisjordânia, e a continuação do Antilíbano, a Transjordânia. Entre estas duas cadeias está o vale do Jordão, numa depressão de 390 metros abaixo do nível do mar que vai do lago de Hule, ao norte, até o mar Morto, ao sul.

Assim, podemos descrever a Palestina, quanto ao relevo em quatro faixas verticais, norte-sul: a Transjordânia, o vale jordânico, a Cisjordânia e a costa mediterrânea.

 

1.5.1. A Transjordânia

As montanhas da Transjordânia são altas e apresentam profundas gargantas, por onde correm os afluentes ocidentais do Jordão. Do sul para o norte, os afluentes são: Zered, Arnon, Jabbok e Yarmuk.

Na Transjordânia estavam antigamente os seguintes países ou regiões: Edom, Moab, Ammon, Galaad e Bashan.

Edom é o país ocupado por um povo semita do deserto siro-arábico aí por volta de 1300 a.C. O país está ao sul do mar Morto, em um planalto de 1600 metros de altitude, 110 km de comprimento e 25 km de largura. Seu limite ao norte é o rio Zered, ao sul o golfo de Aqaba. Sua capital, Sela. Outras cidades: Teman, uma fortaleza perto de Sela; Bosrah e Tofel, ao norte. A Bíblia costuma unir Teman e Bosrah para designar todo o país de Edom.

Moab está situado entre os vales do Zered e do Arnon, porém levava frequentemente sua fronteira ao norte do Arnon. Seu território principal está situado em um planalto de 1200 metros de altitude.

As cidades do ano 3000 a.C. foram destruídas e abandonadas. Aí por volta de 1300 a.C. o país foi novamente ocupado por semitas nômades e pastores.

Sua capital era Kir-hareseth (Kir, Kir-heres), a moderna Kerak. Outras cidades: Aroer, Dibon, Medeba e Heshbon. Cerca de oito km a oeste de Medeba está o monte Nebo (para a tradição sacerdotal) ou Pisgah (para a tradição eloísta).

No século I d.C., a sudoeste do monte Nebo estava a fortaleza de Maqueronte, onde Herodes Antipas mandou matar João Batista, segundo relatos dos evangelhos. Moab e Israel nunca foram amigos. A tribo de Rubens tentou se estabelecer na parte norte de seu território, mas foi expulsa.

Antes de Israel adotar a monarquia como forma de governo, Moab já o fizera. Seu deus principal era Kemosh. Sua língua se assemelha bastante ao hebraico.

Ammon era uma tribo aramaica que se estabeleceu na região superior do Jabbok. Sua capital era Rabbath-Ammon, a atual Amman, capital da Jordânia. Parece que se estabeleceram aí em 1300 a.C., mais ou menos. Os limites de seu território não são bem definidos, e Ammon foi o mais fraco dos reinos transjordânicos. Esteve frequentemente submetido a Israel, de quem sempre foi inimigo. Cultuavam os amonitas o deu Moloc (ou Melek). Sua língua se assemelha ao aramaico.

Galaad (ou Gilead) está também na região do Jabbok. Esta região foi habitada pelas tribos de Gad e Manassés. Seu território tem uns 60 km de norte a sul por 40 km leste-oeste e é bastante fértil. Chove bem e era coberta antigamente por densos bosques. Famoso era seu bálsamo e abundantes suas vinhas. Suas cidades principais: Penuel, Mahanaim, Succoth, Jabesh-Galaad, Ramoth-Galaad. No tempo do Novo Testamento: Gerasa, Gadara, Pella.

Bashan (ou Hauran) é uma região ao norte do Galaad, formada por férteis planícies, boas para o cultivo do trigo e ótimas para pastagens. Seus bosques eram comparáveis aos do Líbano. A região sempre foi objeto de luta entre Israel e Síria, que se revezavam na sua posse. Não possuía cidades de destaque.

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[2]. Cf. PRITCHARD, J. B. (ed.) Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament (ANET). 3. ed. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1969, 274- 275.

[3]. Cf. DEL OLMO LETE, G. Mitos y Leyendas de Canaan según la Tradición de Ugarit. Madrid: Institución San Jerónimo & Ediciones Cristiandad, 1981, p. 23-31.

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