História de Israel 4

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1.2. A Mesopotâmia

A planície situada nos vales dos rios Tigre e Eufrates é chamada comumente de Mesopotâmia, nome que vem do grego e significa (terra) entre rios, notadamente o Tigre e o Eufrates. A Bíblia chama a esta terra de paddan aram ou aram naharayim (Síria dos dois rios). A Mesopotâmia foi berço de civilizações antiquíssimas e importantes, como os sumérios, os acádios, os assírios e os babilônios.

Os sumérios construíram a sua civilização na Baixa Mesopotâmia entre os anos de 2800 e 2370 a.C., mais ou menos. As escavações feitas em Uruk revelaram o uso da escrita cuneiforme (sinais em forma de cunha) desde o início do III milênio. Foram os sumérios os inventores da escrita.

O chefe da cidade suméria tem o título de En (= senhor), de conotação religiosa. Ele dirige o culto, nas cenas gravadas nos cilindros. As únicas construções oficiais são os templos: as cidades eram dirigidas por senhores eclesiásticos, auxiliados por “anciãos”, que formavam uma assembleia.

O culto era celebrado para Inanna (a futura Ishtar), deusa da fecundidade e do amor, e para An, deus do céu. O templo era um centro econômico: possuía terras, onde cultivavam-se a cevada e o trigo. Também a horticultura, a vinha e a palmeira eram conhecidas. Usavam arados. Criavam principalmente carneiros e cabras e, mais raros, bois. Aparece o asno e o porco, assim como um carro de 4 rodas e o barco.

Há, no trabalho dos templos, marceneiros, ferreiros, ourives e ceramistas. O metal mais citado é o cobre. Também já conheciam a prata e o ouro. Havia mercadores e um comércio privado.

MesopotâmiaÉ impossível saber quando chegaram os sumérios à Baixa Mesopotâmia. Mas, pelo menos pode-se perceber que eles se misturaram às antigas culturas populares locais, talvez subários e populações de língua semítica. Parece que estavam na região na segunda metade do IV milênio a.C.

As cidades mais importantes eram: Adab, Zabalam, Umma, Bad-Tibira, Lagash, Akshak, Kish, Nippur, Shurupak, Uruk e Ur. Permaneceram sempre isoladas, na forma de cidades-estado. Cada uma possuía ao seu redor um cinturão de aldeias e eram separadas por pântanos e desertos, característicos da região.

Avançando um pouco mais no tempo e pesquisando outros lugares além de Uruk, os especialistas descobriram que as cidades organizavam-se ao redor dos templos e palácios reais.

No palácio vivia o rei, que era apenas um administrador do Estado, pertencente, na verdade, ao deus. Lugal (rei) era o seu título ou Ensi (chefe das cidades, governador, vice-rei), que indicava um poder menor do que o primeiro. O rei era sacerdote (mantinha os santuários), era juiz supremo, chefe militar e administrador dos canais de irrigação. Sua residência era mais uma fortaleza do que um palácio. Suas tropas chegavam a uma média de 600 a 700 homens, reforçados, na guerra, por camponeses. Além de uma infantaria armada de lanças, abrigada por grandes escudos e capacetes, havia carros de guerra com 4 rodas compactas, puxados por quadrigas de burros.

Não se sabe quando se formou a monarquia suméria; mas era uma monarquia militar, que entrou em luta com os chefes religiosos pelo controle interno das cidades e com as outras cidades em massacres periódicos. Contudo não permaneceram unificadas por muito tempo. Foi a função guerreira que fez surgir a realeza.

Esta fase de guerras constantes, a partir de 2800 a.C., mais ou menos, início da idade clássica sumeriana, levou à construção de grandes muralhas nas cidades. Uruk tinha muralhas de 9,5 km de extensão, com mais de 900 torres semicirculares, cobrindo uma superfície de 5 km2.

Lagash e Umma foram duas das cidades que mais dominaram suas vizinhas. Já a cidade de Nippur parecia ser uma espécie de território neutro, centro de uma anfictionia ou confederação.

Os templos podiam ter várias formas, mas a disposição interna era a mesma em qualquer lugar. As estátuas não são muito bonitas, são toscas demais. Revelam-nos o vestuário da época: o mais usado era o Kaunakés, espécie de saia com longas franjas estilizadas, em forma de linguetas.

Na literatura produziam-se textos sapienciais, hínicos, épicos e mitológicos. A religião tem predominância naturista: os cultos da fertilidade estavam em primeiro plano. No ritual exerciam funções importantes a grã-sacerdotisa e o rei, simbolizando o casamento sagrado entre um deus (Dumuzi?) e uma deusa (Inanna). Em meados do III milênio, porém, deu-se uma transposição da temática naturista para a cósmica (os deuses passam a figurar elementos do cosmos), embora a primeira permanecesse.

O sumeriologista Jan van Dijk, em um artigo de 1964, foi quem classificou os textos sumérios segundo os sistemas ou motivos “cósmicos” e “ctônicos”[1].

O motivo cósmico é baseado na percepção de que céu e terra não são entidades separadas, mas interdependentes. A interdependência era explicada por uma cosmogonia: o universo aparece através de um casamento cósmico no qual o Céu (An) fertiliza a Terra (Ki) e de sua união nascem deuses, seres humanos e vegetação. O cenário do motivo cósmico é o seguinte: há um período anterior à criação (ou mundo embrionário), há um dia de criação que inclui a criação de seres humanos através da emersio (= emergência do homem, ao modo das plantas, da terra aberta pela enxada) e ocorre a difusão da civilização. Este motivo cósmico predomina entre os pastores de Nippur, cujo deus principal é Enlil, onde a chuva é fundamental para a sua sobrevivência. Enlil é importante neste tipo de cosmogonia por ser o primogênito, e, portanto, por ter separado o céu da terra.

O motivo ctônico predomina em Eridu, cujo deus é Enki (associado com as águas), entre agricultores que dependem dos canais de irrigação para sobreviver. Segundo este motivo o deus Ea dá vida à terra através da sua inundação ou inseminação com as águas subterrâneas que flui pelos rios e canais. Os seres humanos são criados por formatio: Ea forma o homem da argila oferecida pela terra.


Os acádios – seminômades de origem semita – criaram o florescente reino de Akkad, que durou de 2370 a 2230 a.C. aproximadamente.

Os acádios já estavam há muito tempo na região da Alta Mesopotâmia. Estes grupos seminômades semitas foram progressivamente ocupando a região sem que se possa falar de uma verdadeira invasão.

O reino foi fundado pelo famoso Sargão de Akkad. Sua história é lendária e paradigmática: filho de pai desconhecido, sua mãe, uma sacerdotisa de pequena aldeia do médio Eufrates, colocou-o em um cesto, no rio. Recolhido por um horticultor, acabou copeiro do rei de Kish.

Fundou Agade – até hoje não foi encontrado o seu sítio, mas se supõe que esteja nas vizinhanças de Kish – e em 2370 a.C. atacou e venceu o mais forte rei sumério, Lugal-zagesi, de Umma. Após a Suméria, dominou o Elam, Mari, a Síria do norte e chegou até o Tauro.

A lenda de Sargão foi recuperada em duas cópias neoassírias incompletas e em um fragmento neobabilônico:

“Sargão, o poderoso rei, rei de Akkad, eu sou.
Minha mãe era uma suma sacerdotisa , meu pai eu não conheci.
Os irmãos de meu pai amavam as colinas.
Minha cidade é Azupiranu, que está situada nas margens do Eufrates.
Minha mãe, a suma sacerdotisa, concebeu-me, em segredo ela me deu à luz.
Ela colocou-me em um cesto de juncos, com betume ela selou a tampa.
Ela colocou-me no rio que não me submergiu.
O rio levou-me a Akki, o tirador de água.
Akki, o tirador de água, ergueu-me ao mergulhar seu balde.
Akki, o tirador de água, tomou-me como seu filho e criou-me.
Akki, o tirador de água, colocou-me como seu jardineiro.
Enquanto eu era um jardineiro, Ishtar concedeu-me seu amor.
E durante quatro e (…) anos eu exerci a realeza.
O povo cabeça preta eu dirigi, eu governei;
Altas montanhas com machados de bronze eu conquistei.
As cordilheiras superiores eu escalei.
As cordilheiras inferiores eu atravessei.
A terra do mar três vezes eu girei.
Dilmun minha mão capturou”…
(seguem-se mais 12 linhas, narrando as vitórias do rei).

Akkad diminuiu o poder econômico dos templos, transferindo grande parte das propriedades rurais para a família real e para os funcionários da corte. A organização da produção permaneceu a mesma. As cidades continuavam a crescer e o comércio avançou bastante, chegando à Mesopotâmia produtos da Arábia Meridional e da Índia.

O importante é observarmos que, pela primeira vez, as cidades mesopotâmicas submetiam-se a um governo centralizado e organizado: fundara-se um Estado e às várias províncias era aplicada uma política comum.

O exército evoluiu, para sustentar esta política. Arqueiros abriam brechas nas falanges e soldados armados de achas e lanças dizimavam-nas. O título real tornou-se mais abrangente: de rei de uma cidade, Sargão e sucessores passaram a “rei das quatro regiões”. A religião e a arte sumérias foram assimiladas. Numerosas divindades semíticas encontraram suas equivalentes sumérias, e nas artes Akkad não passou de simples aprendiz da Suméria.


Os gútios (2230-2116 a.C.) invadiram a região vindo das montanhas do Zagros. Então Akkad passou por um período de anarquia e destruição. Reinaram os gútios cerca de 120 anos, com 21 reis. Com o tempo, porém, vários deles deixaram-se assimilar pela cultura do país ocupado. Não conseguiram impor seu domínio sobre o reino que se desmantelou. Até que Utu-Hegal (2116-2110 a.C.), rei de Uruk, decidiu eliminá-los. O que foi feito com facilidade.


Vamos falar agora da III dinastia de Ur (2111-2003 a.C.). Foi Ur-Nammu (2111-2094 a.C.), governador de Ur, quem acabou recebendo o governo do país, unificando-o todo e adquirindo o título de “rei da Suméria e de Akkad”. Seu reino era tão extenso quanto o de Akkad.

Restaurou as cidades destruídas, suas muralhas e templos, abriu canais, desenvolvendo a agricultura e o comércio. Promulgou um código de leis, o mais antigo que conhecemos.

O Estado dominou a atividade econômica de maneira bastante abrangente. Os templos eram sustentados por ele, e os reis faziam às divindades oferendas mensais. Em Ur, por exemplo, consistiam tais oferendas de animais para o sacrifício, cereais, farinha, cerveja, frutos e combustíveis. O templo não dominava mais, como antigamente, o setor econômico. Mas uma estreita ligação subsistia entre o Palácio e o Templo.

As oficinas têxteis, ao redor das cidades, usavam mão de obra feminina, contando com considerável número de tecelões, controlados por uma administração rigidamente hierarquizada e organizada.

O comércio era sustentado pelo governo e pelos templos. Como sempre, as matérias primas, raras na Mesopotâmia, tinham de ser importadas. As avaliações se faziam em cevada, embora a prata já começasse a ser o meio de pagamento.

A sociedade dividia os homens em livres e escravos. Os livres estavam subdivididos ainda em duas categorias, sendo o mashda (em acádico, mushkenum) um cidadão com menos direitos do que os mais abastados. Além disso, havia os eren (= tropa), pessoas reduzidas à servidão, embora não fossem escravos.

Os escravos dividiam-se em estrangeiros, prisioneiros de guerra, sem nenhum direito, os namra; e em nacionais, pessoas vendidas por dívida, os Ir ou Gemé, mais criados do que escravos, possuindo personalidade jurídica.

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[1]. Cf. CLIFFORD, R. J. Creation Accounts in the Ancient Near East and in the Bible. Washington: The Catholic Biblical Association of America, 1994, p. 15-16. 

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