História de Israel 29

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Após a morte de Jônatas, a luta dos Macabeus continua com seu irmão Simão a partir de 143 a.C. Simão, ao dominar a Acra, a poderosa fortaleza selêucida de Jerusalém, consegue, finalmente, a independência da Judeia.

Assassinado, Simão é sucedido por seu filho João Hircano I, que continua o processo de judaização da Palestina. Mas, por adotar medidas militares políticas helenizantes, João Hircano I começa a enfrentar a oposição dos fariseus, grupo que vai se tornando cada vez mais popular.

Aristóbulo I, filho e sucessor de João Hircano, apesar de ter governado apenas um ano, continua o processo de reaproximação com o helenismo. E a luta pelo poder no seio da família dos Macabeus é forte: Aristóbulo encarcera sua mãe e seus irmãos.

Seu irmão Alexandre Janeu casa-se com a rainha viúva, Salomé Alexandra, proclama-se rei, e continua o processo de anexação de territórios na Palestina, levando suas fronteiras a um ponto que o país nunca mais tivera desde que fora destruído por Nabucodonosor em 586 a.C.

Entretanto, Janeu vai enfrentar pesada guerra civil no seu confronto com os fariseus. Agindo com crueldade extrema, ele controla a situação após 6 anos de sangrentos conflitos.

Sua mulher Salomé Alexandra assume o poder depois dele e faz a paz com os fariseus, governando com grande habilidade.

Mas seus dois filhos, Hircano II e Aristóbulo II, após a morte da rainha, entram em violenta disputa pelo poder, que só acaba com a chegada definitiva dos romanos na região. O general Pompeu anexa a Judeia à República Romana em 63 a.C.

 

10.1. Simão consegue a independência da Judeia

Simão sucede a seu irmão Jônatas em 143 a.C. e, enfrentando Trifão, agora rei, repele um seu ataque na Judeia. Demétrio II ainda comanda a Cilícia e a Mesopotâmia e Simão faz aliança com ele. Consegue muitos benefícios para o povo judeu, como consta do decreto de Demétrio II citado em 1Mc 13,36-42.

Simão toma Gazara, estratégica cidade helenística. Gazara (= Gezer) é judaizada à força e João Hircano, filho de Simão, torna-se o seu governador militar.

E a independência da Judeia do jugo dos Selêucidas é garantida com a destruição da Acra por Simão em 141 a.C. e a expulsão dos gentios do território. A importante fortaleza é transformada no palácio dos Macabeus[1].

1Mc 13,49-52 descreve a tomada da Acra por Simão:

“Ora, os da guarnição da Cidadela, em Jerusalém, impedidos de sair e de andar pela vizinhança, para comprar ou vender, começaram a passar muita fome, perecendo não poucos dentre eles à míngua. Então clamaram a Simão para que aceitasse a sua mão direita, e ele os atendeu. Expulsou-os, porém dali e purificou a Cidadela, removendo-lhe as abominações. Finalmente nela entraram no vigésimo terceiro dia do segundo mês do ano cento e setenta e um[2], entre aclamações e palmas, ao som de cítaras, címbalos e harpas, e entoando hinos e cânticos, porque um grande inimigo havia sido esmagado e expelido fora de Israel. Simão estabeleceu que se comemorasse cada ano esta data com alegria. Fortificou ainda mais o monte do Templo, na parte contígua à Cidadela, e habitou ali, ele com os seus”.

Simão fortalece também as alianças com Esparta e com Roma, restituindo, afinal, à Judeia, sua importância política. Como narra 1Mc 14,24:

“Simão enviou Numênio a Roma com um grande escudo de ouro, de mil minas de peso, para confirmar a aliança com eles”[3].

Simão acaba assassinado, com dois filhos, por um genro seu, Ptolomeu, filho de Abrebo, perto de Jericó, durante um banquete. Este seu genro está em conluio com Antíoco VII Sidetes (irmão de Demétrio II), que entre 139 e 128 a.C. é o rei selêucida. Este Antíoco VII inicialmente reafirma os acordos dos reis anteriores, mas em seguida reclama de Simão as localidades por ele conquistadas e o tributo dos territórios anexados por Simão à Judeia (1Mc 15,25-26). Como não chegam a um acordo, Antíoco VII apoia a ação criminosa de Ptolomeu contra Simão.

Entretanto, Simão é, durante seu governo, muito querido pelos judeus que resolvem fazer-lhe um elogio, gravado em placas de bronze e afixado no monte Sião, segundo 1Mc 14,25-26. O decreto é de setembro de 140 a.C.

1Mc 14,27-49 traz a inscrição sobre os feitos de Simão e da família dos Macabeus. Aí vemos que ele é etnarca (líder da etnia judaica), tem o direito de usar a púrpura e a fivela de ouro (v. 44) – o que faz dele um dinasta – é estratego (tem autoridade sobre o exército), é chefe (hegoumênos, expressão grega usada na LXX para traduzir sar, “príncipe”, ou rosh, “chefe”) e sumo sacerdote hereditário.

“Não se pode dizer que ele tenha um poder legislativo, porque o povo é regido pela Lei; entretanto, ele tem o direito de fazer ‘julgamentos’ que não podem ser contestados por ninguém, nem mesmo pelos sacerdotes, sob pena de condenação; não se pode mais fazer reuniões sem a sua aprovação”[4].

 

10.2. João Hircano I e as divisões internas dos judeus

Quando Simão é assassinado, um filho seu, chamado João Hircano, consegue escapar e assume o poder, governando de 134 a 104 a.C.

Durante seus primeiros anos de governos João Hircano I enfrenta enormes dificuldades para manter a independência da Palestina. Antíoco VII, por exemplo, consegue cercar Jerusalém em 133 a.C., impor a João Hircano o tributo e obrigá-lo a combater ao seu lado contra os partos. Sua intenção é a de submeter novamente a Judeia ao poder selêucida, inclusive reocupando a Acra, o que não consegue.

Flávio Josefo diz desse momento:

“Antíoco, que conservava ainda o ressentimento pelas vantagens que Simão, pai de HIrcano, tinha obtido sobre ele, atacou a Judeia, no quarto ano de seu reinado, que era o primeiro do principado de Hircano e a centésima sexagésima segunda Olimpíada. Depois de ter devastado os campos e obrigado Hircano a se retirar para Jerusalém, ele o sitiou, dividindo o seu exército em sete corpos, para cercar assim toda a praça”[5].

Quando o poder selêucida muda de mãos, entretanto, João Hircano I continua as conquistas de seu pai Simão, judaizando importantes localidades palestinas como Mádaba, Samega, Siquém, Adora, Marisa, a Idumeia.

A.Paul lembra que a expansão territorial e os métodos imperialistas dos Macabeus vão se tornando cada vez mais fortes. “A maior parte das guerras terminou com a conversão forçada dos vencidos e muitas vezes com extermínios que lembravam o ‘anátema’ praticado por Josué. João Hircano destruiu o templo do monte Garizim e a cidade helenizada de Samaria e reduziu seus habitantes a escravos. Os idumeus e os itureus da Galileia foram obrigados a se circuncidarem (…) Era necessário aniquilar a civilização grega com suas realizações, e não só suas resistências. ‘Ou o judaísmo ou a morte’: esta frase poderia resumir o programa político dos grandes Asmoneus. Foram destruídas assim muitas cidades de importância econômica e cultural tanto para a Palestina como para os territórios vizinhos. Tal foi, em particular, o destino das grandes e prósperas cidades costeiras e das cidades helenísticas fundadas a leste do Jordão”[6].Para se libertar da tutela selêucida, João Hircano I apela para os romanos, com quem renova o tratado de amizade, já antes estabelecido por seus antepassados. Os romanos não morrem de amor pelos judeus, mas apoiam qualquer iniciativa que possa enfraquecer os Selêucidas, cujo território ambicionam.

O Senado romano renova então a amizade (filia) e a aliança (symmachía) com os judeus em 126 ou 125 a.C., mas também manda dizer que, no momento, há outros problemas mais urgentes em Roma. Logo que puder, o Senado procurará defender os interesses dos judeus[7].

Entretanto, as crueldades cometidas por João Hircano I contra as cidades conquistadas e as populações forçadamente judaizadas provocam a primeira reação dos fariseus contra os governantes Macabeus.

Flávio Josefo, para explicar a ruptura de João Hircano I com os fariseus, narra um episódio, bastante lendário, por sinal, segundo o qual, durante um banquete, um fariseu teria requerido de João Hircano I que abandonasse o sumo sacerdócio. Pois sua mãe teria sido prisioneira de Antíoco IV Epífanes – tendo se tornado suspeita de ter sido violentada e tornada impura -, o que o incapacitava para o cargo de sumo sacerdote, segundo Lv 21,14.

João Hircano I tenta punir este fariseu com a morte, ação que o partido farisaico não aprova. A partir deste momento João Hircano I alia-se aos saduceus e rompe com os fariseus[8].

João Hircano I, na verdade, para conseguir as suas conquistas e garantir o seu território, começa a incorporar ao seu exército mercenários gentios. Naturalmente pagos com os tributos recolhidos do povo judeu. O que já desagrada bastante aos aliados dos Macabeus.

P. Sacchi explica: “Os gentios engajados eram impuros que viviam junto ao povo judeu. Para os essênios a contaminação da cidade crescia, para os assideus surgiam problemas sobre a pureza que antes não existiam. A suspeita em relação ao Asmoneu devia crescer”[9].Originariamente aliados dos Macabeus no combate à helenização, os assideus acabam divididos na época de Jônatas. Deles saem os essênios, que rompem com o governo dos Macabeus, e os fariseus, que ainda o apoiam[10].

É preciso considerar também que, pouco a pouco, o governo macabeu toma rumos semelhantes aos de seus inimigos Selêucidas, afastando-se dos ideais originais da resistência. É isto principalmente que provoca os atritos com os judeus mais rigorosos na observância da Lei.

Observando outro aspecto, A. Paul crê que a política macabeia de destruição do helenismo é, a longo prazo, um suicídio. Esta política “consistia, de um lado, em destruir todos os traços, inclusive os humanos, do helenismo político e cultural das cidades da Palestina justamente quando a numerosa diáspora manifestava sua legalidade e impunha sua verdade, impregnando-se profundamente do modo grego de pensar, de viver e de se exprimir”.

Além do que, esta política “significava o aniquilamento das infraestruturas e das estruturas sociais e econômicas, das quais dependiam a salvação e a prosperidade da Palestina”.

E o autor acrescenta: “Poucos decênios depois, quando da queda súbita do Estado asmoneu em 63 a.C., a história mostrou que, já nos tempos dos troféus, o processo de morte estava profundamente consolidado e generalizado”.

Para concluir, diz A. Paul: “Da luta pelo restabelecimento da paz civil e, depois, pela independência nacional, passara-se, com efeito, a conquistas cuja finalidade era garantir a segurança necessária às novas fronteiras, muito vulneráveis. Formava-se assim uma engrenagem irresistível, já que a segurança conseguida pelas armas exigia a garantia de uma outra segurança, a qual, por sua vez, devia também ser conseguida pelas armas”[11].

Também M. Hengel acredita que nesta época só a monarquia de tipo helenístico ou a pólis têm condição de sobreviver, sendo inviável qualquer outro tipo de Estado. Por que? Porque sem um exército moderno, um aparelho administrativo e financeiro eficiente e uma participação competitiva no mercado mundial um Estado não tem espaço neste contexto. Os judeus não conseguem compreender isso e estão destinados à falência, pois tentam transplantar seu antigo ideal teocrático para uma realidade política de um mundo transformado[12].

 

10.3. Aristóbulo I e a reaproximação com o helenismo

Segundo Flávio Josefo, João Hircano tem cinco filhos, quando morre em 104 a.C. Mas ele não deixa o governo para nenhum deles, e sim para sua mulher[13] .

É bem provável, entretanto, que tenhamos aqui uma confusão com a situação análoga ocorrida mais tarde, quando, ao morrer, Alexandre Janeu deixa o trono para sua mulher Salomé Alexandra. É que Janeu é rei e pode fazer isto, mas não João Hircano que não é rei[14] .

De qualquer maneira, Aristóbulo, o filho mais velho de João Hircano I, aprisiona sua mãe e três de seus irmãos, assumindo o poder. Sua mãe morre de fome na prisão. Apenas um de seus irmãos, Antígono, fica livre. Contudo, as intrigas dos rivais de Antígono levam Aristóbulo a mandar matá-lo, temendo, provavelmente, sua concorrência, já que lhe fazem crer aspirar Antígono ao poder supremo[15] .

Ainda segundo Flávio Josefo, Aristóbulo I terá sido o primeiro Macabeu a usar o título de rei:

“Aristóbulo, que era o mais velho dos filhos de Hircano, cognominado ‘Filélên‘, isto é, amigo dos gregos, mudou em reino, depois da morte de seu pai, o principado dos judeus e foi assim o primeiro que se fez coroar rei”[16] .

Entretanto, esta notícia é controvertida. Nas suas moedas aparece apenas a seguinte inscrição: “Judas, sumo sacerdote e a comunidade dos judeus”.

Além do que Estrabão diz que é seu irmão e sucessor Alexandre Janeu o primeiro Macabeu a ostentar o título de rei. Diz Estrabão:

“De qualquer modo, quando agora a Judeia estava sob o domínio de tiranos, Alexandre foi o primeiro a se declarar rei em vez de sacerdote”[17] .

Por outro lado, observe-se que tanto ele como seus irmãos têm nomes gregos – Aristóbulo, Antígono, Alexandre -, embora use para os judeus um nome semita, Judas. Isto significa que seu pai João Hircano já abrira as portas da família para a helenização. Helenização que um dia seus antepassados combateram.

E Flávio Josefo chama Aristóbulo I de “filo-heleno”, o que igualmente indica sua aproximação da cultura grega, certamente apoiado pelos seus aliados saduceus. Por sinal, os autores gregos o têm em grande conta, segundo relata o mesmo Josefo:

“Era de natural tão doce e tão modesto, como Estrabão o refere com estas palavras, ante a relação de Timagenes: ‘Este príncipe era muito afável (epieikês) e os judeus não lhe são devedores de pouco: porque ele levou tão longe os limites de seu país que ele aumentou com uma parte da Itureia e uniu este povo a eles pelo laço da circuncisão'”[18].

Certo é que Aristóbulo I continua as conquistas de sua família: anexa e judaíza a Galileia, segundo as fontes antigas habitada por tribos itureias, obrigando seus habitantes a aceitar a circuncisão e a Lei[19].

Aristóbulo I morre, de dolorosa doença, tendo governado apenas um ano.

 

10.4. Alexandre Janeu, o primeiro rei macabeu

Após a morte de Aristóbulo I, sua viúva Salomé Alexandra, liberta seus irmãos da prisão e se casa com o mais velho, Alexandre Janeu, que se torna, assim, rei e sumo sacerdote.

É o que nos diz Flávio Josefo:

“Depois da morte do rei Aristóbulo, a rainha Salomé, sua esposa, que os gregos chamam de Alexandra, pôs em liberdade os irmãos desse príncipe, que ele mantinha na prisão, como vimos, e fez rei a Janeu, antes chamado de Alexandre, que era o mais velho e o mais moderado de todos”[20].

Nos primeiros anos de seu governo, Alexandre Janeu retoma, com redobrado vigor, o processo de conquista, anexação e judaização de várias cidades palestinas. Conquista a região costeira da Palestina, desde a fronteira com o Egito, no sul, até o Monte Carmelo, ao norte.

Porém, ao tentar tomar Ptolemaida, entra em cena um rei ptolomaico: Ptolomeu IX Latiro, filho mais velho da rainha Cleópatra III, do Egito, é um pequeno rei em Chipre, para onde fora expulso por sua mãe.

Ptolomeu IX vence Alexandre Janeu, mas este recebe ajuda da rainha Cleópatra III. Ela certamente teme as conquistas do filho e provavelmente é também influenciada por conselheiros judeus, entre os quais se destacam Ananias e Helquias, generais do exército ptolomaico, filhos de Onias IV, da família sacerdotal de Jerusalém.

Cleópatra III acaba tornando-se senhora de toda a Palestina, antigo sonho dos Ptolomeus, mas se retira e deixa o território sob o comando de Alexandre Janeu.

O comentário de Flávio Josefo é o seguinte:

“Quando a rainha Cleópatra viu que seu filho crescia em poder daquele modo e devastava, sem resistência, toda a Judeia, tinha submetido Gaza à sua obediência e estava já quase às portas do Egito e que ele nada mais pretendia do que se apoderar do mesmo, julgou não dever esperar mais para enfrentá-lo. Assim, sem perder tempo, reuniu grandes forças de terra e mar, cujo comando confiou a Helquias e Ananias, judeus de nascimento (…) Alguns dos seus servidores propuseram-lhe apoderar-se de seu país e não permitir que um número tão grande de judeus, homens de bem, estivesse sujeito a um único homem. Mas Ananias aconselhou-lhe o contrário…”[21].

Alexandre Janeu continua, então, suas conquistas, desta vez a leste do Jordão e, em seguida, no sul, apoderando-se inclusive da importante cidade de Gaza em 96 a.C. A descrição que faz Flávio Josefo da conquista de Gaza é exemplar para avaliarmos os métodos de Alexandre Janeu:

“Quando entrou na cidade, Alexandre teve primeiramente uma atitude pacífica. Mas, em seguida, soltou suas tropas sobre os gazenses e deixou seus homens se vingarem deles; os soldados saíram, uns para um lado, outros para o outro, matando os gazenses. Estes (…) defenderam-se dos judeus, usando toda a sorte de armas que lhes caíam nas mãos e mataram tantos quantos foram os que perderam. Alguns deles, vendo-se sozinhos, puseram fogo em suas casas para que não fossem saqueadas pelo inimigo. Outros se desembaraçavam, com suas próprias mãos, de seus filhos e de suas mulheres: era o único meio de evitar que se tornassem escravos de seus inimigos. Cerca de quinhentos membros da Assembleia se refugiaram no templo de Apolo, porque o ataque teve lugar justamente quando eles estavam em conselho; mas Alexandre os matou e, depois de ter demolido a cidade sobre seus cadáveres – tendo decorrido um ano de cerco – retornou a Jerusalém”[22].

E é então que Alexandre Janeu começa a enfrentar séria oposição interna, capitaneada pelos fariseus, seus mais ferrenhos adversários.

Os fariseus vêm aumentando constantemente sua influência junto ao povo, ao mesmo tempo que os Macabeus se distanciam progressivamente de suas aspirações, colocando-se os dois poderes em nítido contraste. E como podem os fariseus aceitar como sumo sacerdote um guerreiro do tipo de Alexandre Janeu que não cumpre as rigorosas prescrições que o cargo exige?

Pois terá sido após as conquistas acima mencionadas, aí por volta do ano 90 a.C., que, durante a festa dos Tabernáculos, o povo atinge Alexandre Janeu com limões no momento em que ele está diante do altar para oferecer o sacrifício[23].

A reação de Alexandre Janeu é violenta: manda que seus mercenários ataquem a multidão e cerca de seis mil pessoas são massacradas. Em consequência desse episódio, ele manda construir uma paliçada de madeira em torno do Templo e do altar, para se proteger da população. Só os sacerdotes, que são saduceus, podem atravessar esta paliçada. A ruptura com os fariseus é total[24].

Alexandre Janeu acaba sofrendo mais uma derrota militar, desta vez quando se confronta com os nabateus pela posse da região do Golã, a leste do lago de Genezaré.

Ao fugir para Jerusalém encontra uma violenta rebelião armada contra seu governo. Apoiado por seus mercenários estrangeiros, Alexandre Janeu enfrenta uma guerra civil que dura seis anos e na qual terão morrido pelo menos cinquenta mil judeus[25].

Os fariseus pedem, ao mesmo tempo, a ajuda de Demétrio III, rei de parte da Síria, que enfrenta e vence Alexandre Janeu totalmente, perto de Siquém. Isto terá sido por volta de 89 a.C.

Entretanto, Demétrio III abandona a Palestina e volta para a Síria. Flávio Josefo diz que a razão é a reviravolta dos sentimentos judaicos ao verem seu território ocupado pelos estrangeiros: cerca de seis mil judeus teriam abandonado Demétrio III e passado para o lado de Alexandre Janeu[26].

Mas é mais provável que Demétrio III tenha se retirado por causa dos conflitos internos dos Selêucidas, porque em seguida ele é vencido por seu irmão que tem o apoio dos partos.

Alexandre Janeu consegue então controlar a revolta interna e, segundo Flávio Josefo, ao retornar a Jerusalém crucifica 800 de seus adversários enquanto participa de um alegre banquete, após fazê-los assistir ao massacre de suas esposas e filhos. Este gesto de terror teria desencorajado os seus adversários, de modo que oito mil deles se retiram do país e não voltam enquanto ele permanece no governo[27].

Estes acontecimentos, por outro lado, estão relacionados à crise vivida por Roma nesta época, que, temporariamente, recua no controle de seus interesses na região.

A guerra conhecida como “Guerra dos aliados” (Bellum sociale) – na verdade, violentas guerras civis entre o proletariado e a aristocracia romana e também entre os aliados italianos e os cidadãos romanos – faz com que Roma perca por breve período o controle do Oriente. Somado a isso acontece o enfraquecimento definitivo do poder selêucida, que já não ameaça Roma.

Aproveitando-se do conflito interno em Roma, o rei iraniano Mitridates VI, do Ponto, alia-se aos partos, armênios, egípcios e sírios para cortar a influência romana na região. Esta “ausência” de Roma, de curta duração, é que permite igualmente a Alexandre Janeu o seu expansionismo judaizante, segundo muitos autores[28].

A. Paul, por exemplo, comenta: “É pois, sob o impulso de ‘reorientalização’ dos territórios e Estados do Oriente Médio que acompanhava o declínio dos Selêucidas gregos, que se deve situar o combate impiedoso de Alexandre Janeu contra as cidades helenísticas e sua decisão de impor, pela força ou pela morte, o elemento judaico em toda a Palestina”[29]. Após a pacificação interna, Alexandre Janeu dedica-se novamente às conquistas territoriais, expandindo o processo de judaização. Consegue grandes vitórias, apesar de um confronto desastroso com o rei nabateu Aretas tê-lo obrigado a fazer algumas concessões a este povo[30].

Alexandre consegue, durante seus 37 anos de reinado, levar o território judaico à sua extensão máxima desde que o país fora devastado pelos babilônios cerca de 500 anos antes.

E. Schürer sintetiza assim as conquistas de Alexandre Janeu: “No sul os idumeus foram subjugados e judaizados; no norte o domínio de Alexandre se estendia até a Selêucia sobre o lago Merom. A costa, onde Jope fora outrora a primeira conquista dos Macabeus, estava agora quase inteiramente sob controle judaico. Com exceção de Ascalon, que conseguiu conservar a independência, todas as cidades costeiras da fronteira egípcia ao monte Carmelo foram conquistadas por Alexandre. Além disso, todo o país a leste do Jordão, do lago Merom ao mar Morto, ficou sob seu domínio, inclusive um número de importantes cidades que até então tinham sido centros de cultura grega como Hippos, Gadara, Pela, Díon e outras”[31].

Alexandre morre, em 76 a.C., quando combate os nabateus na fronteira gerasena, enquanto sitia a fortaleza de Ragaba. Mas, segundo F. Josefo, Alexandre morre de doença e não em combate, provavelmente por consumo excessivo de bebidas alcoólicas[32].

 

10.5. Salomé Alexandra e o poder dos fariseus

Segundo Flávio Josefo, ao morrer, Alexandre Janeu deixa o trono para sua esposa Salomé Alexandra e faz-lhe a seguinte recomendação:

“Se quiserdes seguir o meu conselho podereis conservar o reino e também os nossos filhos. Ocultai minha morte aos meus soldados até que esta praça [Ragaba] tenha sido tomada. Depois que voltardes vitoriosa a Jerusalém, procurai conquistar o afeto dos fariseus, dando-lhes alguma autoridade, a fim de que a honra que lhes concedeis os leve a louvar publicamente, perante o povo, a vossa magnanimidade. Eles gozam de tanto poder sobre seu espírito, que fazem amar ou odiar o que eles querem (…) Dai-lhes vossa palavra, em seguida, de que nada fareis no governo do reino, senão por seu conselho”[33].

Esta notícia pode ser verdadeira ou não. Talvez Josefo esteja apenas relatando, baseado em alguma tradição, inventadas causas para um efeito real: Salomé Alexandra governa durante nove anos apoiada pelos fariseus, que estão rompidos com os Macabeus desde João Hircano I[34]. De fato, segundo o mesmo Josefo, o poder é partilhado entre a resoluta rainha e os fariseus[35].

Através destes relatos de Flávio Josefo podemos concluir que, na verdade, os fariseus devem ter aumentado – ou iniciado? – seu poder no aristocrático senado criado muito antes pelos Ptolomeus para mais facilmente controlar o país. É através da gerousia, o futuro Sinédrio, que os fariseus começam de fato a legislar, oficializando o seu já imenso poder sobre o povo judeu.

E. Schürer comenta a propósito: os fariseus “podiam exercer tal autoridade somente se fossem um fator determinante no órgão administrativo supremo, a gerousia. Esta portanto, deve ter sofrido uma importante transformação. Enquanto era constituída, até então por representantes da nobreza e dos sacerdotes, agora deve ter admitido também mestres fariseus”[36].

Estas medidas desmobilizam os intermináveis conflitos internos. Conta muito também o fato de ser nomeado para o sumo sacerdócio o filho mais velho de Alexandre Janeu, Hircano, segundo Josefo, homem sem ambições, pouco apto para o governo e que gosta de viver na ociosidade. Isto deixa amplo espaço para a atuação dos fariseus[37].

Por outro lado, Salomé Alexandra não é nada ingênua nesta atribuição de poder aos fariseus. Além de reforçar a estrutura de seu exército com novos mercenários e, de fato, comandá-lo, ela entrega a defesa das fronteiras do país nas mãos de seu outro filho, Aristóbulo, mais jovem que Hircano, ambicioso, ousado, empreendedor. E este comanda várias fortalezas, assessorado por oficiais saduceus[38].

Obviamente os fariseus fazem várias tentativas para punir os saduceus, que apoiavam Alexandre Janeu e eram também responsáveis pela morte de tantos partidários seus; ao mesmo tempo que os saduceus, liderados por Aristóbulo fazem exatamente o jogo contrário. Mas Salomé Alexandra controla a situação, que só irá explodir após sua morte aos 73 anos de idade.

Talvez seja este o maior defeito de seu governo: a curto prazo, os conflitos são controlados, gerando próspero e pacífico período; mas, a longo prazo, a “bomba” está sendo armada para detonar nas mãos de seus filhos.

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[1]. Sobre Simão, cf. ABEL, F.-M. Histoire de la Palestine I, p. 191-206; SAULNIER, C. Histoire d’Israel III, p. 146-149; SCHÜRER, E. Storia del popolo giudaico al tempo de Gesù Cristo I, p. 250-261.[2]. O vigésimo terceiro dia do segundo mês do ano cento e setenta e um da era selêucida corresponde aos começos de junho de 141 a.C.

[3]. Uma mina ática pesa 436 gramas: o escudo pesaria quase meia tonelada de ouro. Entretanto, na resposta dos romanos à embaixada judaica se diz: “Eles nos trouxeram um escudo de ouro de mil minas” (1Mc 15,18). Deve-se entender que o escudo vale mil minas de prata, o equivalente a aproximadamente 44 kg de ouro, peso aceitável para esse tipo de escudo decorativo.

[4]. SAULNIER, C. Histoire d’Israel III, p. 155.

[5]. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XVII, 236. Sobre João Hircano I, cf. SCHÜRER, E. o. c., p. 261-279.

[6]. PAUL, A. O judaísmo tardio, p. 191-192. JOSEFO, F. Bellum Iudaicum I, 64-66 descreve o cerco e a queda de Samaria.

[7]. Cf. o texto em JOSEFO, F. Antiquitates Iuadaicae XIII, 259-266.

[8]. Cf. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 288-298. Cf. também SCHÜRER, E. o. c., p. 275-278. Na p. 277 diz este autor: “Na sua forma anedótica, a história traz, sem dúvida, as marcas da lenda, e provavelmente Josefo a recebeu apenas de uma tradição oral. Não obstante, pode-se considerar como um dado de fato que Hircano verdadeiramente se distanciou dos fariseus e aboliu as suas prescrições”.

[9]. SACCHI, P. Storia del mondo giudaico. Torino: Società Editrice Internazionale, 1976, p. 115.

[10]. Cf., sobre os fariseus, saduceus e essênios, SCHÜRER, E. The history of the Jewish people in the age of Jesus Christ II. Edinburgh: Bloomsbury T & T Clark, 1986, p. 381-414; 555-590.

[11]. PAUL, A. O judaísmo tardio, p. 193-196.

[12]. Cf. HENGEL, M. Ebrei, Greci e Barbari, p. 134-135.

[13]. Cf. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 299-302.

[14]. Cf. SACCHI, P. Storia del mondo giudaico, p. 118.

[15]. Diz JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 303: “A esse crime [de matar a mãe] acrescentou o de mandar matar seu irmão Antígono, que ele mostrara amar tanto. Calúnias foram a causa disso”.

[16]. Idem, ibidem XIII, 301.

[17]. ESTRABÃO, Geographica XVI, 762. Cf. o texto de Estrabão em STERN, M. Greek and Latin Authors on Jews and Judaism I, p. 301-302.

[18]. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 319. Timagenes é um historiador alexandrino do século I a.C. Cf. STERN, M. o. c., p. 222-226.

[19]. Sobre esta questão, cf. SCHÜRER, E. Storia del popolo giudaico al tempo de Gesù Cristo I, p. 282; STERN, M. o. c., p. 225-226. É possível que os itureus habitem apenas as partes norte e nordeste da Galileia e também que a anexação deste território (Galileia) tenha começado antes do governo de Aristóbulo I. A questão é controvertida.

[20]. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 320.

[21]. Idem, ibidem XIII, 348ss.

[22]. Idem, ibidem XIII, 362-364.

[23]. Durante a festa dos Tabernáculos cada participante leva uma folha de palmeira e um limão. Este é o costume da época.

[24]. Cf. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 372-373.

[25]. Cf. Idem, ibidem XIII, 375.

[26]. Cf. Idem, ibidem XIII, 379.

[27]. Cf. Idem, ibidem XIII, 380.

[28]. Para a história da guerra dos aliados, cf. ROSTOVTZEFF, M. História de Roma. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1977, p. 107-118; NICOLET, C. Roma y la conquista del mundo mediterráneo 264-27 a. de J. C. I. Barcelona: Editorial Labor, 1982, p. 207-216; BLOCH, L. Lutas sociais na Roma antiga. 2. ed. Mem Martins: Publicações Europa-América 1991, p. 137-212; ALFÖLDY, G. A história social de Roma. Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 81-109.

[29]. PAUL, A. O judaísmo tardio, p. 198-199.

[30]. Cf. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 392. Josefo não especifica que concessões são essas. Apenas diz: “Ele [Aretas] entrou com soldados na Judeia, venceu o rei Alexandre, perto de Adida, e voltou depois de ter conversado com ele”.

[31]. SCHÜRER, E. Storia del popolo giudaico al tempo di Gesù Cristo I, p. 292-293. A extensão do território judaico à época da morte de Alexandre Janeu nos é conhecida através do relato de JOSEFO, F., Antiquitates Iudaicae XIII, 395-397. A história das cidades da região pode ser lida em PAUL, A. O judaísmo tardio, p. 206-218.

[32]. Cf. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 398.

[33]. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 401-404.

[34]. Sobre a data da morte de Salomé Alexandra existe alguma divergência. Ou ela morre em 67 a.C., como afirmo acima, ou em 69 a.C., como sustentam alguns autores. Sobre a questão, cf. SCHÜRER, E. Storia del popolo giudaico al tempo di Gesù Cristo I, p. 262-263, nota 1.

[35]. “Assim ela tinha só o nome de rainha e os fariseus gozavam de todo o poder que lhes dava a realeza. Faziam voltar os exilados, libertavam os prisioneiros e em nada se diferenciavam dos soberanos”, avalia JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 408-409.

[36]. SCHÜRER, E. Storia del popolo giudaico al tempo di Gesù Cristo I, p. 296. 

[37]. Cf. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XIII, 405ss.

[38]. Comenta SACCHI, P. Storia del mondo giudaico, p. 123: “Enviando os principais líderes saduceus para as fortalezas, Alexandra conseguia subtraí-los às vinganças farisaicas e dava o comando do exército a homens que, neste tempo, tinham experiência”.

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