História de Israel 27

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9.2. A luta de Judas Macabeu (166-160 a.C.)

Matatias morre logo, no começo de 166 a.C., mas seu filho Judas, assumindo o comando da luta, desenvolve uma guerra de guerrilhas cada vez mais ampla e vence um a um os generais selêucidas enviados para detê-lo.

É preciso considerarmos, porém, que o reino selêucida tem forças mais do que suficientes para massacrar a rebelião judaica. Acontece, contudo, de estar Antíoco IV ocupado com vários problemas que explodem por toda a parte em seus territórios. Não pode, por isso, ocupar-se, para valer, com os judeus. Para sorte dos Macabeus e dos assideus, os judeus fiéis que os acompanham na luta anti-helênica.

É 2Mc 8,1.5-7 que nos conta a estratégia de Judas:

“Entretanto Judas, também chamado Macabeu, e os seus companheiros, iam introduzindo-se às ocultas nas aldeias. Chamando a si os coirmãos de raça e recrutando os que haviam perseverado firmes no judaísmo, chegaram a reunir cerca de seis mil pessoas (…) Transformada a sua gente em grupo organizado, o Macabeu começou a tornar-se irresistível para os gentios, tendo-se mudado em misericórdia a cólera do Senhor. Chegando de improviso às cidades e aldeias, ateava-lhes fogo; e, apoderando-se dos pontos estratégicos, punha em fuga a não poucos de entre os inimigos. Para tais incursões, escolhia de preferência a noite como colaboradora. De resto, a fama de sua valentia propagava-se por toda parte”.

As primeiras tropas selêucidas mandadas contra Judas são comandadas por Apolônio, governador da Samaria, provavelmente o misarca que saqueara Jerusalém no começo de 167 a.C. Este pequeno exército, composto de gregos e de samaritanos é facilmente vencido por Judas (1Mc 3,10-12).

Forças maiores vêm com o general Seron, comandante do exército da Síria, mas são igualmente vencidas em Bet-Horon (1Mc 3,13-26). Em seguida, são vencidas as forças dos generais Nicanor e Górgias, até que Lísias, o encarregado da pacificação judaica pelo rei Antíoco IV , vem pessoalmente combater Judas. Contudo, nem mesmo Lísias consegue vencê-lo e uma trégua é estabelecida entre as duas forças (1Mc 3,38-4,35).

C. Saulnier comenta que “esta vitória, aparentemente fácil, de Judas Macabeu explica-se pelos problemas que enfrentava neste momento o governo selêucida. Com efeito, Antíoco IV partira no princípio do ano 165 a.C. para uma campanha nas satrapias superiores (isto é, na alta Ásia), deixando Lísias em Antioquia para assegurar o governo e a guarda de seu jovem filho”[11]. É então que, livre de represálias selêucidas, Judas e os seus tomam Jerusalém, purificam e dedicam novamente o Templo. É dezembro de 164 a.C., exatamente três anos após a profanação do santuário. Para comemorar o fato é instituída a festa da Hanukka, isto é, “Dedicação”, celebrada no dia 25 de Casleu (15 de dezembro).

1Mc 4,52-54.59 descreve assim este fato:

“No dia vinte e cinco do nono mês – chamado Casleu – do ano centro e quarenta e oito, eles se levantaram de manhã cedo e ofereceram um sacrifício, segundo as prescrições da Lei, sobre o novo altar dos holocaustos que haviam construído. Exatamente no mês e no dia em que os gentios o tinham profanado, foi o altar novamente consagrado com cânticos e ao som de cítaras, harpas e címbalos (…) E Judas, com seus irmãos e toda a assembleia de Israel, estabeleceu que os dias da dedicação do altar seriam celebrados a seu tempo, cada ano, durante oito dias, a partir do dia vinte e cinco do mês de Casleu, com júbilo e alegria”.

Durante esta festa os judeus acendem velas, fazem procissão com palmas e cantam salmos de louvor. Mesmo após a destruição do Templo a festa da Dedicação continua e o ritual de acender as velas ainda é observado, agora em casa[12].

Judas continua a guerra após a purificação do Templo. Entretanto, a sequência dos fatos é um pouco confusa, porque as nossas fontes, 1 e 2 Macabeus, divergem entre si.

C. Saulnier explica estas divergências pelas perspectivas diferentes de 1 Macabeus e 2 Macabeus. Segundo a autora, 1 Macabeus mistura dados históricos com uma teologia inspirada no deuteronomista, fazendo de Judas um libertador de Israel na linha dos juízes, os líderes da época da conquista. Já 2 Macabeus insiste muito na piedade de Judas, na sua fidelidade em observar o sábado e coisas do gênero. Mas, para além destes detalhes edificantes, 2 Macabeus traz certas precisões que devem ser levadas a sério[13].

Judas dedica-se à proteção dos judeus que se veem acuados pelos gentios em várias localidades. Sucedem-se assim as campanhas contra os idumeus e os amonitas, a expedição no Galaad, na Galileia e na Judeia (1Mc 5,1-68)[14].

Entretanto, morre Antíoco IV Epífanes, provavelmente na mesma época em que o Templo é retomado e purificado, no final de 164 a.C. Segundo uma tabuinha conservada no British Museum, Londres, o rei morre em outubro de 164 a.C., ou seja, no nono mês do ano 148 da era selêucida.

As versões de sua morte são muito estranhas e complexas. Segundo 1Mc 6,1-17, Antíoco IV tenta saquear o templo de Ártemis, em Elimaida, famoso por suas riquezas, e tem que fugir diante da reação da população[15]. Sabendo, ainda na Pérsia, da derrota de seus exércitos e da libertação de Jerusalém por Judas, adoece e morre. Segundo 1Mc 6,12-13, entre outras coisas, diz Antíoco aos seus amigos antes de morrer:

“Agora, porém, assalta-me a lembrança dos males que cometi em Jerusalém quando me apoderei de todos os objetos de prata e de ouro que lá se encontravam e mandei exterminar os habitantes de Judá sem motivo. Reconheço agora que é por causa disso que estes males se abateram sobre mim. Vede com quanta amargura eu morro em terra estrangeira”.

Segundo 2Mc 9,1-19, Antíoco IV tenta saquear um templo em Persépolis, mas tem que fugir “acossado pelos habitantes do país”. Estando perto de Ecbátana[16], é notificado da derrota de Nicanor na Judeia e cheio de fúria se apressa para se vingar dos judeus. 2Mc 9,4-5 diz:

“Fora de si pela cólera, pensou em fazer pesar sobre os judeus também a injúria dos que o haviam posto em fuga. Por esse motivo, ordenou ao cocheiro que completasse o percurso prosseguindo sempre, sem parar, enquanto já o acompanhava o julgamento do Céu. De fato, assim havia ele falado, na sua soberba: ‘Farei de Jerusalém um cemitério de judeus, apenas eu chegue aí!’ Foi quando o Senhor, que tudo vê, o Deus de Israel, feriu-o com uma doença incurável e invisível: apenas terminara ele a sua frase, acometeu-o uma dor insuportável nas entranhas e tormentos atrozes no ventre”.

Mas, prossegue o texto, Antíoco IV não desiste, acaba caindo da carruagem, desconjuntando os membros, e de seu corpo

“começaram a pulular vermes. E, estando ele ainda vivo, as carnes se lhe caíam aos pedaços entre espasmos lancinantes” (2Mc 9,9).

E o texto conclui que, diante do sofrimento, Antíoco IV acaba se arrependendo dos males que fizera aos judeus (2Mc 9,11-17). E até promete tornar-se missionário judeu!

Políbio dá também a sua versão da morte de Antíoco IV:

“Na Síria, o rei Antíoco, desejando aumentar suas riquezas, decidiu fazer uma expedição contra o Templo de Ártemis, em Elimaida. Tendo chegado a esta região foi frustrado em sua esperança, porque os bárbaros que habitam neste lugar não consentiram neste delito. Voltando a Tabe da Pérsia, deixou ele a vida, ferido por um demônio, como dizem alguns, porque algumas manifestações do demônio tinham sobrevindo na ocasião do delito cometido contra o templo visado”[17].

Suspeita-se, diante destas versões, que, na única coisa em que concordam – o fato do rei Antíoco resolver saquear um templo na Elimaida -, possa haver uma duplicata, uma simples repetição da história de seu pai, o rei Antíoco III, que morre ao saquear um templo na Elimaida[18].

Os esquemas teológicos das versões dos livros dos Macabeus são evidentes: Antíoco IV morre porque é castigado na sua arrogância (especialmente segundo 2 Macabeus).

Na verdade, não se sabe de que doença morre o rei Antíoco IV Epífanes. Mas, parece certo que seu fim se dá lá pelos lados da Pérsia, onde ele está em campanha.

A fama deste rei é muito ruim. Mas, como observa E. Will, “a documentação de que dispomos sobre o homem e sobre sua obra não nos autoriza nem a apologia nem a condenação. Parece ter havido em Antíoco IV um homem de Estado nada desprezível, mas, como seus contemporâneos, ultrapassado por uma conjuntura por demais complexa”[19] .

Morre Antíoco IV, mas a luta de Judas Macabeu continua contra Antíoco V (164-162 a.C.), seu filho, e o regente Lísias e, em seguida, contra Demétrio I (161-150 a.C.).

Quando parte em campanha para as províncias mais orientais de seu Império, Antíoco IV deixa Lísias encarregado dos negócios do reino em Antioquia. Mas, pouco antes de morrer, ele confia a seu conselheiro Filipe o encargo de governar o reino em nome de seu filho menor de idade Antíoco V. É a ele que Antíoco IV entrega

“o diadema, o manto e o anel do sinete, encarregando-o de tutelar Antíoco, seu filho e de prepará-lo para o trono” (1Mc 6,15).

Mas, ao mesmo tempo, Lísias

“proclamou rei o jovem Antíoco, a quem havia educado desde pequenino, e deu-lhe o nome de Eupator” (1Mc 6,17).

Judas aproveita-se destas circunstâncias e assedia a Acra em Jerusalém. Lísias e Antíoco V, que tem apenas 12 anos de idade, vêm então combater Judas. Atacam Betsur e Judas, deixando o cerco da Acra, enfrenta o exército selêucida em Bet-Zacarias. Judas acaba cercado no monte Sião.

Só que com a chegada de Filipe a Antioquia, Lísias tem que voltar às pressas para enfrentá-lo e decide fazer a paz com os judeus.

A carta de Antíoco V a respeito está conservada em 2Mc 11,22-26 nos seguintes termos:

“O rei Antíoco a seu irmão Lísias, saudações. Tendo-se trasladado nosso pai para junto dos deuses, querendo nós que os súditos de nosso reino estejam livres de qualquer incômodo a fim de poderem dedicar-se ao cuidado dos próprios interesses, ouvimos dizer que os judeus não consentem na adoção dos costumes gregos, querida por nosso pai. Mas antes, preferindo o seu modo de vida particular, desejam que se lhes permita a observância das suas leis. Querendo, pois, que também este povo possa viver sem temor, decidimos que o Templo lhes seja restituído e que eles possam governar-se segundo os costumes de seus antepassados.Por isso, bem farás enviando-lhes embaixadores que lhes deem as mãos, a fim de que, sabedores de nossa intenção fiquem de ânimo sereno e se entreguem prazerosamente às próprias ocupações”.

Filipe não consegue o controle do reino e foge para o Egito, E os judeus obtêm, por decreto real, a liberdade religiosa novamente. O que Antíoco V faz é revogar o decreto de seu pai que proibia as práticas judaicas.

O helenizante sumo sacerdote Menelau é convocado a Antioquia e, por ordem de Lísias, é executado (2Mc 13,3-8). No seu lugar é nomeado o sumo sacerdote Alcimo.

Porém, um filho de Selêuco IV, Demétrio, de vinte e cinco anos de idade, que vive como refém em Roma, consegue fugir, chega à Síria, mata seu primo Antíoco V e Lísias e assume o poder. Demétrio I governará de 161 a 150 a.C[20].

E então assistimos a uma primeira dissidência entre os revolucionários judeus. Alcimo “confirmado em sua dignidade [por Demétrio], voltara a Jerusalém acompanhado de Báquides, um dos amigos do rei, e fizera propostas de paz, que os assideus se viram pressionados a aceitar, enquanto Judas e seus partidários preferiam continuar na oposição”[21].

Segundo 1Mc 7,8-9, Alcimo é um “ímpio”, ou seja um helenizante:

“O rei escolheu a Báquides, um dos seus amigos, governador das regiões de Além-do-Rio, homem poderoso no reino e fiel ao soberano, e o enviou com o ímpio Alcimo, a quem assegurou o sumo sacerdócio, dando-lhe ordens de exercer a vingança contra os filhos de Israel”.

Báquides é o governador da província da Transeufratênia, que vai do Eufrates ao Egito. Alcimo “é tratado como ímpio porque convivia com os gregos e criava obstáculos às pretensões dos Asmoneus. Mas na sua qualidade de aaronida legitimava sua nomeação e atraía à sua causa os assideus”[22] .

Com efeito, segundo 1Mc 7,14, os assideus raciocinam assim:

“É um sacerdote da linhagem de Aarão que veio com este exército: ele não procederá injustamente conosco”.

Isto indica que enquanto o objetivo da luta dos assideus é apenas conseguir a liberdade religiosa, o dos Macabeus é bem mais amplo.

Os Macabeus continuam a sua luta e só em 160 a.C., após seis anos de guerra, é que os Selêucidas vencem Judas, morto em Beerzet, 20 km ao norte de Jerusalém, em combate contra Báquides (1Mc 9,1-18).

A dinastia dos Selêucidas

NomeData
Selêuco I Nicator312-280 a.C.
Antíoco I Soter280-261
Antíoco II Théos261-246
Selêuco II Calínicos246-226
Selêuco III Ceráunos226-222
Antíoco III, o Grande222-187
Selêuco IV Filopator187-175
Antíoco IV Epí­fanes175-164
Antíoco V Eupator164-162
Demétrio I Soter162-150
Alexandre Balas150-145
Demétrio II Nicator145-139
Antíoco VI Théos145-142
Trifão142-139
Antíoco VII Sidetes139-128
Demétrio II Nicator128-122
Selêuco V125
Antíoco VIII Filometor125-113
Antíoco IX Filopator113-95
Antíoco VIII Filometor111-96
Antíoco X contra 5 filhos de Antíoco VIII95-93
Antíoco XIII69-65 a.C.

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[11] . SAULNIER, C. A revolta dos Macabeus. São Paulo: Paulus, 1987, p. 29.

[12] . Cf. DE VAUX, R. Ancient Israel, p. 510-514; ASHERI, M. O judaísmo vivo: as tradições e as leis dos judeus praticantes. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 227-229.

[13] . Cf. SAULNIER, C. Histoire d’Israel III, p. 136-138.

[14] . Cf. as lutas de Judas em ABEL, F.-M. Histoire de la Palestine I, p. 134-165; SCHÜRER, E. Storia del popolo giudaico al tempo di Gesù Cristo (175 a.C.-135 d.C.) I, Brescia: Paideia, 2009, p. 222-233.

[15] . “De fato, não se tem notícia de cidade alguma com o nome de Elimaida, forma grega de Elam (Gn 10,22). A Elimaida é a região em torno de Susa, antiga capital da Pérsia (Ne 1,1) e, em sentido restrito, é a região montanhosa a nordeste dessa cidade”, explica a BÍBLIA DE JERUSALÉM, 1Mc 6,1 nota b.

[16] . Atualmente Hamadã, 700 km a nordeste de Persépolis. Na realidade, Epífanes morreu em Tabe, a meio caminho entre essas duas cidades. 

[17] . POLÍBIO, História XXXI, 9. Cf. este texto em VV.AA. Israel e Judá. Textos do Antigo Oriente Médio, p. 99; ou em SAULNIER, C. Histoire d’Israel III, p. 380.

[18] . Cf. SAULNIER, C. A revolta dos Macabeus, p. 30; PRÉAUX, C. Le monde hellénistique I, p. 171.

[19] . WILL, E. Histoire politique du monde hellénistique II, p. 307.

[20] . Cf. Idem, ibidem, p. 365-367.

[21] . SAULNIER, C. A revolta dos Macabeus, p. 32.

[22] . BÍBLIA DE JERUSALÉM, 1Mc 7,9 nota d.

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