História de Israel 19

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6.3. Quem é Alexandre Magno?

A cronologia das conquistas de Alexandre não é suficiente para se entender o macedônio e suas atitudes. É preciso perguntarmos agora: Quem é Alexandre? Por que Alexandre invade a Ásia? Quais são os seus propósitos?

Segundo os historiadores antigos, Alexandre é um jovem brilhante. E para ilustrar isso contam certos episódios, como o seguinte narrado por Plutarco.

Certa vez, estando ausente seu pai, ele ainda adolescente, recebe embaixadores persas e trata-os de maneira tão cativante que faz fama. Nas palavras de Plutarco:

“Chegaram embaixadores do rei da Pérsia, certa vez, quando Filipe estava ausente em viagem; ele os entreteve de maneira cativante. Tratou-os com simpatia; não lhes fez perguntas pueris e banais; informou-se da extensão das estradas e da natureza da viagem pelo interior, de como o rei mesmo procedia nas guerras, da combatividade e poderio da Pérsia. Assim, eles ficaram admirados e acharam que a falada capacidade de Filipe nada era comparada com a iniciativa do filho e sua tendência às grandes empresas”[21].

Naturalmente, é necessário que leiamos tais narrativas com olhos críticos, pois Plutarco é do século I d.C. e a fama de Alexandre, nesta época , é muito grande. O brilhantismo de suas conquistas costuma ser retroprojetado para sua infância e adolescência, como fica evidente no final deste trecho.

Costuma-se explicar, às vezes, a personalidade de Alexandre através da dupla influência do pai Filipe – espírito moderado, apolínio, regrado pela disciplina militar e pela educação grega – e da mãe Olímpia, totalmente imoderada, dionisíaca, dada a exaltação e a “furores divinos”.

Aqui, o risco é de: 1º) dar explicações psicológicas para fatos históricos ou sociais, onde quem deve falar, antes de tudo, é o historiador ou o sociólogo; 2º) fazer falsa psicologia, pois é muito difícil determinar as causas de certos comportamentos de personalidades famosas da antiguidade apenas através de narrativas não muito próximas aos acontecimentos e condicionadas por inúmeros fatores que precisam ser primeiro explicitados[22].

Alexandre Magno (356-323 a.C.)Um dos episódios que costumam ser citados para ilustrar a personalidade de Alexandre é o da morte de Clito, seu amigo e companheiro, que o insulta durante um banquete, quando ele já é senhor do Oriente:

“Então, Alexandre, tomando a lança de um de seus guardas, com ela traspassou Clito, que vinha ao seu encontro afastando o reposteiro da porta. Ao vê-lo tombar gemendo e rugindo, logo se lhe dissipou a cólera; caiu em si e, diante dos amigos emudecidos e parados, rapidamente arrancou a lança do cadáver e tê-la-ia cravado na própria garganta se não o contivessem os seus guardas pessoais, agarrando-lhe os braços e conduzindo-o à força para os aposentos. Passou a noite e o dia seguinte a chorar perdidamente; por fim, cansado de clamar e lastimar, manteve-se calado, emitindo profundos suspiros”[23].

Em contraste com a irracionalidade deste episódio – pelo menos aparente, pois, como veremos adiante, há razões políticas para o assassinato de Clito -, o mesmo Plutarco nos conta que ao aprisionar, após a batalha de Isso, a família de Dario, trata-a com a maior deferência e humanidade.

Diz-lhes que sua guerra é com Dario, por causa do poder, e que elas – a mãe, a esposa e as duas filhas moças de Dario – nada têm a temer. E que tudo o que tinham antes continuarão a ter.

“Ele permitiu sepultassem todos os mortos persas que elas quisessem, tirando dos despojos as roupas e adornos fúnebres; não as privou da mínima parte dos cuidados e honras a que estavam habituadas (…) Alexandre aparentemente considerava mais próprio de rei vencer a si mesmo que ao inimigo; não lhes tocou, nem conheceu, antes de casar, outra mulher além de Barsina”[24].

Alexandre tem vários preceptores, pedagogos e professores, entre eles o filósofo Aristóteles, na época ainda sem a fama que mais tarde o caracteriza. No castelo de Mieza, próxima a Pela, Aristóteles orienta Alexandre durante 4 anos.

Aristóteles (384-322 a.C.)A educação ministrada a Alexandre por Aristóteles é a típica de um jovem grego. Homero é a leitura básica. Alexandre leva nas suas campanhas uma edição da Ilíada anotada por Aristóteles.

“Considerava e chamava a Ilíada um vade-mecum da arte da guerra; adotou a versão corrigida por Aristóteles, conhecida como Ilíada do Escrínio, e conservava-a sempre junto com o punhal debaixo do travesseiro, segundo conta Onesícrito”[25].

Além de Homero, Eurípedes, Píndaro, Heródoto, Xenofonte, Tucídides, entre outros, são as suas leituras. Estuda, com Aristóteles, moral, dialética, metafísica, retórica, medicina, geografia.

Vejamos, rapidamente, quem são estes autores que o jovem Alexandre lê.

Eurípedes nasce em Salamina por volta de 485 a.C. e morre em 406 a.C. Grande dramaturgo que escreve 82 peças, das quais hoje sobrevivem 18 tragédias e um drama satírico.

Píndaro, famoso poeta lírico, nasce perto de Tebas por volta de 522 a.C. Escreve 17 livros, mas temos apenas cerca de um quarto de sua obra. Entre suas odes mais notáveis estão as Odes Olímpicas e as Odes Píticas. Quando destrói Tebas em 335 a.C., Alexandre ordena que se poupe a casa de Píndaro.

Heródoto nasce aproximadamente em 480 a.C. em Halicarnasso. É considerado por muitos como o pai da historiografia ocidental. O assunto de sua história é a luta entre a Ásia e a Grécia.

Xenofonte, ateniense, nasce por volta de 430 a.C. Historiador e militar, sua obra mais conhecida é a Anábasis (= escalada), narrativa em prosa da expedição de Ciro, o Jovem e seus 10 mil gregos contra seu irmão Artaxerxes II, rei da Pérsia.

Tucídides, historiador ateniense, vive entre 460 e 400 a.C., aproximadamente. Escreve a história da guerra do Peloponeso, uma das mais importantes obras históricas de todos os tempos por sua imparcialidade e seu método científico[26].

Do ponto de vista político, Aristóteles preconiza a unidade grega e a vitória sobre os persas, mas não a paridade entre gregos e bárbaros que Alexandre deseja e começa mais tarde, ao conquistar o Império Persa.

“Nos oito livros da Política, Aristóteles discute a ciência política do ponto de vista da cidade-estado, que imagina ser a comunidade política mais Aristóteles, Políticaapta a proporcionar ao cidadão a vida em sua plenitude (…) Aristóteles reconhece as vantagens da democracia, porém descobre o tipo mais elevado de forma de governo na monarquia do governante perfeito, se houve um governante dessa qualidade”, observa P. Harvey[27].

Na “Política” diz Aristóteles:

“Quando acontece, então, que há uma família inteira (ou mesmo algum cidadão) de tal forma proeminente sobre as outras em qualidades que superam as de todas as outras, então é justo que esta família seja uma família real, soberana sobre todos, e que este cidadão seja um rei, pois como foi dito antes isto se coaduna não apenas com o direito geralmente arguido pelos fundadores de governos aristocráticos e oligárquicos, e também pelos criadores de governos democráticos (todos baseiam suas pretensões na superioridade, embora não na mesma superioridade), mas com o próprio direito mencionado anteriormente. Na verdade, não teria cabimento matar ou banir, nem mesmo – é óbvio – condenar tal homem ao ostracismo, nem sequer que ele passe à condição de súdito quando fora a sua vez; não é natural que a parte se sobre­ponha ao todo, e um homem dotado dessa superioridade excepcional é como um todo em relação à parte. Logo, resta apenas à comunidade obedecer a tal homem, e a ele ser o soberano, não em alternância, mas de modo absoluto”[28].

O pensamento político de Aristóteles pode ser visto de maneira clara em uma Carta do filósofo a Alexandre, escrita provavelmente no final de 328 a.C., cujo original grego se perdeu, existindo apenas uma versão árabe. A carta é um programa de governo e Aristóteles recomenda a Alexandre que abandone suas tendências orientalizantes e volte a servir os gregos.

Eis os seus pontos principais:

. Alexandre deve preferir a atividade legisladora à glória das armas, pois grande número de cidades gregas dependem dele.

. As vitórias de Alexandre geraram a paz e, sendo sua autoridade universal e seu poder ilimitado, ele pode conseguir que os homens obedeçam à Lei, criando na Grécia um Estado pan-helênico, com a adesão voluntária dos gregos.

. Alexandre deve se afastar dos maus conselheiros que tendem a fazer dele um tirano que não segue a justiça. Como ele é agora o soberano de muitos povos, deve fazer-se amar e ser respeitado pelos gregos e macedônios. Os gregos, sem mais conflitos internos, poderão dedicar-se à filosofia. Os nobres persas devem ser deportados para a Grécia para que a paz seja mantida.

. Alexandre deve estar atento ao fato de que é mais glorioso governar homens livres [gregos] do que escravos [orientais] e que uma glória duradoura não pode ser construída só com empreendimentos militares. Por isso, Alexandre deve se voltar para os gregos, exercendo a função de legislador e fundador de cidades[29].

Apesar dos conselhos de Aristóteles – que Alexandre não seguirá – é preciso lembrar que o macedônio é excelente soldado e estrategista brilhante. Vários episódios de luta e coragem são contados a seu respeito. Enfrentando exércitos persas muito superiores aos seus, vence-os com lances de genialidade e ousadia, às vezes contra os conselhos de seus melhores generais que recomendam maior prudência.

O que se impõe perguntarmos agora é o seguinte: quais são os objetivos de Alexandre ao invadir a Ásia e se confrontar com o Império Persa?

As opiniões dos historiadores são variadas a respeito[30].

Alguns acreditam que é para vingar as afrontas de Xerxes contra os gregos em 480 a.C., quando este rei persa avançara através da Trácia, da Macedônia, da Tessália e da Ática, chegando a tomar Atenas. Somente no ano seguinte, em 479 a.C., os gregos conseguem repelir Xerxes em Plateias e em Mícales, após derrotarem sua frota em Salamina, em setembro de 480 a.C.

Outros acreditam que o objetivo inicial de Alexandre seja o de libertar as cidades gregas da Ásia Menor, dando assim continuidade ao projeto de seu pai Filipe II que já enviara para lá um exército de 10 mil homens comandado por Parmênion e que está prestes a ser empurrado de volta para o mar.

É bem provável que a conquista de todo o Império Persa não faça parte de seus planos originais. Mas as circunstâncias levam-no a isto.

Foi fácil vencer o enorme exército de Dario em Isso, mas se não fossem anuladas as suas possibilidades navais ao longo da Fenícia e da Palestina – daí a razão do duro cerco de Tiro e a tomada de Gaza – a Grécia e a Ásia Menor continuariam ameaçadas.

Se a perseguição a Dario não continuasse após a volta do Egito, mais tarde Alexandre teria que se medir com ele para sustentar as suas conquistas asiáticas. Parece que a própria lógica da conquista é que leva avante sua expedição.

A possibilidade de fusão das culturas grega e persa deve ter surgido provavelmente como consequência e necessidade, após as conquistas das regiões mais diretamente persas. É certo que não faz parte do plano original do macedônio. Alexandre necessita de uma burocracia persa para administrar os territórios conquistados e precisa de exércitos nativos para sustentar as conquistas.

“De duas uma: ou a própria amplidão de suas conquistas o obrigaria a deter-se; ou então era preciso associar as populações autóctones à sua administração. A reconciliação greco-persa não era uma quimera, nem um capricho: era uma necessidade”[31].

P. Goukowsky demonstra, na sua análise do mito de Alexandre, que as práticas e as teorias do absolutismo político persa são revestidas por Alexandre de um verniz grego, tornando possível o exercício da monarquia absoluta com vocação universal. Como ele assume cada vez mais o modelo persa de governar e viver, seus contemporâneos gregos e macedônios não o veem com bons olhos. Parece-lhes que o objetivo inicial da Liga de Corinto foi abandonado e as conquistas do brilhante jovem macedônio nenhum benefício lhes trazem. A imagem de um Alexandre defensor do helenismo só surgirá no século II a.C., frente à ameaça romana[32].

Aliás, questão interessante é a do mito de Alexandre. Histórias, na sua maioria inventadas, criadas após o tremendo sucesso de suas campanhas e o fascínio de sua figura de herói que conquista o mundo e morre jovem sem usufruir do poder e da riqueza que acumulara.

Entretanto, P. Goukowsky observa, em seu detalhado estudo das origens do mito de Alexandre, que o próprio conquistador constrói cuidadosamente esta imagem de super-herói que lhe rende altos dividendos políticos, tornando viável o desenvolvimento de seus projetos orientalizantes[33].

Consta que Alexandre se vê como privilegiado herói, filho de Zeus, no Egito identificado a Amon, a quem vai reverenciar e consultar no oásis líbio de Siwah. Além de se considerar descendente de Héracles, de quem procura imitar as façanhas sobre-humanas.

O que narra Plutarco acerca de sua origem é uma espécie de “evangelho da infância” que legitima este mito de sua filiação divina.

“Na noite anterior à das núpcias, a noiva [Olímpia] sonhou que, em meio a um trovão, lhe caía um raio sobre o ventre; da chaga brotou um fogo violento, irromperam labaredas, grassaram por toda a parte e por fim se apagaram. Filipe, por sua vez, mais tarde, de­pois do casamento, sonhou que aplicava sua chancela no ventre da esposa e a gravura da chancela, pensava, era a figura dum leão”[34].

É ainda Plutarco quem diz que, certa vez, Filipe II viu uma serpente estendida sobre o corpo de Olímpia: símbolo do deus, deitado com sua mulher.

Do mesmo gênero “apócrifo” é o caso do cavalo Bucéfalo. Garanhão indomável, obedece prontamente a Alexandre e provoca a seguinte “previsão” de seu pai:

“Meu filho, procura para ti um reino compatível com o teu valor; a Macedônia é pequena para ti”[35].

Merece, finalmente, menção o episódio de sua visita a Delfos, onde teria ido consultar o oráculo acerca de sua expedição à Ásia.

“Desejando ouvir o oráculo a respeito de sua expedição, foi a Delfos. Por acaso, eram dias de mau agouro, nos quais não é lícito dar consultas; contudo, mandou chamar, primeiramente, a pitonisa chefe. Ela recusou-se, alegando a lei. Então, foi ele em pessoa buscá-la. Quando a arrastava à força para o templo, como que subjugada por seu arrebatamento, ela exclamou: `Filho, ninguém pode contigo’. Ouvindo isso, Alexandre declarou não precisar de outro oráculo; tinha já a resposta que dela desejava”[36].

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[21]. PLUTARCO  Alexandre, 5, em Vidas. São Paulo: Cultrix,  s/d, p. 141.

[22]. Cf. BERGER, P. Perspectivas sociológicas: uma visão humanística. 32. ed. Petrópolis: Vozes, 2013; BOTTOMORE, T. B. Introdução à sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, p. 15-90; WRIGHT MILLS, C. A imaginação sociológica. 6. ed. Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 156-178; GARDINER, P. Teorias da história.  4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995. 

[23]. PLUTARCO Alexandre, 51-52, em o. c., p. 181.

[24]. PLUTARCO Alexandre, 21, em o. c., p. 155. Observe-se no final deste texto a avaliação moralizante do comportamento de Alexandre, feita por Plutarco. Aliás, esta é uma característica marcante dos autores da época imperial romana.

[25]. PLUTARCO Alexandre, 8, em o. c., p. 143. Homero é o maior poeta épico grego, autor da “Ilíada” e da “Odisseia”. Homero é provavelmente do século IX a.C. e sua linguagem o relaciona com os dialetos jônio e eólio da Ásia Menor. A Ilíada, em 24 cantos, conta um episódio do cerco de Troia (também chamada Ílion) pelos gregos, por volta de 1200 a.C., no seu décimo ano. O assunto é a cólera de Aquiles, causada por uma afronta cometida contra ele por Agamêmnon, líder das forças gregas. Cf. DE ROMILLY, J. Fundamentos da literatura grega, p. 17-43.

[26]. Cf. HARVEY, P. Dicionário Oxford de literatura clássica grega e latina, nos respectivos verbetes.

[27]. Idem, ibidem, verbete Aristóteles.

[28]. ARISTÓTELES Política III, XI, 1288a. 2. ed. Brasília: Editora da UnB, 1988, p. 117-118.

[29]. Cf. GOUKOWSKY, P. Essai sur les origines du mythe d’Alexandre I, p. 50-55.

[30]. Cf. LÉVÊQUE, P. O mundo helenístico. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 11-12; SAULNIER, C. Histoire d’Israel III. De la conquête d’Alexandre à la destruction du temple (331 a.C.-135 a.D.). Paris: Du Cerf, 1985, p. 73-74; GOUKOWSKY, P. o. c., p. 69-71.

[31]. BENOIST-MÉCHIN, J. Alexandre Magno, p. 47.

[32]. Cf. GOUKOWSKY, P. o. c., p. 69-78.

[33]. Cf. Idem, ibidem, p. 17-68.

[34]. PLUTARCO Alexandre, 2, em o. c., p. 138.

[35]. Idem, Alexandre, 6, em o. c., p. 142.

[36]. Idem, Alexandre, 14, em o. c., p. 148.

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