História de Israel 13

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4. O reino de Israel

Segundo o texto bíblico, com a morte de Salomão, em 931 a.C., desabou a unidade do reino. O norte, agora chamado de Israel, separou-se do Estado davídico que permaneceu em Judá. E o reino do norte existiu durante 209 anos, até ser massacrado pelo poderoso Império assírio, em 722 a.C.

 

4.1. A rebelião explode e divide Israel

Para começar, podemos anotar que o processo de sucessão de Salomão não foi bem visto, especialmente porque o norte tinha consciência da exploração a que era submetido pelo poder central e levantou, então, a bandeira da rebelião.

Proclamado rei em Judá, Roboão (931-914 a.C.), filho de Salomão, foi a Siquém para que o norte o aclamasse senhor também das outras tribos. Em Siquém, os israelitas impuseram-lhe uma condição: aceitariam o seu governo, caso fossem retiradas as pesadas leis impostas ao povo por seu pai Salomão. Roboão não aceitou as condições e foi a gota d’água. Podemos seguir o desenrolar dos acontecimentos a partir do capítulo 12 do primeiro livro dos Reis.

“Disseram assim a Roboão: ‘Teu pai tornou pesado o nosso jugo; agora, alivia a dura servidão de teu pai e o jugo pesado que ele nos impôs e nós te serviremos’ (…) O rei Roboão consultou os anciãos que haviam auxiliado seu pai Salomão durante sua vida, e perguntou: ‘Que me aconselhais a responder a este povo?’ Eles lhe responderam: ‘Se hoje te sujeitares à vontade deste povo, se te submeteres e dirigires boas palavras, então eles serão para sempre teus servidores’. Mas ele rejeitou o conselho que os anciãos lhe deram e consultou os jovens que foram seus companheiros de infância e o assistiam. Perguntou-lhes: ‘Que aconselhais que se responda a este povo’ (…) Os jovens, seus companheiros de infância, responderam-lhe: ‘Eis o que dirás a este povo (…); eis o que lhes responderás; ‘Meu dedo mínimo é mais grosso que os rins de meu pai! Meu pai vos sobrecarregou com um jugo pesado, mas eu aumentarei ainda o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, e eu vos açoitarei com escorpiões!’ ” (1Rs 12,3-11).

Israel do norte, chamado doravante simplesmente de Israel, Samaria ou ainda Efraim, constituído pelas 10 tribos rebeldes, escolheu para seu rei a Jeroboão, um nobre da tribo de Efraim e inimigo de Salomão, que se encontrava exilado.

Inicialmente nem guerra houve entre os dois países irmãos, pois assim debilitados viram-se ameaçados pelos inimigos externos e deixaram suas rixas para acertar mais tarde. Quando o norte se rebelou, Roboão quis partir para a repressão armada, mas foi desaconselhado.

Jeroboão escolheu a cidade de Siquém para capital do seu reino, onde permaneceu apenas 5 anos. Transferiu-a seguidamente para Penuel e Tirsá. Só mais tarde, sob outro rei, foi construída Samaria, a capital definitiva.

Rejeitando o governo de Jerusalém, os nortistas rejeitaram também o Templo e as peregrinações nas grandes festas. Para substituir o Templo e mesmo para evitar que o povo fosse a Jerusalém e passasse para o lado de lá, Jeroboão construiu dois touros de ouro e colocou-os em antigos santuários: Dan, no extremo norte, e Betel, perto de Jerusalém, no sul. E isto deu o que falar. Para o sul, já era a idolatria que dominava o norte, embora a intenção do rei fosse apenas reavivar o culto naqueles santuários.

Israel caracterizou-se pela instabilidade política. No curto espaço de 209 anos, teve 19 reis de diferentes dinastias que se sucederam com golpes de Estado, assassinatos e chacinas várias.

A incerteza quanto à localização da capital e ainda o perigo da pressão estrangeira (Fenícia, Síria e Assíria) fizeram do novo país um foco de problemas e de crises sucessivas. E quem saía perdendo, como sempre, era o povo. Os mesmos camponeses e pescadores antes explorados pelo sul, passaram a sê-lo pelo norte.

Por outro lado, tanto o norte quanto o sul perderam, segundo o texto bíblico, todas as suas possessões estrangeiras: definitivamente os tempos do Israel forte haviam acabado.

Reis de Israel

NomeDataDuração
Jeroboão I931-910/9 a.C.21 anos
Nadab910-9092 anos
Baasa909/8-88622 anos
Ela886/5-8852 anos
Zimri885/47 dias
Omri885/4-87411 anos
Acab874/3-85321 anos
Ocozias853-8522 anos
Jorão852-84111 anos
Jeú841-81328 anos
Joacaz813-79716 anos
Joás797-78215 anos
Jeroboão II782/1-75329 anos
Zacarias7536 meses
Salum753/21 mês
Menahem753/2-74211 anos
Pecahia742/1-7402 anos
Pecah740/39-7319 anos
Oseias731-7229 anos

 

4.2. Israel de Jeroboão I a Jeroboão II

De Jeroboão I a Omri (cerca de 50 anos) houve muita instabilidade em Israel. Nadab foi assassinado por Baasa; seu filho Ela foi também assassinado por Zimri, que, por sua vez, se suicidou, quando viu a morte trazida pelo general Omri. Houve também vários conflitos com Judá por causa das fronteiras.

Omri, que deu um golpe militar em 885 a.C., foi um válido artífice da paz com Judá. Fez aliança com a Fenícia, casando seu filho Acab com Jezabel, filha de Etbaal, rei de Tiro. Levou vantagem no confronto com Moab e com os arameus de Damasco.

Omri construiu Samaria em 880 a.C. para capital do reino e desenvolveu bastante o país. Porém, como sempre, o progresso do país empobrecia largas camadas da população e levava a exploração classista ao máximo.

Sob Acab, filho de Omri, a situação do povo era muito difícil. O intenso comércio com a Fenícia aumentou a riqueza da classe dominante em Israel. Faltava dinheiro no país? O povo precisava de empréstimos? Os privilegiados emprestavam a juros exorbitantes. A lavoura não produzia quando a seca era forte? Os ricos vendiam mantimentos à população camponesa, em “suaves prestações”…

Para termos uma ideia da situação: a partir desta época ficou muito comum o camponês se vender ao rico credor para saldar suas dívidas, trabalhando como escravo. Ou entregava seus filhos. Diz o Deuteronomista, em 1Rs 21, com o exemplar episódio da vinha de Nabot, que Acab e Jezabel puxavam o cordão das explorações, encontrando nisto a forte oposição do profeta Elias (1Rs 17-22 e 2Rs 1-2).

Em 841 a.C. a dinastia de Omri vai cair de maneira violenta: Jeú, com a aprovação do profeta Eliseu, segundo o Deuteronomista, ou com o apoio do rei Hazael de Damasco, segundo a Inscrição de Tel Dan, dá um golpe militar sangrento, assassinando toda a família de Jorão, o rei de turno.

Jeú e seus descendentes enfrentaram graves problemas na política externa: Jeú pagou tributo ao rei assírio Salmanasar III (858-824 a.C.) e perdeu a TransjordâniaObelisco negro de Salmanasar III: Jeú tributário do rei assírio para Hazael, rei de Damasco.

Mas com a subida ao trono de Jeroboão II (782/1-753 a.C.) o país se recupera – também Judá, sob o governo de Ozias, cresce bastante nesta mesma época – graças a uma série de circunstâncias favoráveis.

Havia paz entre os dois reinos irmãos. A Síria fora vencida pela Assíria. Esta, por sua vez, atravessava um período de dificuldades. E então, livres de pressões maiores, os dois reinos começaram a sua expansão.

Jeroboão II, bom militar, levou a fronteira norte de seu país onde anteriormente a colocara Salomão (2Rs 14,23-29). Tomou Damasco e submeteu a Síria, inclusive as regiões da Transjordânia até Moab.

Israel controlou as rotas comerciais de então. Em Samaria os arqueólogos encontraram os restos de esplêndidos edifícios, provas da riqueza alcançada.

Porém, o sistema administrativo adotado por Jeroboão II foi aquele mesmo próspero e injusto dos Estados tributários: concentração da renda nas mãos de poucos com o consequente empobrecimento da maioria da população.

Criaram-se extremos de riqueza e de pobreza. Os pequenos agricultores, endividados, viam-se nas mãos de seus credores, enquanto os tribunais só achavam a razão do lado dos ricos. Nesta época, os profetas Amós (ca. 760 a.C.) e Oseias (755-725 a.C.) destacaram-se na denúncia da situação em que se encontrava Israel.

 

4.3. Israel é destruído pela Assíria

A grande ameaça internacional era a Assíria, que parecia inerte, até que, em 745 a.C. estourou uma rebelião em Kalhu (Nimrud), conduzindo ao trono Tiglat-Pileser III (=Teglat-Falasar III), aquele que iria tornar-se um dos maiores reis da Assíria, o verdadeiro fundador de seu império. Desde sua ascensão, Tiglat-Pileser III empreendeu uma série de operações militares. Depois de garantir sua retaguarda e as grandes vias de comunicação com o Irã e o Golfo Pérsico, os exércitos assírios tomaram o caminho do sul. As conquistas de Tiglat-Pileser III são mal documentadas, mas sabe-se que de 743 a 738 a.C. ele desbaratou a coalizão siro-urártia e se impôs aos dinastas aramaicos.

O sucesso da expansão imperialista assíria nesta época se explica, pelo menos em parte, pela agressiva política de Tiglat-Pileser III, que não se Tiglat-Pileser III (745-727 a.C.)limitava apenas a recolher tributos, como seus antecessores, mas submetia permanentemente os territórios conquistados. As rebeliões eram punidas com invasão, destruição, deportação e incorporação do território ao império assírio.

Ou seja, com Tiglat-Pileser III a guerra converteu-se em guerra de conquista: o território ocupado era incluído nos limites da terra de Assur e dividido em províncias dirigidas por governadores (bel pihati) que dispunham de guarnições permanentes. As tropas assírias estavam, portanto, sempre a postos para sufocar as dissidências e empreender novas operações. Por outro lado, o rei deportou numerosas populações para regiões distantes, a fim de separá-las de seu meio natural e impedir quaisquer veleidades de rebelião. Isto criou um amálgama de populações de diferentes origens e culturas, submetidas, entretanto, a uma única jurisdição, pois Tiglat-Pileser III computou-as entre os habitantes da terra de Assur, obrigando-as, como tais, às mesmas contribuições e corveias. Em todo o império praticou-se essa política de conquista e assimilação. Liverani, em Para além da Bíblia, p. 193, calcula que esta prática assíria de “deportação cruzada” de populações, envolveu, ao longo de três séculos, algo como 4 milhões e meio de pessoas. Quebrava-se, deste modo, a resistência política e se preservava a economia local.

E esta política envolveu Israel, quando grande instabilidade tomou conta do reino nos seus últimos 30 anos, pois de 753 a 722 a.C. seis reis se sucederam no trono de Samaria, abalado por as­sassinatos e golpes sangrentos. Houve 4 golpes de Estado (golpistas: Salum, Me­nahem, Pecah e Oseias) e 4 assassinatos (assassinados: Zacarias, Salum, Pecahia e Pecah).

Em 738 a.C. Tiglat-Pileser III já submetera grande parte da Síria e da Fenícia e Israel começou a pagar-lhe tributo quando governava Menahem (2Rs 15,19-20). Contudo, grupos antiassírios assassinaram Pecahia, filho e sucessor de Menahem, e Pecah, o golpista que subiu ao poder, associou-se a Rason, rei de Damasco, para enfrentar a interferência assíria na região. Desta campanha deveria participar Acaz, rei de Jerusalém, que ao se recusar, teve seu governo ameaçado com uma invasão de Judá por Pecah e Rason (Is 7,1-17; 2Rs 16,5-18). Acreditando não poder se defender sozinho, Acaz, para desgosto do profeta Isaías que o aconselhava, chamou em seu socorro o rei assírio Tiglat-Pileser III, dando-lhe, assim, a oportunidade de que necessitava para ampliar o seu poder na região siro-palestina.

Tiglat-Pileser III destruiu e incorporou ao seu território a Síria e destruiu boa parte do território de Israel a partir de 734 a.C., além de conseguir o assassinato de Pecah e sua substituição por Oseias, um rei submisso à Assíria. Samaria não foi, desta vez, anexada nem destruída, mas, sobre o território restante os assírios constituíram as províncias de Dor (na costa), Meguido (Galileia) e Galaad (Transjordânia). Embora a lista detalhada dos israelitas deportados esteja corrompida nos anais de Tiglat-Pileser III, tanto Liverani, em Para além da Bíblia, p. 188, quanto Finkelstein/Silberman, em A Bíblia não tinha razão, p. 295-297, consideram razoável o número total de 13.520 pessoas. A destruição dos territórios é arqueologicamente documentada em Hasor, Dan, Tel Kinneret, Bet-shean e outras localidades.

Entretanto, isso não era tudo. Israel só se submetera à Assíria porque não tinha outra opção. Quando Tiglat-Pileser III foi sucedido por seu filho  Salmanasar V (727/6-722 a.C), Oseias pensou ser o momento adequado para a revolta. Negou o pagamento do tributo à Assíria e aliou-se ao Egito. Foi um suicídio. O Egito estava todo dividido e muito fraco. Não veio a ajuda esperada. Salmanasar V atacou, prendeu o rei, ocupou o país e cercou Samaria em 724 a.C. (2Rs 17,3-6).

Sargão II (721-705 a.C.)Samaria caiu em 722 a.C. e o irmão de Salmanasar V, Sargão II (721-705 a.C.), foi quem se en­carregou da deportação e substituição da população israelita por outros povos que fo­ram ali instalados. A destruição de Samaria pela Assíria é bem documentada pela arqueologia. Segundo os anais de Sargão II, o número de deportados samaritanos foi de 27.290 pessoas.

Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, explicam, por outro lado, que a interpretação bíblica do trágico destino de Israel é muito mais teológica do que histórica: segundo a OHDtr, a devastação de Israel pelos exércitos estrangeiros fazia parte de um preciso plano divino, que puniu o povo e seus líderes por sua recusa do culto a Iahweh no Templo de Jerusalém e por sua adesão a outros deuses (2Rs 17,7-41). Mas a arqueologia traz uma perspectiva diferente: Israel foi invadido pelos assírios por ter sido um reino bem sucedido que suscitou sua cobiça. A Assíria ambicionava a região siro-palestina basicamente por causa de seus recursos naturais, do controle do comércio do Mediterrâneo e, não por último, por causa do Egito, ferrenho adversário dos impérios da Mesopotâmia na luta pela hegemonia geopolítica do Antigo Oriente Médio.

 

4.4. As conclusões de Finkelstein & Silberman

Para Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, este esquema bíblico de uma monarquia unida que se desintegra após a morte de Salomão, sempre foi aceito por arqueólogos e historiadores, mas está errado. Não há evidências de uma monarquia unida governada por Jerusalém, mas há boas razões para se acreditar que sempre houve duas diferentes entidades políticas na região montanhosa de Canaã, garantem os autores, no livro A Bíblia não tinha razão, p. 205-233.

A pesquisa arqueológica nos anos 80 retrata uma situação bem diferente do relato bíblico. Em cada uma das ondas de ocupação das montanhas (Idade Antiga do Bronze: 3150-2200; Idade Média do Bronze: 2200-1550 a. C.) sempre aparecem duas sociedades distintas, norte e sul, assim como no Ferro I (1200-1000 a. C.) existe a distinção entre Israel e Judá. A região norte sempre aparece mais povoada, com uma complexa hierarquia de grandes, médios e pequenos sítios arqueológicos e sempre mais fortemente ligada à agricultura. A região sul sempre aparece como mais escassamente povoada, com pequenos sítios arqueológicos e uma população de grupos nômades mais significativa.

No Bronze Antigo dois únicos centros se destacam em Canaã: no sul, Khirbet et-Tell (Ai) e no norte Tell el-Farah (Tirsá). No Bronze Médio, dois centros se destacam no sul, Jerusalém e Hebron, e um centro no norte, Siquém. Além destas pistas arqueológicas, os Textos de Execração egípcios mencionam, para este período, apenas dois centros nas montanhas de Canaã: Siquém e Jerusalém.

Uma inscrição egípcia do século XIX a. C., falando das ações de um general egípcio chamado Khu-Sebek na região montanhosa de Canaã, menciona a ‘terra’, e não a cidade, de Siquém em paralelo com Retenu (um dos nomes egípcios para Canaã). No Bronze Recente, as Cartas de Tell el-Amarna, do século XIV AEC, indicam duas cidades líderes na região das montanhas: Siquém e Jerusalém.

Assim, Siquém e Jerusalém, Israel e Judá, parecem ter sido sempre dois territórios distintos e rivais, concluem os autores.

Norte e sul possuem, de fato, dois ecossistemas bem diferentes sob qualquer aspecto: topografia, formação rochosa, clima, vegetação e potencial econômico. O sul é mais isolado por barreiras topográficas, enquanto que o norte possui vales férteis com maior potencial econômico. O maior desenvolvimento do norte pode ter proporcionado o surgimento de instituições econômicas mais complexas, levando ao surgimento de instituições políticas mais sofisticadas, nascendo daí um ‘Estado’.

A evolução das colinas de Canaã em duas distintas entidades políticas foi um desenvolvimento natural. Não há evidência arqueológica em lugar algum de que esta situação de norte e sul tenha surgido de uma anterior unidade política – muito menos de uma localizada no sul, dizem os autores.

Judá, nos séculos X e IX a. C., era pastoril e pouco significativo. Jerusalém era um pequeno povoado na época de Salomão e Roboão, enquanto que o norte já era mais populoso e desenvolvido. Israel (do norte) já era um Estado no século IX a. C., enquanto que a sociedade e economia de Judá pouco tinham mudado desde suas origens nas montanhas.

Sem dúvida, Israel e Judá da Idade do Ferro tinham muito em comum: ambos cultuavam Iahweh (além de outros deuses) e seus povos partilhavam muitas estórias sobre um passado comum. Falavam línguas semelhantes, ou dialetos do hebraico, e, por volta do século VIII a. C., partilhavam da mesma escrita. Mas experimentaram diferentes histórias e desenvolveram culturas distintas, sendo Israel mais desenvolvido do que Judá.

O norte pode ter se desenvolvido mais do que o sul, mas não era tão próspero e urbanizado como as cidades-estado cananeias das planícies e da região costeira. Foi a derrocada destas cidades na Idade Antiga do Bronze – quer tenha sido causada pelos Povos do Mar, ou por rivalidades entre elas ou, ainda, por desordens sociais – que possibilitou a sua independência.

Mas no século XI a. C. houve nova onda de prosperidade nas regiões das planícies: filisteus na costa sul e fenícios na norte. Meguido é um bomIsrael Finkelstein, O reino esquecido: arqueologia e história de Israel Norte exemplo deste processo. Entretanto, este renascimento durou pouco: o faraó Shishaq (ou Sheshonq, nas inscrições egípcias), fundador da Décima Segunda Dinastia, fez agressivo ataque, no final do século X a. C., à região: Meguido, Taanach, Rehov e Bet-Shean, no vale de Jezreel, foram alvos das forças egípcias. Embora os motivos e detalhes desta destruição sejam problemas não respondidos até hoje… Mas isto tem importantes implicações: abriu caminho para a ocupação israelita do Vale de Jezreel…

Entretanto: por que a Bíblia narra tudo diferente, surgindo Israel (do norte) de uma ruptura com Judá? A resposta está em quatro profecias ligadas pela narrativa bíblica à queda da monarquia unida: Salomão como responsável pela quebra da unidade (1Rs 11,4-13); Jeroboão como ‘herdeiro do norte, segundo o profeta Aías de Silo (1Rs 11,31-39); Jeroboão recebendo, em Betel, a profecia de “um homem de Deus” sobre Josias que destruirá o altar de Betel (1Rs 13,1-2); Aías de Silo falando à esposa de Jeroboão do extermínio de sua dinastia e do exílio de Israel (1Rs 14,7-16). Observo que o argumento de Finkelstein e Silberman pareceu-me aqui meio “circular” e pouco convincente…

Contudo, segundo eles, a inevitabilidade da queda de Israel e o triunfo de Josias tornou-se um tema central para o redator deuteronomista no século VII a. C. Betel, a ameaça ao santuário de Jerusalém, cai sob Josias…

O historiador deuteronomista transmite ao leitor a seguinte mensagem, segundo os autores: de um lado ele descreve Judá e Israel como Estados irmãos; de outro lado, ele mostra forte antagonismo entre eles. Era ambição de Josias expandir-se para o norte e tomar posse dos territórios montanhosos que outrora pertenceram ao reino do norte. Assim, a Bíblia legitima esta ambição, explicando que o reino do norte se estabelecera sobre os territórios da mítica monarquia unida, que fora governada a partir de Jerusalém; que havia um reino israelita irmão; que sua população era composta de israelitas que haviam prestado culto em Jerusalém; que os israelitas ainda vivendo nestes territórios deveriam voltar seus olhos para Jerusalém; e que Josias, o herdeiro do trono davídico e da promessa eterna feita a Davi, era o único legítimo herdeiro dos territórios do vencido Israel. Por outro lado, os autores da Bíblia precisavam deslegitimar o culto do norte – especialmente o santuário de Betel – e mostrar que as típicas tradições religiosas do reino do norte eram todas más, que elas deveriam ser eliminadas e substituídas pelo culto centralizado no Templo de Jerusalém (cf. p. 231-232).

Ao falar de Omri, Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, no livro A Bíblia não tinha razão, p. 234-268, começam lembrando que, segundo o texto bíblico, os omríadas foram os piores: o casal Acab e Jezabel é acusado de idolatria, assassinatos brutais, confisco de terras de herança, tudo na mais perfeita impunidade.

Mas, lembram Finkelstein e Silberman, a arqueologia hoje aponta noutra direção, mostrando que Acab foi um poderoso rei, seu casamento com Jezabel, filha do rei fenício Etbaal, foi uma grande vitória diplomática para Israel, suas construções foram magníficas, seu poder militar e suas conquistas territoriais foram brilhantes.

Em seguida, após repassarem a descrição bíblica dos governos do reino de Israel de Nadab a Jorão, ou seja, do segundo ao nono rei, os autores passam a mostrar as inconsistências e anacronismos da Obra Histórica Deuteronomista. Isto porque a narrativa bíblica, segundo eles, está por demais influenciada pela teologia dos escritores do século VII a.C. Estaríamos, nesta perspectiva, muito mais diante de uma novela histórica do que de posse de uma acurada crônica histórica.

Entretanto, os testemunhos extrabíblicos nos permitem ver os omríadas sob diferente perspectiva, exercendo forte papel aí a Estela de Mesha, a Inscrição de Tel Dan e os testemunhos assírios, como a Inscrição de Salmanasar III, que cita os dois mil carros de combate de Acab – número impressionante! – usados como parte de uma coalizão da Síria, Israel e Fenícia contra as suas investidas na região.

Além disso, as escavações de Samaria, Meguido, Hasor e Dan mostram os omríadas como grandes administradores e construtores arrojados.

Para os autores, o que até então era atribuído a Salomão pode tranquilamente ser considerado como omríada. E eles mostram características comuns nas cidades de Samaria, Jezreel, Hasor, Meguido e Gezer, para eles, todas resultantes de atividades da dinastia de Omri. Como consequência, Salomão e Jerusalém ficam bastante diminuídos.

O poder dos omríadas impressiona também por sua presença na Transjordânia, e bem ao sul, no território de Moab, em Ataroth (= Khirbet Atarus) e em Jahaz (talvez Khirbet el-Mudayna, sítio que está sendo escavado por Michèle Daviau, da Wilfrid Laurier University, Canadá).

Neste ponto, Finkelstein e Silberman se perguntam: de onde vinham os recursos para estas realizações?

Eles acreditam que possam haver vários elementos em jogo. Como a destruição dos centros cananeus pelo faraó Shishaq no final do século X a. C., que teria aberto o caminho para que Omri tomasse posse dos territórios de Meguido, Hasor e Gezer.

Mas especialmente a diversidade de populações no território – cananeus, israelitas, arameus e fenícios – seria um elemento importante, porque integrava vários ecossistemas e mecanismos econômicos que só fortaleciam o país. As duas capitais seriam representativas desta diversidade: Samaria seria mais israelita, enquanto Jezreel seria mais cananeia. A estimativa demográfica para o século nono é difícil, mas no século VIII a. C., segundo eles, seria de 350 mil habitantes em Israel, fazendo deste território o mais densamente povoado do Levante. Seu único rival possível seria o reino de Damasco.

Este era um Estado “israelita”? Dificilmente… a identidade israelita atribuída ao território do norte parece ser muito mais a obra de escritores de uma monarquia judaíta mais recente!

E uma última pergunta: por que, então, o Deuteronomista, séculos mais tarde, faz de tudo para deslegitimar os omríadas? Exatamente porque Omri, o primeiro rei verdadeiro do reino de Israel, ofuscou o pobre, marginalizado e rural território de Judá…

Quando tratam do domínio assírio sobre Israel, nas p. 269-307, Finkelstein e Silberman começam mostrando como a interpretação bíblica do trágico destino do reino de Israel, destruído pela Assíria, é muito mais teológica do que histórica: segundo o Deuteronomista, a devastação de Israel pelos exércitos estrangeiros fazia parte de um preciso plano divino, que puniu o povo e seus líderes por sua recusa do culto a Iahweh no Templo de Jerusalém e por sua adesão a outros deuses. Veja-se, por exemplo: Jeú: 2Rs 10,28-33; Joás: 2Rs 13,22-25; Jeroboão II: 2Rs 14,23-27; o motivo do fim do reino do norte: 2Rs 17,7-41. Mas a arqueologia apresenta uma perspectiva diferente: Israel foi invadido pelos assírios por ter sido um reino bem sucedido que, vivendo à sombra do grande império, suscitou sua cobiça.

Após mostrar os equívocos da arqueologia tradicional na pesquisa do reino de Israel, os autores colocam lado a lado os dados do Deuteronomista e da inscrição de Tel Dan, alertando o leitor para a tremenda importância de Aram no declínio de Israel, embora seja complicado decidir se foi Jeú, o general israelita (como diz o Dtr), ou Hazael, o rei arameu (como diz a inscrição de Tel Dan), o responsável pela queda dos omríadas. De qualquer maneira, detalham como Israel teve seu território destruído e parcialmente ocupado por Aram – leia-se por Hazael – por um período significativo.

Entretanto, a chegada ao poder do assírio Adad-nirari III decretou o fim da hegemonia de Damasco na região e fez com que o fiel vassalo assírio que era Israel começasse a se expandir sob Joás e Jeroboão II. Testemunhos arqueológicos desse crescimento, durante o governo de Jeroboão II, no século VIII AEC, segundo os autores, não faltam.

Citam como exemplo os óstraca de Samaria que testemunham a grande produção e exportação de óleo de oliva e de vinho para a Assíria e Egito, o aumento da população que pode ter chegado a 350 mil habitantes – enquanto Judá teria cerca de 100 mil – as construções em Meguido, Hasor e Gezer, a criação de cavalos treinados para a guerra e exportados para a Assíria – possível interpretação para a origem dos controvertidos “estábulos” encontrados em Meguido – a riqueza de Samaria e, até mesmo, os desmandos da elite governante e dos comerciantes denunciados pelos profetas Amós e Oseias.

Só que, como vimos, este crescimento gerou rivalidade entre facções israelitas que, após a morte de Jeroboão, entraram em confronto, fazendo com que os golpes de Estado se sucedessem em ritmo frenético nos últimos 30 anos de Israel. Confronto este que se agravou com a ascensão ao trono do poderoso e ambicioso rei assírio Tiglat-Pileser III que acabará invadindo, destruindo e incorporando Aram e quase todo o Israel. Pouco mais tarde, Israel encontrou seu fim definitivo nas mãos dos assírios Salmanasar V e Sargão II.

 

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>> Bibliografia atualizada em 15.07.2015

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