Os instrumentos da helenização

Os instrumentos da helenização

 

“Verificou-se desse modo, tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros (…) que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar” (2Mc 4,13a.14a).

 

A chegada dos poderosos exércitos macedônios com Alexandre Magno em 332 a.C., mas, principalmente, as várias guerras travadas por seus sucessores na regiões da Síria e da Palestina constituem, sem dúvida, eficaz elemento de helenização das populações locais. A fundação de novas cidades ou a transformação de várias cidades orientais em póleis constituem outro mecanismo fundamental de mudança de mentalidade e estilo de vida. Nas cidades, a língua grega que se difunde sempre mais e a educação aristocrática desenvolvida nos ginásios completam este quadro de transformação social, levando à assimilação de grandes camadas da população à nova realidade.

O assunto deste artigo é este: verificar como os vários mecanismos da sociedade e da cultura grega carreiam para a Palestina os valores do dominador estrangeiro.

 

1. O exército, as técnicas militares e a guerra

Quando Alexandre chega à Ásia, vence os exércitos persas, destrói a fabulosa resistência de Tiro, toma posse do resto da Palestina sem esforço, é aclamado no Egito, o que sentem os judeus? Sentem evidentemente o impacto da chegada de uma poderosa organização militar e de suas bem estruturadas técnicas de cerco e combate. Assim, é o exército macedônio o primeiro veículo concreto do helenismo na Palestina e a certeza de que novos tempos estão começando.

A unidade básica do exército macedônio é a falange, que mantém sua forma e superioridade desde que é desenvolvida por Filipe II até sua derrota para a legião romana. A falange é formada por uma unidade de infantaria pesada agrupada numa frente de dezesseis fileiras de soldados. Estes usam o capacete macedônio, uma couraça, um escudo de forte concavidade, uma espada e, sobretudo, a sarissa, uma longa lança que pode ultrapassar os 5 metros de comprimento. O resultado é uma concentração impenetrável de lanças que avança inexoravelmente ao encontro do inimigo. Os combatentes da primeira fila são protegidos pelas lanças dos soldados da segunda, terceira, quarta e quinta filas, de modo que, antes dos romanos, só uma falange pode vencer outra falange. Todas as formações existentes nos exércitos orientais mostram-se impotentes para detê-la.

FalangeO problema da falange é que ela exige terreno plano para combater com eficiência e possui pouca flexibilidade, ficando exposta aos ataques nos flancos e não conseguindo se voltar para enfrentar uma manobra de envolvimento. Por isso, é necessário protegê-la com a cavalaria e com tropas ligeiras, o que Alexandre Magno sabe fazer com eficiência. No século II a.C. a falange sucumbe frente à legião romana, como ilustra a batalha de Cinoscéfalos, quando em 197 a.C. o cônsul romano Flamínio vence o rei Filipe V da Macedônia.

Convém, enfim, observar que os exércitos helenísticos são constituídos, na sua maioria, pela infantaria, pois a cavalaria representa apenas cerca de 10% do total. Os mercenários, sempre numerosos, usam, em geral, seu armamento característico de acordo com sua origem e avançam com maior mobilidade à frente da falange, enfrentando os primeiros embates.

O elefante asiático é outro elemento importante nos exércitos macedônios, verdadeiro “tanque” de guerra, incorporado após a campanha de Alexandre na Índia. Todos os governantes macedônios procuram usá-lo. Diz-se que Selêuco, na batalha de Ipsos, em 301 a.C., conta com 480 elefantes. Ptolomeu II Filadelfo começa a treinar elefantes africanos. Na batalha de Ráfia, em 217 a.C., Ptolomeu IV usa 73 elefantes africanos contra os 102 elefantes indianos de Antíoco III, o Grande. Também os cartagineses os usam em suas guerras contra Roma, tornando-se famoso o elefante de Aníbal, chamado Suro.

Os efetivos usados pelos reis helenísticos nas batalhas são consideráveis se comparados aos da pólis clássica. O efeito que podem provocar no inimigo é o terror, como descreve 1Mc 6,41, a propósito da batalha de Bet-Zacarias entre as forças de Judas Macabeu e o exército selêucida: “Ficavam apavorados todos os que ouviam o clamor daquela multidão, o marchar de tanta gente e o retinir de suas armas, pois era um exército extraordinariamente numeroso e forte”.

Exércitos com cerca de 100 mil homens de infantaria, 10 mil cavaleiros e uma centena de elefantes são bastante comuns nas batalhas da época. Por isso, às vezes, uma guerra é decidida em uma única batalha. Tantos são os recursos mobilizados, que o perdedor não consegue mais se recuperar a curto prazo. Além do que, os mercenários não costumam permanecer com um rei ou general derrotado.

Para a conquista das cidades, em geral todas fortemente muradas, as técnicas de assédio empregadas pelos macedônios são sofisticadas. A artilharia de cerco usa dezenas de catapultas de 7 a 10 metros de altura, que lançam projéteis de 80 kg a uma distância de 400 a 700 metros. Consta que no assalto a Tiro Alexandre usa torres de até 50 metros de altura, montadas sobre rodas, para alcançar e atingir os defensores das muralhas. Mas estas medidas são exageradas, já que tal altura ultrapassa em muito a das muralhas. Outro cerco famoso é o que Demétrio Poliocerta (= “conquistador de cidades”) faz a Rodes em 304 a.C.

Outra técnica de assédio é o uso de minas que destroem as muralhas. Consiste em abrir um túnel sob as muralhas e escorá-lo com madeira, na qual, em seguida, se coloca fogo: o calor produzido faz desabar aquele trecho das fortificações.

No mar, a trirreme continua a ser a unidade fundamental, mas “vê-se também aparecerem grandes barcos com trinta ou quarenta fileiras de remadores, cobertos com blindagem de madeira contra os golpes de esporões e trazendo em abundância torres e máquinas”[1]. São usadas frotas de até 500 barcos de guerra. Nau de três bancadas, a trirreme é construída pela primeira vez em Corinto, por volta de 700 a.C. Uma trirreme clássica é uma embarcação estreita e longa: mede cerca de 40 metros de comprimento por 5 metros de largura. Possui um mastro e uma vela principais, baixados antes do combate e às vezes substituídos por um mastro e uma vela menores. Uma trirreme ateniense, por exemplo, leva uma tripulação de 200 homens. Destes, 170 remam, enquanto 30 ficam de reserva. Uma trirreme chega à velocidade de 7,5 milhas marítimas por hora. As trirremes não possuem espaço a bordo para o preparo das refeições e nem para que os homens durmam. Isto é feito em terra[2].

É preciso lembrar, no que diz respeito à Palestina, que mercenários judeus já lutam em exércitos gregos mesmo antes de Alexandre Magno. Tornam-se, assim, conhecedores competentes desta organização militar, o que será útil, mais tarde, à resistência macabeia contra os Selêucidas.

Enfim, a guerra é um elemento central na civilização helenística, por razões econômicas, estratégicas ou ideológicas. De tal modo que a paz é apenas um período de preparação de uma nova guerra[3].

Calcula-se que, entre a morte de Alexandre, em 323 a.C., e a chegada de Pompeu, em 63 a.C., a Palestina é palco de pelo menos 200 campanhas militares, o que não é de se desprezar. Com todas as sequelas conhecidas de destruições, requisições, mortes, escravidão. A literatura da época conserva imagens significativas da visão judaica sobre o poder de Alexandre Magno e de seus sucessores. Como em 1Mc 1,1-4 que fala de “numerosas guerras”, do extermínio dos “reis da terra”, de seu avanço “até as extremidades do mundo”, e, pateticamente, do silêncio da terra diante do conquistador poderoso, que é Alexandre Magno. Ou na simbólica linguagem de Dn 7,7 e Dn 11,3.

 

2. Helenismo, fenômeno urbano

Um fato que logo chama a atenção de quem começa a estudar o helenismo é o fenômeno urbano. O helenismo é um fenômeno tipicamente urbano. A cidade é o seu berço. O processo de urbanização começa com Alexandre Magno – segundo Plutarco, só com o nome de Alexandria ele funda 70 cidades -, aprofundando-se com seus sucessores – veja-se o caso de Antíoco IV Epífanes – e se generaliza sob o Império Romano. Roma cria um forte mercado, transformando o Mediterrâneo em movimentada via de comunicação interna, o que leva as cidades portuárias a grande desenvolvimento. Este processo de urbanização atinge também o mundo judaico e a aristocracia de Jerusalém luta para transformá-la numa pólis. Por isso é preciso verificar este fenômeno de disseminação da pólis, na época, como fator de helenização.

Quando Alexandre Magno conquista o Oriente, a maior parte das cidades o acolhe favoravelmente e sem resistência. Nas cidades gregas da Ásia Menor – mas também nas cidades sírias e fenícias – Alexandre destitui os governos oligárquicos sustentados pela Pérsia e restabelece a democracia, restituindo-lhes a autonomia e a liberdade, embora coloque nestas cidades guarnições macedônias. As populações gregas da Ásia acolhem-no como um libertador. Por outro lado, se as cidades resistem à sua interferência, são destruídas e repovoadas com colonos estrangeiros. É o que acontece com Tiro, Gaza e Samaria, por exemplo. Às vezes, Alexandre mantém o tributo que é cobrado pelos persas, mas redireciona-o para as divindades locais, como faz em Éfeso, onde o santuário de Ártemis passa a recebê-lo. Com isto ele consegue o consenso da população local para a implantação da nova ordem macedônia.

Entretanto, o ideal sonhado pelas cidades libertadas é o de não pagar tributo, não alojar guarnições militares e nem sustentar o exército conquistador. Do que se conclui que sua “liberdade” é bastante relativa, pois Alexandre exige as três coisas.

Por que Alexandre fortalece as cidades? Porque ele precisa de fortalezas bem localizadas para a defesa do território, e as antigas cidades, em geral, estão em pontos estratégicos; porque ele precisa de sua estrutura social e política para garantir o seu domínio e porque ele precisa sustentar o seu exército[4].

As cidades orientais são também ideologicamente apropriadas pelos conquistadores, pelo menos segundo os escritores gregos, que relatam suas lendas de fundação como lendas gregas. Através de especulações etimológicas ou mitológicas, várias cidades da Palestina, por exemplo, são consideradas gregas porque “fundadas” por gregos. Assim Ráfia é relacionada com Dionísio, Gaza com um filho de Héracles, Dora com Doros, filho de Poseidon e assim por diante[5].

Os sucessores de Alexandre, em permanente conflito entre si, interferem muito nas cidades, transformando sua “liberdade” em obrigação de ficar do lado do governante do momento e não do lado do rei concorrente. Segundo Políbio, por exemplo, Filipe V, rei da Macedônia (221-179 a.C.) que está em confronto com Roma, dá a liberdade à cidade de Élis, situada a noroeste do Peloponeso, mas os seus habitantes preferem continuar aliados dos etólios que estão com os romanos. Os reis helenísticos chegam a vender cidades. Egina, conquistada pelos romanos e entregue aos etólios, é vendida por estes, em 211-210 a.C., por 30 talentos, ao rei de Pérgamo, Átalo I. E Antíoco III, o Grande, rei selêucida de 222-187 a.C., dá Stratoniceia de Cária a Rodes, segundo o mesmo Políbio[6].

Uma cidade, para ter autonomia, “que é um dos elementos da liberdade concedida pelos reis”, precisa conservar os “organismos da vida política herdados da idade clássica”[7]. Estes organismos básicos são os seguintes: magistraturas e sacerdócios epônimos, a boulé ou gerousia, estrategia, funções judiciárias, ginasiarquia e educação, organização das festas, provisão e supervisão dos mercados e polícia. As constituições das póleis helenísticas inspiram-se nos modelos jônios, dórios ou atenienses. Ou combinam vários modelos. Platão e Aristóteles, no século IV a.C., trabalham a questão da dimensão política da cidade, embora estas dimensões variem muito na época helenística[8]. Apesar da autonomia, as cidades helenísticas não são totalmente independentes, pois estão situadas no interior de reinos e impérios. Daí os constantes e variados modos de intervenção real nas cidades[9].

 

3. E todos falavam uma só língua: a koiné

Veículo fundamental de difusão do modo de vida grego no Oriente é a língua grega, conhecida neste período sob a forma de koiné. Koiné significa “comum”, e designa a língua única, comum a todos, que substitui, após as conquistas de Alexandre Magno, a pluralidade dos dialetos gregos. Esta língua, mais simples do que o grego clássico e mais flexível na absorção de elementos novos, torna-se instrumento indispensável para a comunicação dos povos tão diferenciados que constituem as monarquias helenísticas.

Qual é a origem da koiné?

No fim do III milênio ou começo do II milênio a.C. tribos vindas do norte introduzem o indo-europeu na Grécia. Os gregos não chamam sua pátria de Grécia, mas de Hellás e a si mesmos de helenos, nome derivado de uma tribo que, na época das migrações indo-europeias, se estabelece em parte da Tessália. Embora os gregos falassem vários dialetos, quando é criado o império ateniense no século V a.C. acontece uma tendência unificadora com predominância do dialeto ático. Com a conquista macedônia adota-se um dialeto único, baseado no ático, que é a koiné diálektos, a koiné do mundo helenístico[10].

Mas, para entendermos a importância da koiné como instrumento de helenização é necessário verificarmos o seu papel na circulação dos bens culturais e na estrutura política do dominador macedônio. Os modos de circulação da koiné são os jogos, as artes (poetas, músicos, atores), o comércio, a ciência, a filosofia, o exército, a administração…

M. Hengel observa que “os mercadores gregos negociavam nela [na koiné], tanto na Báctria, nas fronteiras da Índia, quanto em Marselha; as leis eram promulgadas nela e os tratados elaborados segundo determinado esquema; ela era a língua do diplomata e do homem de letras; e qualquer um que almejasse respeitabilidade social ou apenas a reputação de ser um homem educado deveria ter um impecável conhecimento dela”[11].

Vejamos, em primeiro lugar, os jogos, eficiente modo de circulação da koiné e dos padrões gregos de comportamento. Na época helenística há Jogos Olímpicosgrande difusão dos jogos de tipo olímpico. Tanto os reis, como os santuários ou as cidades os instituem por toda a parte. Ou para honrar seus antepassados, ou para comemorar uma vitória, ou ainda para agradecer aos deuses por terem se salvado de alguma catástrofe.

H.-I. Marrou, em seu conhecido estudo sobre a educação na antiguidade, diz a propósito: “Onde quer que se implante o helenismo aparecem ginásios, estádios, edificações esportivas; reencontramo-los por toda parte, de Marselha à Babilônia ou Susa, do Egito meridional à Crimeia e não somente nas grandes cidades, mas até nas menores aldeias de colonização, por exemplo, em Fayum. O esporte não é para os gregos apenas um divertimento apreciado; é algo de muito sério, que se relaciona com todo um conjunto de preocupações higiênicas e médicas, estéticas e éticas a um só tempo”[12].

Há quatro grandes festivais pan-helênicos, ocasião em que vêm visitantes de todas as partes do mundo grego e em que circulam músicos, atores, poetas, políticos e atletas. Estes festivais enfatizam a unidade da raça grega, incentivam a prática do atletismo como uma postura social civilizada e estimulam as artes, especialmente a poesia, a música, a escultura e a pintura. São eles: o festival Olímpico, celebrado em Olímpia a cada quatro anos; o festival Pítico, realizado em Delfos no terceiro ano de cada Olimpíada, em agosto-setembro, para celebrar a vitória de Apolo sobre a serpente Píton; o festival Ístmico, celebrado no istmo de Corinto em honra de Melicertes, um grego divinizado que morre afogado e cujo cadáver aparece numa praia do istmo de Corinto; e o festival Nemeu, realizado a cada dois anos no vale de Nemea, perto de Cleoneia, na Argólida, dois meses após o festival Ístmico. A tradição diz que o festival se celebra em honra de Ofeltes, morto durante a expedição dos Sete contra Tebas [13].

Sobre o festival Olímpico, observa P. Harvey: “Poetas e oradores aproveitavam-se da grande afluência de visitantes para tornarem-se conhecidos mediante a declamação de suas obras. Atletas e donos de cavalos de corridas vinham de muitos Estados gregos, e realizava-se simultaneamente uma grande feira. Pode-se fazer uma ideia aproximada do número de pessoas presentes ao festival considerando o fato de o estádio de Olímpia ter capacidade para acomodar 40.000 espectadores sentados”[14].

Além das festas pan-helênicas, há as festas regionais, que também atraem visitantes. Em Atenas são celebradas as Panatenaias, as Tesmoforias, as Targélias, as Pianêpsias, as Apatúrias e 4 festas em honra de Dionísio (as Dionísias Rústicas, as Lenaias, as Antestérias e as Dionísias Urbanas). Em Esparta são celebradas as Ginopedias e as Cárneias. Em Argos, a Heraia etc.

Cópia romana do Discóbolo, de Míron (séc. V a.C.)Mas, deixemos as festas. Vamos a outro modo de circulação da koiné: os médicos ambulantes. Há também os médicos da corte, que além de exercerem sua função técnica são, frequentemente, discretos conselheiros reais e até embaixadores. Mas o que nos interessa são os médicos públicos.

O médico público é nomeado pela assembleia do povo na pólis, recebe seus proventos da cidade, que institui um imposto para tal fim, o iatrikon (iatrikós, “pertencente aos médicos ou à medicina”; he iatrikê, “a medicina”). São muito respeitados e vários decretos honoríficos louvam sua competência e devotamento, especialmente em situações críticas como terremotos e epidemias. Hipócrates, nascido em Cós por volta de 460 a.C. é o modelo do médico grego.

Como vimos, as conquistas de Alexandre alargam os domínios gregos em desmesurada proporção. As guerras contínuas entre os vários Estados helenísticos e entre estes e Roma criam a necessidade de amplo uso da diplomacia. Assim, os embaixadores são também portadores da língua grega que chamamos de koiné. Como não existe um corpo diplomático permanente e profissional, são filósofos, médicos, sábios, historiadores e juristas que cumprem tais tarefas. Ou homens ricos de famílias de renome. Veja-se o caso do historiador Políbio e de seu pai Licortas, participando de embaixadas no século II a.C. Aliás, Políbio escreve sua “História” na língua koiné[15].

A filosofia é outro instrumento de circulação da koiné. Quatro grandes escolas florescem, além de outras tendências menores. Gente de todo o mundo helenístico acorre aos grandes centros filosóficos ou escuta os filósofos ambulantes.

As quatro grandes escolas são a Academia, fundada por Platão, que pensa em dedicar-se à política, mas acaba voltando-se para a filosofia quandoSócrates (Atenas, ca. 470-399 a.C.) - Museus Capitolinos, Roma conhece Sócrates, por volta de 407 a.C., tornando-se seu fiel aluno[16]; outra grande escola filosófica é o Liceu, fundada por Aristóteles em 335 a.C. A influência de Aristóteles sobre todo o conhecimento, ciência e cultura posteriores é imensa. Entre os peripatéticos da época helenística destaca-se Teofrasto (ap. 371-ap. 287 a.C.), sucessor de Aristóteles à frente do Liceu; o Jardim é a escola fundada por Epicuro em 306 a.C.[17]; o Pórtico, fundado por Zenão de Cítion, um semita de Chipre, por volta de 315 a.C. em Atenas e leva este nome porque funciona em uma Stoá (= colunata, pórtico). Um dos aspectos mais populares do estoicismo é a sua pregação de uma fraternidade universal entre os homens, onde não haveria distinção entre gregos e bárbaros nem entre livres e escravos. Segundo o estoicismo “o essencial é distinguir ‘o que depende de nós’ e ‘o que não depende de nós’. No segundo grupo fica tudo o que depende das paixões, e o que é preciso aprender a renunciar através de uma longa ascese que vai conduzir ao domínio sobre si próprio, à apatia (ausência de paixão). O que depende de nós é precisamente a vontade, que faz do sábio um igual a Deus. Moral dura mas exaltante, que torna o homem independente das circunstâncias, e, em particular, da sua classe e da sua situação”[18]. Mas esta moral estoica é fatalista, pois sustenta o conformismo a uma dada ordem.

Além destas quatro grandes escolas, devem ser mencionados também os céticos e os cínicos. A Escola Cética é fundada por Pírron de Élis, que vive de ap. 365 a 275 a.C. Pírron participa da expedição de Alexandre Magno. Pírron parte das contradições percebidas pelos sentidos e pelas operações do espírito para afirmar a impossibilidade do conhecimento da natureza das coisas. Então ele prega a suspensão do julgamento e a indiferença em relação ao mundo exterior[19]. A Escola Cínica é fundada em Atenas por Antístenes, nascido por volta de 440 a.C. Antístenes é discípulo e amigo de Sócrates. A escola tem esse nome porque funciona no ginásio Cinosarges, nome de um local a leste de Atenas, fora das muralhas, onde há um santuário de Héracles, aliás, segundo Antístenes, o modelo a ser imitado. O cinismo é um típico fenômeno de contracultura, meio parecido com o movimento hippie. “O cinismo é uma reivindicação de liberdade absoluta, tanto em relação às paixões quanto às necessidades físicas e às obrigações sociais. Ele é uma exasperação do ideal de autarquia, tão fortemente enraizado na mentalidade grega”[20].

Platão (Atenas, 428/27-348/47 a.C.) - Museus Capitolinos, RomaPara terminar a questão filosófica, é útil lembrarmos que com Sócrates, Platão e Aristóteles a filosofia grega chega ao seu ápice. Mas a sua reflexão se situa no âmbito da cidade-estado independente, condição que as conquistas de Alexandre Magno e a fundação das monarquias helenísticas ultrapassam. Os ensinamentos destes grandes filósofos tornam-se insuficientes para responder à nova realidade. As novas correntes de pensamento, especialmente o estoicismo e o epicurismo, atentos a essa realidade, deslocam o interesse da metafísica e da epistemologia para os problemas práticos da conduta humana. Entretanto, “são filosofias mais da resignação que da esperança, e procuram um caminho para a paz e a felicidade no estado de espírito do indivíduo, tornando-o independente das circunstâncias exteriores”[21].

Deixando de lado a filosofia e voltando à Judeia, observamos que também aí a koiné deixa as suas marcas. Os papiros de Zenão, testemunham ser a língua grega bem conhecida pela alta sociedade do judaísmo palestino já por volta do ano 260 a.C. e as cartas que o judeu Tobias escreve a Apolônio e ao rei Ptolomeu II Filadelfo testemunham que seu secretário domina um excelente grego[22].

Devemos supor que também em Jerusalém, no século III a.C., uma respeitável minoria aristocrática fale o grego corretamente. Sabemos que José, o filho de Tobias, incrementa o modo de vida grego em Jerusalém a partir de 242 a.C., quando se torna o prostátes, chefe administrativo e financeiro da Judeia. M. Hengel observa que “enquanto o senhor feudal Tobias residia na Transjordânia, José e os seus descendentes viviam na cidade junto com a nobreza que tendia a urbanizar-se, de modo que Jerusalém pouco a pouco se abriu à influência helenística”[23].

Quando Antíoco IV Epífanes entra em choque com os judeus no século II a.C. o grego já é muito difundido. A luta dos Macabeus e a resistência à helenização não impedem a difusão da língua nem diminuem a sua influência. Até mesmo porque se os Macabeus desejam influenciar a numerosa e forte diáspora judaica de fala grega, precisam desta língua internacional. Atestam esta realidade a produção literária judaica em grego e a tradução grega de obras escritas em hebraico.

Finalmente, é necessário observar que o costume de adotar nomes gregos cresce progressivamente entre os judeus e por toda a Palestina. UmaAristóteles (Estagira, 384 - Cálcis, 322 a.C.) - Museo Nazionale Romano, Roma forma intermediária bastante usada pelos judeus é o nome duplo semita-grego, como Eliakim-Alcimo, Jeshua-Jasão, Simeão-Simão.

A barreira linguística é uma barreira social. Ilustra-o o caso – até mesmo cômico – que está em um dos papiros de Zenão (Papiro Colúmbia-Zenão 66). No fim de sua viagem pela Palestina, em 258 a.C., Zenão deixa em Jope um seu auxiliar sem o pagamento prometido. Ele então foge para o interior do país “para não morrer de fome”. Ao ser obrigado a voltar para o Egito é privado até mesmo do salário mínimo e diz: “Por isso estou angustiado no verão e no inverno. Jasão mandou-me aceitar vinho de má qualidade como pagamento. Agora tratam-me com desprezo, porque sou um bárbaro. Peço-lhe, portanto (…) que exija deles dar-me o que me cabe e que para o futuro deem-me todo o pagamento para que não morra de fome pelo fato de não conhecer corretamente a língua grega (hóti ouk epístamai hellênízein)”[24].

Com efeito, o termo hellênízein significa primariamente “falar grego corretamente” e também “adotar um estilo de vida grego”. E a ironia: a carta do suplicante está escrita em grego… Assim como os nossos atuais cientistas sociais precisam escrever em inglês para denunciar o domínio dos países ricos sobre os países pobres…

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[1]. LÉVÊQUE, P. Impérios e barbáries do século III a.C. ao século II d.C. Lisboa: Dom Quixote, 1979, p. 32.

[2]. Cf. HARVEY, P. Dicionário Oxford de literatura clássica grega e latina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, verbete Embarcações.

[3]. Cf. PRÉAUX, C. Le Monde hellénistique. La Gréce et l’Orient (323-146 av. J.-C.) I. 4. ed. Paris: Presses Universitaires de France, 2003, p. 332-357. Cf. também  PLUTARCO Pirro 12. Em Vidas Paralelas III: São Paulo: PAUMAPE, 1991, p. 21. Plutarco faz eco a Platão que em Leis I, 626a diz: “O que a maioria dos homens denomina paz, disso tem apenas o nome, pois em verdade, embora não declarada, é a guerra o estado natural das cidades entre si”. Cf. PLATÃO Diálogos, vols. XII-XIII. Belém: Universidade Federal do Pará, 1980, p. 21. A partir de 2000, a Universidade Federal do Pará iniciou a reedição gradual dos Diálogos de Platão, sob a coordenação do filósofo Benedito Nunes.

[4]. Cf. PRÉAUX, C. Le Monde hellénistique. La Gréce et l’Orient (323-146 av. J.-C.) II. 4. ed. Paris: Presses Universitaires de France, 2002, p. 408-410.

[5]. Cf. SCHÜRER, E. The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ II. Edinburgh: Bloomsbury T & T Clark, 1986, p. 50-52. 

[6]. Cf. POLÍBIO História IV, 84; XXII, 8,10 e XXX, 31. Brasília: Editora da UnB, 1985. Para outros dados sobre a liberdade das cidades, cf. PRÉAUX, C. Le monde hellénistique II, p. 411-412.

[7]. PRÉAUX, C. Le monde hellénistique II, p. 414. 

[8]. Cf. PLATÃO Leis V, 737d-738e, em Diálogos, vols. XII-XIII, p. 149-151. ARISTÓTELES Política VII, 1326 a-b. Em Política. 6. ed. São Paulo: Lafonte, 2012.

[9]. Cf. exemplos em PRÉAUX, C. Le monde hellénistique II, p. 415-428. 

[10]. Cf. HARVEY, P. o. c., verbete Migrações e Dialetos.

[11]. HENGEL, M. Judaism and Hellenism: Studies in their Encounter in Palestine during the Early Hellenist Period. London: SCM Press, 2012, p. 58.

[12]. MARROU, H.-I. História da educação na antiguidade. 5ª reimpressão. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1990, p. 185.

[13]. Cf. HARVEY, P. o. c., verbete Festivais.

[14]. HARVEY, P. o. c., verbete Festivais

[15]. Cf. sobre os embaixadores, PRÉAUX, C. Le monde hellénistique I, p. 220-224.

[16]. Cf. PLATÃO Diálogos 13 vols. Belém: Universidade Federal do Pará, 1973-1980. A partir de 2000, a Universidade Federal do Pará iniciou a reedição gradual dos Diálogos de Platão, sob a coordenação do filósofo Benedito Nunes; DE ROMILLY, J. Fundamentos da literatura grega. Rio de Janeiro: Zahar, 1984, p. 188-202. A influência e a difusão do platonismo são imensas em todo o mundo helenístico. Entre os vários nomes célebres da Academia, lembro, a propósito da Palestina, Antíoco de Askalon, do século I a.C.

[17]. HARVEY, P. o. c., verbete Epícuros, explica que “os ensinamentos dessa escola filosófica são condensados concisamente nas doze palavras que o filósofo epicurista Diôgenes de Oinoanda (na Líbia) inscreveu em um lugar de meditação em sua cidade: ‘Aphobon ho theôs, anáistheton ho thânatos, tô agathon êukteton, tô deinon euekkartêreton‘ (não há o que temer em Deus, não se sente a morte, o Bem está ao nosso alcance, o Mal é suportável)”. Segundo o epicurismo não há o temer dos deuses, porque eles são indiferentes em relação aos homens e não há porque temer a morte, porque a alma é constituída de sutis átomos materiais e se desagregam no momento da morte. O epicurismo é uma filosofia de notável sucesso na época helenística, tanto no Oriente quanto em Roma. Atinge as classes populares, as mulheres e os escravos. Da Palestina conhecemos Filodemo de Gadara, filósofo epicurista do século I a.C.

[18]. LÉVÊQUE, P. O mundo helenístico. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 119. O estoicismo difunde-se muito por todo o mundo helenístico e no ambiente romano. Cícero, Sêneca, o Filósofo, e Marco Aurélio, imperador romano, por exemplo, são estoicos. Na Palestina destacam-se os filósofos estoicos Boécio de Sidon, do século II a.C., e Antíoco de Askalon, dos séculos II/I a.C.

[19]. Cf. HARVEY, P. o. c., verbete Escola Cética.

[20]. PRÉAUX, C. Le monde hellénistique II, p. 620. Diôgenes de Sinope, do século IV a.C., é o mais famoso filósofo cínico. Vários ditos espirituosos atribuídos a Diógenes são recolhidos por Diógenes Laércio, escritor do século III d.C. Um filósofo cínico conhecido da Palestina é Menipo de Gadara. Escravo de nascimento, vive no século III a.C. e cria uma obra filosófica satírica que conquista o mundo grego e, mais tarde, Roma.

[21]. HARVEY, P. o. c., verbete Filosofia. O que é confirmado por PRÉAUX, C. Le monde hellénistique II, p. 607: “Os filósofos helenísticos têm uma função de evasão: vontade de contracultura dos cínicos, procura de indiferença pelos epicuristas, fatalismo dos estoicos, suspensão de julgamento dos céticos”.

[22]. Os papiros de Zenão constituem uma coleção de cerca de 2.000 papiros, encontrados após 1910, perto da antiga Filadélfia, localizada nas vizinhanças do oásis de Fayum, Egito, e trazem os arquivos de Zenão, que entra para o serviço de Apolônio, poderoso ministro de Ptolomeu II Filadelfo, no qual permanece 13 anos, de 261 a 248 a.C. Zenão faz uma viagem de negócios para seu patrão, à Palestina, no final de 260 a.C. Fica na região até o começo de 258 a.C., isto é, por um período de 13 a 14 meses e alguns de seus papiros relatam o que aconteceu por lá. Cf. ORRIEUX, C. Les papyrus de Zenon. L’orizon d’un grec en Egypte an IIIe siècle avant J. C. Paris: Macula, 1988.

[23]. HENGEL, M. Ebrei, Greci e Barbari. Aspetti dell’ellenizzazione del giudaismo in epoca precristiana. Brescia: Paideia, 1981 , p. 60.

[24]. Cf. ORRIEUX, C. Les papyrus de Zenon, p. 132-133.