Guimarães Rosa

GRANDE SERTÃO: VEREDAS – SEQUÊNCIAS NARRATIVAS

 

A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam (…) Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe (n. 56).

Grande Sertão: VeredasJoão Guimarães Rosa nasceu no dia 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais e morreu, no Rio de Janeiro, no dia 19 de novembro de 1967, com 59 anos e 5 meses. Sua obra mais importante é o romance Grande Sertão: Veredas, publicado em maio de 1956, pela José Olympio, do Rio de Janeiro.

Para orientar o leitor no grande monólogo que é Grande Sertão: Veredas, dividi o texto em sequências narrativas. Sem muito rigor, diriam os teóricos da literatura. Esforcei-me, entretanto, em usar minhas ferramentas exegéticas… Percebo 159 episódios, grandes e pequenos, que, ligados em trama sutil, constituem a reflexão de Riobaldo. Após cada “título”, dado por mim à sequência, cito, em itálico, a primeira frase do texto de Guimarães Rosa – ou parte dela – para que o leitor se localize. O texto utilizado foi: ROSA, G. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Abril Cultural, 1983, 429 p. [Publicado sob licença da Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro].

I
1. Os tiros
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.
2. O sertão
O senhor tolere, isto é o sertão.
3. O demônio
Do demo? Não gloso.
4. Um chamado Aleixo
Mas, em verdade, filho, também, abranda. Olhe: um chamado Aleixo…
5. Pedro Pindó
Mire veja: se me digo, tem um sujeito Pedro Pindó…
6. Deus e o Diabo
Bem, mas o senhor dirá, deve de: e no começo – para pecados e artes…
7. Um moço Jazevedão
Haja? Pois, por um exemplo: faz tempo, fui, de trem, lá em Sete-Lagoas…
8. Joé Cazuzo
De jagunço comportado ativo para se arrepender no meio de suas jagunçagens…
9. Dor de ideia
Por tudo, réis-coado, fico pensando. Gosto.
10. Piolho-de-Cobra
De sorte que, então, olhe: o Firmiano, por apelidado Piolho-de-Cobra...
11. Culpa
Bom, ia falando: questão, isso que me sovaca…
12. A faquinha no curtume
A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque…
13. Mocidade e velhice
Somemos, não ache que religião afraca. Senhor ache o contrário.
14. Vender a alma ao diabo
Agora, bem: não queria tocar nisso mais – de o Tinhoso: chega.
15. A visita
Eh, que se vai? Jàjá? É que não. Hoje, não. Amanhã, não. Não consinto.
16. Este mar de territórios
Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios…

III
17. Com Diadorim, na Fazenda Boi-Preto
Muito deleitável. Claráguas, fontes, sombreado e sol. Fazenda Boi-Preto, dum Eleutério Lopes…
18. Medeiro Vaz
Não respondi. Não adiantava. Diadorim queria o fim. Para isso a gente estava indo.
19. Este mar de territórios
Ah, eu estou vivido, repassado. Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem…
20. Com Nhorinhá, na Aroerinha
Digo: outro mês, outro longe – na Aroerinha fizemos paragem. Ao que, num portal, vi uma mulher moça…
21. Ana Duzuza, Medeiro Vaz e o Liso do Sussuarão, e a discussão com Diadorim
Mãe dela chegou, uma velha arregalada, por nome de Ana Duzuza…
22. O diabo
Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas.
23. Sobre a infância de Riobaldo
Mas aí, eu estava contando – quando eu gritei aquele desafio raivoso, Diadorim respondeu…
24. O sitiante Jõe Engrácio, no Vespê
De sorte que, do que eu estava contando, ao senhor, uma noite se passou, todo mundo sonhado satisfeito.
25. Medeiro Vaz
Medeiro Vaz não era carrancista. Somente de mais sisudez, a praxe, homem baseado.
26. No Bambual do Boi
Razão dita, de boa-cara se aceitou, quando conforme Medeiro Vaz com as poucas palavras…
27. A caminho do Liso do Sussuarão
Em o que afundamos num cerrado de mangabal, indo sem volvência, até perto da hora do almoço.
28. O Hermógenes tem pauta
Exponho ao senhor que o sucedido sofrimento sobrefoi já inteirado no começo; daí só mais aumentava.
29. No Liso do Sussuarão
Mas mor o infernal a gente também media. Digo. A igual, igualmente.
30. Saindo, de volta, do Liso do Sussuarão
Mas, para que contar ao senhor, no tinte, o mais que se mereceu? Basta o vulto ligeiro de tudo.
31. Fazenda Burití-do-Zé, de Sebastião Vieira
Talmente, também, se carecia de tomar repouso e aguardo.
32. Debruçando para Goiás
Por que foi que não se fez combate, depois naqueles meses todos?
33. Rezas
Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem…
34. Quelemém
Raciocinei isto com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça…
35. Um moça, no Barreiro-Novo
Todo assim, o que minha vocação pedia era um fazendão de Deus, colocado no mais tope…
36. Um casal, no Rio do Borá
Mire veja: um casal, no Rio do Borá, daqui longe, só porque marido e mulher eram primos carnais…
37. O doutor rapaz, no vale do Arassuaí
Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale…
38. Acampados em pé duns brejos, Burití das Três Fileiras
Ao que nós acampados em duns brejos, brejal, cabo de várzea.
39. Viagem com Sesfrêdo
Galopando junto com o Sesfrêdo, larguei aquele lugar do Burití das Três Fileiras. Pesares que me desenrolavam.
40. Com o bando de João Goanhá
Ainda disse João Goanhá que estávamos em brevidade. Porque ele sabia que os Judas, reforçados…
41. Trabalhando na mineração, em Arassuaí
Chegamos no Córrego Cansanção, não longe do Arassuaí.
42. Guiando o Vupes, para São Francisco
Ah, eh e não, alto-lá comigo, que assim falseio, o mesmo é. Pois ia me esquecendo: o Vupes!
43. Em busca de Medeiro Vaz
Demos no Rio, passamos. E, aí, a saudade de Diadorim voltou em mim…
44. A fazenda velha, no Ribeirão Entre-Ribeiros
E agora me lembro: no Ribeirão Entre-Ribeiros, o senhor vá ver a fazenda velha, onde tinha um cômodo…
45. Riacho Ciz
Assim, olhe: tem um marimbú – um brejo matador, no Riacho Ciz – lá se afundou uma boiada quase inteira…
46. A forca, no São Simão do Bá
Agora, a forca, eu vi – forca moderna, esquadriada, arvorada bem erguida no elevado….
47. Sobre Zé Bebelo
Zé Bebelo – ah. Se o senhor não conheceu esse homem, deixou de certificar que qualidade…
48. A morte de Medeiro Vaz, no Marcavão
Pois porém, ao fim retomo, emendo o que vinha contando. A ser que, de campinas a campos…
49. A escolha do novo chefe: Marcelino Pampa
– “Riobaldo, tu comanda. Medeiro Vaz te sinalou com as derradeiras ordens…” Todos estavam lá, os brabos…
50. Caso do Faustino e do Davidão
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de Antônio Dó, tinha um grado jagunço…
51. Marcelino Pampa não dava altura
A que, o que logo vi, que Marcelino Pampa, por bem de seu dispor, não dava altura.

IV
52. Chega Zé Bebelo, escolhido como chefe
Mas, depois de janta, quando estávamos outra vez reunidos…
53. Ataque aos Judas, no Burití-Pintado
Dando o dia, de repente, Zé Bebelo determinou que tudo e tudo fosse pronto, para uma remarcha…
54. Nas Veredas Tortas
Rumo a rumo de lá, mas muito para baixo, é um lugar. Tem uma encruzilhada.
55. O arraial do Paredão
O Paredão existe lá. Senhor vá, senhor veja. É um arraial. Hoje ninguém mora mais. As casas vazias.
56. Assim é que eu conto
Sei que estou contando errado, pelos altos, Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense.
57. A carta de Nhorinhá
Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela…
58. Matéria vertente
Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai avante.

II
59. Início: o encontro com o menino no porto do Rio-de-Janeiro
Foi um fato que se deu, um dia, se abriu. O primeiro. Depois o senhor verá por que…
60. Com o padrinho Selorico Mendes, na Fazenda São Gregório
Adiante? Conto. O seguinte é simples. Minha mãe morreu – apenas a Bigrí, era como ela se chamava.
61. Estudando no Curralinho
Mas eu não sabia ler. Então meu padrinho teve uma decisão: me enviou para o Curralinho…
62. Primeiro encontro com Joca Ramiro, no São Gregório
Depois pouco que voltei do Curralinho, definitivo, grande fato se deu, que ao senhor não escondo.
63. Meu padrinho
Semanas seguintes, meu padrinho só falou nos jagunços. Dito que Joca Ramiro era um chefe cursado…
64. A canção de Siruiz
Não estou caçando desculpa por meus errados, não, o senhor reflita.
65. Lordeza
Meu padrinho Selorico Mendes me deixava viver na lordeza. No São Gregório, do razoável de tudo eu…
66. Fuga da Fazenda São Gregório
Mas, um dia – de tanto querer não pensar no princípio disso, acabei me esquecendo quem – me disseram que…
67. No Curralinho
Em casa de seo Assis Wababa, me deram trato regozijante. No que jantei, ri, conversei.
68. Professor de Zé Bebelo, na Fazenda Nhanva
Aí me explicou: um senhor, no Palhão, na fazenda Nhanva, altas beiras do Jequitaí, para o ensino…
69. Zé Bebelo sai para a guerra
A tal que, enfim, veio o dia de se sair, guerreiramente, por vales e montes, a gente toda.
70. Fuga do bando de Zé Bebelo
Fugi. De repente, eu vi que não podia mais, me governou um desgosto.
71. Encontro com o Reinaldo, na casa de Malinácio
Meu cavalo era bom, eu tinha dinheiro na algibeira, eu estava bem armado. Virei, vagaroso.
72. Seguindo o pessoal de Titão Passos, com Reinaldo
Logo que o Reinaldo me conheceu e me saudou, não tive mais dificuldade em dar certeza aos outros…
73. A amizade com Reinaldo
Dali, rezei minha ave-mariazinha de de-manhã, enquanto se desalbardava e amilhava.
74. Lealdade a Zé Bebelo ou a Joca Ramiro?
Assim mesmo, naquele estado exaltado em que andei, concebi fundamento para um conselho…
75. O medo e a conquista da coragem com ascese
Foi que Titão Passos, pensando mais, me disse: – “Tudo temos de ter cautela…
76. Meu nome verdadeiro é Diadorim
Eu não podia tão depressa fechar meu coração a ele. Sabia disso. Senti. E ele curtia um engano…
77. Primeiro encontro com Otacília (lugar na estória: 112)
Hoje em dia, verso isso: emendo e comparo. Todo amor não é uma espécie de comparação?
78. Diadorim
Diadorim – dirá o senhor: então, eu não notei viciice no modo dele me falar, me olhar…
79. No acampo do Hermógenes
Assim ao feito quando logo que desapeamos no acampo do Hermógenes; e quando!
80. Diadorim + Riobaldo x Facho Bode + Fulorêncio
Mas Diadorim sendo tão galante moço, as feições finas caprichadas. Um ou dois, dos homens…
81. Atiro bem
Só o que mesmo devo de dizer, como atiro bem: que vivo ainda por encontrar quem comigo se iguale…
82. No acampo do Hermógenes
No que foi, no que me vi, no acampo do Hermógenes. Cabralhada. Tiba.
83. Antônio Dó e Andalécio
Mas, mire e veja o senhor: nas éras de 96, quando os serranos cismaram e avançaram…
84. A organização do bando
Atinei mal, no começo, com quem era que mandava em nós todos. O Hermógenes. Mas, perto duns…
85. Como era que eu atirava
Aí, quis que soubessem logo como era que eu atirava. Até gostavam de ver: – “Tatarana, põe o dez no onze…”
86. O Hermógenes era ruim
A bronzes. O ódio pousa na gente, por umas criaturas. Já vai que o Hermógenes era ruim, ruim.
87. Mulheres
Então, eu era diferente de todos ali? Era. Por meu bom. Aquele povo da malfa…
88. Os amigos
Permeio com quantos, removido no estatuto deles, com uns poucos me acompanheirei…
89. Ezirino e Batatinha
Amigo? Homem desses, alguém dizendo a um que ele é demônio de ruim, ele ira de não querer ser…
90. O Garanço
De manhã cedo, eu soube: tinham até dansado, aquela véspera.
91. Antenor
O senhor aprende? Eu entoo mal. Não por boca de ruindade, lá como quem diz.
92. Eu estreava umas ânsias
Cacei Diadorim. Mas eu estreava umas ânsias. Como fosse, falei, do novo e do velho…
93. Encontro com Otacília, na Fazenda Santa Catarina (lugar na estória: 112)
Do ódio, sendo. Acho que, às vezes, é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor…
94. Ataque ao bando de Zé Bebelo
Vim. Diadorim nada não me disse. A poeira das estradas pegava pesada de orvalho.
95. Retirada
– “Tu, Tatarana, Riobaldo: agora é a má hora!” – era o Hermógenes prevenindo.
96. Jõe Bexiguento
Só vi um, o Jõe Bexiguento, sobrechamado o Alpercatas: esse era homem de estranhez em muitos seus…
97. O caso de Maria Mutema
Naquele lugar existia uma mulher, por nome Maria Mutema, pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade.
98. A falta que Diadorim me fazia
E foi isso que Jõe Bexiguento a mim contou, e que de certo modo me divagasse. Mas, foi ele acabar de contar…
99. A volta de Diadorim
Lembro que naquela manhã também o calor era menos, e o ar era bondoso.
100. Chega Sô Candelário
Ao que, com João Goanhá de testa-chefe, saímos, uns cinquenta, pegar uma tropa de cargueiros…
101. Esperando Joca Ramiro, no É-Já
O lugar onde esbarramos, no É-Já, era logo depois da ponte de pau, que estando esburacada…
102. Chega Joca Ramiro
Antes foi uma coisa acontecida repentina: aquele alvoroço, na cavalhada geral. Aí o mundo de homens…
103. Combate e prisão de Zé Bebelo
Desde ver, a figura dele tinha parado no meio da gente, noutra coisa não se falava.
104. Julgamento de Zé Bebelo, na Fazenda Sempre-Verde
A Fazenda Sempre-Verde era a casa enorme, viemos saindo da estrada e entrando nas cheganças…
105. Conversa com Diadorim
Eu tinha vindo para ali, para o sertão do Norte, como todos uma hora vêm.
106. Separação dos bandos
Curtamente: dali, da Sempre-Verde, com um dia mais, desapartamos. O bando muito grande de jagunços…
107. Dois meses com Titão Passos, na Guararavacã do Guaicuí
Ao quando um belo dia, a gente parava em macias terras, agradáveis. As muitas águas. Os verdes…
108. Chega a notícia do assassinato de Joca Ramiro
Ah, e, vai, um feio dia, lá ele apontou, na boca da estrada que saía do mato, o cavalinho castanho…
109. Reunindo os bandos para a vingança
Mas assim se deu que, no seguinte dia, no romper das barras, saímos tocando. Diadorim do meu lado…
110. Os Judas escapolem
Saímos, sobre, fomos. Mas descemos no canudo das desgraças, ei, saiba o senhor.
111. Luta contra os soldados
E pois demore o senhor para o pior: o que veio em sobre!: os soldados do Governo.
112. Rumo dos Gerais, ao encontro de Medeiro Vaz
De mim, vim, com Diadorim, Alaripe, Jesualdo e João Vaqueiro, e o Fafafa. Era para o outro lado, era para…
113. Ligação com as páginas iniciais
Subindo em esperança, de lá saímos, para chão e sertão. Sertão bravo: as araras.

V
114. Com Zé Bebelo, caçando os Judas
Vemos, voltemos. O Buriti-Pintado, o Ôi-Mãe, o rio Soninho, a Fazenda São Serafim…
115. Três dias na Fazenda dos Tucanos, ferido no braço
A ser, porque, numa volta do Ribeirão-do-Galho-da-Vida, a gente tinha topado com turma de inimigos…
116. Mais ou menos cinco dias cercados pelos hermógenes, na Fazenda dos Tucanos
Deram um tiro, de rifle, mais longe. O que eu soube. Sempre sei quando um tiro é tiro – isto é – quando outros…
117. Retirada a pé
A de entre, entramos, pela esquerda e rumo do norte. Desde o depois, o do poente mesmo.
118. Nos Currais-do-Padre
Aí, vai, chegamos no Currais-do-Padre. O lugar que não tinha curral nenhum, nem padre: só o buritizal…
119. Perdidos no sertão
Afiguro, desde o começo desconfiei de que estávamos em engano. Rumos que eu menos sabia…
120. No Pubo: os catrumanos daquelas brenhas
Os quantos homens, de estranhoso aspecto, que agitavam manejos para voltarmos de donde estávamos.
121. Atravessando o Sucruiú
Mas em tanto, então levantei o meu entender para Zé Bebelo – dele emprestei uma esperança…
122. No retiro Valado, do seô Habão
São os momentos, se sei. Senti um cansaço. Adiantamos ligeiro, depois que passado o vau da mata-virgem…
123. No retiro Coruja, nas Veredas-Mortas: o pacto
Pelo que umas cinco léguas andamos. De medo, meio, conforme decerto, aquele algum seô Habão também…

VI
124. Riobaldo chefe: Urutu-Branco
Acordei. A madrugada com luar, me lembro, acordei com o rumor de cavaleiros que vinham chegando…
125. Convocação dos homens do Sucruiú e do Pubo
De seguida, parado persisti, para um prazo de fôlego. Aí vendo que o pessoal meu já me obedecia…
126. A cavalgada
Ver o seguinte. Eu queria esses campos. Pernoitamos, com marcha de dez léguas, assim mesmo.
127. Na Fazenda Barbaranha, no Pé-da-Pedra, do seu Ornelas
Ora vez, que, desse jeito, fomos entortando, entre as duas chapadas, encalço da estrada do rio; e se chegou…
128. O demo quer morte: Diadorim percebe
Rompemos uma duas léguas, em estradas de muita areia. Mas eu já estava agastado.
129. Um tal nhô Constâncio Alves: o demo quer morte
De que tivesse neste mundo, um tal nhô Constâncio Alves, o que era que eu ponderava com isso?
130. O desgraçado do homenzinho-na-égua: o demo quer morte
De seguida, o primeiro veio, logo mais adiante; quase no se inteirarem três léguas.
131. E o demo existe? As dúvidas
Do que acontecido, me senti muito livre. Trotei, adiante. Eu ia, à meia-rédea, não me instava, não pensava.
132. A volta do Quipes
Na serra do Tatu, o frio ali é tal, que, em madrugadas, a gente necessita de uns três cobertores. Na Serra…
133. A saudade de Otacília
Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim, digo – o recado enviado.
134. O demo: matar o lázaro?
O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era em mim valentia, não pensava; e o que pensava…
135. Os cinco urucuianos deixam o bando
O senhor estando lembrado: aqueles cinco, soturnos homens, catrumanos também, dos Gerais…
136. Rezas
Achava. Adiante, dias de caminho, achei de querer e não querer, em contrários instantes: que rezassem…
137. Atravessando o Liso do Sussuarão
Só digo como foi: do prazer mesmo sai a estonteação, como que um perde o bom tino.
138. Treciziano ataca Riobaldo
Ah, quase que eu estava cogitando nisso, quando o homem rosnou. Quem ele era, digo, em qualidade…
139. Ataque e destruição da fazenda do Hermógenes
Que, como conto. Aquele Treciziano, tinha redobrado destino de triste-fim de louco. Pois nem bem três léguas…
140. Descendo os Gerais, em Goiás
É de ver que não esquentamos lugar na redondez, mas viemos contornando – só extorquindo vantagens…
141. O velho
Mas, no vir de cimas desse morro, do Tebá – quero dizer: Morro dos Ofícios – redescendo, demos com o velho…
142. Nhorinhá
Do que hoje sei, tiro passadas valias? Eh – fome de bacurau é noitezinha…
143. O proceder do bando com as mulheres
Com a campina roxa brandamente, vagarosa por onde fomos, tocamos, querendo o poente e tateando tudo…
144. No Verde-Alecrim, com mulheres
Guia era um exato rapaz, vaqueiro goiano do Uruú. Esse me discriminou – o Verde-Alecrim formava…
145. Descendo os Gerais de Goiás
Pelo que, do trecho, voltamos. Para mais poente do que lá, só uruburetamas. E o caminho nosso era retornar…
146. Na Fazenda Carimã, do-Zabudo
Como de fato, desamarrou o tempo. Formou muita chuva. Com assim, emendados chovidos três dias…
Guimarães Rosa (1908-1967)147. Em Minas entramos
Sumimos de lá. Em cinco léguas, vi o barro se secar. O campo reviçava. Mas concedi que a viagem…
148. Batalha no Tamanduá-Tão
E chegamos! Aonde? A gente chega, é onde o inimigo também quer. O diabo vige, diabo quer é ver…
149. No Cererê-Velho
Esta é que era a razão: que o Hermógenes, da banda do poente, podia vir. Viesse feito!
150. Indo ao encontro de Otacília, na Vereda do Saz
Do Cererê-Velho até no Paredão, seis léguas; e eu tinha de deixar ao menos um homem em cada meia-légua, em estação, para em caso serem capazes de traspassar recado, de tudo por tudo, com a rapidez da guerra. Eu fiz, só ia sendo.
151. No Paredão: esperando os hermógenes
Diadorim, me esperava, demais. Ainda vi a alegria no rosto dele. O Paredão. O senhor ponha.
152. No Paredão: combate final – morte de Diadorim – morte de Hermógenes
Choque que levei – foi feito um trovão. Começou a se bradar. Os gritos, tiros. Que foi, mesmo, que eu primeiro ouvi?
153. Riobaldo doente
Desapoderei. Aonde ia, eu retinha bem, mesmo na doidagem. A um lugar só: às Veredas-Mortas… De volta, de volta. Como se, tudo revendo, refazendo, eu pudesse receber outra vez o que não tinha tido, repor Diadorim em vida? O que eu pensei, o pobre de mim.
154. Recuperação na Fazenda Barbaranha, de seo Ornelas
Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um pressentimento.
155. Maria Deadorina
Só que isso foi mais tarde. Pois, primeiro, eu tinha outra andada que cumprir, conforme a ordem que meu coração mandava.
156. Tristeza
Mas ninguém não pode me impedir de rezar; pode algum? O existir da alma é a reza…
157. Encontro com Zé Bebelo
Passado esse tempo, conforme foi, pouca tardança. Mas, então, quando se estava de volta, m’embora vindo, peguei uma inesperada informação, na Barra do Abaeté. De Zé Bebelo!
158. Quelemém
Tinha de ser Zé Bebelo, para isso. Só Zé Bebelo, mesmo, para meu destino começar de salvar. Porque o bilhete era o Compadre meu Quelemém de Góis, na Jijujã – Vereda do Buriti Pardo.
159. Travessia
E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que vi, no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo (…) Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.


 SEQUÊNCIA DA ESTÓRIA

 I. 1-16:
. Introdução

II. 59-113:
. Início: encontro com o menino (59)
. Com o padrinho Selorico Mendes, na Fazenda São Gregório (60-67)
. Professor de Zé Bebelo – com Zé Bebelo na guerra (68-70)
. Encontro com Reinaldo, na casa de Malinácio (71)
. Com Titão Passos (72-78)
. Com Hermógenes (79-102)
. Prisão e julgamento de Zé Bebelo (103-106)
. Com Titão Passos, na Guararavacã do Guaicuí (107)
. Assassinato de Joca Ramiro – reunindo os bandos para a vingança (108-112)
. Ligação com as páginas iniciais (113)

III. 17-51:
. Com Medeiro Vaz (17-26)
. Com Medeiro Vaz, no Liso do Sussuarão (27-30)
. Saindo, de volta, do Liso do Sussuarão (31-40)
. Trabalhando na mineração, em Arassuaí (41-42)
. Em busca de Medeiro Vaz (43-47)
. A morte de Medeiro Vaz, no Marcavão (48)
. Marcelino Pampa, chefe (49-51)

IV. 52-58:
. Zé Bebelo, chefe

V. 114-123:
. Com Zé Bebelo, caçando os Judas (114-122)
. O pacto com o diabo (123)

VI. 124-159:
. Riobaldo chefe: Urutu-Branco

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