Essênios 3

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4. Os essênios e Qumran

É preciso assinalar que em nenhum dos manuscritos até agora publicados aparece a palavra “essênio”. Este termo vem, provavelmente, do hebraico hassidim (= os piedosos), em aramaico hassayya, em grego essaioi ou essênoi, daí “essênios”.

Embora a quase totalidade dos estudiosos identifique a comunidade de Qumran com os essênios, são, às vezes, sugeridas outras possibilidades. Há hipóteses caraíta, judaico-cristã, zelota, saduceia, farisaica e outras[31].

O grupo caraíta é fundado em Bagdá no séc. VIII d.C. pelo rabino Anan ben Davi, que proclama uma volta à Escritura. O termo vem de caraim, “leitores (da Escritura)”, pois em hebraico qara é “ler”. Etimologicamente, os caraítas são, pois, os “biblistas” ou “especialistas da Escritura”[32].

Graças à afinidade existente entre a teologia da comunidade de Qumran e os caraítas é que se levanta a hipótese caraíta. Mas é uma ideia sem fundamento histórico algum.

Assim como os cristãos primitivos, a comunidade de Qumran se autodenomina, às vezes, os “pobres” (=ebionim). Daí alguns acharem que ali vivem os ebionitas, seita judaico-cristã. Só que os dados da arqueologia e da paleografia contradizem tal hipótese.

Em Massada os arqueólogos descobrem uma cópia de uma obra de Qumran, o que levanta a possibilidade, segundo alguns, de serem zelotas os habitantes de Qumran. Entretanto, é bem mais viável pensar que alguns essênios tenham se reunido aos zelotas que resistem aos romanos em Massada até 73 d.C. Daí a obra ter ido parar lá.

A hipótese saduceia quase não encontra apoio, pois em relação à helenização saduceus e qumranitas estão em posições opostas. Sem mencionar as profundas divergências teológicas.

Vista aérea das ruínas de QumranPor último, a hipótese farisaica é colocada a partir das muitas semelhanças da comunidade de Qumran com o grupo dos fariseus. Mas isto se explica pela provável entrada maciça de fariseus na comunidade por ocasião das perseguições de João Hircano I.

Dois arqueólogos israelenses, Yitzhak Magen and Yuval Peleg, após 10 temporadas de escavações em Qumran, declararam, em julho de 2004, contra o consenso acadêmico dominante, que os essênios que viveram naquela localidade não eram nem ascetas, nem estavam isolados, mas eram prósperos agricultores ligados ao comércio internacional e que não escreveram os Manuscritos do Mar Morto, pois estes foram escritos por sacerdotes de Jerusalém, que os esconderam das legiões romanas no século I da EC nas grutas da região de Qumran.

Patrocinados pela Administração Civil da Judeia e Samaria, Yitzhak Magen e Yuval Peleg sustentam que o israelense Eliezer Sukenik, Reitor da Universidade Hebraica de Jerusalém e o francês Roland de Vaux, Diretor da Escola Bíblica e Arqueológica de Jerusalém, estavam enganados, quando, na década de 50 do século XX, definiram os essênios como pobres e eremitas vivendo em região inóspita e quando lhes atribuíram a escrita dos mais de 800 manuscritos bíblicos e não bíblicos, cujos fragmentos foram encontrados nas vizinhanças das ruínas de Qumran.

Após encontrarem produtos preciosos importados da Fenícia e definirem que os essênios obtinham suas riquezas do cultivo e exportação do bálsamo, eles concluíram que os habitantes de Qumran tinham um estilo de vida muito confortável, vivendo muito mais preocupados com seu bem-estar material do que com um ascetismo apocalíptico, e que isto nem combina com o conteúdo dos Manuscritos a eles atribuídos.

Alguns arqueólogos como Yizhar Hirschfeld concordam com as conclusões de Magen e Peleg, enquanto muitos outros, como Magen Broshi e Gabriel Barkai discordam veementemente. Os artigos preciosos encontrados pertenceriam, por exemplo, aos romanos que ocuparam a região após o ano 68 da EC, sustentam estes últimos.

De qualquer maneira, continua acesa a polêmica sobre os essênios e a origem dos Manuscritos do Mar Morto.

O testemunho dos autores antigos sobre os essênios é importante para a identificação da comunidade de Qumran. Localização geográfica, valores, modo de vida etc dos essênios são descritos pelos judeus Flávio Josefo e Fílon de Alexandria e pelos romanos Plínio, o Velho, e Solino.

É Flávio Josefo quem nos diz que: “Existem, com efeito, entre os judeus, três escolas filosóficas: os adeptos da primeira são os fariseus; os da segunda, os saduceus; os da terceira, que apreciam justamente praticar uma vida venerável, são denominados essênios: são judeus pela raça, mas, além disso, estão unidos entre si por uma afeição mútua maior que a dos outros”[33].

Na mesma direção vai Fílon de Alexandria, que diz: “A Síria Palestina, que ocupa uma parte importante da populosa nação dos judeus, não é, também ela, estéril em virtude. Alguns deles, que somam mais de quatro mil, são denominados essênios”[34].

Plínio, o Velho nos oferece precioso dado para a localização dos essênios em Qumran: “Na parte ocidental do mar Morto os essênios se afastam das margens por toda a extensão em que estas são perigosas. Trata-se de um povo único em seu gênero e admirável no mundo inteiro, mais queVista aérea de Qumran. Em Virtual Qumran qualquer outro: sem nenhuma mulher e tendo renunciado inteiramente ao amor; sem dinheiro e tendo por única companhia as palmeiras. Dia após dia esse povo renasce em igual número, graças à grande quantidade dos que chegam; com efeito, afluem aqui em grande número aqueles que a vida leva, cansados das oscilações da sorte, a adotar seus costumes (…) Abaixo desses ficava a cidade de Engaddi, cuja importância só era inferior à de Jericó por sua fertilidade e seus palmeirais, mas que se tornou hoje um montão de ruínas. Depois vem a fortaleza de Massada, situada num rochedo, não muito distante do mar Morto”[35].

A. G. Lamadrid observa que “a descrição de Plínio corresponde perfeitamente às ruínas de Qumran, que se encontram a uns dois quilômetros a ocidente do mar Morto e também alguns quilômetros ao norte da antiga cidade de Engaddi”[36].

Solino, do séc. III d.C., que tira parte de seu material de Plínio, diz o seguinte: “O interior da Judeia que se estende para o ocidente é ocupado pelos essênios. Estes, seguidores de rígida disciplina, se separaram dos costumes de todos as outras nações, tendo sido destinados a este modo de vida pela divina providência. Nenhuma mulher se encontra entre eles e eles renunciaram ao sexo completamente. Eles desconhecem o dinheiro e vivem entre palmeiras. Ninguém nasce entre eles, entretanto seu número não diminui. O local é destinado à castidade. Ali reúnem-se pessoas de várias nações; entretanto, ninguém que não tenha uma reputação de castidade e inocência é ali admitido. Aquele que cometer a menor falta, embora faça o maior esforço para ser admitido, é mantido afastado por ordem divina. Assim, ao longo de tantas eras (é difícil de se crer), uma raça onde não há nascimentos vive para sempre. Logo abaixo dos essênios existia a cidade de Engaddi, mas ela foi arrasada”[37].

Tanto Flávio Josefo quanto Fílon de Alexandria noticiam a opção celibatária e a vida comunitária dos essênios, o que os manuscritos de Qumran confirmam – pelo menos para uma parte da organização – como veremos adiante: “Os essênios repudiam os prazeres como um mal e consideram como virtude a continência e a resistência às paixões. Eles desprezam, para si mesmos, o casamento; mas adotam os filhos dos outros numa idade ainda bastante tenra para receberem seus ensinamentos: eles os consideram como se fossem de sua família e os moldam de acordo com os seus costumes”[38].

Fílon diz que na comunidade dos essênios “existem apenas homens de idade madura e inclinados já para a velhice, que não são mais dominados pelo fluxo do corpo nem arrastados pelas paixões, mas que gozam da liberdade verdadeira e realmente única”[39].

Fílon acredita que os essênios não se casam porque isto ameaçaria a sua vida comunitária, dado, segundo sua opinião, o caráter de semeadora de discórdias que predomina nas mulheres: “Por outro lado, prevendo com perspicácia o obstáculo que ameaçaria, seja por si só, seja de modo mais grave, dissolver os laços da vida comunitária, eles baniram o casamento, ao mesmo tempo em que prescreveram a prática de uma perfeita continência”[40].

Qumran, segundo Virtual QumranSobre a vida comunitária dos essênios diz Flávio Josefo que os seus bens são igualmente divididos, evitando que haja pobres e ricos, o que é confirmado pelos documentos da comunidade: “Com efeito, trata-se de uma lei: aqueles que entram para o grupo entregam seus bens à comunidade, de tal forma que entre eles não se vê absolutamente nem a humilhação da pobreza nem o orgulho da riqueza, já que as posses se encontram reunidas, não existindo para todos senão um único haver, como ocorre entre irmãos”[41].

Há ainda muitos outros testemunhos interessantes sobre os essênios, especialmente de Flávio Josefo, que veremos oportunamente.

Se a comunidade que vive em Qumran é composta pelos essênios, é possível reconstruir a sua história, que se situa entre os séculos II a.C. e I d.C. Além dos testemunhos antigos contamos com os manuscritos da comunidade e os resultados das es­cavações de Khirbet Qumran[42].

Tudo indica que quando o macabeu Jônatas assume o sumo sacerdócio em Jerusalém começa a crise. Como sabemos, os assideus lutam lado a lado com os Macabeus contra a aristocracia filo-helênica, a partir de 167 a.C.[43].

Mas quando estes, que não são sadoquitas, se apossam do sumo sacerdócio, um sacerdote sadoquita do Templo, conhecido nos manuscritos apenas como Mestre da Justiça (Môreh hasedeq) rompe com os Macabeus e lidera um grupo de sacerdotes e assideus que se afasta de Jerusalém[44].

O Documento de Damasco comenta esta aliança e consequente ruptura: “E no tempo da ira, aos trezentos e noventa anos após tê-los entregue nas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, visitou-os e fez brotar de Israel e de Aarão um broto da plantação para possuir a sua terra e para engordar com os bens de seu solo. E eles compreenderam sua iniquidade e souberam que eram homens culpáveis; porém eram como cegos e como quem às apalpadelas busca o caminho durante vinte anos. E Deus considerou suas obras porque o buscavam com coração perfeito, e suscitou para eles um Mestre de Justiça para guiá-los no caminho de seu coração” (CD I, 5-11).

Trezentos e noventa anos após a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor ocorrida em 586 a.C., nos colocaria no ano 196 a.C. e não combina com a época dos Macabeus, quando teria surgido o grupo essênio. Mas somando-se aos 390 anos mais 20 anos, durante os quais a comunidade anda às cegas, depois mais 40 anos, que representam o tempo simbólico entre a morte do Mestre da Justiça e a chegada da era messiânica, chega-se a 450 anos. Some-se a isto os simbólicos 40 anos de atividade do Mestre e temos 490 anos ou 70 x 7 anos que, segundo o livro de Daniel, representam o tempo decorrido entre a intervenção destruidora de Nabucodonosor e o advento salva­dor do Messias[45]. Ou seja: 390 anos (ou 490) é uma quantia simbólica, uma afirmação teológica apenas e não serve para datar coisa alguma.

Mas há outros dados neste texto que nos oferecem algum ponto de apoio histórico. O “tempo da ira” só pode ser a crise da época de Antíoco IV Epífanes[46].

A “raiz que brota de Israel e Aarão” é uma referência aos leigos e sacerdotes que compõem a comunidade essênia, e os “vinte anos” nos quais se comportam como cegos pode ser uma avaliação do período de aliança dos assideus com os Macabeus, anteriores ao surgimento do Mestre da Justiça.

De uma passagem da Regra da Comunidade se deduz que os líderes deste grupo são sacerdotes sadoquitas: “Esta é a regra para os homens da comunidade que se oferecem voluntariamente para converter-se de todo mal e para manter-se firmes em tudo o que ordena segundo a sua vontade. Que se separem a congregação dos homens da iniquidade para formar uma comunidade na lei e nos bens, e submetendo-se à autoridade dos filhos de Sadoc, os sacerdotes que guardam a aliança, e à autoridade da multidão dos homens da comunidade, os que se mantêm firmes na aliança” (1QS V, 1-3).

Também os fragmentos de uma antologia de bênçãos (1QSb), originalmente anexadas à Regra da Comunidade, falam da liderança dos sacerdotes sadoquitas entre os essênios: “Palavras de Bênção. Do Instrutor. Para abençoar] os filhos de Sadoc, os sacerdotes que Deus escolheu para si para reforçar sua aliança para [sempre, para distribuir todos os seus juízos em meio ao seu povo, para instruí-los conforme o seu mandato. Eles estabeleceram na verdade [sua aliança] e inspecionaram na justiça todos os seus preceitos, e andaram de acordo com o que ele escolhe” (11QSbIII, 22-25)[47].

Além do Documento de Damasco, alguns comentários bíblicos de Qumran falam do Mestre da Justiça. O enquadramento histórico do Mestre da Justiça é importante para se reconstruir a história da comunidade, pois ele é apresentado como a figura mais importante entre os essênios e quase certamente é o seu fundador.

Explicando o Sl 37,23-24 diz um escrito de Qumran: “Pois por YHWH são assegurados [os passos do homem;] ele se deleita em seu caminho: embora tropece [não] cairá, pois YHWH [sustenta sua mão]. Sua interpretação se refere ao Sacerdote, o Mestre de [Justiça, a quem] Deus escolheu para estar [diante dele, pois] o estabeleceu para construir por ele a congregação [de seus eleitos] [e endireitou o seu caminho, em verdade” (4QpSlaIII, 14-17).

No Comentário de Habacuc se lê interessante aplicação de Hab 1,13b: “Por que contemplais, traidores, e guardais silêncio quando devora um ímpio alguém mais justo que ele? Sua interpretação se refere à Casa de Absalão e aos membros de seu conselho, que se calaram quando da repreensão do Mestre de Justiça e não o ajudaram contra o Homem de Mentira, que rejeitou a Lei em meio a toda a sua comunidade]” (1QpHab V,8-12).

Ainda no mesmo Comentário de Habacuc aparecem outros dados interessantes na explicação de Hab 2,8b: “Pelo sangue humano [derramado] e a violência feita ao país, à cidade e a todos os seus habitantes. Sua interpretação se refere ao Sacerdote Ímpio, posto que pela iniquidade contra o Mestre de Justiça e os membros de seu conselho o entregou Deus nas mãos de seus inimigos para humilhá-lo com um castigo, para aniquilá-lo com a amargura da alma por ter agido impiamente contra os seus eleitos” (1QpHab IX, 8-12).

Quem é o “Homem da Mentira” que despreza a Lei, o “Sacerdote Ímpio” que persegue o Mestre da Justiça e seu grupo, a “Casa de Absalão” que omite necessário socorro ao perseguido?

Em 1QpHab VIII, 8-13 se diz ainda que o Sacerdote Ímpio no começo foi chama­do por seu verdadeiro nome mas que “quando dominou sobre Israel se envaideceu seu coração, abandonou a Deus e traiu as leis por causa das riquezas. E roubou e amontoou as riquezas dos homens violentos que se haviam rebelado contra Deus. E tomou as riquezas públicas, acrescentando sobre si um pecado grave. E cometeu atos abomináveis em toda espécie de impureza imunda”.

Com todas estas características o candidato mais provável a “Sacerdote Ímpio” é o macabeu Jônatas que, além de ser líder político e militar do povo judeu, apossa-se do sumo sacerdócio. E morre prisioneiro do general Trifão (1Mc 12,48-53), o que o Comentário de Habacuc interpreta como castigo por ter perseguido o Mestre da Justiça[48].

Parece possível, assim, colocar o surgimento dos essênios durante o governo de Jônatas (160-143 a.C.).

Ao romper com Jônatas, o Mestre da Justiça parte para o exílio, como diz um texto dos Cânticos de Louvor, obra atribuída ao fundador da comunidade: “Pois me expulsam de minha terra como a um pássaro do ninho; todos os meus amigos e meus conhecidos foram distanciados de mim, e me consideram como um cântaro quebrado” (1QHa XII, 8-9).

Aqui não se sabe se o Mestre da Justiça e seu grupo refugia-se imediatamente em Qumran ou se vai para o exterior, para Damasco. É que o Documento de Damasco refere-se a uma permanência dos homens de Aarão (sacerdotes) e de Israel (leigos) que permanecem fiéis à Lei na “terra de Damasco” (CD VI,5); ou se diz que eles “escaparam para a terra do norte” (CD VII, 14).

Alguns autores acham que o movimento essênio começa quando os partos invadem a Babilônia em 141-140 a.C. e muitos judeus emigram para algum lugar próximo a Damasco. O grupo do Mestre da Justiça ter-se-ia reunido a estes judeus na região de Damasco para fugir dos Macabeus que controlam a Judeia. Só mais tarde teriam passado a morar em Qumran[49].

Outros acreditam que a “terra de Damasco” seja apenas um jeito simbólico para falar de Qumran. É que o CD VII, 14-21, que fala de Damasco, se inspira em Am 5,26-27 onde, de uma ameaça no texto original, os essênios desenvolvem uma promessa de salvação, modificando o texto bíblico[50].

O Homem da Mentira mencionado nos manuscritos, pode ser alguém do grupo que se opõe, em determinado momento, ao Mestre da Justiça, e que se retira levando consigo certo número de adeptos.

Segundo F. García Martínez, elaborador da “Hipótese de Groningen”, “tanto o fundador da comunidade qumrânica, o Mestre da Justiça, como o seu oponente neste conflito, o Mentiroso, foram anteriormente membros de uma mesma comunidade, e que na disputa entre ambos apenas uma pequena minoria tomará partido pelo Mestre da Justiça. Em minha opinião, a melhor maneira de compreender a indubitável relação que existe entre o movimento essênio e a comunidade qumrânica é aceitar que o grupo de Qumran se origina precisamente mediante uma ruptura ocasionada dentro do movimento essênio do qual seus membros fundadores tomavam parte”[51].

Neste primeiro momento, seja antes de se estabelecer em Qumran, seja depois, o Mestre da Justiça é perseguido pelo “Sacerdote Ímpio”, pois diz 1QpHab XI, 2-8 explicando Hab 2,15: “Ai do que embriaga o seu próximo, do que transtorna o seu furor! Inclusive o embriaga para observar suas festas! Sua interpretação se refere ao Sacerdote Ímpio, que perseguiu o Mestre de Justiça para devorá-lo com o furor de sua ira no lugar de seu desterro, no tempo da festa, no descanso do dia das Expiações. Apresentou-se diante deles para devorá-los e fazê-los cair no dia do jejum, o sábado de seu descanso”.

A pesquisa arqueológica de Khirbet Qumran revela, enfim, que o primeiro período da ocupação essênia começa por volta de 135 a.C. e vai até o ano Qumran31 a.C. A ocupação parece ter sido lenta até por volta de 110 a.C. quando há um avanço considerável.

Inicialmente os essênios se estabelecem sobre as ruínas da chamada “cidade do sal” (Js 15,62) que fora construída por Josafá (871/0-848 a.C.) ou por Ozias (767-739 a.C.).

O macabeu João Hircano I (134-104 a.C.) entra em conflito com os fariseus e se alia aos saduceus mais para o fim de seu governo. Acredita-se que os fariseus tenham se refugiado em grande número entre os essênios de Qumran, pois a sede da comunidade é notavelmente aumentada[52].

A partir do ano 31 a.C., e durante uns 30 anos, Qumran é abandonado. Um terremoto devasta a região e os arqueólogos encontram seus sinais nos edifícios da comunidade[53]. É possível que seja esta a causa da retirada dos essênios, não se sabe para onde, embora alguns estudiosos pensem que a causa seja uma possível perseguição de Herodes Magno à comunidade.

A atitude de Herodes Magno (37-4 a.C.) em relação aos essênios é interpretada de modo diverso pelos especialistas. Alguns acreditam que ele lhes seja favorável, pois Flávio Josefo diz que o rei idumeu fora legitimado por um essênio[54]. Deste modo, durante o seu governo ele lhes teria garantido sua reintegração nas cidades judaicas, razão pela qual eles teriam abandonado Qumran.

Outros pensam que o abandono de Qumran pode ter sido motivado por algum conflito entre Herodes e os essênios, pois o rei passa longas temporadas em seu palácio de Jericó, cidade que fica bem próxima da sede da comunidade.

De qualquer modo, sempre a partir dos dados arqueológicos, sabe-se que o segundo período de ocupação de Qumran pelos essênios começa durante o reinado de Arquelau (4 a.C. – 6 d.C.) e termina violentamente em junho de 68 d.C. Nesta data, as tropas de Vespasiano se apossam de Qumran, destruindo tudo. Os arqueólogos encontram flechas no edifício e cinzas de um grande incêndio que devora a sede da comunidade.

Acredita-se que tenha sido nesta ocasião, em fins de maio e começo de junho, que os essênios escondem seus preciosos manuscritos nas grutas vizinhas. O que evita a sua perda total, pois os essênios desaparecem, então, definitivamente[55].

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[31]. Cf. o interessante estudo de GOLB, N. Quem escreveu os Manuscritos do Mar Morto? A busca do segredo de Qumran. Rio de Janeiro: Imago, 2004. Golb discorda da hipótese essênia e defende que os manuscritos pertenciam a vários grupos do judaísmo do século I d.C. Por causa da guerra dos anos 70, teriam sido escondidos naquelas grutas de Qumran. Já BOCCACCINI, G. Além da hipótese essênia: a separação entre Qumran e o judaísmo enóquico. São Paulo: Paulus, 2010, sustenta uma hipótese enóquica/essênia para a identificação dos autores dos manuscritos.

[32]. Cf. mais informações aqui.

[33]. JOSEFO, F. Bellum Iudaicum II, VIII, 119. Ao falar das facções político-religiosas do judaísmo como “escolas filosóficas”, Flávio Josefo está adaptando seu vocabulário à realidade greco-romana.

[34]. FÍLON DE ALEXANDRIA Quod omnis probus liber sit, § 75. Quanto ao número de essênios, Flávio Josefo nas Antiquitates Iudaicae XVIII, I, 20 confirma: “São mais de quatro mil homens a se comportarem dessa maneira”. Os textos de Flávio Josefo, de Fílon de Alexandria (Philo, em inglês) e de outros autores antigos estão online.

[35]. PLÍNIO, O VELHO Naturalis Historia V, 73. Plínio nasce em 23/24 e morre em 79 d.C., asfixiado pela fumaça da grande erupção do Vesúvio. Nasce em Como, na Itália, de uma família de cavaleiros, e vive em Roma. Exerce aí a advocacia e mais tarde torna-se procurador romano na Gália, na África e na Espanha. Escreve a Naturalis Historia em trinta e sete livros em 77 d.C. e a dedica a Tito, futuro imperador de Roma. Cf. STERN, M. Greek and Latin Authors on Jews and Judaism I. Jerusalem: The Israel Academy of Sciences and Humanities, 1976, p. 465-501.

[36]. LAMADRID, A. G., Los descubrimientos del mar Muerto, p. 112. 

[37]. SOLINUS, C. I. Collectanea rerum memorabilium 35,9-12. Cf. STERN, M. Greek and Latin Authors on Jews and Judaism II. Jerusalem: The Israel Academy of Sciences and Humanities, 1980, p. 420-421.

[38]. JOSEFO, F. Bellum Iudaicum II, VIII, 120. Nas Antiquitates Iudaicae XVIII, I, 21, ele diz que os essênios “não tomam esposas e não adquirem escravos; consideram, com efeito, que tal coisa constituiria uma injustiça e que levaria à discórdia. Vivem, por conseguinte, entre si e realizam, um para com o outro, as tarefas do servo”. Mas em Bellum Iudaicum II, VIII, 160-161 Flávio Josefo diz que há outro grupo de essênios “que concordam com os demais no que se refere ao tipo de vida e aos usos e costumes, mas que deles diferem no tocante à questão do casamento”.

[39]. FÍLON DE ALEXANDRIA, Apologia pro Iudeis, § 3.

[40]. FÍLON DE ALEXANDRIA, Apologia pro Iudeis, § 14. A opinião de Fílon sobre as mulheres é fortemente preconceituosa. Ele considera a mulher egoísta, excessivamente ciumenta, hábil na sedução, aduladora, usando o fingimento para ganhar e desencaminhar o marido, arrogante quando tem filhos etc. E que faz do homem um escravo, mesmo contra a vontade dele…

[41]. JOSEFO, F. Bellum Iudaicum II, VIII, 122.

[42]. Cf. CARGILL, R. R. The Fortress at Qumran: A History of Interpretation. In: The Bible and Interpretation, May 2009; MAGNES, J. The Archaeology of Qumran and the Dead Sea Scrolls. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2003; BOCCACCINI, G. Além da hipótese essênia: a separação entre Qumran e o judaísmo enóquico. São Paulo: Paulus, 2010; STACEY, D. ; DOUDNA, G. Qumran Revisited: A Reassessment of the Archaeology of the Site and Its Texts. Oxford: Archeopress, 2013.

[43]. Cf. a história dessa luta aqui.

[44]. É possível que uma das razões pelas quais os assideus tenham entrado na luta contra os Selêucidas e o partido helenizante seja a defesa do sumo sacerdócio na linha sadoquita. Menelau (171-161 a.C.), que dirige o processo de helenização não é sacerdote sadoquita. O “Mestre da Justiça” é mencionado 8 vezes em 1QpHab, 1 vez em 1QpMq, 2 vezes em 4QpSl37 e 6 vezes no CD. Também é possível que o “Mestre da Justiça” seja o próprio sacerdote que está exercendo o cargo supremo durante a vacância de 7 anos ocorrida após a queda de Alcimo.

[45]. Confira uma interessante discussão sobre a identidade do Mestre da Justiça em  BOCCACCINI, G. Além da hipótese essênia: a separação entre Qumran e o judaísmo enóquico, p. 159 e seguintes.

[46]. 1Mc 1,64 refere-se aos acontecimentos desta época nos seguintes termos: “Foi sobremaneira grande a ira que se abateu sobre Israel”.

[47]. Aqui e em quaisquer outros textos de Qumran que forem citados, os  [ ] delimitam palavras que são reconstruídas pelos especialistas em documentos corrompidos. São hipotéticas, mas prováveis. Utilizo a tradução de GARCÍA MARTÍNEZ, F. Textos de Qumran: edição fiel e completa dos Documentos do Mar Morto. Petrópolis: Vozes, 1995.

[48]. Apesar da maioria dos especialistas identificarem o “Sacerdote Ímpio” com Jônatas, outros candidatos são propostos: Menelau, Alcimo, Simão, João Hircano I, Alexandre Janeu etc. Cinco personagens ocupam o sumo sacerdócio durante a crise do séc. II a.C.: os aliados dos gregos Jasão (174-171 a.C.), Menelau (171-161 a.C.) e Alcimo (161-159 a.C.); e os dois irmãos macabeus Jônatas (160-143 a.C.) e Simão (143-134 a.C.). Os 3 aliados dos gregos podem ser descartados, pois nenhum deles tem boa reputação no começo de sua atuação e nenhum deles morre nas mãos de um inimigo. Os irmãos Macabeus são os únicos candidatos. A “casa de Absalão” pode ser uma referência a certo Absalão, embaixador de Judas Macabeu (2Mc 11,17) que tem um filho, Matatias, como oficial de Jônatas (1Mc 11,70) e outro, Jônatas, que é general de Simão (1Mc 13,11). 

[49]. Esta é a posição de W. F. Albright, por exemplo, citada por LAMADRID, A. G. Los descubrimientos del mar Muerto, p. 124.

[50]. O texto bíblico diz: “Carregareis Sacut, vosso rei, e a estrela de vosso deus, Caivã, imagens que fabricastes para vós. Eu vos deportarei para além de Damasco”. Mas os essênios leem o seguinte: “Eu exilarei o tabernáculo de vosso rei e as bases de vossas estátuas da minha tenda até Damasco”, onde “rei” = comunidade, “tenda” = Lei e “bases das estátuas” = profetas.

[51]. GARCÍA MARTÍNEZ, F. Textos de Qumran, p. 9.

[52]. LAMADRID, A. G. Los descubrimientos del mar Muerto, p. 122, observa que “na realidade, a comunidade essênia de Qumran e os fariseus descendiam todos do mesmo tronco comum dos assideus. A presença de elementos fariseus na comunidade de Qumran explicaria a tendência legalista que se observa em alguns escritos de sua literatura”.

[53]. JOSEFO, F. Bellum Iudaicum I,19,3-4, fala deste terremoto.

[54]. JOSEFO, F. Antiquitates Iudaicae XV, 4ss, diz: “Um essênio, de nome Menahem, que levava vida mui virtuosa e era louvado por todos e tinha recebido de Deus o dom de predizer as coisas futuras, vendo Herodes, ainda bastante jovem, estudar com crianças de sua idade, disse-lhe que ele reinaria sobre os judeus. Herodes julgou que ele não o conhecia ou que estava zombando dele, e por isso respondeu-lhe que ele via bem que ele desconhecia sua origem e seu nascimento, que não eram tão ilustres para fazê-lo esperar tal honra. Menahem retrucou-lhe sorrindo e dando-lhe uma palmadinha nas costas: ‘Eu vo-lo disse e vo-lo digo ainda, que sereis rei e reinareis felizmente, porque Deus o quer assim. Lembrai-vos então desta pancadinha que vos acabo de dar, para indicar-lhe as diversas mudanças da sorte, e nunca vos esqueçais de que um rei deve ter continuamente diante dos olhos a piedade que Deus lhe pede, a justiça que ele deve ministrar a todos e o amor que ele é obrigado a ter por seus súditos…'”

[55]. Já foi sugerido que os essênios teriam sobrevivido a 68 d.C. Ou teriam se convertido ao cristianismo, dando origem às seitas judaico-cristãs que viviam na Transjordânia; ou teriam formado grupos gnósticos dentro do judaísmo, pois no séc. II d.C. seitas gnósticas judaicas começam a aparecer e suas práticas são de tipo essênio. Cf. as opiniões em LAMADRID, A. G. Los descubrimientos del mar Muerto, p. 123, nota 17.

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