Cosmologia

INVENTANDO O UNIVERSO

PENSAR DEUS A PARTIR DA NOVA FÍSICA 

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Einstein disse certa vez que  estava interessado mesmo era em saber como Deus criara este mundo. Ora, já se passou mais de um século desde que a teoria da relatividade e a mecânica quântica começaram a ajudar os homens a compreender melhor como é feito este mundo em que vivemos. Porém, muitos teólogos ainda encontram sensíveis dificuldades em pensar Deus e o homem a partir da cosmologia que surgiu com as descobertas da física do século XX. Em pleno terceiro milênio, teólogos há que, por razões diversas, ainda continuam a ler os textos bíblicos e a elaborar suas reflexões como se as cosmologias antiga e medieval fossem mais do que suficientes para explicar o universo e o lugar do homem nele. Tempo, espaço, matéria, Deus, causalidade, alma, criação, salvação, redenção, determinismo, livre-arbítrio e tantos outros conceitos precisam ser revisitados sob o olhar vigilante da nova física.

E há mais uma coisa: acontece de pessoas confundirem Teologia com Religião ou com Fé. Ora, a Teologia usa sistemas conceituais, trabalha a partir de regras bem – ou razoavelmente bem – definidas, se esforça em usar com o máximo rigor possível todos os recursos da razão e, assim, se diferencia do discurso religioso, enquanto este é altamente simbólico e tem uma preocupação direta e imediatamente prática, como os discursos catequéticos, homiléticos ou proféticos. Vai daí que discursos teológicos são mais eficazes quando são teorias sobre a Fé e não teorias da Fé. Uma Teologia responsável procura produzir conhecimento e não reconhecimento. Conclui-se, deste modo, que a melhor Teologia é aquela que não toma o lugar da Fé e nem deixa que esta tome o seu (cf. BOFF, Cl. Teologia e Prática: Teologia do Político e suas mediações. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1993, II parte, cap. III).

Pois bem. O que modestamente proponho neste artigo é descrever a postura de alguns cientistas sobre Deus e a religião de modo geral e apresentar algumas das questões da cosmologia científica colocadas por esta nova física, levando a sério os desafios que daí surgem para o biblista e para o teólogo.

 

1. Deus, três cientistas e alguns teólogos

1.1. Pensar criticamente Deus, Homem e  Mundo

No editorial do número 186 (1983/6) da revista Concilium, os teólogos David Tracy, norte-americano, e Nicholas Lash, indiano, enfatizam que “parece não só desejável mas até necessária uma volta às questões de cosmologia na atual situação histórica”[1], pois desde o século XVIII os teólogos têm se concentrado nas questões relativas à redenção e negligenciado a teologia da criação. Isto foi uma consequência da “antropologização” e da “privatização” da pesquisa teológica.

Por isso, um grupo de teólogos da Concilium participa deste “Projeto X”, colocando um desafio: “Que as questões cosmológicas reingressem em toda a teologia contemporânea”[2].

Isto por razões teóricas e práticas:

. Ocorreu enorme mudança de paradigma nas ciências, e antigos modelos científicos rígidos dominados pelo mecanicismo, pelo materialismo e pelo positivismo foram superados em favor de posturas mais flexíveis e menos arrogantes dos cientistas, posturas estas exigidas pelas teorias da evolução, pela teoria da relatividade, pela mecânica quântica etc.

. A mudança de paradigma também ocorre na teologia, que, com exceção das posturas fundamentalistas, abandonou as clássicas concepções a-históricas e autoritárias do passado, partindo para um diálogo com as ciências humanas (por exemplo, a teologia da libertação e as várias teologias do político) e – o que se requer cada vez mais – com as ciiências da natureza, para poder pensar criticamente a relação Deus-homem-mundo. Tanto a “guerra” ciência x religião como o “concordismo” fácil entre visão científica e visão teológica da realidade estão superados.

. A crise ecológica e a crescente consciência de amplos setores da sociedade de que nós, os seres humanos, somos profundamente integrados com o meio-ambiente que nos cerca, exige que “a luta pela justiça deve também incluir a luta pela ecologia – não só para assegurar a justiça para outras criaturas que não o ser humano, mas até para assegurar a justiça mais elementar de todas: um ambiente em que possam viver as futuras gerações de seres humanos”[3].

Pode-se finalizar com o apelo de John Collins, no primeiro artigo deste número da Concilium, que é o de “encontrarmos um meio de integrar nossos valores humanos com um enfoque cosmológico, se é que nossa teologia quer representar algo mais do que apenas um fragmento de nossa experiência”[4].

 

1.2. Que Deus?

Antes de prosseguirmos, abordando a visão de Deus de alguns cientistas, é necessário um breve parênteses sobre o uso generalizado da palavra Deus usada nessas discussões. Pelo menos cinco diferentes concepções estão em jogo quando se aborda a relação de Deus com a matéria ou, se quisermos, quando se fala de Deus como criador (isto sem levar em conta as cosmogonias antigas).

O deísmo defende que Deus criou o universo e não participa mais, ao longo de sua existência, no desenrolar dos acontecimentos. Deus seria uma espécie de sofisticado engenheiro cósmico que criou um mecanismo complexo e o colocou em funcionamento. Esta é a ideia de Deus presente na mecânica newtoniana que permite uma previsão exata do que irá acontecer com base no que se conhece em determinado momento, já que “existe uma rede rígida de causas e efeitos, e todo e qualquer fenômeno, desde a mais pequena agitação de uma molécula até a explosão de uma galáxia, está desde há muito predeterminado em pormenor”[5].

O teísmo, ao contrário do deísmo, afirma que Deus não só criou o universo como também o governa dia após dia, controlando os fenômenos da natureza e se envolvendo de modo especial no mundo dos homens, com os quais mantém uma relação pessoal. Esta é a visão judaico-cristã de Deus, com inumeráveis variantes no tocante ao grau de envolvimento de Deus com suas criaturas.

O panteísmo, diferente tanto do deísmo quanto do teísmo para os quais existe uma nítida separação entre Deus e o mundo, defende que Deus e o universo físico são uma só coisa, estando Deus em tudo, tudo fazendo parte de Deus. Spinoza, filósofo judeu que viveu no século XVII, era panteísta, pois via os objetos do universo físico como atributos e não como criação de Deus.

O panenteísmo é semelhante ao panteísmo quando afirma que o universo faz parte de Deus, mas é dele diferente, pois considera que o universo não é tudo de Deus. Uma ideia assim é a afirmação de que o universo é o corpo de Deus.

Por último, existe a proposta de cientistas como o astrônomo Fred Hoyle e o físico Frank Tipler de um tipo de Deus que é uma inteligência viva ou mecânica, que se desenvolve a partir do universo e dentro do universo, espalhando-se pelo cosmos e aumentando a tal ponto o seu poder que seria capaz de manipular matéria e energia de um modo tão sutil que não nos permitiria distingui-la da própria natureza. “Esta inteligência, tão semelhante a Deus, poder-se-ia desenvolver a partir de nossos descendentes, ou mesmo já poderia se ter desenvolvido a partir de alguma ou de algumas comunidades extraterrestres. É concebível a fusão de duas ou mais inteligências diferentes durante este processo evolutivo”[6].

 

1.3. Deus é uma hipótese desnecessária: Laplace

Pierre Simon Laplace foi um astrônomo e matemático francês nascido em Beaumont-en-Auge a 23 de março de 1749 e falecido em Paris a 5 de março de 1827. Estudou a perturbação  dos planetas e satélites, a forma e a rotação dos aneis de Saturno, a origem e a estabilidade do sistema solar e realizou notáveis estudos sobre o cálculo das probabilidades. Escreveu uma Exposition du systéme du monde em dois volumes (1796) e reuniu todo o conhecimento sobre astronomia dinâmica existente até então em seu Traité de mécanique céleste (1799-1825), obra em cinco volumes[7].

Expondo a Napoleão sua teoria do universo, ao ser perguntado por este sobre o lugar ocupado por Deus neste sistema, Laplace lhe respondeu não ser Deus uma hipótese necessária.

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[1]. VV.AA. Teologia e Cosmologia. Concilium, Petrópolis, n. 186, p. 122, 1983. 

[2]. Idem, ibidem, p. 127.

[3]. Idem, ibidem, p. 126. No Congresso da SOTER de 1996, que teve como tema a Teologia e  novos paradigmas,  esta era a preocupação central dos teólogos brasileiros. Mas salientou-se também a necessidade de manter viva a reflexão teológica da libertação, evitando, assim, o risco de uma despolitização e elitização do debate teológico. Cf., sobre isso, DOS ANJOS, M. F. (org.) Teologia e novos paradigmas. São Paulo: Loyola/SOTER, 1996. O Congresso da SOTER de 1999 abordou a questão, tendo como tema Mysterium Creationis: um olhar Interdisciplinar sobre o Universo. Observe-se, também, a preocupação ecológica nas mais recentes obras de Leonardo Boff.

[4]. COLLINS, J. Cosmologia do Novo Testamento, em Concilium 186  (1983/6), p.12. Nestes posicionamentos da Concilium os teólogos assumem a definição de E. Schillebeeckx de que “a teologia é uma tentativa de interpretar o mundo estabelecendo correlações mutuamente críticas (na teoria e na prática) entre as interpretações de nossa situação atual e a tradição cristã” (p. 124).

[5]. DAVIES, P. Deus e a nova física. Lisboa: Edições 70, 2000, p. 148.

[6]. DAVIES, P. A mente de Deus: A ciência e a busca do sentido último. Rio de Janeiro: Ediouro, 1994, p. 41. Fred Hoyle é um astrônomo e escritor inglês nascido em 1915. Trabalhou nos observatórios norte-americanos de Monte Wilson e Monte Palomar. Em 1958 foi nomeado professor de astronomia em Cambridge, Inglaterra. Elaborou a teoria da criação contínua num universo estacionário. Cf. DE FREITAS MOURÃO, R. R. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Lexikon, 2008, verbete Hoyle, Fred.

[7]. Cf. Idem, ibidem, verbete Laplace.