Autores gregos antigos

Quem são os judeus? Falam autores gregos antigos

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Como é que os gregos antigos veem os judeus? Existe compreensão e aceitação de sua cultura ou não? Constituem os judeus um povo a ser respeitado ou “civilizado”? Como é de se esperar, não temos uma opinião abrangente dos gregos sobre os judeus. O homem grego comum não pode mais testemunhar nesta questão. Mas há os escritos de vários autores da época. E através deles podemos perguntar aos gregos: Quem são, para vocês, os judeus?

As respostas serão diferenciadas, mas nos 18 autores que analisarei a seguir aparecem alguns elementos comuns:

. os judeus são vistos e julgados a partir dos padrões culturais e civilizatórios gregos, transformando-se assim a sua história em uma história muitas vezes mítica e absurda porque a diferença cultural não é respeitada

. os costumes alimentares e cultuais judaicos, em geral causam profunda estranheza ao mundo grego

. as origens de Israel são frequentemente desfiguradas por feroz antissemitismo que tem sua origem nos conflitos da época do autor e que não deveria ser assim retroprojetado para o final do II milênio.

 

1. Dezoito autores e suas opiniões

Do século V a.C. ao início do século II d.C., de Heródoto a Plutarco, são conhecidos 175 fragmentos de 57 autores gregos que falam dos judeus[1]:

Século V a.C.: Heródoto

Século IV a.C.: Aristóteles, Teofrasto, Jerônimo de Cárdia, Hecateu de Abdera, Megástenes, Clearco de Soli

Século III a.C.: Evêmero, Beroso, Maneton, Xenófilo, Eratóstenes, Aristófanes, Hermipo de Esmirna, Mnaseas de Patara

Século II a.C.: Polemo de Ilium, Agatarquides de Cnido, Políbio, Apolodoro de Atenas, Menandro de Éfeso, Díon, Teófilo, Leto, Ocelo Lucano, Timocares, Xenofon de Lampsaco, Meleagro de Gadara, Possidônio

Século I a.C.: Apolônio Mólon, Alexandre Poliístor, Teucro de Cizico, Diodoro Sículo, Crinagoras de Mitilene, Hipsicrates, Timagenes, Nicolau de Damasco, Estrabão de Amaseia, Conon, o Mitógrafo, Ptolomeu, o Historiador (?), Lisímaco (?)

Século I d.C.: Pseudo-Longino, Filipe de Tessalônica, Ptolomeu de Mendes (?), Apião, Queremon, Dioscorides, Zopirio, Hermógenes (?), Memnon de Heracleia, Anônimo autor da guerra entre romanos e judeus, Damócrito (?), Nicarco(?), Cláudio Iolau (?), Antônio Diógenes

Séculos I/II d.C.: Epicteto, Dio Crisóstomo, Plutarco

 

Destes 57 autores vou apresentar apenas 18. São os mais interessantes quanto às suas opiniões e/ou informações sobre os judeus. Muitos dos outros que deixo de lado trazem apenas informações geográficas sobre a Palestina ou referências muito vagas aos judeus. O Mar Morto, por exemplo, suscita grande interesse entre os escritores gregos graças a suas características peculiares.

:: Século IV a.C.
. Teofrasto: ap. 372-288
. Hecateu de Abdera: ap. 300
. Clearco de Soli: ap. 300
. Megástenes: ap. 300

:: Século III a.C.
. Maneton: séc. III
. Mnaseas de Patara: ap. 200

:: Século II a.C.
. Agatarquides de Cnido: séc. II
. Possidônio: ap. 135-51

:: Século I a.C.
. Apolônio Mólon: séc. I
. Alexandre Poliístor: séc. I
. Diodoro Sículo: século I
. Nicolau de Damasco: ap. 64 a.C.-séc. I d.C.
. Estrabão de Amaseia: ap. 64 a.C.-19 d.C.
. Lisímaco: séc. II/I a.C.?

:: Século I d.C.
. Apião: 1a metade do séc. I d.C.
. Queremon: séc. I d.C.
. Damócrito: séc. I d.C.?
. Nicarco: séc. I d.C.?[2]

Dos 18 autores escolhidos não cito todos os fragmentos, mas apenas os mais pertinentes. O número de fragmentos por autor varia muito: de 1 fragmento apenas de vários autores até 27 de Estrabão ou 15 de Nicolau de Damasco e 15 de Apião.

Grécia e Ásia Menor ca. 400 a.C.Interessante é observarmos a origem dos 18 autores:

. 6 autores são de cidades gregas da Ásia: Hecateu (Abdera, Trácia), Mnaseas (Patara, Lícia), Agatarquides (Cnido, Dórida), Apolônio Mólon (Alabanda, Cária), Alexandre Poliístor (Mileto, Ásia Menor) e Estrabão (Amaseia, Ponto)

. 5 autores são do Egito: Maneton (Heliópolis), Lisímaco (?, Egito), Apião (Alexandria), Queremon (?, Egito) e Nicarco (?, Egito)

. 2 autores são da Síria: Possidônio (Apameia) e Nicolau (Damasco)

. 3 autores são de diferentes ilhas: Teofrasto (Êresos, Lesbos), Clearco (Soli, Chipre) e Diodoro Sículo (?, Sicília)

. 2 autores são de local desconhecido: Megástenes e Damócrito.

Das cidades gregas da Ásia Menor e do Egito saem 11 dos 18 autores citados. E não é sem razão: Alexandria é o maior centro cultural helenístico e a Ásia Menor é o coração do mundo grego helenístico. Com exceção de Timagenes (séc. I a.C.), não citado entre os 18, todos os autores greco-alexandrinos são antissemitas.

 

Outra coisa interessante a ser observada é a especialidade, profissão ou área de interesse destes 18 autores gregos que falam dos judeus:

. Teofrasto: filósofo da escola de Aristóteles
. Hecateu de Abdera: etnógrafo, filósofo, crítico e gramático
. Clearco de Soli: filósofo da escola de Aristóteles
. Megástenes: ?
. Maneton: sacerdote egípcio
. Mnaseas de Patara: ?
. Agatarquides de Cnido: historiador da escola de Aristóteles
. Possidônio: filósofo estoico, historiador e cientista
. Apolônio Mólon: retor
. Alexandre Poliístor: historiador, geógrafo, literato
. Diodoro Sículo: historiador
. Nicolau de Damasco: historiador, professor, diplomata
. Estrabão de Amaseia: filósofo estoico, geógrafo, historiador
. Lisímaco: ?
. Apião: escritor e professor de literatura
. Queremon: historiador
. Damócrito: historiador
. Nicarco: ?

Verifica-se a predominância dos historiadores, como parece natural, em se tratando de observações sobre um povo estrangeiro, o judeu. Mas os filósofos seguem-nos de perto: filósofos interessados nos “bárbaros” é característico da época helenística.

Vale aqui a observação de P. Lévêque de que na época helenística a historio­grafia sobrevive, mas se transforma. Sua tendência é tornar-se universal, consequência óbvia da ampliação do mundo grego feita por Alexandre e depois unificado por Roma. O historiador desta época é um grande erudito e sua investigação torna-se cada vez me­nos literária e mais científica[3].

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[1]. Utilizo o texto de STERN, M. Greek and Latin Authors on Jews and Judaism I. Jerusalem: The Israel Academy of Sciences and Humanities, 1976, 576 p. Os textos estão em grego, com tradução em inglês. As interrogações (?) após alguns nomes referem-se a incertezas quanto à data.

[2]. Como se pode observar, para a quase totalidade dos autores só temos datas aproximadas, infelizmente.

[3]. Cf. LÉVÊQUE, P. O mundo helenístico. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 109.

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